Poemas neste tema
Beleza
Jorge Viegas
Amanhã é Longe Demais
Fragmentos
sensíveis
Andam pelo tempo
Marcando o ritmo
Do voo das aves invisíveis
Doces melancolias
Desfazem-se pelos mistérios dos olhares
A beleza navega pelos sete mares
Diluída no brilho dos sonhos
Sombras de movimentos ancestrais
Dançam a beleza da luz imaculada
Por entre os astros do silêncio
Libertando transparências sentimentais.
Na baía das lendas
Abraçando a leveza dos espíritos
Gotas cristalinas de fontes eternas
Escorrem suavemente sonhadoras
Libertam o agora
Das profundezas do sonho da vida
E a sombra misteriosamente adormecida
Diz-nos que chegou a hora.
sensíveis
Andam pelo tempo
Marcando o ritmo
Do voo das aves invisíveis
Doces melancolias
Desfazem-se pelos mistérios dos olhares
A beleza navega pelos sete mares
Diluída no brilho dos sonhos
Sombras de movimentos ancestrais
Dançam a beleza da luz imaculada
Por entre os astros do silêncio
Libertando transparências sentimentais.
Na baía das lendas
Abraçando a leveza dos espíritos
Gotas cristalinas de fontes eternas
Escorrem suavemente sonhadoras
Libertam o agora
Das profundezas do sonho da vida
E a sombra misteriosamente adormecida
Diz-nos que chegou a hora.
1 339
Regina Souza Vieira
Le Papillon
Ah! papillon
colorida
Multiformatos de vôo
Hélices de esperança,
de dor e de mil cores
qual voadora transporta
a sorte ou a má notícia
depende da venturança
de quem batas à porta
Oiseau sem muito tempo
Chegando e já quase se indo
Se te a vida desse demoras
ou se ficasses por horas
Nos ensinarias teu mistério
Ficas no mundo etéreo
Céu que evola seus birds
Pappillon de tantas cores
Nem sempre nos trazes
Só passarinhos verdes
És meio ave, meio flor
Pappilon de encantos
És mística no teu pouso
Incógnita, nos anuncias
Risos, às vezes, prantos.
Elevaste o meu espírito
Assustaste-me certo dia
Papillon, bird que amo
Bela é essa tua magia.
colorida
Multiformatos de vôo
Hélices de esperança,
de dor e de mil cores
qual voadora transporta
a sorte ou a má notícia
depende da venturança
de quem batas à porta
Oiseau sem muito tempo
Chegando e já quase se indo
Se te a vida desse demoras
ou se ficasses por horas
Nos ensinarias teu mistério
Ficas no mundo etéreo
Céu que evola seus birds
Pappillon de tantas cores
Nem sempre nos trazes
Só passarinhos verdes
És meio ave, meio flor
Pappilon de encantos
És mística no teu pouso
Incógnita, nos anuncias
Risos, às vezes, prantos.
Elevaste o meu espírito
Assustaste-me certo dia
Papillon, bird que amo
Bela é essa tua magia.
757
Lili Gharcia
Tema de Verão
Abriu-se
a cortina
e a tarde se iluminou brusca.
As naturezas acenderam a luz do ar.
Todas as coisas
e as não-coisas foram tingidas.
Felicidade espreguiçou radiante de luz e ar.
Este Pedaço de mundo,
o meu mundo,
o não-mundo,
e até mesmo o universo paralelo, marginal,
respirou sem querer, raro.
Pronto.
Já era tarde para impedir
que os músculos e as vísceras
ficassem limpos, lavados.
Tarde para admitir qualquer verdade,
inclusive a de que
fomos inumanos pelo sol fresco
e, num átomo, somos um todo.
a cortina
e a tarde se iluminou brusca.
As naturezas acenderam a luz do ar.
Todas as coisas
e as não-coisas foram tingidas.
Felicidade espreguiçou radiante de luz e ar.
Este Pedaço de mundo,
o meu mundo,
o não-mundo,
e até mesmo o universo paralelo, marginal,
respirou sem querer, raro.
Pronto.
Já era tarde para impedir
que os músculos e as vísceras
ficassem limpos, lavados.
Tarde para admitir qualquer verdade,
inclusive a de que
fomos inumanos pelo sol fresco
e, num átomo, somos um todo.
695
Reinaldo Ferreira
A tua mão é que desperta Abril
A tua mão é que desperta Abril
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
1 554
Reinaldo Ferreira
Tractor, Deus desta Idade
Tractor, Deus desta Idade,
Não poupa as rosas inúteis.
E esmaga nelas, tão fúteis,
A outra finalidade
Das coisas, desde o início
Criadas para que houvesse
Horas de paz no bulício
Em que a existência acontece.
Não poupa as rosas inúteis.
E esmaga nelas, tão fúteis,
A outra finalidade
Das coisas, desde o início
Criadas para que houvesse
Horas de paz no bulício
Em que a existência acontece.
1 780
Raul Machado
Céu do Brasil
Praz-me ver este céu que em palpitante messe
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
1 096
Leão Vasconcelos
Canto do Peregrino
Para louvar-te
Em versos de arte
A estreme beleza,
Vim de longe — ó Princesa!
Chegou no meu tugúrio a fama de teu nome!
E eu parti, lira às mãos, ardendo em sede e fome,
Para ver-te e contar a todos os mortais
A beleza sem par de teus olhos fatais,
Do teu perfil sereno de medalha,
Do teu sorriso trêmulo e divino...
Acolhe a prece, pois, do peregrino...
Vim de longe e parei ante a forte muralha
Do teu castelo, o rosto exangue...
Em sangue da jornada os pés, as mãos em sangue
E exposto ao vento e à chuva espero que apareça
O sol para esfolhar sobre a tua cabeça
As rosas que colhi rio meu triste caminho,
Deixando algo de mim em cada espinho
Por onde, só, passei, deslumbrado a cantar
Atrás de uma quimera...
E, ó Princesa! já choram, a tua espera
os meus olhos cansados de sonhar...
Em versos de arte
A estreme beleza,
Vim de longe — ó Princesa!
Chegou no meu tugúrio a fama de teu nome!
E eu parti, lira às mãos, ardendo em sede e fome,
Para ver-te e contar a todos os mortais
A beleza sem par de teus olhos fatais,
Do teu perfil sereno de medalha,
Do teu sorriso trêmulo e divino...
Acolhe a prece, pois, do peregrino...
Vim de longe e parei ante a forte muralha
Do teu castelo, o rosto exangue...
Em sangue da jornada os pés, as mãos em sangue
E exposto ao vento e à chuva espero que apareça
O sol para esfolhar sobre a tua cabeça
As rosas que colhi rio meu triste caminho,
Deixando algo de mim em cada espinho
Por onde, só, passei, deslumbrado a cantar
Atrás de uma quimera...
E, ó Princesa! já choram, a tua espera
os meus olhos cansados de sonhar...
1 060
Leal de Souza
A Dama de Luto
Entre as musas e ao som das liras, na negrura
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...
Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.
Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.
E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...
Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.
Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.
E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.
759
Nana Corrêa de Lima
São Tomé das Letras
São Tomé das Letras
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
1 459
Maranhão Sobrinho
Equatorial
Bóiam verdes lodões no lago quieto em frissos
de topázio. Flechando as ralas talagarças
dos ramos vibram, no ar, os vírides caniços
dos juncos. Funde a luz as nuvens de oiro esgarças.
Sobre o lodo escorrega o musgo a renda. Em viços
soberbos, o esplendor das aquáticas sarças
beira o líquido espelho em que, de espantadiços
olhos, banham-se, ao sol, as branquicentas garças.
Trapejam no horizonte uns trêmulos farrapos
de púrpura. Banando, entre os juncos, disformes
de luxúria, a coaxar, pulam, glabros, os sapos.
E, na lama, que a lesma azul meandra de rugas,
rojando-se em espirais de gelatina, enormes
arrastam-se, pulsando, as moles sanguessugas...
de topázio. Flechando as ralas talagarças
dos ramos vibram, no ar, os vírides caniços
dos juncos. Funde a luz as nuvens de oiro esgarças.
Sobre o lodo escorrega o musgo a renda. Em viços
soberbos, o esplendor das aquáticas sarças
beira o líquido espelho em que, de espantadiços
olhos, banham-se, ao sol, as branquicentas garças.
Trapejam no horizonte uns trêmulos farrapos
de púrpura. Banando, entre os juncos, disformes
de luxúria, a coaxar, pulam, glabros, os sapos.
E, na lama, que a lesma azul meandra de rugas,
rojando-se em espirais de gelatina, enormes
arrastam-se, pulsando, as moles sanguessugas...
1 663
Leopoldo Brígido
Visão Noturna
Como surge do linho alvo e fragrante
Esplêndida mulher formosa e nua,
Já despida das brumas do Levante
Pálida e bela me parece a Lua.
Sobe, forma de sonho deslumbrante,
No manso lago sideral flutua,
E límpido lhe brilha o corpo amante,
E o seio à tepidez da vaga estua.
Avança sem temor, Náiade ousada,
Serenamente, airosamente nada,
E as mansas vagas osculando-a pelas
Úmidas pomas, pela espádua albente,
Ela vai-se, enredada docemente
Nos nenúfares brancos das estrelas.
Esplêndida mulher formosa e nua,
Já despida das brumas do Levante
Pálida e bela me parece a Lua.
Sobe, forma de sonho deslumbrante,
No manso lago sideral flutua,
E límpido lhe brilha o corpo amante,
E o seio à tepidez da vaga estua.
Avança sem temor, Náiade ousada,
Serenamente, airosamente nada,
E as mansas vagas osculando-a pelas
Úmidas pomas, pela espádua albente,
Ela vai-se, enredada docemente
Nos nenúfares brancos das estrelas.
926
Flexa Ribeiro
Crucificação
Forrado de cristal quero nosso aposento.
Abertas num perfume, orquídeas solitárias.
Subindo em espiral, como o meu Sentimento,
duma caçoila estranha, as essências mais várias...
Quatro esfinges a olhar, vagas e funerárias...
Um Cristo de marfim, visionário e sangrento.
Quase apagado o som de aveludadas árias,
através dos cristais, trazidas pelo vento...
E de tons de violeta uma luz o ilumina:
ambiente sensual, espiritualizado
à emoção virginal que me prende e domina...
Sobre lâmina de ouro — em formato de lira —
se estende o Corpo em flor, macio e perfumado,
em que todo o meu ser se alucina e delira!
Abertas num perfume, orquídeas solitárias.
Subindo em espiral, como o meu Sentimento,
duma caçoila estranha, as essências mais várias...
Quatro esfinges a olhar, vagas e funerárias...
Um Cristo de marfim, visionário e sangrento.
Quase apagado o som de aveludadas árias,
através dos cristais, trazidas pelo vento...
E de tons de violeta uma luz o ilumina:
ambiente sensual, espiritualizado
à emoção virginal que me prende e domina...
Sobre lâmina de ouro — em formato de lira —
se estende o Corpo em flor, macio e perfumado,
em que todo o meu ser se alucina e delira!
724
Garcia Rosa
Esquiva
Quando passas altiva e desdenhosa,
Como uma deusa em mármore esculpida,
Lembras-me a Grécia antiga e luminosa
E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.
Toda a força do amor misteriosa
Trazes soberbamente refletida
Na perfeição da plástica mimosa
E na graça do andar, indefinida...
Mas quando te acompanho na esperança
De penetrar os íntimos refolhos
Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,
Volves em torno, distraída, os olhos,
Na pertinácia vã de uma esquivança
Que semeia ilusões em vez de abrolhos.
Como uma deusa em mármore esculpida,
Lembras-me a Grécia antiga e luminosa
E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.
Toda a força do amor misteriosa
Trazes soberbamente refletida
Na perfeição da plástica mimosa
E na graça do andar, indefinida...
Mas quando te acompanho na esperança
De penetrar os íntimos refolhos
Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,
Volves em torno, distraída, os olhos,
Na pertinácia vã de uma esquivança
Que semeia ilusões em vez de abrolhos.
1 039
Francisco Tribuzi
O Museu e a Ponte
Lá dentro guardam-se histórias...
Aqui fora a ponte guarda em segredo
os vultos que adentraram as glórias
e as memórias dos gestos sem medo.
De cada ângulo vista
como que a jorrar passado
a ponte em si despista
o conteúdo sonhado.
E o que ela inspira:
estética e formusura
traduz o belo que delira
em gesto e arquitetura.
Aqui fora a ponte guarda em segredo
os vultos que adentraram as glórias
e as memórias dos gestos sem medo.
De cada ângulo vista
como que a jorrar passado
a ponte em si despista
o conteúdo sonhado.
E o que ela inspira:
estética e formusura
traduz o belo que delira
em gesto e arquitetura.
852
Ernâni Rosas
O Sonho-Interior
O Sonho-Interior que renasceste
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda...
Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...
Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...
Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado, —
na demência autunal duma Alameda...
Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos
1 062
Djalma Andrade
Artista
Que graças pões, Maria, e que cuidado
No arranjo e na feitura do teu ninho!
Eu nunca vi um quarto de noivado
Feito com arte tal, com tal carinho...
Nas fronhas lindas e no cortinado,
Na alvura dos lençóis de puro linho,
Transparece o teu gosto requintado.
Benditas sejam tuas mãos de arminho!
No teu leito há talento, eu te asseguro,
E ninguém poderia, amor, supô-lo:
— Em tão pequena coisa, tanto apuro...
E eu penso vendo o teu bom gosto e zelo,
Se tal arte tu mostras em compô-lo
Que perícia terás em revolvê-lo!...
No arranjo e na feitura do teu ninho!
Eu nunca vi um quarto de noivado
Feito com arte tal, com tal carinho...
Nas fronhas lindas e no cortinado,
Na alvura dos lençóis de puro linho,
Transparece o teu gosto requintado.
Benditas sejam tuas mãos de arminho!
No teu leito há talento, eu te asseguro,
E ninguém poderia, amor, supô-lo:
— Em tão pequena coisa, tanto apuro...
E eu penso vendo o teu bom gosto e zelo,
Se tal arte tu mostras em compô-lo
Que perícia terás em revolvê-lo!...
1 122
Durval de Morais
O Cortejo Nupcial
Pelo estreito caminho da colina,
O cortejo subia lentamente...
Ela, trajando veste purpurina,
Trazia à face a púrpura do crente.
Tendo a clara inocência da menina,
Que abaixa os olhos, quando o olhar pressente
De alguém que a pensa linda, o rosto inclina,
Maria, e, pousa o olhar no chão, tremente!
Coroados de flores, precedidos
De cânticos, em cismas embebidos,
Atravessam desertos e devesas...
Louvando o amor dos imortais amantes,
Dez virgens de alvas vestes flutuantes
Erguem, ao sol, dez lâmpadas acesas.
O cortejo subia lentamente...
Ela, trajando veste purpurina,
Trazia à face a púrpura do crente.
Tendo a clara inocência da menina,
Que abaixa os olhos, quando o olhar pressente
De alguém que a pensa linda, o rosto inclina,
Maria, e, pousa o olhar no chão, tremente!
Coroados de flores, precedidos
De cânticos, em cismas embebidos,
Atravessam desertos e devesas...
Louvando o amor dos imortais amantes,
Dez virgens de alvas vestes flutuantes
Erguem, ao sol, dez lâmpadas acesas.
784
Euclides Bandeira
Predileto
É o tipo que me encanta, o louro. De relance
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
398
Ernâni Rosas
Depois de te Sonhar
Depois de Te sonhar Mistério ido
e .seguir-Te e ouvir-Te em Hora leda,
de vesti teu Ser a raios de Astro e Olvido,
de Antigüidade o teu perfil de Moeda.
Parei depois de haver corrido tanto
e amado e urdido Horas de Sonho-Asa?
constelada de azul fulgor de brasa
por Tardes enlaivadas de quebranto...
Sonho em Cristal teu corpo de Champagne?
mansa luz que morrendo sem alarde,
não há sol de crepúsculo, que a estranhe...
Acordas do teu Sono, para Mim!
nos meus olhos à sombra, para a Tarde...
por que surges em Sonhos num jardim?
e .seguir-Te e ouvir-Te em Hora leda,
de vesti teu Ser a raios de Astro e Olvido,
de Antigüidade o teu perfil de Moeda.
Parei depois de haver corrido tanto
e amado e urdido Horas de Sonho-Asa?
constelada de azul fulgor de brasa
por Tardes enlaivadas de quebranto...
Sonho em Cristal teu corpo de Champagne?
mansa luz que morrendo sem alarde,
não há sol de crepúsculo, que a estranhe...
Acordas do teu Sono, para Mim!
nos meus olhos à sombra, para a Tarde...
por que surges em Sonhos num jardim?
1 143
Castro Menezes
Baudelaire
Na água-forte onde vejo o rigor sem exemplo
Do severo perfil de teu busto de poeta,
Charles, o teu olhar, não sei por que, me inquieta,
Evocando o pavor de uma orgia num templo.
Penetra-me essa luz de encantos esquisitos,
Que deviam possuir, em rápidos instantes,
Os teus olhos fatais como dois sóis malditos,
Fixos num céu de sonhos de ópio alucinantes...
Há um ríctus singular na tua boca estranha...
E esse ríctus cruel, de tédio ou de loucura,
Imprime a esta água-forte uma vida tamanha,
Que desvairo ao fitá-la e, num trágico espanto,
Vejo Satã possuir, na paz da cela escura,
O corpo virginal de uma noviça em pranto...
Do severo perfil de teu busto de poeta,
Charles, o teu olhar, não sei por que, me inquieta,
Evocando o pavor de uma orgia num templo.
Penetra-me essa luz de encantos esquisitos,
Que deviam possuir, em rápidos instantes,
Os teus olhos fatais como dois sóis malditos,
Fixos num céu de sonhos de ópio alucinantes...
Há um ríctus singular na tua boca estranha...
E esse ríctus cruel, de tédio ou de loucura,
Imprime a esta água-forte uma vida tamanha,
Que desvairo ao fitá-la e, num trágico espanto,
Vejo Satã possuir, na paz da cela escura,
O corpo virginal de uma noviça em pranto...
974
Alfredo Castro
A Dança dos Sete Véus
O tetrarca pediu disfarçando, de leve,
Um desejo, com voz, de enternecida, rouca,
Que Salomé, movendo o corpo airoso e breve,
Dançasse. Estava triste, e era a graça bem pouca.
Envolta em sete véus alvíssimos, de neve,
Ela, a judia, põe-se a dançar, como louca...
E, a cada evolução que o seu corpo descreve,
Como uma estranha flor, dos seus véus se destouca.
Em meneios gentis, a princesa, que gira,
Tira o primeiro véu, tira o segundo, tira
O terceiro, e outro mais, mais outro, e outro, ainda...
Quando o véu derradeiro ela, afinal, arranca,
Estaca. Aos olhos reais, Salomé, na mais franca
Nudez, mostra-se então, provocadora e linda.
Um desejo, com voz, de enternecida, rouca,
Que Salomé, movendo o corpo airoso e breve,
Dançasse. Estava triste, e era a graça bem pouca.
Envolta em sete véus alvíssimos, de neve,
Ela, a judia, põe-se a dançar, como louca...
E, a cada evolução que o seu corpo descreve,
Como uma estranha flor, dos seus véus se destouca.
Em meneios gentis, a princesa, que gira,
Tira o primeiro véu, tira o segundo, tira
O terceiro, e outro mais, mais outro, e outro, ainda...
Quando o véu derradeiro ela, afinal, arranca,
Estaca. Aos olhos reais, Salomé, na mais franca
Nudez, mostra-se então, provocadora e linda.
1 111
Bocage
Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!
Ó ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!
Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!
Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vênus? — É mentira;
Sois de Marília, sois dos meus amores.
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!
Ó ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!
Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!
Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vênus? — É mentira;
Sois de Marília, sois dos meus amores.
3 205
Bastos Tigre
Argumento de Defesa
Disse alguém, por maldade ou por intriga,
Que eu de Vossa Excelência mal dissera:
Que tinha amantes, que era "fácil", que era
Da virtude doméstica, inimiga.
Maldito seja o cérebro que gera
Infâmias tais que em cólera maldigo!
Se eu disse tal, que tenha por castigo
O beijo de uma sogra ou de uma fera!
Senhora! pondo a mão sobre a consciência,
Minha palavra, impávida, protesta
Contra essa intriga da maledicência!
Indague a amigos meus; qualquer atesta
Que eu acho e sempre achei Vossa Excelência
Feia de mais para não ser honesta...
Que eu de Vossa Excelência mal dissera:
Que tinha amantes, que era "fácil", que era
Da virtude doméstica, inimiga.
Maldito seja o cérebro que gera
Infâmias tais que em cólera maldigo!
Se eu disse tal, que tenha por castigo
O beijo de uma sogra ou de uma fera!
Senhora! pondo a mão sobre a consciência,
Minha palavra, impávida, protesta
Contra essa intriga da maledicência!
Indague a amigos meus; qualquer atesta
Que eu acho e sempre achei Vossa Excelência
Feia de mais para não ser honesta...
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