Poemas neste tema
Outros
Bento Prado Júnior
A Rendeira
Rendeira, boa rendeira
não deixarás de tecer,
que o tecido é trabalheira,
que a gente, queira ou não queira,
há de ter a vida inteira,
como castigo e prazer...
Desde que o dia amanhece,
rendeira tece que tece,
não pára de tecer...
E o branco urdume entretece,
com o alvor da sua prece
roubado do amanhecer!
Tem na renda o seu cuidado,
tece-a para o seu noivado...
Mais alva não pode ser!
Mas por arte do malvado,
não tinha o lavor findado,
fere a sua nívea mão...
E o sangue corre encarnado
mancha-lhe todo o rendado...
Quanta dor no coração!
E a rendeira se entristece,
pois na renda que ela tece,
a imagem da vida tem,
cujo tecido oferece
manchas de sangue também...
Rendeira boa rendeira,
não deixarás de tecer,
que o tecido é trabalheira,
que a gente, queira ou não queira,
há de ter a vida inteira,
como castigo e prazer...
não deixarás de tecer,
que o tecido é trabalheira,
que a gente, queira ou não queira,
há de ter a vida inteira,
como castigo e prazer...
Desde que o dia amanhece,
rendeira tece que tece,
não pára de tecer...
E o branco urdume entretece,
com o alvor da sua prece
roubado do amanhecer!
Tem na renda o seu cuidado,
tece-a para o seu noivado...
Mais alva não pode ser!
Mas por arte do malvado,
não tinha o lavor findado,
fere a sua nívea mão...
E o sangue corre encarnado
mancha-lhe todo o rendado...
Quanta dor no coração!
E a rendeira se entristece,
pois na renda que ela tece,
a imagem da vida tem,
cujo tecido oferece
manchas de sangue também...
Rendeira boa rendeira,
não deixarás de tecer,
que o tecido é trabalheira,
que a gente, queira ou não queira,
há de ter a vida inteira,
como castigo e prazer...
2 139
Bento Prado Júnior
II
A Manoel Carlos
Amadureceu em mim
esta palavra e pronta para o vôo,
depois de exaurir o que ofertava
a ela o corpo gasto pelo esforço
surdo da criação, deslizou pela
boca. E agora que resta, cumprido
este exercício lento e grave da
revelação, se apenas o arremedo,
ineficaz ensaio de verdade,
foi alcançado? Resta a exaustão,
mãos trêmulas, a cara contra o chão,
resta o lamento. Resta o reinício,
a longa e calcinada espera. Resta-me
reter a força para o outro gesto.
Amadureceu em mim
esta palavra e pronta para o vôo,
depois de exaurir o que ofertava
a ela o corpo gasto pelo esforço
surdo da criação, deslizou pela
boca. E agora que resta, cumprido
este exercício lento e grave da
revelação, se apenas o arremedo,
ineficaz ensaio de verdade,
foi alcançado? Resta a exaustão,
mãos trêmulas, a cara contra o chão,
resta o lamento. Resta o reinício,
a longa e calcinada espera. Resta-me
reter a força para o outro gesto.
1 192
Bento Prado Júnior
II
A Manoel Carlos
Amadureceu em mim
esta palavra e pronta para o vôo,
depois de exaurir o que ofertava
a ela o corpo gasto pelo esforço
surdo da criação, deslizou pela
boca. E agora que resta, cumprido
este exercício lento e grave da
revelação, se apenas o arremedo,
ineficaz ensaio de verdade,
foi alcançado? Resta a exaustão,
mãos trêmulas, a cara contra o chão,
resta o lamento. Resta o reinício,
a longa e calcinada espera. Resta-me
reter a força para o outro gesto.
Amadureceu em mim
esta palavra e pronta para o vôo,
depois de exaurir o que ofertava
a ela o corpo gasto pelo esforço
surdo da criação, deslizou pela
boca. E agora que resta, cumprido
este exercício lento e grave da
revelação, se apenas o arremedo,
ineficaz ensaio de verdade,
foi alcançado? Resta a exaustão,
mãos trêmulas, a cara contra o chão,
resta o lamento. Resta o reinício,
a longa e calcinada espera. Resta-me
reter a força para o outro gesto.
1 192
Bento Prado Júnior
A Minha Cruz
Esta cruz que me coube por herança,
sofrê-la-ei, Senhor, como ela veio:
não vos peço afasteis vossa vingança
que mereço,-bem sei,- sofrê-la em cheio.
Mas não me abandoneis, porque receio
não ser capaz da dor que já me cansa:
acudi-me, Senhor, vós, força e meio,
com que a vitória sôbre o mal se alcança!
Que eu, refeito de forças, assim possa,
com a oferta tão só das minhas dores,
oferecer-vos coisa de valia!
Sinta eu viva a impressão que é força vossa
minha vitória sobre os dissabores,
e que sois toda a minha valentia!
sofrê-la-ei, Senhor, como ela veio:
não vos peço afasteis vossa vingança
que mereço,-bem sei,- sofrê-la em cheio.
Mas não me abandoneis, porque receio
não ser capaz da dor que já me cansa:
acudi-me, Senhor, vós, força e meio,
com que a vitória sôbre o mal se alcança!
Que eu, refeito de forças, assim possa,
com a oferta tão só das minhas dores,
oferecer-vos coisa de valia!
Sinta eu viva a impressão que é força vossa
minha vitória sobre os dissabores,
e que sois toda a minha valentia!
1 257
Birão Santana
Ri Dentes
Assim como as plantas
a borboleta sorria.
Eu sorria
e o vento sorria.
Simples,
o quadro.
Profundo,
o momento.
Intraduzível
o que se passou.
Com as plantas,
a borboleta,
eu
e o vento,
ridentes.
a borboleta sorria.
Eu sorria
e o vento sorria.
Simples,
o quadro.
Profundo,
o momento.
Intraduzível
o que se passou.
Com as plantas,
a borboleta,
eu
e o vento,
ridentes.
1 172
Costa Andrade
Dádiva
Sou mais forte que o silêncio dos muxitos
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.
Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.
...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.
Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.
...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.
1 334
Bráulio de Abreu
Semeador
Busca semear, na vida, o próspero e fecundo
Grão do teu sentimento. E verás, algum dia,
A árvore produzir, para a glória do mundo,
Flores e frutos bons, de humildade e alegria.
Vela o sono fugaz do infeliz moribundo,
E esquece a própria dor que tanto te angustia,
Porque o alheio mal é maior, mais profundo,
E o teu destino é encher a mão que está vazia.
Pede a Deus, que te vê da pupila dos astros,
Pelos que vivem sós, pelo destino incerto
Desses que vão e vêm, onde há velas e mastros.
E nunca, em toda a vida, o desamor te vença
Teu dever é florir o mais bruto deserto,
Sem, ao menos, pensar na menor recompensa.
Grão do teu sentimento. E verás, algum dia,
A árvore produzir, para a glória do mundo,
Flores e frutos bons, de humildade e alegria.
Vela o sono fugaz do infeliz moribundo,
E esquece a própria dor que tanto te angustia,
Porque o alheio mal é maior, mais profundo,
E o teu destino é encher a mão que está vazia.
Pede a Deus, que te vê da pupila dos astros,
Pelos que vivem sós, pelo destino incerto
Desses que vão e vêm, onde há velas e mastros.
E nunca, em toda a vida, o desamor te vença
Teu dever é florir o mais bruto deserto,
Sem, ao menos, pensar na menor recompensa.
1 938
Bento Prado Júnior
Como se engana o século presente
Como se engana o século presente,
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!
Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.
Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,
onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!
Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.
Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,
onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!
1 352
Bento Prado Júnior
Como se engana o século presente
Como se engana o século presente,
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!
Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.
Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,
onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!
Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.
Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,
onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!
1 352
Bernardim Ribeiro
Cantiga
da Menina e Moça
Pensando-vos estou, filha;
vossa mãe me está lembrando;
enchem-se-me os olhos dágua,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa mãe era finida,
nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
não sei onde isto há de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que pôs mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós.
Não houve em fados razão,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se há de queixar.
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
não fôreis vós se eu não fora;
não sei se fiz mal, se bem.
Mas não pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes.
Conforto mas duvidoso,
me é este que tomo assim;
Deus vos dê melhor ventura
da que tivestes até aqui.
Que a dita e a formosura
dizem patranhas antigas,
que pelejaram um dia,
sendo dantes muito amigas.
Muitos hão que é fantasia;
eu, que vi tempos e anos,
nenhuma coisa duvido
como ela é azo de danos.
Mas nenhum mal não é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança,
em ambas há uma mudança,
em ambas há um cuidado.
Pensando-vos estou, filha;
vossa mãe me está lembrando;
enchem-se-me os olhos dágua,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa mãe era finida,
nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
não sei onde isto há de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que pôs mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós.
Não houve em fados razão,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se há de queixar.
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
não fôreis vós se eu não fora;
não sei se fiz mal, se bem.
Mas não pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes.
Conforto mas duvidoso,
me é este que tomo assim;
Deus vos dê melhor ventura
da que tivestes até aqui.
Que a dita e a formosura
dizem patranhas antigas,
que pelejaram um dia,
sendo dantes muito amigas.
Muitos hão que é fantasia;
eu, que vi tempos e anos,
nenhuma coisa duvido
como ela é azo de danos.
Mas nenhum mal não é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança,
em ambas há uma mudança,
em ambas há um cuidado.
2 585
Clodoveu A. de Almeida
Saudades
Tardes cor de ouro,
violáceas, afetuosas.
Tardes de pressentimento, de meditação,
que inundais de perfume e que cobris de rosas
meigos recantos de meu coração.
Tardes de doçura e recolhimento,
aveludadas, de arminho
Insinuais a delícia do carinho
e a beleza sem par do querer bem.
Enfeitais o infinito em linda cor de vinho,
lembrais a suavidade espiritual de alguém.
Vós que viveis acompanhando
toda a melancolia de meu ser,
ide longe, longe, para quem eu amo
dizei-lhe coisas que não sei dizer.
Tardes de reclínio, tardes de bondade,
cheias de mansidão crepuscular,
ide, contai-lhe esta agônica saudade
dizei-lhe da Amizade,
do amor
e do pesar...
Voai, voai, através destes espaços,
tardes religiosas, tardes calmas
e levai-lhe o aconchego de meus braços
uní eternamente as nossas almas.
violáceas, afetuosas.
Tardes de pressentimento, de meditação,
que inundais de perfume e que cobris de rosas
meigos recantos de meu coração.
Tardes de doçura e recolhimento,
aveludadas, de arminho
Insinuais a delícia do carinho
e a beleza sem par do querer bem.
Enfeitais o infinito em linda cor de vinho,
lembrais a suavidade espiritual de alguém.
Vós que viveis acompanhando
toda a melancolia de meu ser,
ide longe, longe, para quem eu amo
dizei-lhe coisas que não sei dizer.
Tardes de reclínio, tardes de bondade,
cheias de mansidão crepuscular,
ide, contai-lhe esta agônica saudade
dizei-lhe da Amizade,
do amor
e do pesar...
Voai, voai, através destes espaços,
tardes religiosas, tardes calmas
e levai-lhe o aconchego de meus braços
uní eternamente as nossas almas.
1 149
Júlio Maciel
Boigrafia
(l888-1967)
Estamos nos aproximando cada vez mais da fase pré-modernista e do Modernismo, quando muitos poetas já vão tentando, por conhecimento ou intuitivamente, deixar a ortodoxia do Simbolismo e do Parnasianismo, mas, curiosamente, fazendo ainda reverência ao sentimento romântico. No caso de Júlio Maciel, quando larga as amarras formais (sonetos de rimas irregulares), assina seus versos com pseudônimo.
Júlio Barbosa Maciel nasceu em Baturité, no dia 28 de abril de 1888 e cedo transferiu-se para Fortaleza, onde estudou no Colégio Colombo e no Liceu do Ceará. Viaja para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade de Direito. Formado, volta ao Ceará e terá um grande périplo como Promotor Público pelo interior do Estado, Quixeramobim, Baturité, Crato. Foi juiz ainda em Caririaçu, Cedro, Assare, Icó, Russas, Granja.
Como poeta, começa cedo Júlio Maciel a lidar com os versos, publicando seus sonetos nas revistas 31 de Agosto e Fortaleza, isso quando andava ainda pelos quinze anos de idade, em 1902. Ainda colabora noutra revista de Joaquim Pimenta, Terra da Luz, em 1908. Os poemas reunidos, em livro de estréia, só saíriam em 1918, Terra Mártir. O segundo livro só virá em 1943, Poemas da Solidão.
Obra poética definida, os cearenses destacam dois, de fato, extraordinários sonetos de Júlio Maciel, Jacarecanga e Verde, em que o poeta, com dicção forte e pessoal, exalta o passado histórico do Ceará e o verde na "ressurreição do Sertão rudo".
Para o crítico e também poeta Sânzio de Azevedo, o segundo soneto citado é "um dos mais belos de toda a poesia cearense", pelo apuro formal, pelo lirismo, e que poderá ser lido daqui a vinte anos "com o mesmo prazer estético, sem o ranço que costumam criar as ortodoxias".
Júlio Maciel pertenceu à Academia Cearense de Letras, onde ocupou a Cadeira de nº 28, patrono Mário da Silveira. Morreu em Fortaleza no dia 8 de abril de 1967.
Estamos nos aproximando cada vez mais da fase pré-modernista e do Modernismo, quando muitos poetas já vão tentando, por conhecimento ou intuitivamente, deixar a ortodoxia do Simbolismo e do Parnasianismo, mas, curiosamente, fazendo ainda reverência ao sentimento romântico. No caso de Júlio Maciel, quando larga as amarras formais (sonetos de rimas irregulares), assina seus versos com pseudônimo.
Júlio Barbosa Maciel nasceu em Baturité, no dia 28 de abril de 1888 e cedo transferiu-se para Fortaleza, onde estudou no Colégio Colombo e no Liceu do Ceará. Viaja para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade de Direito. Formado, volta ao Ceará e terá um grande périplo como Promotor Público pelo interior do Estado, Quixeramobim, Baturité, Crato. Foi juiz ainda em Caririaçu, Cedro, Assare, Icó, Russas, Granja.
Como poeta, começa cedo Júlio Maciel a lidar com os versos, publicando seus sonetos nas revistas 31 de Agosto e Fortaleza, isso quando andava ainda pelos quinze anos de idade, em 1902. Ainda colabora noutra revista de Joaquim Pimenta, Terra da Luz, em 1908. Os poemas reunidos, em livro de estréia, só saíriam em 1918, Terra Mártir. O segundo livro só virá em 1943, Poemas da Solidão.
Obra poética definida, os cearenses destacam dois, de fato, extraordinários sonetos de Júlio Maciel, Jacarecanga e Verde, em que o poeta, com dicção forte e pessoal, exalta o passado histórico do Ceará e o verde na "ressurreição do Sertão rudo".
Para o crítico e também poeta Sânzio de Azevedo, o segundo soneto citado é "um dos mais belos de toda a poesia cearense", pelo apuro formal, pelo lirismo, e que poderá ser lido daqui a vinte anos "com o mesmo prazer estético, sem o ranço que costumam criar as ortodoxias".
Júlio Maciel pertenceu à Academia Cearense de Letras, onde ocupou a Cadeira de nº 28, patrono Mário da Silveira. Morreu em Fortaleza no dia 8 de abril de 1967.
1 223
Bruno Seabra
Moreninha
— Moreninha, dás-me um beijo.
— E o que me dá, meu senhor?
— Este cravo...
— Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.
— Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
— Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera com a flor;
Tanto pano por um beijo...
Sai-lhe caro, meu senhor.
— Anda cá... ouve um segredo...
— Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre; eu falo muito,
Toda mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo. ..
Pelos modos que lhe vejo
Quer o meu beijo de graça,
Um segredo por um beijo?!
— Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
Acha, pois? e o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?
— Quem dera que tu quisesses...
— Não duvide, que o farei;
Meu senhor, case com ela,
A rainha o fará rei...
— Casar-me?... ainda sou tão moço...
— Como é criança esta ovelha!
Pois eu pra beijar crianças,
Adeusinho, já sou velha.
— E o que me dá, meu senhor?
— Este cravo...
— Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.
— Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
— Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera com a flor;
Tanto pano por um beijo...
Sai-lhe caro, meu senhor.
— Anda cá... ouve um segredo...
— Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre; eu falo muito,
Toda mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo. ..
Pelos modos que lhe vejo
Quer o meu beijo de graça,
Um segredo por um beijo?!
— Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
Acha, pois? e o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?
— Quem dera que tu quisesses...
— Não duvide, que o farei;
Meu senhor, case com ela,
A rainha o fará rei...
— Casar-me?... ainda sou tão moço...
— Como é criança esta ovelha!
Pois eu pra beijar crianças,
Adeusinho, já sou velha.
951
Carlos Augusto Corrêa
Elegia Sem Posse
mesmo solto na altura dos bêbados
tenha o gosto e a certeza do pó
que trago no chão de cada dia
onde no sonho me desgarro
querendo a noite maior
atravesso sem redenção
o rio que transporta
à noite da eternidade:
ó gueto, raiz que não furo
e quase lhe alcanço a entrada
mas minha imagem dilui-se
em meu sonho embriagado
quando em peso a noite desaba
entre o vinho e esse tráfego
na calçada que não agride
lambendo a borra nos lábios
e mastigando o lamento
por essa investia em vão —
não estou de posse da carne
estou repleto do que falta.
tenha o gosto e a certeza do pó
que trago no chão de cada dia
onde no sonho me desgarro
querendo a noite maior
atravesso sem redenção
o rio que transporta
à noite da eternidade:
ó gueto, raiz que não furo
e quase lhe alcanço a entrada
mas minha imagem dilui-se
em meu sonho embriagado
quando em peso a noite desaba
entre o vinho e esse tráfego
na calçada que não agride
lambendo a borra nos lábios
e mastigando o lamento
por essa investia em vão —
não estou de posse da carne
estou repleto do que falta.
1 008
Barros Alves
O Nascimento do Salvador
Era triste e dorida a madrugada.
Nenhum gesto do tempo, nenhum som
Que pré-anunciasse algo de bom
Naquela estrebaria abandonada...
Não se via andarilho pela estrada
Que levava à cidade de Belém.
Nenhuma alma vivente. Ali, ninguém.
Somente um carpinteiro e sua amada.
E em meio aos animais da estrebaria,
Do ventre puro e excelso de Maria
Surgiu a Luz do Amor, a Claridade...
O mundo se encantou naquele dia.
Hosana nas alturas!, se ouviria.
Nascera o Salvador da Humanidade.
Nenhum gesto do tempo, nenhum som
Que pré-anunciasse algo de bom
Naquela estrebaria abandonada...
Não se via andarilho pela estrada
Que levava à cidade de Belém.
Nenhuma alma vivente. Ali, ninguém.
Somente um carpinteiro e sua amada.
E em meio aos animais da estrebaria,
Do ventre puro e excelso de Maria
Surgiu a Luz do Amor, a Claridade...
O mundo se encantou naquele dia.
Hosana nas alturas!, se ouviria.
Nascera o Salvador da Humanidade.
525
Batista de Lima
Só
O que faz mais dura a solidão
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
1 059
Batista de Lima
Só
O que faz mais dura a solidão
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
1 059
Alcides Werk
Estudo VII
Eis-me aqui nesta ausência de mim mesmo.
Posso agora buscar-me neste estranho
que uma falta de amparo, uma incerteza
de mim denunciou, sem mágoa ou custo.
Amo esta solidão porque me assiste
e me ensina o que sou. Todo o tumulto
desses rostos vazios, que não vivo,
dessas vozes que escuto, mas não sei,
dá-me a clara certeza de que existo
apenas para o amor que tu me dás
integralmente, para o dom tranqüilo
que procede de ti, como um roteiro.
E assim, nessa distância, se me busco,
vejo um gesto de amor, que te ofereço.
Posso agora buscar-me neste estranho
que uma falta de amparo, uma incerteza
de mim denunciou, sem mágoa ou custo.
Amo esta solidão porque me assiste
e me ensina o que sou. Todo o tumulto
desses rostos vazios, que não vivo,
dessas vozes que escuto, mas não sei,
dá-me a clara certeza de que existo
apenas para o amor que tu me dás
integralmente, para o dom tranqüilo
que procede de ti, como um roteiro.
E assim, nessa distância, se me busco,
vejo um gesto de amor, que te ofereço.
1 060
Batista de Lima
Pródigo
Sempre retorno para casa
não para a casa
para onde sempre retorno
Retorno para uma outra casa
que carrego aos ombros
para outra casa
que me carrega aos ombros
Sempre carrego essa casa do retorno
que cabe em qualquer casa
e não cabe em casa alguma
Não adianta a casa onde nasci
nem a casa onde todo dia nasço
A casa que carrego
não tem portas nem paredes
nem ocupa terreno algum
A casa que carrego
é apenas uma casa
uma profunda e vasta casa
não para a casa
para onde sempre retorno
Retorno para uma outra casa
que carrego aos ombros
para outra casa
que me carrega aos ombros
Sempre carrego essa casa do retorno
que cabe em qualquer casa
e não cabe em casa alguma
Não adianta a casa onde nasci
nem a casa onde todo dia nasço
A casa que carrego
não tem portas nem paredes
nem ocupa terreno algum
A casa que carrego
é apenas uma casa
uma profunda e vasta casa
1 124
Benedito C. G. Lima
Desejos Finais
Não quero
palavras que ecoem ocas, falsas;
não quero luzes
acesas,
velas brilhando,
apertos de mãos de peixe morto,
mãos de ovo,
mãos de bife,
nem abraços de Tamanduá,
nem beijos de Judas
quando a minha alma se desmontar
da carne
e amanhecer já noutra vida.
Morto, quero ficar em paz
poemamente versejando
e que o meu corpo
se desfaça no espaço da estrofe
e vire folhas,
páginas para quem me quiser ler.
palavras que ecoem ocas, falsas;
não quero luzes
acesas,
velas brilhando,
apertos de mãos de peixe morto,
mãos de ovo,
mãos de bife,
nem abraços de Tamanduá,
nem beijos de Judas
quando a minha alma se desmontar
da carne
e amanhecer já noutra vida.
Morto, quero ficar em paz
poemamente versejando
e que o meu corpo
se desfaça no espaço da estrofe
e vire folhas,
páginas para quem me quiser ler.
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Benedito C. G. Lima
Desejos Finais
Não quero
palavras que ecoem ocas, falsas;
não quero luzes
acesas,
velas brilhando,
apertos de mãos de peixe morto,
mãos de ovo,
mãos de bife,
nem abraços de Tamanduá,
nem beijos de Judas
quando a minha alma se desmontar
da carne
e amanhecer já noutra vida.
Morto, quero ficar em paz
poemamente versejando
e que o meu corpo
se desfaça no espaço da estrofe
e vire folhas,
páginas para quem me quiser ler.
palavras que ecoem ocas, falsas;
não quero luzes
acesas,
velas brilhando,
apertos de mãos de peixe morto,
mãos de ovo,
mãos de bife,
nem abraços de Tamanduá,
nem beijos de Judas
quando a minha alma se desmontar
da carne
e amanhecer já noutra vida.
Morto, quero ficar em paz
poemamente versejando
e que o meu corpo
se desfaça no espaço da estrofe
e vire folhas,
páginas para quem me quiser ler.
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Benedito C. G. Lima
Desejos Finais
Não quero
palavras que ecoem ocas, falsas;
não quero luzes
acesas,
velas brilhando,
apertos de mãos de peixe morto,
mãos de ovo,
mãos de bife,
nem abraços de Tamanduá,
nem beijos de Judas
quando a minha alma se desmontar
da carne
e amanhecer já noutra vida.
Morto, quero ficar em paz
poemamente versejando
e que o meu corpo
se desfaça no espaço da estrofe
e vire folhas,
páginas para quem me quiser ler.
palavras que ecoem ocas, falsas;
não quero luzes
acesas,
velas brilhando,
apertos de mãos de peixe morto,
mãos de ovo,
mãos de bife,
nem abraços de Tamanduá,
nem beijos de Judas
quando a minha alma se desmontar
da carne
e amanhecer já noutra vida.
Morto, quero ficar em paz
poemamente versejando
e que o meu corpo
se desfaça no espaço da estrofe
e vire folhas,
páginas para quem me quiser ler.
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