Poemas neste tema
Outros
Myriam Fraga
Salomé
Tantos anos depois
Não faz nenhum sentido,
Estória tão antiga...
— Eu te amo, eu disse,
Em meu vestido azul
Que um girassol floria.
— Eu também. E teu corpo
Encostado
Ao meu corpo, tremia.
Embriagada eu dançava,
Dilacerando os vestidos.
A interdição entre nós
Crescia como um bicho,
Serpente de pele lisa
E anéis coloridos.
Tantos anos depois
Ainda sonho com isso,
Um brilho de lâmina
E o sangue
A escorrer no ladrilho.
O tempo todo e eu sabia
Que, arrancados os véus,
Restaria o suplício. Restariam
As feridas. Um corpo ausente
E a lenda, de um remoto país
Onde habitei um dia.
Ó funesta tentação
De voltar àquela tarde
Em que dançando selvagem
Ao som de flautas,
Congelei a tua imagem
No fundo das retinas.
O topázio do sol
Ardia como brasa
E eu lavei as mãos
E limpei as sandálias.
No espelho, meu rosto,
Tinha a carne das estátuas.
Na espessura do silêncio,
Um gotejar de mágoa.
Na bandeja, os despojos,
Ainda tintos de vinho,
A cabeleira e os olhos
Acesos como círios.
Tantos anos depois
Não faz mesmo sentido
Mas guardo ainda o espelho
Onde espreito minha sorte,
Onde dia e noite espreito
A sombra que flutua
E se cola
Como máscara, em meu rosto,
Como chaga no coração,
Bem no peito onde o tempo
Enfiou sua adaga.
E danço como nunca mais
Dancei. O rei agora dorme,
Dourado, em seu sarcófago.
Mas ainda tenho os véus,
A bandeja e a espada.
Não faz nenhum sentido,
Estória tão antiga...
— Eu te amo, eu disse,
Em meu vestido azul
Que um girassol floria.
— Eu também. E teu corpo
Encostado
Ao meu corpo, tremia.
Embriagada eu dançava,
Dilacerando os vestidos.
A interdição entre nós
Crescia como um bicho,
Serpente de pele lisa
E anéis coloridos.
Tantos anos depois
Ainda sonho com isso,
Um brilho de lâmina
E o sangue
A escorrer no ladrilho.
O tempo todo e eu sabia
Que, arrancados os véus,
Restaria o suplício. Restariam
As feridas. Um corpo ausente
E a lenda, de um remoto país
Onde habitei um dia.
Ó funesta tentação
De voltar àquela tarde
Em que dançando selvagem
Ao som de flautas,
Congelei a tua imagem
No fundo das retinas.
O topázio do sol
Ardia como brasa
E eu lavei as mãos
E limpei as sandálias.
No espelho, meu rosto,
Tinha a carne das estátuas.
Na espessura do silêncio,
Um gotejar de mágoa.
Na bandeja, os despojos,
Ainda tintos de vinho,
A cabeleira e os olhos
Acesos como círios.
Tantos anos depois
Não faz mesmo sentido
Mas guardo ainda o espelho
Onde espreito minha sorte,
Onde dia e noite espreito
A sombra que flutua
E se cola
Como máscara, em meu rosto,
Como chaga no coração,
Bem no peito onde o tempo
Enfiou sua adaga.
E danço como nunca mais
Dancei. O rei agora dorme,
Dourado, em seu sarcófago.
Mas ainda tenho os véus,
A bandeja e a espada.
1 422
Neide Archanjo
Noite adentro
Noite adentro
olhos ancorados em Deus
dormem os animais
as crianças as plantas
Ninguém mais.
olhos ancorados em Deus
dormem os animais
as crianças as plantas
Ninguém mais.
1 211
Noel de Arriaga
Circuito Fechado
Já regressei da viagem
Que me deixou no peito
Estranha tatuagem.
Marcada a ferro e fogo,
Mal que ma destinaram
Eu aceitei-a logo.
É glorioso sentir
A carne trespassada
Sem Missão a cumprir.
Sofrer só por sofrer,
Negando a covardia
Dum pretexto qualquer.
Que me deixou no peito
Estranha tatuagem.
Marcada a ferro e fogo,
Mal que ma destinaram
Eu aceitei-a logo.
É glorioso sentir
A carne trespassada
Sem Missão a cumprir.
Sofrer só por sofrer,
Negando a covardia
Dum pretexto qualquer.
1 061
Myriam Fraga
Barragem
Estrutura de cal
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.
Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.
Barragem ou poço
(argamassa)
Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.
Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.
Recua e passa.
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.
Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.
Barragem ou poço
(argamassa)
Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.
Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.
Recua e passa.
1 072
Neide Archanjo
Ontem
Ontem
noite alta
na cama desfeita
tua imagem me surpreendia
cravando um punhal doce
no meio do meu corpo
onde o desejo renascia.
Ninguém nos via
nem o sono
que diante da tua presença
bruscamente se evadia.
Ontem
noite alta
na cama desfeita
nasciam flores
nasciam flores.
noite alta
na cama desfeita
tua imagem me surpreendia
cravando um punhal doce
no meio do meu corpo
onde o desejo renascia.
Ninguém nos via
nem o sono
que diante da tua presença
bruscamente se evadia.
Ontem
noite alta
na cama desfeita
nasciam flores
nasciam flores.
1 245
Myriam Fraga
A Cidade
Foi plantada no mar
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.
Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.
Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.
Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.
E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.
Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.
Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.
Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.
Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.
Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.
E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.
Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.
Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.
1 216
Joaquim Namorado
Poeta
A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
2 032
Joaquim Namorado
Poeta
A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
2 032
Joaquim Namorado
Poeta
A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
2 032
Natalício Barroso
Bilhete
Eis que te ofereço meu coração como uma
flor
e espero que as tuas mão
que são as minhas mãos
saibam pegá-lo como quem pega
um pássaro cheio de pétalas
ou um simples ninho
que ainda não desfolhou.
Este é o meu coração de homem e de poeta
e a haste, de onde o tirei, sangrou.
flor
e espero que as tuas mão
que são as minhas mãos
saibam pegá-lo como quem pega
um pássaro cheio de pétalas
ou um simples ninho
que ainda não desfolhou.
Este é o meu coração de homem e de poeta
e a haste, de onde o tirei, sangrou.
1 170
Nilson José Ribeiro
Impressão
Impressão
Tens a cor mais límpida e real
e a luminosidade calma das manhãs de primavera
Eu carrego na alma a explosão boreal
e a densidade rubra das tardes de inverno
Tens nos pés as estradas, os caminhos, o destino
Tenho asas densas e mergulho cego num vôo sem rumo
-caio, levanto, bato o pó e me aprumo-
És música cristalina, o som puro, melodia solta ao vento
Sou o tempo, semifusa, o contratempo
Tu, a beleza límpida e afinadíssima da voz de soprano
Sou Mozart ao piano.
És da noite as estrelas iluminadas no céu enluarado
Sou cometa incandescente e alucinado
atravessando veloz, incendiando a paisagem
És postal. Sou miragem.
Tens a força da terra
a suavidade da vinha, a tez da uva
Sou vento que te remexe, vendaval,
e, depois, o carinho precioso da abençoada chuva.
És paisagem a céu aberto,
montanhas, água, brisa, vela
Sou Van Gogh escancarado na tela.
És o riacho que mata a sede
Sou a cascata incontrolável
És descanso, a paz, o sono, a rede
Sou o desejo inadiável
És o calor que alenta os viajantes
Sou a brasa que arde em seu fogo ruivo
Encantas com a voz de mil pássaros cantantes
Eu uivo.
És, inteira,
parte de mim que se perdeu.
Sou, assim dividido,
definitivamente
inteiro teu.
Tens a cor mais límpida e real
e a luminosidade calma das manhãs de primavera
Eu carrego na alma a explosão boreal
e a densidade rubra das tardes de inverno
Tens nos pés as estradas, os caminhos, o destino
Tenho asas densas e mergulho cego num vôo sem rumo
-caio, levanto, bato o pó e me aprumo-
És música cristalina, o som puro, melodia solta ao vento
Sou o tempo, semifusa, o contratempo
Tu, a beleza límpida e afinadíssima da voz de soprano
Sou Mozart ao piano.
És da noite as estrelas iluminadas no céu enluarado
Sou cometa incandescente e alucinado
atravessando veloz, incendiando a paisagem
És postal. Sou miragem.
Tens a força da terra
a suavidade da vinha, a tez da uva
Sou vento que te remexe, vendaval,
e, depois, o carinho precioso da abençoada chuva.
És paisagem a céu aberto,
montanhas, água, brisa, vela
Sou Van Gogh escancarado na tela.
És o riacho que mata a sede
Sou a cascata incontrolável
És descanso, a paz, o sono, a rede
Sou o desejo inadiável
És o calor que alenta os viajantes
Sou a brasa que arde em seu fogo ruivo
Encantas com a voz de mil pássaros cantantes
Eu uivo.
És, inteira,
parte de mim que se perdeu.
Sou, assim dividido,
definitivamente
inteiro teu.
465
Nilson José Ribeiro
Impressão
Impressão
Tens a cor mais límpida e real
e a luminosidade calma das manhãs de primavera
Eu carrego na alma a explosão boreal
e a densidade rubra das tardes de inverno
Tens nos pés as estradas, os caminhos, o destino
Tenho asas densas e mergulho cego num vôo sem rumo
-caio, levanto, bato o pó e me aprumo-
És música cristalina, o som puro, melodia solta ao vento
Sou o tempo, semifusa, o contratempo
Tu, a beleza límpida e afinadíssima da voz de soprano
Sou Mozart ao piano.
És da noite as estrelas iluminadas no céu enluarado
Sou cometa incandescente e alucinado
atravessando veloz, incendiando a paisagem
És postal. Sou miragem.
Tens a força da terra
a suavidade da vinha, a tez da uva
Sou vento que te remexe, vendaval,
e, depois, o carinho precioso da abençoada chuva.
És paisagem a céu aberto,
montanhas, água, brisa, vela
Sou Van Gogh escancarado na tela.
És o riacho que mata a sede
Sou a cascata incontrolável
És descanso, a paz, o sono, a rede
Sou o desejo inadiável
És o calor que alenta os viajantes
Sou a brasa que arde em seu fogo ruivo
Encantas com a voz de mil pássaros cantantes
Eu uivo.
És, inteira,
parte de mim que se perdeu.
Sou, assim dividido,
definitivamente
inteiro teu.
Tens a cor mais límpida e real
e a luminosidade calma das manhãs de primavera
Eu carrego na alma a explosão boreal
e a densidade rubra das tardes de inverno
Tens nos pés as estradas, os caminhos, o destino
Tenho asas densas e mergulho cego num vôo sem rumo
-caio, levanto, bato o pó e me aprumo-
És música cristalina, o som puro, melodia solta ao vento
Sou o tempo, semifusa, o contratempo
Tu, a beleza límpida e afinadíssima da voz de soprano
Sou Mozart ao piano.
És da noite as estrelas iluminadas no céu enluarado
Sou cometa incandescente e alucinado
atravessando veloz, incendiando a paisagem
És postal. Sou miragem.
Tens a força da terra
a suavidade da vinha, a tez da uva
Sou vento que te remexe, vendaval,
e, depois, o carinho precioso da abençoada chuva.
És paisagem a céu aberto,
montanhas, água, brisa, vela
Sou Van Gogh escancarado na tela.
És o riacho que mata a sede
Sou a cascata incontrolável
És descanso, a paz, o sono, a rede
Sou o desejo inadiável
És o calor que alenta os viajantes
Sou a brasa que arde em seu fogo ruivo
Encantas com a voz de mil pássaros cantantes
Eu uivo.
És, inteira,
parte de mim que se perdeu.
Sou, assim dividido,
definitivamente
inteiro teu.
465
Nilson José Ribeiro
Impressão
Impressão
Tens a cor mais límpida e real
e a luminosidade calma das manhãs de primavera
Eu carrego na alma a explosão boreal
e a densidade rubra das tardes de inverno
Tens nos pés as estradas, os caminhos, o destino
Tenho asas densas e mergulho cego num vôo sem rumo
-caio, levanto, bato o pó e me aprumo-
És música cristalina, o som puro, melodia solta ao vento
Sou o tempo, semifusa, o contratempo
Tu, a beleza límpida e afinadíssima da voz de soprano
Sou Mozart ao piano.
És da noite as estrelas iluminadas no céu enluarado
Sou cometa incandescente e alucinado
atravessando veloz, incendiando a paisagem
És postal. Sou miragem.
Tens a força da terra
a suavidade da vinha, a tez da uva
Sou vento que te remexe, vendaval,
e, depois, o carinho precioso da abençoada chuva.
És paisagem a céu aberto,
montanhas, água, brisa, vela
Sou Van Gogh escancarado na tela.
És o riacho que mata a sede
Sou a cascata incontrolável
És descanso, a paz, o sono, a rede
Sou o desejo inadiável
És o calor que alenta os viajantes
Sou a brasa que arde em seu fogo ruivo
Encantas com a voz de mil pássaros cantantes
Eu uivo.
És, inteira,
parte de mim que se perdeu.
Sou, assim dividido,
definitivamente
inteiro teu.
Tens a cor mais límpida e real
e a luminosidade calma das manhãs de primavera
Eu carrego na alma a explosão boreal
e a densidade rubra das tardes de inverno
Tens nos pés as estradas, os caminhos, o destino
Tenho asas densas e mergulho cego num vôo sem rumo
-caio, levanto, bato o pó e me aprumo-
És música cristalina, o som puro, melodia solta ao vento
Sou o tempo, semifusa, o contratempo
Tu, a beleza límpida e afinadíssima da voz de soprano
Sou Mozart ao piano.
És da noite as estrelas iluminadas no céu enluarado
Sou cometa incandescente e alucinado
atravessando veloz, incendiando a paisagem
És postal. Sou miragem.
Tens a força da terra
a suavidade da vinha, a tez da uva
Sou vento que te remexe, vendaval,
e, depois, o carinho precioso da abençoada chuva.
És paisagem a céu aberto,
montanhas, água, brisa, vela
Sou Van Gogh escancarado na tela.
És o riacho que mata a sede
Sou a cascata incontrolável
És descanso, a paz, o sono, a rede
Sou o desejo inadiável
És o calor que alenta os viajantes
Sou a brasa que arde em seu fogo ruivo
Encantas com a voz de mil pássaros cantantes
Eu uivo.
És, inteira,
parte de mim que se perdeu.
Sou, assim dividido,
definitivamente
inteiro teu.
465
Menezes y Morais
Balada dos Mortos na Parede etc
teus mortos
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas
te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste
teus mortos
não perdoaram
eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti
te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças
convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas
te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste
teus mortos
não perdoaram
eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti
te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças
convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via
942
Nauro Machado
Apenas uma Coisa
Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
1 616
Nauro Machado
Apenas uma Coisa
Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
1 616
Myriam Fraga
Perspectiva
Este é um mundo-limite
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.
Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.
Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.
Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.
Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.
Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.
Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.
1 419
Marcelo Perrone
Teu Sorriso
Teu Sorriso é o que vem antes.Porque és a minha primeira.
Teu sorriso é o mais belo de todosPorque és a mais bela das mulheres
Teu Sorriso...
Teu sorriso me afoga.Os teus labios salvam-me.Teus olhos devoram-meTeu toque me apazigua.
Se esqueçer-me de teu sorriso,Esquecerei o motivo d’eu viver.Porque teu sorriso é minha razãoE tu és a minha primeira.
Teu Sorriso é o que vem antes.Teu sorriso é tudo para mim.Mas nada é como teu sorriso.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
Teu sorriso é o mais belo de todosPorque és a mais bela das mulheres
Teu Sorriso...
Teu sorriso me afoga.Os teus labios salvam-me.Teus olhos devoram-meTeu toque me apazigua.
Se esqueçer-me de teu sorriso,Esquecerei o motivo d’eu viver.Porque teu sorriso é minha razãoE tu és a minha primeira.
Teu Sorriso é o que vem antes.Teu sorriso é tudo para mim.Mas nada é como teu sorriso.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
1 076
Gerardo Mello Mourão
Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:
Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.
Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:
pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea
Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas
pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:
Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.
Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:
pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea
Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas
pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.
1 123
Gerardo Mello Mourão
Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:
Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.
Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:
pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea
Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas
pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:
Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.
Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:
pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea
Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas
pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.
1 123
Marcelo Penido Silva
Tão flácidos
Tão flácidos
lagos esparsos
calmos, iagos
- de aço -
traem azuis
(agora escuros lençóis)
e lenços tão núvios
trapos,
flutuantes,
de sol.
Não precisa noite
para ver, suspensa,
imprecisa soma
de luz, gota, mal.
Ridente iago
em ondas rôtas
murbulha
preces de cão.
Não
tão plácidos
espasmos
baços azuis . . .
(amouro oculto
dúbio
culto, culto)
trap(o)s
ondiantes
vên en
vitral . . .
Nau
dardeja, ensombra,
acácia padece;
mal querida,
tomba.
Nau . . .nau . . .
madeira despécie
lança, fenece
em lago(puro?)
de sal.
lagos esparsos
calmos, iagos
- de aço -
traem azuis
(agora escuros lençóis)
e lenços tão núvios
trapos,
flutuantes,
de sol.
Não precisa noite
para ver, suspensa,
imprecisa soma
de luz, gota, mal.
Ridente iago
em ondas rôtas
murbulha
preces de cão.
Não
tão plácidos
espasmos
baços azuis . . .
(amouro oculto
dúbio
culto, culto)
trap(o)s
ondiantes
vên en
vitral . . .
Nau
dardeja, ensombra,
acácia padece;
mal querida,
tomba.
Nau . . .nau . . .
madeira despécie
lança, fenece
em lago(puro?)
de sal.
991
Mario Ribeiro Martins
Obire Et Vincere
Vate exaltado, cuja força vibra,
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
937
Mario Ribeiro Martins
Obire Et Vincere
Vate exaltado, cuja força vibra,
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
937
Mario Ribeiro Martins
Obire Et Vincere
Vate exaltado, cuja força vibra,
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
937