Poemas neste tema
Alma
Amália Bautista
Ida e volta
À ida para o amor
vamos todos a arder,
com borboletas nos lábios
e no olhar uma chispa de fogo.
Sentimos o sangue a bater
nas têmporas, nas virilhas, no pulso.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto em penumbra.
Ao voltar do amor, murchos,
enjeitados, culpados
ou simplesmente absurdos,
vimos muito pálidos, muito frios.
De olhos desmaiados, mais grisalhos
e com os leucócitos nas nuvens,
somos um esqueleto e sua derrota.
vamos todos a arder,
com borboletas nos lábios
e no olhar uma chispa de fogo.
Sentimos o sangue a bater
nas têmporas, nas virilhas, no pulso.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto em penumbra.
Ao voltar do amor, murchos,
enjeitados, culpados
ou simplesmente absurdos,
vimos muito pálidos, muito frios.
De olhos desmaiados, mais grisalhos
e com os leucócitos nas nuvens,
somos um esqueleto e sua derrota.
567
Amália Bautista
Agora
Agora que o caminho que devo percorrer
é uma passagem elevada sobre uma estrada
que dá medo olhar, porque
me chama o abismo implacável.
Agora que a esperança está morta
como um pássaro atirado do ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é noite todo o dia,
inverno todo o ano
e as semanas só têm segundas,
onde olhar, onde pôr os olhos,
que não encontre os olhos da morte?
é uma passagem elevada sobre uma estrada
que dá medo olhar, porque
me chama o abismo implacável.
Agora que a esperança está morta
como um pássaro atirado do ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é noite todo o dia,
inverno todo o ano
e as semanas só têm segundas,
onde olhar, onde pôr os olhos,
que não encontre os olhos da morte?
706
Rui Costa
Acidente I (helderiana virulenta)
eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje,
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.
Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
coroado de tudo.
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.
Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
coroado de tudo.
487
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 31
E assim ensaiamos o livro entre a
treva e a luz, o coração despedaçado
rasgando novos arquipélagos. São
colmeias brancas que nos coram as
palavras, pedras, constelações de risos
e de limos que transportamos na penumbra.
A poesia não sabe o quanto te devemos.
treva e a luz, o coração despedaçado
rasgando novos arquipélagos. São
colmeias brancas que nos coram as
palavras, pedras, constelações de risos
e de limos que transportamos na penumbra.
A poesia não sabe o quanto te devemos.
634
Amália Bautista
A mulher de lot
Ainda ninguém nos esclareceu
se a mulher de Lot foi transformada
em estátua de sal como castigo
pela curiosidade irreprimível
e pela desobediência apenas,
ou se ela se voltou pois no meio
de todo aquele incêndio pavoroso
ardia o coração que mais amava.
se a mulher de Lot foi transformada
em estátua de sal como castigo
pela curiosidade irreprimível
e pela desobediência apenas,
ou se ela se voltou pois no meio
de todo aquele incêndio pavoroso
ardia o coração que mais amava.
368
Rui Costa
Autobiografia
Não preciso mas tu sabes como eu sou
encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
essa névoa contemporânea do medo miudinho
que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu.
A vertigem ardeu-me nos braços até à sangria
do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
são corais no pensamento. Jardins e fantasmas.
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
e profunda: sem braços e agora sem mais nada,
não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos –,
ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
O navio no mar parado, parado: completamente.
Parado como dizer? Não dizer, eu sou uma vida
medonha e múltipla. E agora descanso
deitado nestas mãos que mexem
sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
p’la manhã.
encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
essa névoa contemporânea do medo miudinho
que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu.
A vertigem ardeu-me nos braços até à sangria
do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
são corais no pensamento. Jardins e fantasmas.
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
e profunda: sem braços e agora sem mais nada,
não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos –,
ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
O navio no mar parado, parado: completamente.
Parado como dizer? Não dizer, eu sou uma vida
medonha e múltipla. E agora descanso
deitado nestas mãos que mexem
sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
p’la manhã.
759
Amália Bautista
Que fazes aqui?
Pensava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar,
quando pude enfim fechar os olhos
e esquecer-me de ti e das tuas manhas,
da tua insistência, do teu fito mau,
da tua força para vencer-me.
Pensava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, e acordo
e vejo-te de novo junto a mim,
dentro de mim, cingindo-me, colada a mim,
invadindo-me, afogando-me, diante
dos olhos, frente à minha vida,
sob a minha sombra, nas minhas entranhas,
no pulsar do meu sangue, entrando-me
pelo nariz quando respiro, vendo
por minhas pupilas, atiçando fogo
às palavras que deito pela boca.
E agora, que é que eu faço? como poderia
desterrar-te de mim ou acostumar-me
a viver contigo? Vamos lá começar
por caprichar nos modos.
Bom dia, tristeza.
um adeus contundente, ao deitar,
quando pude enfim fechar os olhos
e esquecer-me de ti e das tuas manhas,
da tua insistência, do teu fito mau,
da tua força para vencer-me.
Pensava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, e acordo
e vejo-te de novo junto a mim,
dentro de mim, cingindo-me, colada a mim,
invadindo-me, afogando-me, diante
dos olhos, frente à minha vida,
sob a minha sombra, nas minhas entranhas,
no pulsar do meu sangue, entrando-me
pelo nariz quando respiro, vendo
por minhas pupilas, atiçando fogo
às palavras que deito pela boca.
E agora, que é que eu faço? como poderia
desterrar-te de mim ou acostumar-me
a viver contigo? Vamos lá começar
por caprichar nos modos.
Bom dia, tristeza.
709
Amália Bautista
Duas gotas de suor
I
Há alguém no mundo, não sei onde,
ou antes sei, mas prefiro esquecê-lo,
que me despe só com um olhar
e me sonha vestida de princesa.
Alguém com quem não posso resistir
a arder debaixo do duche.
Alguém com quem se torna inevitável
suar dentro de um iglu.
II
Choro quando não estás, suo contigo.
O suor e as lágrimas são iguais,
tenazes e salgados,
como o mar dos meus sonhos e o oceano
abissal dos meus pesadelos.
Não quero pedir demasiado, mas gostava
de suar um pouco mais e chorar menos.
Há alguém no mundo, não sei onde,
ou antes sei, mas prefiro esquecê-lo,
que me despe só com um olhar
e me sonha vestida de princesa.
Alguém com quem não posso resistir
a arder debaixo do duche.
Alguém com quem se torna inevitável
suar dentro de um iglu.
II
Choro quando não estás, suo contigo.
O suor e as lágrimas são iguais,
tenazes e salgados,
como o mar dos meus sonhos e o oceano
abissal dos meus pesadelos.
Não quero pedir demasiado, mas gostava
de suar um pouco mais e chorar menos.
635
Rui Costa
Poema inútil com montanha
Vejo a montanha à minha frente pousada
sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade
de tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,
quando um pensamento inútil me sugere
que a montanha pode ser
um pormenor pensado por ela
na paisagem do meu próprio peensamento, para
com isto me levar a pensar sobre pensamentos,
e não sobre montanhas, ficando ela, como antes,
pousada na água sempre verde, sem ser
pensada por ninguém.
sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade
de tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,
quando um pensamento inútil me sugere
que a montanha pode ser
um pormenor pensado por ela
na paisagem do meu próprio peensamento, para
com isto me levar a pensar sobre pensamentos,
e não sobre montanhas, ficando ela, como antes,
pousada na água sempre verde, sem ser
pensada por ninguém.
608
Amália Bautista
Pensaram que era a paciente esposa
Pensaram que era a paciente esposa
e um herói. A que espera noite e dia
tecendo e destecendo. A que ignora
que nunca volta o mesmo que partiu.
E apenas sou uma maldita aranha.
e um herói. A que espera noite e dia
tecendo e destecendo. A que ignora
que nunca volta o mesmo que partiu.
E apenas sou uma maldita aranha.
583
Amália Bautista
Pecados capitais
Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas.
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas.
548
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 3
3
nenhum homem que atravesse
o eixo mais ao centro. a espuma
produz-se onde a saudade é uma
cabeça filtrada pela desgraça.
formam-se ideias na direção da
cor: os peixes acreditam que o
sal é uma excrescência da luz.
nenhum homem que atravesse
o eixo mais ao centro. a espuma
produz-se onde a saudade é uma
cabeça filtrada pela desgraça.
formam-se ideias na direção da
cor: os peixes acreditam que o
sal é uma excrescência da luz.
518
Amália Bautista
Ver o sol
Era tudo mentira e apercebo-me
no momento mais despropositado.
O amor não era amor. Eram os beijos
uma maneira de apagar a sede.
As carícias, o modo de nos guiarmos
no meio da noite. E escuto agora
a voz da tristeza: se tu pretendes
ver o sol, devias em contraluz
olhar um ovo passado por água.
no momento mais despropositado.
O amor não era amor. Eram os beijos
uma maneira de apagar a sede.
As carícias, o modo de nos guiarmos
no meio da noite. E escuto agora
a voz da tristeza: se tu pretendes
ver o sol, devias em contraluz
olhar um ovo passado por água.
745
Amália Bautista
Um pátio ao sul
Um pátio, um pátio qualquer, num buraco a sul,
limoeiros de odor enjoativo,
a luz do dia morrendo indiferente,
tal como num dia qualquer,
repetindo aquele rito
que conserva o mistério das coisas sabidas
e temidas ao mesmo tempo:
e se esta tarde fosse a última?
Bandos de andorinhas cruzam o céu escuro,
bordejam a alta torre,
chegam-me a despistar com o voo errático
de que desconheço o frágil destino.
Os sinos começam a tocar
e as andorinhas fazem que se assustam com o som,
mas é só brincadeira,
e tragédia, e cabriola, e desenho de círculos perfeitos
contra o cinzento avermelhado de agonia
do altíssimo e largo céu.
O céu escureceu de todo. Lá no alto,
entre os ramos do limoeiro, deslumbra-me, rindo,
uma estrela.
limoeiros de odor enjoativo,
a luz do dia morrendo indiferente,
tal como num dia qualquer,
repetindo aquele rito
que conserva o mistério das coisas sabidas
e temidas ao mesmo tempo:
e se esta tarde fosse a última?
Bandos de andorinhas cruzam o céu escuro,
bordejam a alta torre,
chegam-me a despistar com o voo errático
de que desconheço o frágil destino.
Os sinos começam a tocar
e as andorinhas fazem que se assustam com o som,
mas é só brincadeira,
e tragédia, e cabriola, e desenho de círculos perfeitos
contra o cinzento avermelhado de agonia
do altíssimo e largo céu.
O céu escureceu de todo. Lá no alto,
entre os ramos do limoeiro, deslumbra-me, rindo,
uma estrela.
537
Rui Costa
Talvez um poema de amor
Eu vou na estrada aberta agora
como tu antes da vida.
Desconheço a razão da tua boca
e o declive ascensional da morte.
Visito os amigos, não durmo no mar,
há sombras e pão em nossa casa e
a cal da noite entrando pelo sono, a nossa
casa. Sim,
tenho um tanque cheio de memória
ao fundo de abril e não te posso
dar (porque não sei).
Talvez por isso te converta
nestes versos miudinhos que
se enganam na terra donde vens.
Mas nem todo o ar começa
por um «eu» no princípio do poema.
Os campos são silenciosos quando à noite
invadem as janelas
e a maçã branca nos indica o caminho
para nunca mais.
Quero este amor
como a algo subitamente possível
e impossível
Uma cidade ardendo sobre o mar
As palavras separando com as mãos
na tua loucura
como tu antes da vida.
Desconheço a razão da tua boca
e o declive ascensional da morte.
Visito os amigos, não durmo no mar,
há sombras e pão em nossa casa e
a cal da noite entrando pelo sono, a nossa
casa. Sim,
tenho um tanque cheio de memória
ao fundo de abril e não te posso
dar (porque não sei).
Talvez por isso te converta
nestes versos miudinhos que
se enganam na terra donde vens.
Mas nem todo o ar começa
por um «eu» no princípio do poema.
Os campos são silenciosos quando à noite
invadem as janelas
e a maçã branca nos indica o caminho
para nunca mais.
Quero este amor
como a algo subitamente possível
e impossível
Uma cidade ardendo sobre o mar
As palavras separando com as mãos
na tua loucura
618
Amália Bautista
Carminus
Pesadelo não é, nem um sonho doce.
Começa a amanhecer e eu caminho sozinha
pelas ruas de um lugar que não conheço
onde não me sinto estranha nem estrangeira.
E todavia surpreende-me cada coisa,
a luz a dar nas paredes,
o eco dos meus passos, o cheiro dos pátios
com azulejos, fontes, laranjeiras,
a tremura que me agita numa esquina
(talvez o frio, talvez a vida negra).
Abertos a meus olhos os saguões,
a sua frescura, a penumbra, parece que me falam
uma língua antiga que meu sangue reconhece.
Tantas portas abertas, parecem bocas,
mas de nenhuma sai tua voz.
E nenhuma me chama por meu nome.
Começa a amanhecer e eu caminho sozinha
pelas ruas de um lugar que não conheço
onde não me sinto estranha nem estrangeira.
E todavia surpreende-me cada coisa,
a luz a dar nas paredes,
o eco dos meus passos, o cheiro dos pátios
com azulejos, fontes, laranjeiras,
a tremura que me agita numa esquina
(talvez o frio, talvez a vida negra).
Abertos a meus olhos os saguões,
a sua frescura, a penumbra, parece que me falam
uma língua antiga que meu sangue reconhece.
Tantas portas abertas, parecem bocas,
mas de nenhuma sai tua voz.
E nenhuma me chama por meu nome.
609
Amália Bautista
Sonho com meu pai
Já aqui estou, não chores, pequenita,
parte-me o coração ver-te chorar.
Despedi-me de todos ao partir,
menos de ti, não te encontrei naquele dia
e tive que andar, estava com pressa,
não podia esperar. Mas avisei
que voltaria quando terminasse
de fazer o que tinha de fazer longe.
Porque é que ninguém te disse nada?
Como puderam deixar que sofresses tanto
pensando que eu tinha morrido? Pobre Amalia,
tão fria e racional na aparência,
tão vulnerável lá dentro no coração.
Estou aqui. Não chores, que o teu pranto
poderia dissolver-me nas trevas
mais uma vez, para sempre.
parte-me o coração ver-te chorar.
Despedi-me de todos ao partir,
menos de ti, não te encontrei naquele dia
e tive que andar, estava com pressa,
não podia esperar. Mas avisei
que voltaria quando terminasse
de fazer o que tinha de fazer longe.
Porque é que ninguém te disse nada?
Como puderam deixar que sofresses tanto
pensando que eu tinha morrido? Pobre Amalia,
tão fria e racional na aparência,
tão vulnerável lá dentro no coração.
Estou aqui. Não chores, que o teu pranto
poderia dissolver-me nas trevas
mais uma vez, para sempre.
636
Rui Costa
Bar do acaso
Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.
Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.
Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.
664
Amália Bautista
Enigma
No primeiro dia que saí contigo
disseste que o teu trabalho que era estranho.
Mais nada. Todavia, eu sentia
a pele a rasgar-se como trapos
de cada vez que me tocavas com a mão.
E os teus olhos pareciam-me punhais
a fazer-me doer os meus.
Daí para a frente foi sempre a mesma coisa:
tu orgulhavas-te da tua arte,
mais subtil e directo em cada dia
e eu nunca percebia nada.
Mas agora sei. Já conheço o teu ofício:
Atirador de facas. A mais certeira
atiraste-ma ao coração.
disseste que o teu trabalho que era estranho.
Mais nada. Todavia, eu sentia
a pele a rasgar-se como trapos
de cada vez que me tocavas com a mão.
E os teus olhos pareciam-me punhais
a fazer-me doer os meus.
Daí para a frente foi sempre a mesma coisa:
tu orgulhavas-te da tua arte,
mais subtil e directo em cada dia
e eu nunca percebia nada.
Mas agora sei. Já conheço o teu ofício:
Atirador de facas. A mais certeira
atiraste-ma ao coração.
688
Rui Costa
A Nuvem Prateada das Pessoas Graves
Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés e
mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas pessoas, é, por isso,
uma subtil forma de cuidado.
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés e
mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas pessoas, é, por isso,
uma subtil forma de cuidado.
550
Rui Costa
O sonho: a escada aos pés da alegria
Ela queria dar maçãs mas sem saber porquê
e caber no chão e esquecer-se do seu nome
e de crescer. depois, ela queria ter um país
a rebentar na boca, um amante ciumento
a respirar cheio de medo. e poder fingir
que o esquece e queimar-se muito
nas palavras que lhe diz.
havia de mostrar-lhe as mãos cinzentas
e de cuspir o seu amor na água podre
dos caminhos. e havia de matá-lo,
com a mão de aço na coroa
da cabeça e o sangue a florir nas ruas de vermelho,
arrastando poemas, candeeiros,
a cama, o lençol branco, a mesa da cozinha,
um nome da alegria, o cesto para o pão,
e haviam de chegar à mesma casa, árvore, país,
corpo, sonho, vida, poema, como uma fonte
que regresse à própria boca
ainda com mais sede.
e caber no chão e esquecer-se do seu nome
e de crescer. depois, ela queria ter um país
a rebentar na boca, um amante ciumento
a respirar cheio de medo. e poder fingir
que o esquece e queimar-se muito
nas palavras que lhe diz.
havia de mostrar-lhe as mãos cinzentas
e de cuspir o seu amor na água podre
dos caminhos. e havia de matá-lo,
com a mão de aço na coroa
da cabeça e o sangue a florir nas ruas de vermelho,
arrastando poemas, candeeiros,
a cama, o lençol branco, a mesa da cozinha,
um nome da alegria, o cesto para o pão,
e haviam de chegar à mesma casa, árvore, país,
corpo, sonho, vida, poema, como uma fonte
que regresse à própria boca
ainda com mais sede.
521
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 19
Deus sempre feito à imagem do homem
que o cria. Fabricam-se punhais para matar
com menos requinte do que as mãos; e
o crime continua a ser a mais antiga forma
da pureza. O primeiro artista pintava o
animal que queria seduzir. Dava-lhe uma
luz imóvel e amava-o deitado no tempo.
que o cria. Fabricam-se punhais para matar
com menos requinte do que as mãos; e
o crime continua a ser a mais antiga forma
da pureza. O primeiro artista pintava o
animal que queria seduzir. Dava-lhe uma
luz imóvel e amava-o deitado no tempo.
466
Amália Bautista
Dream a little dream of me
Convida-me para o teu sonho,
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
85
Rui Costa
A casa mexia-se sozinha ao redor das mãos
A casa mexia-se sozinha ao redor das mãos.
Era fria, de malas vazias a remendar a base
e dissemos pedra sobre pedra sobre pedra.
morreram: os meus amigos vinham jantar
com a terra, E não havia nada para lhes dar
a não ser a máquina de erguer janelas rente
aos ombros. Aquecia-se água, descia junto à pele
o lume: apertando os ossos, imaginando o respirar
mais fino. As colheres eram pequenas fantasias
do sono, animais que abriam muito os olhos
junto à fome. Os antigos comunicavam sentimentos
— o método da penumbra que escapara à melancolia aberta
por fora. Mas por fora já não havia nada:
e nós amamos a casa como um osso
no interior da
pedra.
Era fria, de malas vazias a remendar a base
e dissemos pedra sobre pedra sobre pedra.
morreram: os meus amigos vinham jantar
com a terra, E não havia nada para lhes dar
a não ser a máquina de erguer janelas rente
aos ombros. Aquecia-se água, descia junto à pele
o lume: apertando os ossos, imaginando o respirar
mais fino. As colheres eram pequenas fantasias
do sono, animais que abriam muito os olhos
junto à fome. Os antigos comunicavam sentimentos
— o método da penumbra que escapara à melancolia aberta
por fora. Mas por fora já não havia nada:
e nós amamos a casa como um osso
no interior da
pedra.
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