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Poemas neste tema

Céu, Estrelas e Universo

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Espaço de Silêncio

(Proposições sobre a pintura de Vieira da Silva)
O instante
suspende-se     metamorfose da abolição

VISÃO VAZIA

restituição do mínimo no ABERTO

as primeiras minúcias de um estranho e límpido mistério

o puro amor a cada coisa
o absoluto no ínfimo
Presença-Ausência     Ausência-Presença

Não o além do mundo mas o além no aqui
o aqui entreabrindo o Instante
a distância interior constelando-se em silêncio

relação liberta livre
com o desconhecido o irrevelado
não de um outro mundo mas do mundo outro
(o Mesmo)
a infinita abertura do mundo na luz do seu silêncio

na profundidade liberta
em espaços de espaços
o diverso no uno
indissolúvel unidade do ínfimo e do infinito

janelas ou portas que se abrem
(que abrem para:)

Libertação da opacidade     libertação da Ausência
Ausência extrema da Presença desaparecendo
desaparecida
tudo raiou de sua luz de silêncio e sombra

le vide n’abolit pas l’inconnu mais l’éblouit

uma imponderável ponderabilidade de palácio-aéreo
as salas abriram-se

destruição das aparências reinvenção das suas cinzas
filhas do relâmpago da Presença
lampejos da Presença no momento da desaparição

matéria de um sabor e sabor de uma matéria
que respira em minúsculos abismos

transubstanciação da fulguração total
as cintilações imobilizaram-se no silêncio
de um rastro no vazio
constelado

Tudo arde ainda na minuciosa paciência de uma
dádiva na subtil pontuação de uma apaixonada visão

Intensidade e tensão
da atenção pura
que sabe conter o que não se pode conter

estremecimento que não treme
tudo respira no silêncio
tudo se tornou respiração do silêncio

amorosos dedos de um amor da terra
revelam suspenso
o incessante fluxo
rios de uma extensa estrela tensa

teia aberta
dilatando-se     retendo-se
suspensa e retida
pela interminável e silenciosa paciência
das raízes da terra
estrela de sabor a pão
tapete de velha e antiquíssima sabedoria
com um cheiro a trigo e de amêndoa
estrela
e navio submerso
multiplicando-se no espaço
multiplicando o espaço

pedra de infinita transparência
em que se lêem os sonhos e as sombras

paciência ardente
que dominou a fascinação da miragem
pela fascinação clara do vazio

vazio amante
constelado
terra recuperada na distância da infinita proximidade de tudo

mão que penetrou no impenetrável
com a suavidade de uma flexível inflexibilidade

as múltiplas portas     salas     janelas     células
a permanência do intacto
a infinita intensidade do contacto
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Breve o Dia

As nossas armas contemplam. propagam-se na difusão do ar. Instantâneas, encontram o diamante irrefrangível — a explosão estática.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

À cadelinha navegante do espaço

Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.

Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.

Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.

Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.

Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.

Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.

Mas nunca foste só no teu caminho.

Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.

Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.

Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
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