Poemas neste tema
Outros
Cid Saboia de Carvalho
Êxtase
Esperei por ti neste último poema:
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.
921
Chico Buarque
Paratodos
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista
O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista
O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro
2 305
Claudia Moraes Rego
No seu colo
Cabeça no seu colo
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.
Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.
Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.
1 057
Chico Buarque
Choro bandido
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
1 625
Chico Buarque
Choro bandido
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
1 625
Chico Buarque
Choro bandido
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
1 625
Claudia Moraes Rego
Torturante condenação
Palavras
que palavras
mesmas palavras
jargões e charlas
uneasy words
O silêncio.
Cairá
um dia
sobre o banquete vocabular?
Palavras
sem elas
articulações ainda
orações
outra jaculatórias
apelos
e juras.
Inapetência.
Botar os pingos
em pratos limpos
e como petit pois
comê-los?
Letras
cartas marcadas
de um baralho cansado:
Náusea.
Balbuciante cicio
latir bem alto
palavras
como pedras lançadas ao mar:
vômito em jato.
Palavras como pedras
em três dimensões
para guardar no bolso
e
afundar no mar
e lá
ficar
sepultada --- sob letras
--- sob pedras
Devorando
letras
e os códigos
e motes
duros, atijolados
pesá-los no
fundo do estômago
e
lá ficar
no fundo
do estômago-mar
sepultada --- em pedras
--- em letras
Palavras como pedras
arrancadas
das vísceras de cada Prometeu
e
catapultadas
a uma órbita
em torno
de um buraco
NEGROTÚRGIDO
NOJENTOÚMIDO
e
mudo.
que palavras
mesmas palavras
jargões e charlas
uneasy words
O silêncio.
Cairá
um dia
sobre o banquete vocabular?
Palavras
sem elas
articulações ainda
orações
outra jaculatórias
apelos
e juras.
Inapetência.
Botar os pingos
em pratos limpos
e como petit pois
comê-los?
Letras
cartas marcadas
de um baralho cansado:
Náusea.
Balbuciante cicio
latir bem alto
palavras
como pedras lançadas ao mar:
vômito em jato.
Palavras como pedras
em três dimensões
para guardar no bolso
e
afundar no mar
e lá
ficar
sepultada --- sob letras
--- sob pedras
Devorando
letras
e os códigos
e motes
duros, atijolados
pesá-los no
fundo do estômago
e
lá ficar
no fundo
do estômago-mar
sepultada --- em pedras
--- em letras
Palavras como pedras
arrancadas
das vísceras de cada Prometeu
e
catapultadas
a uma órbita
em torno
de um buraco
NEGROTÚRGIDO
NOJENTOÚMIDO
e
mudo.
758
Claudia Moraes Rego
Torturante condenação
Palavras
que palavras
mesmas palavras
jargões e charlas
uneasy words
O silêncio.
Cairá
um dia
sobre o banquete vocabular?
Palavras
sem elas
articulações ainda
orações
outra jaculatórias
apelos
e juras.
Inapetência.
Botar os pingos
em pratos limpos
e como petit pois
comê-los?
Letras
cartas marcadas
de um baralho cansado:
Náusea.
Balbuciante cicio
latir bem alto
palavras
como pedras lançadas ao mar:
vômito em jato.
Palavras como pedras
em três dimensões
para guardar no bolso
e
afundar no mar
e lá
ficar
sepultada --- sob letras
--- sob pedras
Devorando
letras
e os códigos
e motes
duros, atijolados
pesá-los no
fundo do estômago
e
lá ficar
no fundo
do estômago-mar
sepultada --- em pedras
--- em letras
Palavras como pedras
arrancadas
das vísceras de cada Prometeu
e
catapultadas
a uma órbita
em torno
de um buraco
NEGROTÚRGIDO
NOJENTOÚMIDO
e
mudo.
que palavras
mesmas palavras
jargões e charlas
uneasy words
O silêncio.
Cairá
um dia
sobre o banquete vocabular?
Palavras
sem elas
articulações ainda
orações
outra jaculatórias
apelos
e juras.
Inapetência.
Botar os pingos
em pratos limpos
e como petit pois
comê-los?
Letras
cartas marcadas
de um baralho cansado:
Náusea.
Balbuciante cicio
latir bem alto
palavras
como pedras lançadas ao mar:
vômito em jato.
Palavras como pedras
em três dimensões
para guardar no bolso
e
afundar no mar
e lá
ficar
sepultada --- sob letras
--- sob pedras
Devorando
letras
e os códigos
e motes
duros, atijolados
pesá-los no
fundo do estômago
e
lá ficar
no fundo
do estômago-mar
sepultada --- em pedras
--- em letras
Palavras como pedras
arrancadas
das vísceras de cada Prometeu
e
catapultadas
a uma órbita
em torno
de um buraco
NEGROTÚRGIDO
NOJENTOÚMIDO
e
mudo.
758
Pe. Osvaldo Chaves
Doce e Breve
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
1 085
Cláudio Aguiar
Sextina da Dúvida
Do mundo dos mortais ou só dos anjos?
Quero a resposta já para que a dúvida
nunca prospere; mas se o entendimento
turba-se e vejo seres sem razão,
que pensar do meu corpo e de minh’alma,
se dela um sai e logo outro diz: entra?
Se sobrevive a alma que bem entra
no descuidado corpo, leves anjos
verberam no que é, fazendo que a alma
exista, enquanto se levanta a dúvida
no mundo, deformando-se a razão,
perdendo-se também o entendimento.
Se não é absoluto o entendimento,
mesmo que aprenda dele o que só entra
na matéria, restaura-se a razão.
Quem a desconhecer não verá anjos,
nem precisa chamar a si a dúvida
para chegar a ter outra boa alma.
Como mortal não vi jamais um’alma.
Logo, não vou perder o entendimento.
Com ele não conviveria a dúvida,
que, num relance, em nossos corpos entra.
Se de repente dele expulso os anjos,
que fazer do saber e da razão?
Se algum dia eu ficar sem a razão,
não sei se perderei toda minh’alma
e viverei no limbo com os anjos,
tendo tudo mas sem entendimento,
e até a certeza que em mim já não entra,
muito fará crescer a minha dúvida.
Já que está sempre a porta aberta à dúvida,
entrando a fé ou fugindo a razão,
nada entrará em ti sem o aviso: "entra"!
Se ninguém poderá viver sem alma,
mesmo quando lhe falte o entendimento,
não olvides que em nós habitam anjos.
-- Se você viu anjos, não resta dúvida,
tem entendimento e também razão.
-- Ali vem um’alma e agora em mim entra!
Quero a resposta já para que a dúvida
nunca prospere; mas se o entendimento
turba-se e vejo seres sem razão,
que pensar do meu corpo e de minh’alma,
se dela um sai e logo outro diz: entra?
Se sobrevive a alma que bem entra
no descuidado corpo, leves anjos
verberam no que é, fazendo que a alma
exista, enquanto se levanta a dúvida
no mundo, deformando-se a razão,
perdendo-se também o entendimento.
Se não é absoluto o entendimento,
mesmo que aprenda dele o que só entra
na matéria, restaura-se a razão.
Quem a desconhecer não verá anjos,
nem precisa chamar a si a dúvida
para chegar a ter outra boa alma.
Como mortal não vi jamais um’alma.
Logo, não vou perder o entendimento.
Com ele não conviveria a dúvida,
que, num relance, em nossos corpos entra.
Se de repente dele expulso os anjos,
que fazer do saber e da razão?
Se algum dia eu ficar sem a razão,
não sei se perderei toda minh’alma
e viverei no limbo com os anjos,
tendo tudo mas sem entendimento,
e até a certeza que em mim já não entra,
muito fará crescer a minha dúvida.
Já que está sempre a porta aberta à dúvida,
entrando a fé ou fugindo a razão,
nada entrará em ti sem o aviso: "entra"!
Se ninguém poderá viver sem alma,
mesmo quando lhe falte o entendimento,
não olvides que em nós habitam anjos.
-- Se você viu anjos, não resta dúvida,
tem entendimento e também razão.
-- Ali vem um’alma e agora em mim entra!
862
Cláudio Aguiar
Sextina da Dúvida
Do mundo dos mortais ou só dos anjos?
Quero a resposta já para que a dúvida
nunca prospere; mas se o entendimento
turba-se e vejo seres sem razão,
que pensar do meu corpo e de minh’alma,
se dela um sai e logo outro diz: entra?
Se sobrevive a alma que bem entra
no descuidado corpo, leves anjos
verberam no que é, fazendo que a alma
exista, enquanto se levanta a dúvida
no mundo, deformando-se a razão,
perdendo-se também o entendimento.
Se não é absoluto o entendimento,
mesmo que aprenda dele o que só entra
na matéria, restaura-se a razão.
Quem a desconhecer não verá anjos,
nem precisa chamar a si a dúvida
para chegar a ter outra boa alma.
Como mortal não vi jamais um’alma.
Logo, não vou perder o entendimento.
Com ele não conviveria a dúvida,
que, num relance, em nossos corpos entra.
Se de repente dele expulso os anjos,
que fazer do saber e da razão?
Se algum dia eu ficar sem a razão,
não sei se perderei toda minh’alma
e viverei no limbo com os anjos,
tendo tudo mas sem entendimento,
e até a certeza que em mim já não entra,
muito fará crescer a minha dúvida.
Já que está sempre a porta aberta à dúvida,
entrando a fé ou fugindo a razão,
nada entrará em ti sem o aviso: "entra"!
Se ninguém poderá viver sem alma,
mesmo quando lhe falte o entendimento,
não olvides que em nós habitam anjos.
-- Se você viu anjos, não resta dúvida,
tem entendimento e também razão.
-- Ali vem um’alma e agora em mim entra!
Quero a resposta já para que a dúvida
nunca prospere; mas se o entendimento
turba-se e vejo seres sem razão,
que pensar do meu corpo e de minh’alma,
se dela um sai e logo outro diz: entra?
Se sobrevive a alma que bem entra
no descuidado corpo, leves anjos
verberam no que é, fazendo que a alma
exista, enquanto se levanta a dúvida
no mundo, deformando-se a razão,
perdendo-se também o entendimento.
Se não é absoluto o entendimento,
mesmo que aprenda dele o que só entra
na matéria, restaura-se a razão.
Quem a desconhecer não verá anjos,
nem precisa chamar a si a dúvida
para chegar a ter outra boa alma.
Como mortal não vi jamais um’alma.
Logo, não vou perder o entendimento.
Com ele não conviveria a dúvida,
que, num relance, em nossos corpos entra.
Se de repente dele expulso os anjos,
que fazer do saber e da razão?
Se algum dia eu ficar sem a razão,
não sei se perderei toda minh’alma
e viverei no limbo com os anjos,
tendo tudo mas sem entendimento,
e até a certeza que em mim já não entra,
muito fará crescer a minha dúvida.
Já que está sempre a porta aberta à dúvida,
entrando a fé ou fugindo a razão,
nada entrará em ti sem o aviso: "entra"!
Se ninguém poderá viver sem alma,
mesmo quando lhe falte o entendimento,
não olvides que em nós habitam anjos.
-- Se você viu anjos, não resta dúvida,
tem entendimento e também razão.
-- Ali vem um’alma e agora em mim entra!
862
Claudius Portugal
Exscritos
erro não de errado
erro sim de errante
verdadeiro eu meu
inteiro me sobrevivo
eu em mim mesmo
1
sim siso de tarântulas
a um céu de nós mesmos
despes infinitas gulas
encerrando meio termos
segundo crença popular
singular sintoma vário
vadio em febre delírio
corpos a dançar cantar
sem paisagens meias
a tecer peles teias
bem tenazes tão nús
que marcados pelo dia
és sabor de água fria
entre ritmos de azuis
2
o mar espalha num espelho o ar
peixes, caranguejos, leões marinhos
e eu navegador solto um beija flor
devagarinho linha do horizonte luar
e tu, anjo torto, deitas por cima
pedras do ciúme num jardim das delícias
e pronto porre de lança perfume
exaustos de preguiça visamos dardos
onde rastro línguas nossas carícias
3
a tua presença é bonita. bebo
ainda mais bonita a vida mesmo
quando o desejo é só um abraço
um beijo um riso ou nada mais
que uma mão em outra mão
a tua presença é bonita. sugo
eu só quero o que preciso
da cana faço mel, trigo pão
a tua presença é bonita. hauro
mesmo quando, às vezes, sou amargo
uma lágrima, lua nova, temporais
a tua presença é bonita. consumo
bonita a tua presença bonita
4
tua nudez afirma: não
sala quarto varanda
cozinha e dependências
tua nudez afirma: não
quatro paredes telhado
porta janelas chaves
tua nudez diz: sol
assim como quem diz sim
feito casa que se habita
e ao se deixar habitar caminha-se
certos caminhos de cambiar corredores
tua nudez diz: mar
algo assim horas negro
outras verde branco azul
a tua nudez:
deixemos atravessar o silêncio
silêncio musical a despir carnes nuas
5
que tipo de beleza você: esfinge
pedra dágua, mármore, que tipo
de beleza você: enigma, âncora,
árvore, que tipo de beleza você:
esperma, poltrona, cadafalso, que
tipo de beleza você: esquife,
túnel, pássaro, que: a beleza bela
acende número, peso, medida,
girafa, nuvem, vidro, e a beleza bale
6
vezes estranho olha com olhos
castanhos senta no chão bebe
comigo chá de jasmin. vezes sin
cero toma um porre de gin.
vezes inverno diz: feliz, eterno
e se perde dentro de mim, vezes
exato, lábio de leite e capim.
assim, vezes pés de gato, assim,
vezes boca de tamarindo, vou
te seguindo, horas só rindo
horas em que me mato
os fragmentos são então pedras
à volta da circunferência:
desdobro-me em círculo;
todo meu pequeno universo
em migalhas,
no centro, o quê?
(Roland Barthes)
7
medo: goleiro diante do pênalti
medo: também: a trave
ou a bola na mão
medo: a lâmina acorda crime
também:
corte sublime do pão
medo:
lâmina
lâmina lua nova
também: lua
lua veja
lua lâmina nova
lua lamina aceso
sol
8
segredo não tão segredo
segredo ao teu ouvido
a prisão de teus cabelos
depressa vejo soltá-los
Para um tempo onde digo
assim gosto de tê-los
segredo não mais silêncio
sim desejo todo desejo
que em ti já me vejo
bahia minha fortaleza
não bastar na tua beleza
e bela mais que bela
não a quero nome romance
carta, telefone, enquanto
a vida me diz em canto
bela bem bela bela ela
que me compuz carnívoro
nesta mulher que me devoro
erro sim de errante
verdadeiro eu meu
inteiro me sobrevivo
eu em mim mesmo
1
sim siso de tarântulas
a um céu de nós mesmos
despes infinitas gulas
encerrando meio termos
segundo crença popular
singular sintoma vário
vadio em febre delírio
corpos a dançar cantar
sem paisagens meias
a tecer peles teias
bem tenazes tão nús
que marcados pelo dia
és sabor de água fria
entre ritmos de azuis
2
o mar espalha num espelho o ar
peixes, caranguejos, leões marinhos
e eu navegador solto um beija flor
devagarinho linha do horizonte luar
e tu, anjo torto, deitas por cima
pedras do ciúme num jardim das delícias
e pronto porre de lança perfume
exaustos de preguiça visamos dardos
onde rastro línguas nossas carícias
3
a tua presença é bonita. bebo
ainda mais bonita a vida mesmo
quando o desejo é só um abraço
um beijo um riso ou nada mais
que uma mão em outra mão
a tua presença é bonita. sugo
eu só quero o que preciso
da cana faço mel, trigo pão
a tua presença é bonita. hauro
mesmo quando, às vezes, sou amargo
uma lágrima, lua nova, temporais
a tua presença é bonita. consumo
bonita a tua presença bonita
4
tua nudez afirma: não
sala quarto varanda
cozinha e dependências
tua nudez afirma: não
quatro paredes telhado
porta janelas chaves
tua nudez diz: sol
assim como quem diz sim
feito casa que se habita
e ao se deixar habitar caminha-se
certos caminhos de cambiar corredores
tua nudez diz: mar
algo assim horas negro
outras verde branco azul
a tua nudez:
deixemos atravessar o silêncio
silêncio musical a despir carnes nuas
5
que tipo de beleza você: esfinge
pedra dágua, mármore, que tipo
de beleza você: enigma, âncora,
árvore, que tipo de beleza você:
esperma, poltrona, cadafalso, que
tipo de beleza você: esquife,
túnel, pássaro, que: a beleza bela
acende número, peso, medida,
girafa, nuvem, vidro, e a beleza bale
6
vezes estranho olha com olhos
castanhos senta no chão bebe
comigo chá de jasmin. vezes sin
cero toma um porre de gin.
vezes inverno diz: feliz, eterno
e se perde dentro de mim, vezes
exato, lábio de leite e capim.
assim, vezes pés de gato, assim,
vezes boca de tamarindo, vou
te seguindo, horas só rindo
horas em que me mato
os fragmentos são então pedras
à volta da circunferência:
desdobro-me em círculo;
todo meu pequeno universo
em migalhas,
no centro, o quê?
(Roland Barthes)
7
medo: goleiro diante do pênalti
medo: também: a trave
ou a bola na mão
medo: a lâmina acorda crime
também:
corte sublime do pão
medo:
lâmina
lâmina lua nova
também: lua
lua veja
lua lâmina nova
lua lamina aceso
sol
8
segredo não tão segredo
segredo ao teu ouvido
a prisão de teus cabelos
depressa vejo soltá-los
Para um tempo onde digo
assim gosto de tê-los
segredo não mais silêncio
sim desejo todo desejo
que em ti já me vejo
bahia minha fortaleza
não bastar na tua beleza
e bela mais que bela
não a quero nome romance
carta, telefone, enquanto
a vida me diz em canto
bela bem bela bela ela
que me compuz carnívoro
nesta mulher que me devoro
1 112
Chacal
Na porta lá de casa
Na porta lá de casa
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.
4 647
Claudius Portugal
Pelo Amor
pelo amor
palavra
que diga
sim
palavra
que diga
não
pelo amor
palavra
:
o amor
em si
jamais
cilada
nenhuma
pergunta
palavra
que diga
sim
palavra
que diga
não
pelo amor
palavra
:
o amor
em si
jamais
cilada
nenhuma
pergunta
1 312
Claudia Moraes Rego
Exílio e Miopia (para Julia)
"Olha o balão!"
Não via.
Não falava nada.
"Olha o gavião!"
Não via.
Calava.
"Olha o Cristo Redentor!"
Puxa, não via!
Mas fingia
"O bondinho!"
Nada.
Era assim.
Certamente,
sem dúvida nenhuma,
fazia parte
(tinha caído do lado)
da tribo dos exilados
do prazer.
Não via.
Não falava nada.
"Olha o gavião!"
Não via.
Calava.
"Olha o Cristo Redentor!"
Puxa, não via!
Mas fingia
"O bondinho!"
Nada.
Era assim.
Certamente,
sem dúvida nenhuma,
fazia parte
(tinha caído do lado)
da tribo dos exilados
do prazer.
884
Cleonice Rainho
Poesia e Flor
Uma rosa de alegria
não pode durar um dia.
Um lírio de haste frágil
precisa de um braço ágil.
Margarida branca ou amarela
— exemplo de vida singela.
Um cravo não nos embala
só pelo perfume que exala.
Amor-perfeito, nome e flor
lembram um bem superior.
Nem tudo uma flor nos diz
apenas pelo seu matiz.
Cai a tarde, a noite vem
e a flor repousa também.
Veja a flor como é feliz
quando alimenta os colibris.
Anjos sobrevoaram a natureza
trazendo às flores beleza.
E nesse momento de amor
Deus uniu Poesia e Flor.
não pode durar um dia.
Um lírio de haste frágil
precisa de um braço ágil.
Margarida branca ou amarela
— exemplo de vida singela.
Um cravo não nos embala
só pelo perfume que exala.
Amor-perfeito, nome e flor
lembram um bem superior.
Nem tudo uma flor nos diz
apenas pelo seu matiz.
Cai a tarde, a noite vem
e a flor repousa também.
Veja a flor como é feliz
quando alimenta os colibris.
Anjos sobrevoaram a natureza
trazendo às flores beleza.
E nesse momento de amor
Deus uniu Poesia e Flor.
1 109
Cleonice Rainho
Poesia e Flor
Uma rosa de alegria
não pode durar um dia.
Um lírio de haste frágil
precisa de um braço ágil.
Margarida branca ou amarela
— exemplo de vida singela.
Um cravo não nos embala
só pelo perfume que exala.
Amor-perfeito, nome e flor
lembram um bem superior.
Nem tudo uma flor nos diz
apenas pelo seu matiz.
Cai a tarde, a noite vem
e a flor repousa também.
Veja a flor como é feliz
quando alimenta os colibris.
Anjos sobrevoaram a natureza
trazendo às flores beleza.
E nesse momento de amor
Deus uniu Poesia e Flor.
não pode durar um dia.
Um lírio de haste frágil
precisa de um braço ágil.
Margarida branca ou amarela
— exemplo de vida singela.
Um cravo não nos embala
só pelo perfume que exala.
Amor-perfeito, nome e flor
lembram um bem superior.
Nem tudo uma flor nos diz
apenas pelo seu matiz.
Cai a tarde, a noite vem
e a flor repousa também.
Veja a flor como é feliz
quando alimenta os colibris.
Anjos sobrevoaram a natureza
trazendo às flores beleza.
E nesse momento de amor
Deus uniu Poesia e Flor.
1 109
Cleonice Rainho
Poesia e Flor
Uma rosa de alegria
não pode durar um dia.
Um lírio de haste frágil
precisa de um braço ágil.
Margarida branca ou amarela
— exemplo de vida singela.
Um cravo não nos embala
só pelo perfume que exala.
Amor-perfeito, nome e flor
lembram um bem superior.
Nem tudo uma flor nos diz
apenas pelo seu matiz.
Cai a tarde, a noite vem
e a flor repousa também.
Veja a flor como é feliz
quando alimenta os colibris.
Anjos sobrevoaram a natureza
trazendo às flores beleza.
E nesse momento de amor
Deus uniu Poesia e Flor.
não pode durar um dia.
Um lírio de haste frágil
precisa de um braço ágil.
Margarida branca ou amarela
— exemplo de vida singela.
Um cravo não nos embala
só pelo perfume que exala.
Amor-perfeito, nome e flor
lembram um bem superior.
Nem tudo uma flor nos diz
apenas pelo seu matiz.
Cai a tarde, a noite vem
e a flor repousa também.
Veja a flor como é feliz
quando alimenta os colibris.
Anjos sobrevoaram a natureza
trazendo às flores beleza.
E nesse momento de amor
Deus uniu Poesia e Flor.
1 109
Chico Buarque
Gente Humilde
Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Como um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo num subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio, peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Como um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo num subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio, peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar
1 994
Pe. Osvaldo Chaves
Culto de Ricardo Reis
A um infiel
Horácio é um rio...
Batiza-te, infiel, nas santas águas,
Receberás o espírito!
Mergulha de uma vez,
Terás em plenitude
A graça e a saúde
Para entender e amar Ricardo Reis.
Horácio é um rio...
Batiza-te, infiel, nas santas águas,
Receberás o espírito!
Mergulha de uma vez,
Terás em plenitude
A graça e a saúde
Para entender e amar Ricardo Reis.
964
Pe. Osvaldo Chaves
Culto de Ricardo Reis
A um infiel
Horácio é um rio...
Batiza-te, infiel, nas santas águas,
Receberás o espírito!
Mergulha de uma vez,
Terás em plenitude
A graça e a saúde
Para entender e amar Ricardo Reis.
Horácio é um rio...
Batiza-te, infiel, nas santas águas,
Receberás o espírito!
Mergulha de uma vez,
Terás em plenitude
A graça e a saúde
Para entender e amar Ricardo Reis.
964
Cleonice Rainho
Quintal de Sonho
A menina dorme
e uma cortina
branca e leve
cobre seus olhos
no quarto enorme
e sem paredes.
Crescem cenouras, tomates,
rabanetes, beterrabas,
legumes coloridos
que colorem sua cabeça
num quintal de Sonho,
na horta do Amor
que não precisa de adubo,
nem de enxada,
nem de capinador.
A menina acorda
à hora da colheita
e dá "Bom-dia!"
aos lindos legumes
que não vai comer.
São da horta do Amor
e um a um vai oferecer.
e uma cortina
branca e leve
cobre seus olhos
no quarto enorme
e sem paredes.
Crescem cenouras, tomates,
rabanetes, beterrabas,
legumes coloridos
que colorem sua cabeça
num quintal de Sonho,
na horta do Amor
que não precisa de adubo,
nem de enxada,
nem de capinador.
A menina acorda
à hora da colheita
e dá "Bom-dia!"
aos lindos legumes
que não vai comer.
São da horta do Amor
e um a um vai oferecer.
1 237
Chagas Correia
Consciência
Bebo água e silêncio
como se estivesse lavando a candelária
e acendo um poema em cada canto da casa
queimando álibis como incensos
com claro perfume de ângulos e ácaros
Engulo meus próprios olhos numa refeição lívida
sem mais nada para pôr sobre a toalha da mesa
e saio pela palavra porta
rangendo as dobradiças da paisagem
na abissal tristeza de um país baldio
que nos esquece como guarda-chuvas.
como se estivesse lavando a candelária
e acendo um poema em cada canto da casa
queimando álibis como incensos
com claro perfume de ângulos e ácaros
Engulo meus próprios olhos numa refeição lívida
sem mais nada para pôr sobre a toalha da mesa
e saio pela palavra porta
rangendo as dobradiças da paisagem
na abissal tristeza de um país baldio
que nos esquece como guarda-chuvas.
1 035
Chagas Correia
Consciência
Bebo água e silêncio
como se estivesse lavando a candelária
e acendo um poema em cada canto da casa
queimando álibis como incensos
com claro perfume de ângulos e ácaros
Engulo meus próprios olhos numa refeição lívida
sem mais nada para pôr sobre a toalha da mesa
e saio pela palavra porta
rangendo as dobradiças da paisagem
na abissal tristeza de um país baldio
que nos esquece como guarda-chuvas.
como se estivesse lavando a candelária
e acendo um poema em cada canto da casa
queimando álibis como incensos
com claro perfume de ângulos e ácaros
Engulo meus próprios olhos numa refeição lívida
sem mais nada para pôr sobre a toalha da mesa
e saio pela palavra porta
rangendo as dobradiças da paisagem
na abissal tristeza de um país baldio
que nos esquece como guarda-chuvas.
1 035