Poemas neste tema
Outros
Vitor Casimiro
Quem Mais Poderia Ser?
Lembro-me bem
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
1 017
Vitor Casimiro
Quem Mais Poderia Ser?
Lembro-me bem
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
1 017
Vitor Casimiro
Quem Mais Poderia Ser?
Lembro-me bem
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
1 017
Carlos Augusto Viana
José Alcides Pinto
As águas do rio Acaraú te ensinaram, ainda menino,
o grave movimento das palavras. E, desde então,
uma guitarra te espera na noite flamejante. Uma guitarra,
e suas cordas que estendem
sobre o abissal olhar das amadas
ou sobre o silêncio de cactos. Uma guitarra
que constrói, sem degraus, uma escada. Uma guitarra
que adormece o cansaço das lavadeiras. Uma guitarra
que aponta, no escuro, o riso do ditador. Uma guitarra
que cata siri, com as crianças,
nos mangues do Recife. Uma guitarra
que despe a moça de blusa azul
e a pluma de seus sapatos. Uma guitarra
que se estende sobre o longo caminhar das formigas
e conhece de cor a sanha das urtigas. Uma guitarra
que persegue os verdes abutres da colina
e espia de cócoras o pão que o diabo amassou.
Uma guitarra
que, espinha do arco-íris
impele navios como se fossem canções.
II
Guardas, dentro de mim,
um povoado: o poste aceso escorado no oitãoda memória.
Calado, conversas com tua gente: um moinho de vento
girando sem sentido. No Alto dos Angicos,
aprendeste a suportar todas as pragas, os presságios todos,
tantas visões, os sofrimentos tantos. Desde então,
compreendes os homens, debulhas suas espigas,
aprendeste o amor e as veredas de suas sílabas.
Desde então, recuperas pés soçobrados nos curtumes,
mãos em chagas de espinhos,
olhos derramados por sobre léguas em brasa. Desde então,
adormeces nos cabelos de palha da amada
ou rondas a madrugada como um lobo, porque, antes,
certamente, contemplaste o poente
que, em rugas, se dissolvia no peito azul da água de um rio imemorial.
III
Tua poesia
és tu mesmo, e somos todos nós.
Nós que pendoam nos labirintos noturnos.
Nós que cosem e descosem dúvidas, anseios,
boca esquecida num fragmento de tarde,
olhos que tecem adeuses com finíssimas agulhas,
mãos que catam siris e,
da lama,
fazem brotar a flor do poema.
Tua poesia são os olhos sem cal do pássaro morto,
a lucidez de um piano, o corvo a assombrar as estrelas,
tuas horas e teu suor acumulados.
Por isso carrego comigo o teu Pequeno Caderno de Palavras,
Os Seres, os Cantos de Lúcifer, a Ilha dos Patrupachas,
de onde fluem as águas, as pontes, o chão
de apodrecidas frutas, o tortuoso vôo de um morcego.
Lá, às vezes, só brota a flora vegetal das urtigas,
sob os indiferentes pés da moça de preto,
que, por ser um poema, é mesmo tua namorada.
IV
Um dia, desceste ao Vale dos Abutres
e te anunciaste o guardião dos corpos insepultos,
dançaste para os gatos e para tua própria morte.
E como houvesse uma irremediável aurora,
e como o cigarro se transformasse num corvo,
e como o tempo nada mais fosse
que tardes e montanhas incendiadas,
costuraste, em silêncio, as melodias de um secreto carnaval.
Leia José Alcides Pinto
Biografia de um Santo por Soares Feitosa
o grave movimento das palavras. E, desde então,
uma guitarra te espera na noite flamejante. Uma guitarra,
e suas cordas que estendem
sobre o abissal olhar das amadas
ou sobre o silêncio de cactos. Uma guitarra
que constrói, sem degraus, uma escada. Uma guitarra
que adormece o cansaço das lavadeiras. Uma guitarra
que aponta, no escuro, o riso do ditador. Uma guitarra
que cata siri, com as crianças,
nos mangues do Recife. Uma guitarra
que despe a moça de blusa azul
e a pluma de seus sapatos. Uma guitarra
que se estende sobre o longo caminhar das formigas
e conhece de cor a sanha das urtigas. Uma guitarra
que persegue os verdes abutres da colina
e espia de cócoras o pão que o diabo amassou.
Uma guitarra
que, espinha do arco-íris
impele navios como se fossem canções.
II
Guardas, dentro de mim,
um povoado: o poste aceso escorado no oitãoda memória.
Calado, conversas com tua gente: um moinho de vento
girando sem sentido. No Alto dos Angicos,
aprendeste a suportar todas as pragas, os presságios todos,
tantas visões, os sofrimentos tantos. Desde então,
compreendes os homens, debulhas suas espigas,
aprendeste o amor e as veredas de suas sílabas.
Desde então, recuperas pés soçobrados nos curtumes,
mãos em chagas de espinhos,
olhos derramados por sobre léguas em brasa. Desde então,
adormeces nos cabelos de palha da amada
ou rondas a madrugada como um lobo, porque, antes,
certamente, contemplaste o poente
que, em rugas, se dissolvia no peito azul da água de um rio imemorial.
III
Tua poesia
és tu mesmo, e somos todos nós.
Nós que pendoam nos labirintos noturnos.
Nós que cosem e descosem dúvidas, anseios,
boca esquecida num fragmento de tarde,
olhos que tecem adeuses com finíssimas agulhas,
mãos que catam siris e,
da lama,
fazem brotar a flor do poema.
Tua poesia são os olhos sem cal do pássaro morto,
a lucidez de um piano, o corvo a assombrar as estrelas,
tuas horas e teu suor acumulados.
Por isso carrego comigo o teu Pequeno Caderno de Palavras,
Os Seres, os Cantos de Lúcifer, a Ilha dos Patrupachas,
de onde fluem as águas, as pontes, o chão
de apodrecidas frutas, o tortuoso vôo de um morcego.
Lá, às vezes, só brota a flora vegetal das urtigas,
sob os indiferentes pés da moça de preto,
que, por ser um poema, é mesmo tua namorada.
IV
Um dia, desceste ao Vale dos Abutres
e te anunciaste o guardião dos corpos insepultos,
dançaste para os gatos e para tua própria morte.
E como houvesse uma irremediável aurora,
e como o cigarro se transformasse num corvo,
e como o tempo nada mais fosse
que tardes e montanhas incendiadas,
costuraste, em silêncio, as melodias de um secreto carnaval.
Leia José Alcides Pinto
Biografia de um Santo por Soares Feitosa
937
Carlos Augusto Viana
José Alcides Pinto
As águas do rio Acaraú te ensinaram, ainda menino,
o grave movimento das palavras. E, desde então,
uma guitarra te espera na noite flamejante. Uma guitarra,
e suas cordas que estendem
sobre o abissal olhar das amadas
ou sobre o silêncio de cactos. Uma guitarra
que constrói, sem degraus, uma escada. Uma guitarra
que adormece o cansaço das lavadeiras. Uma guitarra
que aponta, no escuro, o riso do ditador. Uma guitarra
que cata siri, com as crianças,
nos mangues do Recife. Uma guitarra
que despe a moça de blusa azul
e a pluma de seus sapatos. Uma guitarra
que se estende sobre o longo caminhar das formigas
e conhece de cor a sanha das urtigas. Uma guitarra
que persegue os verdes abutres da colina
e espia de cócoras o pão que o diabo amassou.
Uma guitarra
que, espinha do arco-íris
impele navios como se fossem canções.
II
Guardas, dentro de mim,
um povoado: o poste aceso escorado no oitãoda memória.
Calado, conversas com tua gente: um moinho de vento
girando sem sentido. No Alto dos Angicos,
aprendeste a suportar todas as pragas, os presságios todos,
tantas visões, os sofrimentos tantos. Desde então,
compreendes os homens, debulhas suas espigas,
aprendeste o amor e as veredas de suas sílabas.
Desde então, recuperas pés soçobrados nos curtumes,
mãos em chagas de espinhos,
olhos derramados por sobre léguas em brasa. Desde então,
adormeces nos cabelos de palha da amada
ou rondas a madrugada como um lobo, porque, antes,
certamente, contemplaste o poente
que, em rugas, se dissolvia no peito azul da água de um rio imemorial.
III
Tua poesia
és tu mesmo, e somos todos nós.
Nós que pendoam nos labirintos noturnos.
Nós que cosem e descosem dúvidas, anseios,
boca esquecida num fragmento de tarde,
olhos que tecem adeuses com finíssimas agulhas,
mãos que catam siris e,
da lama,
fazem brotar a flor do poema.
Tua poesia são os olhos sem cal do pássaro morto,
a lucidez de um piano, o corvo a assombrar as estrelas,
tuas horas e teu suor acumulados.
Por isso carrego comigo o teu Pequeno Caderno de Palavras,
Os Seres, os Cantos de Lúcifer, a Ilha dos Patrupachas,
de onde fluem as águas, as pontes, o chão
de apodrecidas frutas, o tortuoso vôo de um morcego.
Lá, às vezes, só brota a flora vegetal das urtigas,
sob os indiferentes pés da moça de preto,
que, por ser um poema, é mesmo tua namorada.
IV
Um dia, desceste ao Vale dos Abutres
e te anunciaste o guardião dos corpos insepultos,
dançaste para os gatos e para tua própria morte.
E como houvesse uma irremediável aurora,
e como o cigarro se transformasse num corvo,
e como o tempo nada mais fosse
que tardes e montanhas incendiadas,
costuraste, em silêncio, as melodias de um secreto carnaval.
Leia José Alcides Pinto
Biografia de um Santo por Soares Feitosa
o grave movimento das palavras. E, desde então,
uma guitarra te espera na noite flamejante. Uma guitarra,
e suas cordas que estendem
sobre o abissal olhar das amadas
ou sobre o silêncio de cactos. Uma guitarra
que constrói, sem degraus, uma escada. Uma guitarra
que adormece o cansaço das lavadeiras. Uma guitarra
que aponta, no escuro, o riso do ditador. Uma guitarra
que cata siri, com as crianças,
nos mangues do Recife. Uma guitarra
que despe a moça de blusa azul
e a pluma de seus sapatos. Uma guitarra
que se estende sobre o longo caminhar das formigas
e conhece de cor a sanha das urtigas. Uma guitarra
que persegue os verdes abutres da colina
e espia de cócoras o pão que o diabo amassou.
Uma guitarra
que, espinha do arco-íris
impele navios como se fossem canções.
II
Guardas, dentro de mim,
um povoado: o poste aceso escorado no oitãoda memória.
Calado, conversas com tua gente: um moinho de vento
girando sem sentido. No Alto dos Angicos,
aprendeste a suportar todas as pragas, os presságios todos,
tantas visões, os sofrimentos tantos. Desde então,
compreendes os homens, debulhas suas espigas,
aprendeste o amor e as veredas de suas sílabas.
Desde então, recuperas pés soçobrados nos curtumes,
mãos em chagas de espinhos,
olhos derramados por sobre léguas em brasa. Desde então,
adormeces nos cabelos de palha da amada
ou rondas a madrugada como um lobo, porque, antes,
certamente, contemplaste o poente
que, em rugas, se dissolvia no peito azul da água de um rio imemorial.
III
Tua poesia
és tu mesmo, e somos todos nós.
Nós que pendoam nos labirintos noturnos.
Nós que cosem e descosem dúvidas, anseios,
boca esquecida num fragmento de tarde,
olhos que tecem adeuses com finíssimas agulhas,
mãos que catam siris e,
da lama,
fazem brotar a flor do poema.
Tua poesia são os olhos sem cal do pássaro morto,
a lucidez de um piano, o corvo a assombrar as estrelas,
tuas horas e teu suor acumulados.
Por isso carrego comigo o teu Pequeno Caderno de Palavras,
Os Seres, os Cantos de Lúcifer, a Ilha dos Patrupachas,
de onde fluem as águas, as pontes, o chão
de apodrecidas frutas, o tortuoso vôo de um morcego.
Lá, às vezes, só brota a flora vegetal das urtigas,
sob os indiferentes pés da moça de preto,
que, por ser um poema, é mesmo tua namorada.
IV
Um dia, desceste ao Vale dos Abutres
e te anunciaste o guardião dos corpos insepultos,
dançaste para os gatos e para tua própria morte.
E como houvesse uma irremediável aurora,
e como o cigarro se transformasse num corvo,
e como o tempo nada mais fosse
que tardes e montanhas incendiadas,
costuraste, em silêncio, as melodias de um secreto carnaval.
Leia José Alcides Pinto
Biografia de um Santo por Soares Feitosa
937
Valeria Braga
Poema
Poema
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
1 032
Valeria Braga
Poema
Poema
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
1 032
Valeria Braga
Poema
Poema
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
1 032
Vitor Casimiro
Se Antes Fosse, Aonde Iria?
Janela aberta
Brisa a dentro
Cortina, dança
feito um lamento
Antes fosse
Um barco a vela.
Aonde vais brisa?
Iria com ela
Brisa a dentro
Cortina, dança
feito um lamento
Antes fosse
Um barco a vela.
Aonde vais brisa?
Iria com ela
1 091
Carlos Augusto Viana
A Báscula do Desejo
1O mar inventa canteiros nos cílios das areias,
multiplica-se no marulhar do ar nos grãos de milho
move-se em murmúrios nas conchas múltiplas do alpendre.
Estilhaços da chuva na memória:
um mapa embrulhado nas pálpebras,
um cavalo singrando o arco-íris,
um girassol se contorcendo num jarro.
2Teus peitos em chamas cobrem de espumas as ilhas,
as franjas do vento inauguram temporais.
Teu corpo se derrama, enorme, sobre as dunas
que a mão dos vendavais tece no litoral de novembro.
O amor são as patas do cavalo
sobre os espelhos das campinas,
o sol incendiando a penugem do canavial,
o mapa dos olhos no escuro,
uma cidade que se despe como um calendário.
O amor é um roçado de enigmas,
claros como o silêncio dos retratos,
iniludíveis como o olhar dos bois,
ávidos
como as mãos que cavam a terra
ou os pés que namoram caminhos.
Amar é escrever teu nome
no ventre de uma inacessível praia
onde adormecem um deus e as cordas de uma guitarra.
Amar é escrever teu nome
como se escreve um poema sem palavras,
assim como a noite se inscreve na solidão de um homem.
3O amor
se
pétala
sempre
exala
por isso
amar
não conserva arames
em suas léguas
4De teus olhos em água
saltam inscrições em fogo,
assim como existe um outro mar
que se desdobra além das ondas,
um calendário nas sombras
que se diluem nas paredes.
De teus olhos em água,
as inscrições em fogo
tingem de nova cor a paisagem
e dão às horas o enigma dos minerais.
Das inscrições em fogo,
o amor e sua linguagem de água,
o amor e suas sombras nas areias da memória.
o amor
e a escritura de seu abandono,
as tenebrosas buscas, as urtigas da dúvida,
o trigo interrompido, o gesto não pendoado,
o grão das horas a arder sob o sol das esperas.
O amor
e suas mãos que palmilham palavras,
o inatingível, o inumerável,
o que não se conhece, o que não se aprende jamais.
multiplica-se no marulhar do ar nos grãos de milho
move-se em murmúrios nas conchas múltiplas do alpendre.
Estilhaços da chuva na memória:
um mapa embrulhado nas pálpebras,
um cavalo singrando o arco-íris,
um girassol se contorcendo num jarro.
2Teus peitos em chamas cobrem de espumas as ilhas,
as franjas do vento inauguram temporais.
Teu corpo se derrama, enorme, sobre as dunas
que a mão dos vendavais tece no litoral de novembro.
O amor são as patas do cavalo
sobre os espelhos das campinas,
o sol incendiando a penugem do canavial,
o mapa dos olhos no escuro,
uma cidade que se despe como um calendário.
O amor é um roçado de enigmas,
claros como o silêncio dos retratos,
iniludíveis como o olhar dos bois,
ávidos
como as mãos que cavam a terra
ou os pés que namoram caminhos.
Amar é escrever teu nome
no ventre de uma inacessível praia
onde adormecem um deus e as cordas de uma guitarra.
Amar é escrever teu nome
como se escreve um poema sem palavras,
assim como a noite se inscreve na solidão de um homem.
3O amor
se
pétala
sempre
exala
por isso
amar
não conserva arames
em suas léguas
4De teus olhos em água
saltam inscrições em fogo,
assim como existe um outro mar
que se desdobra além das ondas,
um calendário nas sombras
que se diluem nas paredes.
De teus olhos em água,
as inscrições em fogo
tingem de nova cor a paisagem
e dão às horas o enigma dos minerais.
Das inscrições em fogo,
o amor e sua linguagem de água,
o amor e suas sombras nas areias da memória.
o amor
e a escritura de seu abandono,
as tenebrosas buscas, as urtigas da dúvida,
o trigo interrompido, o gesto não pendoado,
o grão das horas a arder sob o sol das esperas.
O amor
e suas mãos que palmilham palavras,
o inatingível, o inumerável,
o que não se conhece, o que não se aprende jamais.
1 652
Vitorino Nemésio
Outro Testamento
Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.
1 992
Vitorino Nemésio
Outro Testamento
Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.
1 992
Vitor Casimiro
Problema de Pontuação
Será Ponto-e-vígula
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?
Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?
Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!
710
Vitor Casimiro
Problema de Pontuação
Será Ponto-e-vígula
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?
Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?
Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!
710
Vitor Casimiro
Cadência
Não conto
Estrelas
Me contento
Em vê-las
Sem lupas ou lentes
Vejo estrelas
Algumas imóveis
Outras C
a
d
e
n
t
e
s.
Estrelas
Me contento
Em vê-las
Sem lupas ou lentes
Vejo estrelas
Algumas imóveis
Outras C
a
d
e
n
t
e
s.
979
Vitor Casimiro
Ciclo Vicioso
O início
Não me esqueço
O vício
Só tem começo.
O trauma,
Que perfura
A alma
De que procura
Com toda calma
Perder o medo
Essa mania
De que ainda é cedo
De que ainda é dia
E seja o que aconteça
Não há mais perigo
Mesmo que desapareça
O meu amigo
Encontrarei a cura
Para a insensatez
Talvez loucura
De se perder de vez,
De um vez por todas.
Não me esqueço
O vício
Só tem começo.
O trauma,
Que perfura
A alma
De que procura
Com toda calma
Perder o medo
Essa mania
De que ainda é cedo
De que ainda é dia
E seja o que aconteça
Não há mais perigo
Mesmo que desapareça
O meu amigo
Encontrarei a cura
Para a insensatez
Talvez loucura
De se perder de vez,
De um vez por todas.
860
Vivaldo Beldade
A Morte da Arvore
Leio nos teus ramos desnudados
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
1 070
Virgílio Fernandes Almeida
O poeta, o temor e o computador
Mais um congestionamento. O trânsito segue seu rítmo lento habitual. Buzinas, impaciência e pensamentos. De repente, surge Chico Buarque no rádio, cantando o clássico samba de Paulinho da Viola: Sinal Fechado. "Olá como vai? Tudo bem, eu vou indo correndo pegar um lugar no futuro e você?". Qual o meu lugar no futuro? Eis uma questão que muitos brasileiros indagam. O futuro vem sempre acompanhado de um mistura de esperanças e incertezas. Existem algumas invenções humanas que claramente têm a cara do futuro. Os computadores, os softwares, os robôs e as redes de comunicação com certeza serão ubíquos num futuro não muito distante. É sempre bom lembrar que o próximo milênio chega daqui a cinco anos! No plano das incertezas quanto ao futuro cibernético, muitos se perguntam: será que o computador vai ocupar o meu lugar?
Em um de seus ensaios sobre literatura e tecnologia, o mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de literatura, questiona se o computador tomaria o lugar do poeta. "Nada impede que o poeta se sirva de um computador para escolher e combinar as palavras que hão de compor seus poemas". Entretanto, o computador não suprime o poeta, como não o suprimem os dicionários e os tratados sobre como fazer poesia. Um poema não é fruto apenas de um amplo vocabulário e de um conjunto de regras para escolher e combinar as palavras do vocabulário. O poema é fruto principalmente da atitude criadora da alma humana. Isto se estende aos vários campos da criatividade do homem: a literatura, a pintura, a música, o cinema e outros. Não há computador que substitua a arte e o talento de um Drummond, um Guimarães Rosa, um Chico Buarque, um Portinari uma Fernanda Montenegro ou uma Adélia Prado.
As histórias do homem e suas máquinas têm sido construídas juntas. Algumas máquinas tem o papel de ajudar o homem na transformação de seu ambiente. Auxiliam na construção de estradas, barragens, portos, etc. Outras máquinas, como carros e aviões buscam ajudar o homem a vencer limitações de distância e tempo. Existem máquinas cujo objetivo é ampliar as habilidades dos seres humanos. Por exemplo, o microscópio e o telescópio ampliam a visão das pessoas e o telefone amplia a capacidade de comunicação. Com sua capacidade de processar velozmente grandes massas de informação e controlar complexas operações, os computadores se incluem nesta última categoria. O computador e seus softwares não devem ser vistos como ameaças ao homem e sim como uma possibilidade de ampliar e acentuar suas habilidades. A automação não deve ser vista simplisticamente como forma de substituir pessoas e sim como um recurso para aumentar a qualificação e a capacidade da força de trabalho.
Muitas pessoas veêm com temor o acelerado progresso da tecnologia dos computadores e sua silenciosa e constante penetração em quase todos espaços da vida contemporânea. Nos bancos, no comércio, nos hospitais, nos tribunais, nos governos, nas indústrias e no lazer há sempre um computador presente. Há sempre o temor do computador tomar o lugar das pessoas e reduzir os empregos. A experiência externa tem mostrado que os diversos tipos de trabalhos de uma sociedade são afetados diferentemente pela ampliação dos domínios do computador. Trabalhos de natureza mais repetitiva em fábricas e escritórios têm sido mais atingidos pelo avanço da informática. É imprescindível que sindicatos, associações de classes, empresários e governo criem uma agenda de discussão sobre a evolução da informática numa sociedade complexa, dividida e injusta como a brasileira. Discutir e negociar o grau e a velocidade da informatização da sociedade, a reciclagem do trabalhador brasileiro e a alfabetização em informática são tarefas chaves no desenho do futuro de nosso país .
Em um de seus ensaios sobre literatura e tecnologia, o mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de literatura, questiona se o computador tomaria o lugar do poeta. "Nada impede que o poeta se sirva de um computador para escolher e combinar as palavras que hão de compor seus poemas". Entretanto, o computador não suprime o poeta, como não o suprimem os dicionários e os tratados sobre como fazer poesia. Um poema não é fruto apenas de um amplo vocabulário e de um conjunto de regras para escolher e combinar as palavras do vocabulário. O poema é fruto principalmente da atitude criadora da alma humana. Isto se estende aos vários campos da criatividade do homem: a literatura, a pintura, a música, o cinema e outros. Não há computador que substitua a arte e o talento de um Drummond, um Guimarães Rosa, um Chico Buarque, um Portinari uma Fernanda Montenegro ou uma Adélia Prado.
As histórias do homem e suas máquinas têm sido construídas juntas. Algumas máquinas tem o papel de ajudar o homem na transformação de seu ambiente. Auxiliam na construção de estradas, barragens, portos, etc. Outras máquinas, como carros e aviões buscam ajudar o homem a vencer limitações de distância e tempo. Existem máquinas cujo objetivo é ampliar as habilidades dos seres humanos. Por exemplo, o microscópio e o telescópio ampliam a visão das pessoas e o telefone amplia a capacidade de comunicação. Com sua capacidade de processar velozmente grandes massas de informação e controlar complexas operações, os computadores se incluem nesta última categoria. O computador e seus softwares não devem ser vistos como ameaças ao homem e sim como uma possibilidade de ampliar e acentuar suas habilidades. A automação não deve ser vista simplisticamente como forma de substituir pessoas e sim como um recurso para aumentar a qualificação e a capacidade da força de trabalho.
Muitas pessoas veêm com temor o acelerado progresso da tecnologia dos computadores e sua silenciosa e constante penetração em quase todos espaços da vida contemporânea. Nos bancos, no comércio, nos hospitais, nos tribunais, nos governos, nas indústrias e no lazer há sempre um computador presente. Há sempre o temor do computador tomar o lugar das pessoas e reduzir os empregos. A experiência externa tem mostrado que os diversos tipos de trabalhos de uma sociedade são afetados diferentemente pela ampliação dos domínios do computador. Trabalhos de natureza mais repetitiva em fábricas e escritórios têm sido mais atingidos pelo avanço da informática. É imprescindível que sindicatos, associações de classes, empresários e governo criem uma agenda de discussão sobre a evolução da informática numa sociedade complexa, dividida e injusta como a brasileira. Discutir e negociar o grau e a velocidade da informatização da sociedade, a reciclagem do trabalhador brasileiro e a alfabetização em informática são tarefas chaves no desenho do futuro de nosso país .
715
Virgílio Fernandes Almeida
O poeta, o temor e o computador
Mais um congestionamento. O trânsito segue seu rítmo lento habitual. Buzinas, impaciência e pensamentos. De repente, surge Chico Buarque no rádio, cantando o clássico samba de Paulinho da Viola: Sinal Fechado. "Olá como vai? Tudo bem, eu vou indo correndo pegar um lugar no futuro e você?". Qual o meu lugar no futuro? Eis uma questão que muitos brasileiros indagam. O futuro vem sempre acompanhado de um mistura de esperanças e incertezas. Existem algumas invenções humanas que claramente têm a cara do futuro. Os computadores, os softwares, os robôs e as redes de comunicação com certeza serão ubíquos num futuro não muito distante. É sempre bom lembrar que o próximo milênio chega daqui a cinco anos! No plano das incertezas quanto ao futuro cibernético, muitos se perguntam: será que o computador vai ocupar o meu lugar?
Em um de seus ensaios sobre literatura e tecnologia, o mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de literatura, questiona se o computador tomaria o lugar do poeta. "Nada impede que o poeta se sirva de um computador para escolher e combinar as palavras que hão de compor seus poemas". Entretanto, o computador não suprime o poeta, como não o suprimem os dicionários e os tratados sobre como fazer poesia. Um poema não é fruto apenas de um amplo vocabulário e de um conjunto de regras para escolher e combinar as palavras do vocabulário. O poema é fruto principalmente da atitude criadora da alma humana. Isto se estende aos vários campos da criatividade do homem: a literatura, a pintura, a música, o cinema e outros. Não há computador que substitua a arte e o talento de um Drummond, um Guimarães Rosa, um Chico Buarque, um Portinari uma Fernanda Montenegro ou uma Adélia Prado.
As histórias do homem e suas máquinas têm sido construídas juntas. Algumas máquinas tem o papel de ajudar o homem na transformação de seu ambiente. Auxiliam na construção de estradas, barragens, portos, etc. Outras máquinas, como carros e aviões buscam ajudar o homem a vencer limitações de distância e tempo. Existem máquinas cujo objetivo é ampliar as habilidades dos seres humanos. Por exemplo, o microscópio e o telescópio ampliam a visão das pessoas e o telefone amplia a capacidade de comunicação. Com sua capacidade de processar velozmente grandes massas de informação e controlar complexas operações, os computadores se incluem nesta última categoria. O computador e seus softwares não devem ser vistos como ameaças ao homem e sim como uma possibilidade de ampliar e acentuar suas habilidades. A automação não deve ser vista simplisticamente como forma de substituir pessoas e sim como um recurso para aumentar a qualificação e a capacidade da força de trabalho.
Muitas pessoas veêm com temor o acelerado progresso da tecnologia dos computadores e sua silenciosa e constante penetração em quase todos espaços da vida contemporânea. Nos bancos, no comércio, nos hospitais, nos tribunais, nos governos, nas indústrias e no lazer há sempre um computador presente. Há sempre o temor do computador tomar o lugar das pessoas e reduzir os empregos. A experiência externa tem mostrado que os diversos tipos de trabalhos de uma sociedade são afetados diferentemente pela ampliação dos domínios do computador. Trabalhos de natureza mais repetitiva em fábricas e escritórios têm sido mais atingidos pelo avanço da informática. É imprescindível que sindicatos, associações de classes, empresários e governo criem uma agenda de discussão sobre a evolução da informática numa sociedade complexa, dividida e injusta como a brasileira. Discutir e negociar o grau e a velocidade da informatização da sociedade, a reciclagem do trabalhador brasileiro e a alfabetização em informática são tarefas chaves no desenho do futuro de nosso país .
Em um de seus ensaios sobre literatura e tecnologia, o mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de literatura, questiona se o computador tomaria o lugar do poeta. "Nada impede que o poeta se sirva de um computador para escolher e combinar as palavras que hão de compor seus poemas". Entretanto, o computador não suprime o poeta, como não o suprimem os dicionários e os tratados sobre como fazer poesia. Um poema não é fruto apenas de um amplo vocabulário e de um conjunto de regras para escolher e combinar as palavras do vocabulário. O poema é fruto principalmente da atitude criadora da alma humana. Isto se estende aos vários campos da criatividade do homem: a literatura, a pintura, a música, o cinema e outros. Não há computador que substitua a arte e o talento de um Drummond, um Guimarães Rosa, um Chico Buarque, um Portinari uma Fernanda Montenegro ou uma Adélia Prado.
As histórias do homem e suas máquinas têm sido construídas juntas. Algumas máquinas tem o papel de ajudar o homem na transformação de seu ambiente. Auxiliam na construção de estradas, barragens, portos, etc. Outras máquinas, como carros e aviões buscam ajudar o homem a vencer limitações de distância e tempo. Existem máquinas cujo objetivo é ampliar as habilidades dos seres humanos. Por exemplo, o microscópio e o telescópio ampliam a visão das pessoas e o telefone amplia a capacidade de comunicação. Com sua capacidade de processar velozmente grandes massas de informação e controlar complexas operações, os computadores se incluem nesta última categoria. O computador e seus softwares não devem ser vistos como ameaças ao homem e sim como uma possibilidade de ampliar e acentuar suas habilidades. A automação não deve ser vista simplisticamente como forma de substituir pessoas e sim como um recurso para aumentar a qualificação e a capacidade da força de trabalho.
Muitas pessoas veêm com temor o acelerado progresso da tecnologia dos computadores e sua silenciosa e constante penetração em quase todos espaços da vida contemporânea. Nos bancos, no comércio, nos hospitais, nos tribunais, nos governos, nas indústrias e no lazer há sempre um computador presente. Há sempre o temor do computador tomar o lugar das pessoas e reduzir os empregos. A experiência externa tem mostrado que os diversos tipos de trabalhos de uma sociedade são afetados diferentemente pela ampliação dos domínios do computador. Trabalhos de natureza mais repetitiva em fábricas e escritórios têm sido mais atingidos pelo avanço da informática. É imprescindível que sindicatos, associações de classes, empresários e governo criem uma agenda de discussão sobre a evolução da informática numa sociedade complexa, dividida e injusta como a brasileira. Discutir e negociar o grau e a velocidade da informatização da sociedade, a reciclagem do trabalhador brasileiro e a alfabetização em informática são tarefas chaves no desenho do futuro de nosso país .
715
Tristão da Cunha
Virgem Primitiva
A pobre Ofélia deu-lhe os tristes olhos mansos
Onde bóia um luar de sonhos afogados;
Mãos piedosas dormindo em gestos resignados,
De tarde, a meditar nos eternos descansos.
Há idílios de irmãos, inviolados remansos,
Soluços de ternura, e sorrisos cansados,
E saudades que não vem dos tempos passados,
No sobre-humano olhar daqueles olhos mansos.
Eu vejo-a morta já (que tristeza tão doce!...)
As mãos no colo em cruz e branca de alabastros,
Noiva morta de amor na primeira manhã...
Na Via-Láctea que a leva, pura como a trouxe,
Florindo-lhe o caminho anjos espalham astros,
E a lua vai seguindo atrás, como uma irmã...
Onde bóia um luar de sonhos afogados;
Mãos piedosas dormindo em gestos resignados,
De tarde, a meditar nos eternos descansos.
Há idílios de irmãos, inviolados remansos,
Soluços de ternura, e sorrisos cansados,
E saudades que não vem dos tempos passados,
No sobre-humano olhar daqueles olhos mansos.
Eu vejo-a morta já (que tristeza tão doce!...)
As mãos no colo em cruz e branca de alabastros,
Noiva morta de amor na primeira manhã...
Na Via-Láctea que a leva, pura como a trouxe,
Florindo-lhe o caminho anjos espalham astros,
E a lua vai seguindo atrás, como uma irmã...
952
Tristão da Cunha
Itervm
Há muito tempo já que eu vou perdendo
Os sonhos, um a um, pelo caminho:
— Sangue dum anho ingênuo, cor de arminho,
De calvário em calvário perecendo...
No alto dum monte, a luz que eu ia vendo,
Diante de mim cantando como um ninho,
Fria beijou-me o rubro desalinho,
E atrás de mim no escuro foi descendo.
Hoje os olhos se voltam como preces
Para as memórias, em que há luas mortas,
E tu, morta, que morta não pareces!
Sobre esta alma de dúvida e agonias
Caia a luz desses olhos, dessas portas
Onde esperam o sol as almas frias...
Os sonhos, um a um, pelo caminho:
— Sangue dum anho ingênuo, cor de arminho,
De calvário em calvário perecendo...
No alto dum monte, a luz que eu ia vendo,
Diante de mim cantando como um ninho,
Fria beijou-me o rubro desalinho,
E atrás de mim no escuro foi descendo.
Hoje os olhos se voltam como preces
Para as memórias, em que há luas mortas,
E tu, morta, que morta não pareces!
Sobre esta alma de dúvida e agonias
Caia a luz desses olhos, dessas portas
Onde esperam o sol as almas frias...
994
Tânia Regina
Momentos
Flores esvoaçando,
Refratando meu olhar
Durante um momento efêmero
Decerto parecia perene até acabar
O meu coração
batia cada vez mais forte
E toda esse emoção
eu expressava chorando
sorrindo, pulando, cantando.
Pois já te avistava
Ao longo dessa noite
tão quente.
As estrelas irradiavam
Um brilho intenso
que apaziguavam minha alma
Naquele efêmero momento
Em minha mente
Cenas com você
Passavam como filmes
Filmes de eterno amor
Imenso amor.
Tão logo você se aproximou
Me envolvendo em seus braços
Justamente naquele momento efêmero
Que a pouco tinha sonhado.
Refratando meu olhar
Durante um momento efêmero
Decerto parecia perene até acabar
O meu coração
batia cada vez mais forte
E toda esse emoção
eu expressava chorando
sorrindo, pulando, cantando.
Pois já te avistava
Ao longo dessa noite
tão quente.
As estrelas irradiavam
Um brilho intenso
que apaziguavam minha alma
Naquele efêmero momento
Em minha mente
Cenas com você
Passavam como filmes
Filmes de eterno amor
Imenso amor.
Tão logo você se aproximou
Me envolvendo em seus braços
Justamente naquele momento efêmero
Que a pouco tinha sonhado.
837
Sérgio de Castro Pinto
3 X 4
entro na fotografia
como quem do mundo
se homizia.
sem livrar o flagrante.
(instantâneo eu sei que sou
neste mundo lambe-lambe).
como quem do mundo
se homizia.
sem livrar o flagrante.
(instantâneo eu sei que sou
neste mundo lambe-lambe).
1 105
José Carlos Souza Santos
A tarde que me cabe
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
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