Poemas neste tema
Alma
Jorge Melícias
Na ponta dos dedosbatem as palavras
sísmicas.E a testa abre-se profusamenteà força do
nome.Digo:aquele que escreve infunde o prodígio,respira ao
cimo com a luz nos pulmões,atravessa como se
florisse nos abismos.
de A Luz nos Pulmões(2000)
nome.Digo:aquele que escreve infunde o prodígio,respira ao
cimo com a luz nos pulmões,atravessa como se
florisse nos abismos.
de A Luz nos Pulmões(2000)
999
1
José Tolentino Mendonça
Calle Principe, 25
Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
3 208
1
João Miguel Fernandes Jorge
Abrimos as portas sorrindo
ou a lata de bolos de infância.
Era uma criança pela fadiga
dos olhos, pela idade das excursões
pelas praças da cidade.
demoradas visitas de indiferença
e receio.
Um tímido sinal descendo levemente
o corpo, depois a face, os lábios
trémulos e um balbuciado “não
volto mais”.
“Está bem. Eis-me aqui ao teu lado”.
Esquecera a segunda cor do mar.
De um segundo fizera horas, mesmo que,
de ti, não tenha conseguido enumerar
senão as chaves na porta do quarto.
A próxima explosão.
Tudo é tão verdadeiro, tão claro,
neste canto de sonho.
Era uma criança pela fadiga
dos olhos, pela idade das excursões
pelas praças da cidade.
demoradas visitas de indiferença
e receio.
Um tímido sinal descendo levemente
o corpo, depois a face, os lábios
trémulos e um balbuciado “não
volto mais”.
“Está bem. Eis-me aqui ao teu lado”.
Esquecera a segunda cor do mar.
De um segundo fizera horas, mesmo que,
de ti, não tenha conseguido enumerar
senão as chaves na porta do quarto.
A próxima explosão.
Tudo é tão verdadeiro, tão claro,
neste canto de sonho.
2 426
1
Alejandra Pizarnik
Poema
Poema
Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio
Tú haces de mi vida
esta ceremonia demasiado pura.
Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio
Tú haces de mi vida
esta ceremonia demasiado pura.
1 881
1
Ana Hatherly
Wer abend sind sie, sag
Wer abend sind sie, sag
mir, die Fahrenden
Os errantesos fugazes
viajantesque nós somosbuscando sempre a vibração
perdidadiariamente caemda árvore da memóriaonde brilha o
nomeo melancólico ansiado barcoOh que percurso
essencialdescrevem os errantesna sua busca em queda
abismadossobre si mesmos voltadospercorrendoa arriscada
síntese do exílio!E tuvontade
insatisfeitaonde encontrarásos frutos da árvore do
quereras alegrias do estar e do serque nos rompem o
peitode tanto as ansiar?A rosa do olharque na
procura reverdecea todo o instante esqueceo som
da quedae escuta sóo tilintar da sorteno
inventado bolso da esperançaque nos
empurraimpelelisonjeianum breve sorriso captadonum furtivo
afagoilusão de ternuraMas logo logoalgo nos
arranca o curativonos retira o tapete mágico do
repousonso remetepara a nossa condição de feridos
atingidosE na busca heróicado instante
transfiguradoo activo martírio de prosseguirfaz de
nóseternos estrangeiros
mal-amadosdesamparadosperegrinos recém-chegados
mir, die Fahrenden
Os errantesos fugazes
viajantesque nós somosbuscando sempre a vibração
perdidadiariamente caemda árvore da memóriaonde brilha o
nomeo melancólico ansiado barcoOh que percurso
essencialdescrevem os errantesna sua busca em queda
abismadossobre si mesmos voltadospercorrendoa arriscada
síntese do exílio!E tuvontade
insatisfeitaonde encontrarásos frutos da árvore do
quereras alegrias do estar e do serque nos rompem o
peitode tanto as ansiar?A rosa do olharque na
procura reverdecea todo o instante esqueceo som
da quedae escuta sóo tilintar da sorteno
inventado bolso da esperançaque nos
empurraimpelelisonjeianum breve sorriso captadonum furtivo
afagoilusão de ternuraMas logo logoalgo nos
arranca o curativonos retira o tapete mágico do
repousonso remetepara a nossa condição de feridos
atingidosE na busca heróicado instante
transfiguradoo activo martírio de prosseguirfaz de
nóseternos estrangeiros
mal-amadosdesamparadosperegrinos recém-chegados
1 556
1
Joseph Brodsky
Anjo
Anjo
Há um anjo branco como algodão que tem estado pendurado, até hoje, na despensa, num cabide de metal. Graças a ele nunca nada de mal, em todos estes anos, me aconteceu — a mim ou, mais importante, à própria casa. O raio é modesto, pode dizer-se, mas a circunferência está bem desenhada. Como não foram criados à nossa imagem e semelhança — são seres incorpóreos —, os anjos possuem apenas cor e velocidade. Esta última permite-lhes estar em toda a parte. É por isso que ainda estás comigo. As asas e as correias dos ombros não precisam de um tronco para funcionar,
nem para apreciar o anonimato ou deixar que o corpo expanda de felicidade o seu diâmetro algures na amena Califórnia.
Há um anjo branco como algodão que tem estado pendurado, até hoje, na despensa, num cabide de metal. Graças a ele nunca nada de mal, em todos estes anos, me aconteceu — a mim ou, mais importante, à própria casa. O raio é modesto, pode dizer-se, mas a circunferência está bem desenhada. Como não foram criados à nossa imagem e semelhança — são seres incorpóreos —, os anjos possuem apenas cor e velocidade. Esta última permite-lhes estar em toda a parte. É por isso que ainda estás comigo. As asas e as correias dos ombros não precisam de um tronco para funcionar,
nem para apreciar o anonimato ou deixar que o corpo expanda de felicidade o seu diâmetro algures na amena Califórnia.
1 185
1
Antero de Quental
Nox
Noite, vão para ti meus pensamentos,
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...
Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,
E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...
Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,
E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
2 807
1
José Tolentino Mendonça
A infância de Herberto Helder
A infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
3 868
1
Guillaume Apollinaire
Le chat
Le chat
Je souhaite dans ma maison :
Une femme ayant sa raison,
Un chat passant parmi les livres,
Des amis en toute saison
Sans lesquels je ne peux pas vivre.
Je souhaite dans ma maison :
Une femme ayant sa raison,
Un chat passant parmi les livres,
Des amis en toute saison
Sans lesquels je ne peux pas vivre.
3 132
1
José Tolentino Mendonça
A mão, o muro, o mundo
A mão preferida pelo silêncio
evoca sobre o muro
um alfabeto sem vincos
não é mão é uma luz que sobe pela colina
um atalho entre as estevas
um incêndio na mata
a rapariga louca,grita contra a noite
na enseada
A mão preferida pelo silêncio
folheia o livro dos incêndios
torna-se irremediavelmente suja
sobre o muro traça os vincos
os primeiros versos
A mão preferida pelo silêncio
não conhece repouso
quando atravessa a noite da enseada
é a mão trémula
pobre
assinalada pela escassez extrema dos nomes
evoca sobre o muro
um alfabeto sem vincos
não é mão é uma luz que sobe pela colina
um atalho entre as estevas
um incêndio na mata
a rapariga louca,grita contra a noite
na enseada
A mão preferida pelo silêncio
folheia o livro dos incêndios
torna-se irremediavelmente suja
sobre o muro traça os vincos
os primeiros versos
A mão preferida pelo silêncio
não conhece repouso
quando atravessa a noite da enseada
é a mão trémula
pobre
assinalada pela escassez extrema dos nomes
2 351
1
Daniel Faria
Estou a um palmo da parede
Estou a um palmo da parede.Pergunto-se queres saber o que oiço-
O que disseste a Elias:Elias
O que fazes aqui?
Sim,alteio os meus olhos
Conto-te o que nunca escrevo nos muros
Junto-me aos animais com sede
Estou a um palmo do teu palmo e depois
Não estás nas águas nem na sede ou no teu nome
Estou a um palmo do teu silêncio e alteio
O silêncio.A boca mais alta do meu grito
de Dos Líquidos (2000)
O que disseste a Elias:Elias
O que fazes aqui?
Sim,alteio os meus olhos
Conto-te o que nunca escrevo nos muros
Junto-me aos animais com sede
Estou a um palmo do teu palmo e depois
Não estás nas águas nem na sede ou no teu nome
Estou a um palmo do teu silêncio e alteio
O silêncio.A boca mais alta do meu grito
de Dos Líquidos (2000)
1 665
1
Fiama Hasse Pais Brandão
Na Rua Das Mónicas
Nos meus vinte anos,almoçar em casa de Sofia era ouvir ferver em cachão, frigir na cozinha, arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia, e de todos os filhos, de muitos versos, cuidar de muitas gerações de memórias, no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água que ,mais do que a da torneira, concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral(o que exorciza as Fúrias, na cozinha) um rosto de mar novo,de geografia.
Era escutar as palavras da bocado vocábulo grego para sabedoria, o que me confirma o poder dos nomes, ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas. Era sentar-me, lado a lado, no espaço irradiante da volúvel lareira, no Outono apagada, na Primavera acesa, e com o fogaréu alimentado por papéis venais de outra política(que não a da sua humanidade), que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas, a das mulheres congregadas sob invocação da mãe de Agostinho, o que para mim celebrava também o amor de mãe, da velha ama, da Poesia.
Era ver a ama de Sofia, e de todos os filhos, de muitos versos, cuidar de muitas gerações de memórias, no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água que ,mais do que a da torneira, concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral(o que exorciza as Fúrias, na cozinha) um rosto de mar novo,de geografia.
Era escutar as palavras da bocado vocábulo grego para sabedoria, o que me confirma o poder dos nomes, ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas. Era sentar-me, lado a lado, no espaço irradiante da volúvel lareira, no Outono apagada, na Primavera acesa, e com o fogaréu alimentado por papéis venais de outra política(que não a da sua humanidade), que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas, a das mulheres congregadas sob invocação da mãe de Agostinho, o que para mim celebrava também o amor de mãe, da velha ama, da Poesia.
1 837
1
Ingeborg Bachmann
Dizer Trevas
Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
1 470
1
José Tolentino Mendonça
Uma Coisa A Menos Para Adorar
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
2 482
1
T. S. Eliot
The Love Song of J Alfred Prufrock
The Love Song of J. Alfred Prufrock
Sio credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, siodo il vero,
Senza tema dinfamia ti rispondo.
LET us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question...
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair—
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin—
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all:—
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
It is perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
. . . . .
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows?...
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
. . . . .
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep ... tired ... or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter,
I am no prophet—and heres no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all"—
If one, settling a pillow by her head,
Should say: "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."
. . . . .
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.
I grow old ... I grow old...
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.
Sio credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, siodo il vero,
Senza tema dinfamia ti rispondo.
LET us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question...
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair—
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin—
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all:—
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
It is perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
. . . . .
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows?...
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
. . . . .
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep ... tired ... or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter,
I am no prophet—and heres no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all"—
If one, settling a pillow by her head,
Should say: "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."
. . . . .
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.
I grow old ... I grow old...
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.
2 504
1
Daniel Faria
Sabes, leitor
Sabes, leitor,que estamos ambos na mesma página
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
2 166
1
Fiama Hasse Pais Brandão
Sumário Lírico
Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
2 727
1
José Tolentino Mendonça
Os Versos
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
1 977
1
Carlos Felipe Moisés
Mais um Dia
(Fragmentos)
Um tiro no escuro, louca
disparada do carro a zunir
dentro da noite,
um piscar de olhos --
e a luz do novo dia ilumina
a oficina do corpo.
O mesmo corpo feito de alma nua,
sangue e humores vários.
Um novo dia igual aos dez mil
novecentos e cinqüenta já percorridos,
gastos à mesa dos bares,
a acumular nas retinas
a imagem velha dos insetos
roendo a carcaça do dia,
jogada na calçada.
Insetos
assustados, à espera do bote,
à espera do berro, à espera
do sapo que os engole
(engoliu!)
e eles não sabem e seguem,
a roer as migalhas grudadas
nas tripas do batráquio.
Dez mil
novecentos e cinqüenta dias
consumidos à distância,
no silêncio do quarto onde rodopia,
há trinta anos,
a mesma velha inútil melodia.
Rodopia nada!
Explode
em gumes,
não resiste ao punho cerrado
que rompe a vidraça
e atravessa a neblina,
só para alcançar no arbusto em frente
o bago murcho que volta
e se espreme entre os dentes
e verte uma gota,
uma só,
a gota perdida
do ódio por tudo e por nada.
Ódio só afago,
inofensivo, guardado no fogo
brando em que me afago
há dez mil
novecentos e cinqüenta dias.
Um tiro no escuro, louca
disparada do carro a zunir
dentro da noite,
um piscar de olhos --
e a luz do novo dia ilumina
a oficina do corpo.
O mesmo corpo feito de alma nua,
sangue e humores vários.
Um novo dia igual aos dez mil
novecentos e cinqüenta já percorridos,
gastos à mesa dos bares,
a acumular nas retinas
a imagem velha dos insetos
roendo a carcaça do dia,
jogada na calçada.
Insetos
assustados, à espera do bote,
à espera do berro, à espera
do sapo que os engole
(engoliu!)
e eles não sabem e seguem,
a roer as migalhas grudadas
nas tripas do batráquio.
Dez mil
novecentos e cinqüenta dias
consumidos à distância,
no silêncio do quarto onde rodopia,
há trinta anos,
a mesma velha inútil melodia.
Rodopia nada!
Explode
em gumes,
não resiste ao punho cerrado
que rompe a vidraça
e atravessa a neblina,
só para alcançar no arbusto em frente
o bago murcho que volta
e se espreme entre os dentes
e verte uma gota,
uma só,
a gota perdida
do ódio por tudo e por nada.
Ódio só afago,
inofensivo, guardado no fogo
brando em que me afago
há dez mil
novecentos e cinqüenta dias.
770
1
Natália Correia
O Livro dos Amantes II
Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
2 053
1
William Butler Yeats
Versos escritos com desânimo
Quando foi a última vez que reparei
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
1 502
1
Carlos Figueiredo
Jardins Secretos
A Goya
Além do espaço que o corpo esculpe
existem abismos.
São segredos que vão se consumindo
em silêncio como cera
no calor da vida
são silêncios de uma cor tão clara
são como flores.
Como são pássaros
as almas.
Além do espaço que o corpo esculpe
existem abismos.
São segredos que vão se consumindo
em silêncio como cera
no calor da vida
são silêncios de uma cor tão clara
são como flores.
Como são pássaros
as almas.
1 173
1
Angelo Augusto Ferreira
Alento de Vida
Olha moço ...
Não tenho sua vida, não!
Vivo no campo
Embrenhado
No cheiro do mato agreste
Em meio dos mosquitos
Pássaros
Bois e vacas
Sem ser ofendido!
Todos os dias
No cheiro da terra
Batendo palmas para o trovão
Bendizendo a chuva,
O bem maior da plantação.
Orando. Ajoelhado.
Agradecendo à Criação.
Do rio, tiro o sustento
O peixe, o alimento
Dádiva, milagre da procriação.
E vou respirando
A vida bonita
Caminhante tempos afora
Envolto no ar puro
Protegido
No alento do Criador!
Moço...
A vida é como cipó
Se enrosca com muito amor
Na cintura da árvore
Não muito diferente
Sou cipó de gente
Grudado na vida.
Nasci puro, forte
Menino
Homem
Na ginga da dança
Invisível aos olhos
Contida na melodia da vida
Que a floresta pura cheia de energia
Toda hora dá prazer, ensina
O viver isolado
Sem castigo
Abençoado.
Vida Minha!
Igual cipó da árvore gigante
Agarrado
No mato, campo, floresta
Com fala
Sem grito
Na paz
Feliz com teto azul
Do céu onde os anjos habitam
Todos os dias me cobre
Com perfeição.
Olha moço...
Não tenho sua vida, não
Vivo no campo
No mato
Não tenho sua vibração
Tenho a energia
Pura divina
Do índio
Nosso Irmão! ! !
Não tenho sua vida, não!
Vivo no campo
Embrenhado
No cheiro do mato agreste
Em meio dos mosquitos
Pássaros
Bois e vacas
Sem ser ofendido!
Todos os dias
No cheiro da terra
Batendo palmas para o trovão
Bendizendo a chuva,
O bem maior da plantação.
Orando. Ajoelhado.
Agradecendo à Criação.
Do rio, tiro o sustento
O peixe, o alimento
Dádiva, milagre da procriação.
E vou respirando
A vida bonita
Caminhante tempos afora
Envolto no ar puro
Protegido
No alento do Criador!
Moço...
A vida é como cipó
Se enrosca com muito amor
Na cintura da árvore
Não muito diferente
Sou cipó de gente
Grudado na vida.
Nasci puro, forte
Menino
Homem
Na ginga da dança
Invisível aos olhos
Contida na melodia da vida
Que a floresta pura cheia de energia
Toda hora dá prazer, ensina
O viver isolado
Sem castigo
Abençoado.
Vida Minha!
Igual cipó da árvore gigante
Agarrado
No mato, campo, floresta
Com fala
Sem grito
Na paz
Feliz com teto azul
Do céu onde os anjos habitam
Todos os dias me cobre
Com perfeição.
Olha moço...
Não tenho sua vida, não
Vivo no campo
No mato
Não tenho sua vibração
Tenho a energia
Pura divina
Do índio
Nosso Irmão! ! !
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1
Judas Isgorogota
As Luvas de N Senhora
Éramos três, os retirantes do sertão inóspito:
Eu, meu pai, minha mãe, alguns sonhos, e só.
Eles, moços; eu tinha alguns meses apenas.
E nós fomos morar no alto do Jacutinga,
Bairro de gente humilde de Maceió.
A vontade materna estava assim cumprida.
— "Filho meu não se cria no sertão!
Não terei filho para vê-lo às garras
Do cangaço e do crime,
Da ignorância, da miséria, do ódio,
Que precise matar para ganhar o pão."
Fomos viver os três num casebre de taipa.
A pobreza era tanta
Que meu pai disse assim: "Não sei se vale a pena...
Não foi para isto que você nasceu..."
Respondeu minha mãe, com sertanejo entono:
— "Se pretende voltar para o sertão, que volte;
Morreremos aqui, o nosso filho e eu!"
Sorte de retirante é assim: dias passados,
A maleita bateu impiedosa nos três...
Todos tremendo como varas verdes,
Assim ficamos quase um mês...
E cadê água para as bocas ressequidas
Pela febre? E onde o alimento, a ajuda
De alguém para fechar ao menos nossos olhos
Pela última vez?
Foi nesse instante cruel de nossa vida
Que nos surgiu Mãe Inês...
Uma manhã cheia de sol, duas mãos negras e humildes,
Ansiosas e aflitas,
Achegaram-se a mim. — "Pobre inocente...
Quase a morrer de fome..."
E no quarto se ouviu o seu fundo suspiro,
Angustiado e longo...
E me deu a beber daquele leite
Que era todo humildade e era humana ternura
E que tinha o calor de uma noite do Congo...
Ao pensar em Mãe Inês, tenho uma idéia estranha:
— Quando visita um pobre lar,
Nossa Senhora, femininamente,
Calça umas luvas de veludo negro
Para nos amparar...
Eu, meu pai, minha mãe, alguns sonhos, e só.
Eles, moços; eu tinha alguns meses apenas.
E nós fomos morar no alto do Jacutinga,
Bairro de gente humilde de Maceió.
A vontade materna estava assim cumprida.
— "Filho meu não se cria no sertão!
Não terei filho para vê-lo às garras
Do cangaço e do crime,
Da ignorância, da miséria, do ódio,
Que precise matar para ganhar o pão."
Fomos viver os três num casebre de taipa.
A pobreza era tanta
Que meu pai disse assim: "Não sei se vale a pena...
Não foi para isto que você nasceu..."
Respondeu minha mãe, com sertanejo entono:
— "Se pretende voltar para o sertão, que volte;
Morreremos aqui, o nosso filho e eu!"
Sorte de retirante é assim: dias passados,
A maleita bateu impiedosa nos três...
Todos tremendo como varas verdes,
Assim ficamos quase um mês...
E cadê água para as bocas ressequidas
Pela febre? E onde o alimento, a ajuda
De alguém para fechar ao menos nossos olhos
Pela última vez?
Foi nesse instante cruel de nossa vida
Que nos surgiu Mãe Inês...
Uma manhã cheia de sol, duas mãos negras e humildes,
Ansiosas e aflitas,
Achegaram-se a mim. — "Pobre inocente...
Quase a morrer de fome..."
E no quarto se ouviu o seu fundo suspiro,
Angustiado e longo...
E me deu a beber daquele leite
Que era todo humildade e era humana ternura
E que tinha o calor de uma noite do Congo...
Ao pensar em Mãe Inês, tenho uma idéia estranha:
— Quando visita um pobre lar,
Nossa Senhora, femininamente,
Calça umas luvas de veludo negro
Para nos amparar...
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