Poemas neste tema
Outros
Frei Avertano de Santa Maria
Soneto
Este extático Apolo que está tísico
De aturar o noturno, e diurno cântico
Por que não vai banhar-se ao mar Atlântico
Sendo como Esculápio tão bom físico?
Tanto sobe que passa a metafísico
Donde posto também a nigromântico
Só reforça o corpólico farfântico
Com o ofusco licor do lago estígico.
Mas se contra Tonante que é belígero
Deste raio não fica todo pálido
Acolhendo-se a Marte que é armígero:
Ficará quando ignífero tão válido
Que transformado em Pã porque é cornígero
Sairá por Europa touro cálido.
De aturar o noturno, e diurno cântico
Por que não vai banhar-se ao mar Atlântico
Sendo como Esculápio tão bom físico?
Tanto sobe que passa a metafísico
Donde posto também a nigromântico
Só reforça o corpólico farfântico
Com o ofusco licor do lago estígico.
Mas se contra Tonante que é belígero
Deste raio não fica todo pálido
Acolhendo-se a Marte que é armígero:
Ficará quando ignífero tão válido
Que transformado em Pã porque é cornígero
Sairá por Europa touro cálido.
411
Francisco Carvalho
Lavoura
As minhas mãos
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
2 312
Francisco Carvalho
Lição de Espaço
O homem no espaço
é a sombra de Sísifo.
O espectro da esfinge
O vertigem do tísico.
O homem no espaço
é a pedra no vértice.
A folha que tomba
1no vórtice.
é a sombra de Sísifo.
O espectro da esfinge
O vertigem do tísico.
O homem no espaço
é a pedra no vértice.
A folha que tomba
1no vórtice.
1 112
Filinto de Almeida
Misteriosa
— Quem será, de onde veio, esta perturbadora,
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?
— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.
De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.
Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.
Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.
Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.
Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.
De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...
Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.
É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.
Nada mais sei. Será uma fada? algum gênio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogêneo
Da Salammbô e da Gioconda.
Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fôra
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?
— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.
De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.
Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.
Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.
Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.
Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.
De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...
Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.
É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.
Nada mais sei. Será uma fada? algum gênio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogêneo
Da Salammbô e da Gioconda.
Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fôra
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.
740
Fernando Guedes
A Flor
Intercepção globular
No ponto infinitamente repetido
a existência cessa
em cada instante.
Aqui. No caule ou na folha,
no golpe da enxada,
em mim ou em ti,
no lento mover da roda, no fruto,
construí a cidade.
Ceifaras no campo todo o dia
e de noite vieste ao meu encontro.
Entre o que foi e o que será
alterou-se o número
e a posição do movimento.
Nas ruas desertas
furtivos espreitam os velhos
pelos óculos das portas.
Viram-te chegar,
sabem a cor dos teus olhos
e vão dizer que és pura,
quando for meio-dia,
junto à porta grande da cidade.
Não importa que sejas estrangeira
— sou eu tua nação.
Procurei-te entre as casas,
na roda movente,
entre os grãos de milho torturado;
passei o bosque, o rio,
adormecida te encontrei
no espaço absoluto,
no vazio sempre pronto a mais vazio,
e, crescidos, teus cabelos eram um rebanho de cabras
deixando a planície.
Sete rosas marcam tua vida,
dispostas em losangos, dois losangos:
seis flores úmidas, uma de bondade,
brancas, flores brancas.
Quem te encontrar saberá
que existe um corpo existindo na distância,
fora de nós,
para lá de Andrômeda,
contemporâneo do passado,
permanente na sucessão ilimitada e necessária,
uniformemente transeunte.
No ponto infinitamente repetido
a existência cessa
em cada instante.
Aqui. No caule ou na folha,
no golpe da enxada,
em mim ou em ti,
no lento mover da roda, no fruto,
construí a cidade.
Ceifaras no campo todo o dia
e de noite vieste ao meu encontro.
Entre o que foi e o que será
alterou-se o número
e a posição do movimento.
Nas ruas desertas
furtivos espreitam os velhos
pelos óculos das portas.
Viram-te chegar,
sabem a cor dos teus olhos
e vão dizer que és pura,
quando for meio-dia,
junto à porta grande da cidade.
Não importa que sejas estrangeira
— sou eu tua nação.
Procurei-te entre as casas,
na roda movente,
entre os grãos de milho torturado;
passei o bosque, o rio,
adormecida te encontrei
no espaço absoluto,
no vazio sempre pronto a mais vazio,
e, crescidos, teus cabelos eram um rebanho de cabras
deixando a planície.
Sete rosas marcam tua vida,
dispostas em losangos, dois losangos:
seis flores úmidas, uma de bondade,
brancas, flores brancas.
Quem te encontrar saberá
que existe um corpo existindo na distância,
fora de nós,
para lá de Andrômeda,
contemporâneo do passado,
permanente na sucessão ilimitada e necessária,
uniformemente transeunte.
1 031
Fernanda de Castro
Asa no Espaço
Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
1 793
Flávio Sátiro Fernandes
Paisagem de Guima
O pássaro,
em vôo sereno,
conquista, do alto,
o quanto existe
de luz e de esperança
nesse verd’água sublime.
em vôo sereno,
conquista, do alto,
o quanto existe
de luz e de esperança
nesse verd’água sublime.
885
Fausto Costa
Poluição Noturna
Ela corre sóbria
no meu corpo ébrio,
Enquanto cambaleio excitado
no seu ventre molhado. Sonho.
Calmo momento, desse amor a mil
silhueta estampada na cortina.
Essa menina, furacão e mulher,
ondula as águas serenas do meu fogo.
O inesgotável prazer não nos
assusta e sim completa-nos.
Tudo lindo nesse instante,
Onde os amantes se procuram.
Quando os beijos se completam,
Nossas mãos se entrelaçam,
nossas línguas se enroscam.
No ápice do amor,
Eu acordo para a realidade de nossa
distância.
no meu corpo ébrio,
Enquanto cambaleio excitado
no seu ventre molhado. Sonho.
Calmo momento, desse amor a mil
silhueta estampada na cortina.
Essa menina, furacão e mulher,
ondula as águas serenas do meu fogo.
O inesgotável prazer não nos
assusta e sim completa-nos.
Tudo lindo nesse instante,
Onde os amantes se procuram.
Quando os beijos se completam,
Nossas mãos se entrelaçam,
nossas línguas se enroscam.
No ápice do amor,
Eu acordo para a realidade de nossa
distância.
434
Fernando Fábio Fiorese Furtado
Mulher Dormindo
apenas a alma dorme
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
1 018
Fernando José dos Santos Oliveira
Sou alguém comum
Sou alguém comum
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
1 028
Florisvaldo Mattos
Campesino
Como folhas caindo num deserto,
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.
Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.
Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.
Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.
Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.
Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.
Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.
1 040
Moacyr Felix
Poema quase Explicação
Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
1 313
Francisco José Rodrigues
Primavera Interior
O tempo que aí vai não é o mesmo tempo
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Se outono e inverno passam, velhos, lá por fora,
Aqui dentro em minha alma habita a primavera.
Estou sempre a sorrir enquanto os outros choram
E estou sempre a chorar quando riem dos outros.
Assim, o tempo fora não é o mesmo tempo
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Mas quando é primavera lá fora, também
Se torna primavera cá dentro em minha alma,
Pois que dentro em minha alma a primavera habita,
Embora que nem sempre possa despontar
O seu perene verde, pois que os maus olhados
Queimariam vigores que me minha alma existem.
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Se outono e inverno passam, velhos, lá por fora,
Aqui dentro em minha alma habita a primavera.
Estou sempre a sorrir enquanto os outros choram
E estou sempre a chorar quando riem dos outros.
Assim, o tempo fora não é o mesmo tempo
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Mas quando é primavera lá fora, também
Se torna primavera cá dentro em minha alma,
Pois que dentro em minha alma a primavera habita,
Embora que nem sempre possa despontar
O seu perene verde, pois que os maus olhados
Queimariam vigores que me minha alma existem.
890
Flávio Sátiro Fernandes
Ofício da escrita
Sento-me à máquina
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
825
Flávio Sátiro Fernandes
Ofício da escrita
Sento-me à máquina
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
825
Flávio Sátiro Fernandes
Ofício da escrita
Sento-me à máquina
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
825
Flávio Sátiro Fernandes
Geografia do corpo
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
Dois montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Ao pé dos montes situava-se a depressão,
com pequeno lago ao meio,
de formação plistocênica.
Além, entre paredes em erosão,
jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
a correr, em seguida, por entre sombria floresta.
Do outro lado da floresta
alteava-se íngreme desfiladeiro
e, após, estendia-se a costa
Da costa, por leste ou por oeste,
era fácil chegar de novo
aos montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
Dois montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Ao pé dos montes situava-se a depressão,
com pequeno lago ao meio,
de formação plistocênica.
Além, entre paredes em erosão,
jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
a correr, em seguida, por entre sombria floresta.
Do outro lado da floresta
alteava-se íngreme desfiladeiro
e, após, estendia-se a costa
Da costa, por leste ou por oeste,
era fácil chegar de novo
aos montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
1 151
Flávio Sátiro Fernandes
Ode aos noventanos
Ao meu pai,
nos seus noventa anos.
O tempo é rio
por onde flui o existir.
A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.
No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.
Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.
Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.
nos seus noventa anos.
O tempo é rio
por onde flui o existir.
A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.
No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.
Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.
Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.
869
Flávio Sátiro Fernandes
Ode aos noventanos
Ao meu pai,
nos seus noventa anos.
O tempo é rio
por onde flui o existir.
A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.
No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.
Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.
Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.
nos seus noventa anos.
O tempo é rio
por onde flui o existir.
A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.
No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.
Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.
Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.
869
Fernando José dos Santos Oliveira
Florismundo
Florismundo
Mundo,imundoe mudo,muda!Muda e,em muda,te faz flor.
Mundo,imundoe mudo,muda!Muda e,em muda,te faz flor.
1 133
Francisco José Rodrigues
Serena Noite
Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço como alguém que, ausente,
chorasse por teu seio e teu conforto
ou suplicasse por teus mornos braços.
Noite, serena noite, eu te amo como
se fosses minha mãe, ou meu refúgio
de todo o mal do mundo, ó noite cara
aos meus sentidos e aos meus passos ágeis.
Ó noite, tu me encobres, protetora,
contra todos os males, contra olhares,
que hostilizam, olhares que torturam
este pobre de mim ao dia exposto.
Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço com meus passos ágeis.
doce regaço como alguém que, ausente,
chorasse por teu seio e teu conforto
ou suplicasse por teus mornos braços.
Noite, serena noite, eu te amo como
se fosses minha mãe, ou meu refúgio
de todo o mal do mundo, ó noite cara
aos meus sentidos e aos meus passos ágeis.
Ó noite, tu me encobres, protetora,
contra todos os males, contra olhares,
que hostilizam, olhares que torturam
este pobre de mim ao dia exposto.
Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço com meus passos ágeis.
1 122
Florisvaldo Mattos
Quarto Monólogo
(O Fel das Roupagens)
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
974
Moacyr Felix
Auto-Retrato
Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
[C.T., 1959.1
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
[C.T., 1959.1
1 622
Moacyr Felix
Tarde na Ilha
Não sei por que,
mas tenho
uma vontade mansa de tomar chá
com Thomas Steams Eliot,
de não dizer nada
de não perguntar nada,
e ficar olhando
todas as manchetes e todas as capas
de todos os livros,
olhando de olhos vazios
não como os do morto, mas vazios
como o luar que orvalha a tamareira e o poço.
Uma vez ou outra, ouvirei
a colherinha pousar na porcelana frágil,
e é tudo que eu ouvirei, a colherinha de prata.
Talvez até lhe disesse uma coisa qualquer, uma coisa
só para quebrar o silêncio, só para isso,
uma coisa sem importância, simples, como por exemplo:
Você sabe, ó T. S. Eliot, minha mãe já foi muito bonita ...
mas tenho
uma vontade mansa de tomar chá
com Thomas Steams Eliot,
de não dizer nada
de não perguntar nada,
e ficar olhando
todas as manchetes e todas as capas
de todos os livros,
olhando de olhos vazios
não como os do morto, mas vazios
como o luar que orvalha a tamareira e o poço.
Uma vez ou outra, ouvirei
a colherinha pousar na porcelana frágil,
e é tudo que eu ouvirei, a colherinha de prata.
Talvez até lhe disesse uma coisa qualquer, uma coisa
só para quebrar o silêncio, só para isso,
uma coisa sem importância, simples, como por exemplo:
Você sabe, ó T. S. Eliot, minha mãe já foi muito bonita ...
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