Temas
Poemas neste tema

Alma

Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Terceiro Poema

Quem é que sobe do deserto como uma coluna de fumo,
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?

Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.

o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.

— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.

Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.

Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.

No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.

— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.

Como és bela bela, minha amada, e pura.

Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.

Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.

Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.

Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.

Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
1 218
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - Vi

Às vezes penso: o lugar é tremendo.
E sobre os mortos, além da linguagem.
Lugar que se transforma rodando contra a boca.
Em certos dias, habitado por crianças
de uma infelicidade obscura, sobre
o verão. Por duros e belos
peixes entre as mãos perfurando
o sono de Deus.
E eu trago uma criança com um ombro
mergulhado no sangue, e o outro
ombro metido no sono triste.
Que pensa sempre, dentro de suas águas,
e é ameaçada por uma intraduzível beleza.
Muitas crianças caminham para o silêncio
de uma semana ambígua, quando
o verão anda de um lado para outro
e se desarruma por dentro.
O verão começa pelas partes mortas.
Ao longe, nas fronteiras da ilusão.
Crianças básicas fazem de mim uma rosa
iracunda, e atiram-na
contra a boca de Deus.
Para diante, através das águas estivais.

Não queiram viver em mim, quando entram
como espelhos as vozes virgens.
Ou morrer, se as colinas se aproximam
tão perto do rosto, e estremecendo
com muitas vozes.
Tão respirando, as colinas que se toldam
como povos embriagados.
Eu digo: não desejem amar-me, morrer
de mim. Porque destruo com aboca
o beijo transformado.
Morro em todas as pessoas que a delicadeza consome.
Digam-me devagar quais os vocábulos alarmantes.

Uma história de crianças com folhas
dispersas é sempre
uma história de morte. Embora a doçura
levede sua alma cega, crianças, eis como digo:
são uma musa devoradora.
Estão ligadas a toda a grande idade,
à terrífica fantasia do tempo.
Porque falam no esgotamento e, enquanto dormem,
sonham com seu ombro fendendo o sangue,
entrando no poder de Deus.

Tenho uma criança profunda em todos os lugares.

Desabitai-me a beleza que bati na pedra,
abaixado e louco.
E que a mulher se desabite da solidão que tive,
enquanto falei ao alto, inspirado
pelo assassínio do amor.
Desabitai-me da minha fome e da neve
onde fui brilhante brilhante.
LUGAR 143
Brilhante como o trigo escorrido nos dedos.
Gomo os pés sugeridos em volta da cinza.

A tristeza do verão é um modo de saber.
Ou ser puro. Ou estar afastado.
E preciso abandonar-se no meio da tarefa,
enquanto o crime é o autor, embebido.
Conheço crianças esgotantes pelo sono
onde acordam.
É preciso que Deus se liberte dos meus dons.
Que se não perca em minha fabulosa
ironia.

Também vi crianças empurradas nos meses.
Pela leveza da luz, empurradas
crianças supremas. Vi-as da mais subtil
matéria, com cerejas, com mãos.
Porque Deus é tão leve como a água atravessada.
Água que iracundos peixes rompem em todos os lugares.
Porque um poema alude ao mistério.
E eu ia pelo ar
de um canto de devotamento, eu
amava e amava.
E então levanto de mim próprio, contra
a inspiradora confusão,
as mãos de crianças preciosas caídas em sangue.
Mãos que Deus exerce no sono.

Deixai às crianças minhas zonas primitivas.
Minha terna loucura.
Deixai-as virar a alma para o lado,
de cara contra uma fria onda.
Em mim é que nascem e vivem com nomes
castos, e esquecem.
E de repente se lembram, e se esquecem
de tudo.
Porque são delicadíssimas.
E verdadeiras.

Abandonai-me no mês de Deus aberto,
com as crianças sorrindo com grãos de sal.
Esse Deus sobre as patas ao lado
de catedrais difusas.
Onde encosto meu rosto da cor
assaltada das lágrimas.
Cor de quando tudo pára.
É a minha voz que se ouve para diante da noite,
voz tremente e limpa.
Voz acocorada depois numa obra obscura.
Voz bebida em si própria.

Meu sangue percorre os mortos
que me beijam no escuro com sua boca
de barro fechado.
O sangue passa por toda a doçura.
Os mortos tremem, luzem com o dom
em mim voltado para a sua solidão.
E criam, em cadeia, a mãe
descida em silêncio, mais remota
por detrás dos dons.

Um galho de sangue bate contra seus ouvidos.
Mãe afogada empoeiras interiores.
E chegada então ao cimo da escada.
Olhando pelos meus dons dentro, olhando
o meu dom.
Olhando toda a minha força, ela
ao cimo de uma escada terrível, olhando
dentro de uma doçura mortal
a solidão dos meus dons. Olhando
inteiramente.

Deixai-me em todos os lugares, em cada
mês que principia.
Casulos e campânulas são imagens misturadas.
Sobre o nocturno tema de Deus, despeço-me de todos.
Não me sabem as crianças, e eu sei
todas as crianças num poema prédio em chamas.
Nos meus dons.

E então penso: o lugar é terrível.
1 133
Herberto Helder

Herberto Helder

Como o Centro da Frase É o Silêncio

Como o centro da frase é o silêncio e o centro deste silêncio
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos —
o modo da idade que aqui se compara a um mapa arroteado
por um vergão de ouro
ou o medo que se aproxima da nossa delicadeza
e que tratamos com o poder da nossa delicadeza —
temos de entrar na zoologia fabulosa com um talento bastante fabuloso
pois também somos a vítima da nossa vítima —
e ofereço à perscrutação apenas uma frase com buracos
assinalando uma cabeça escritora
assim era — dizia a própria cabeça — um queijo suíço
a fermentar como arcturus fermenta na treva celeste
e apura os volumes e a qualidade dos volumes
da luz —
desde que a atenção criou nas coisas o seu movimento
as formas ficaram sob a ameaça do seu mesmo
movimento —
o mais extraordinário dos nomes sempre esbarrou
consigo mesmo
com o poder extraordinário de ser dito —
qualquer vagar é de muita pressa e toda a rapidez
é lenta — basta olhar para a paisagem da escrita já antes
quando começa a abater-se pelo seu peso e o espírito
da sua culpa —
porque uma frase trabalha na sua culpa como a paisagem
trabalha na sua estação —
o merecimento a ver quem a ele chega primeiro
ao buraco do coração—ver ou ser visto —
ao buraco que transpira no meio do ouro —
se é ele o ouro ou se o ouro está em volta tremendo
como um nó vivo implantado em cheio na madeira —
e a única meditação moderna é sobre o nó
absorvendo a madeira toda — uma espécie de precipitação
convulsa da matéria para o seu abismo próprio —
e sobre a tábua despida incorporando cada nó que fica
a palpitar com a força no tecido inteiro
da tábua
e lançando na tábua a sua energia mergulhada
de nó —
porque em toda a palavra está o silêncio dessa palavra
e cada silêncio fulgura no centro da ameaça
da sua palavra —
como um buraco dentro de um buraco no ouro dentro do ouro

e

cumpre também falar do desafio do espectáculo — o teatro
dentro do teatro —
o travesti shakespeareano na dupla zona da forma e da inclinação
para o sentido enigmático —
a rapariga vestida de rapaz interpretando a função oblíqua de rapariga
perante o rapaz vestido de rapariga interpretando
a misteriosa verdade corporal de rapaz —
o que se pede à cena é apenas o delírio de uma coisa exacta
através das armadilhas —
porque a vertigem é um acesso às últimas possibilidades
de equilíbrio,
entre a verdade que é outra e a outra verdade que é
uma verdade de uma nova verdade continuamente —
outra regra do espectáculo é inventar
a forma seguinte do enigma de modo a que a frase visível
fique junto ao rapto —
empurrar o rosto para as trevas —ou retirar da dança
os pés e ficar à luz uma espécie de imobilidade —
o brilho do rosto já sem o rosto mas com toda a energia
e todo o impulso de um rosto ser o rosto teatral —
porque também a máscara era a abolição de uma falsa liberdade
do rosto —
e então não era o rosto que estava mas
a eternidade de um teorema —
a abdicação das formas que morrem de si mesmas —
um salto para o centro —
e as presenças muitas brancas enchem a cena
apenas de brancura
central implantada cega na paragem do tempo —
perder o nexo que liga as coisas porque há só uma coisa
dada por indícios —
uma centelha um sopro um vestígio um apelo uma voz —
que a metáfora seja atendida como alusão à metáfora
da metáfora
como cada coisa é a metáfora de cada coisa —
e o sistema dos símbolos se represente como o símbolo
possível de um sistema
de símbolos do símbolo que é o mundo —
o mundo apenas como a nossa paixão posta diante de si —
a paixão da paixão —
nenhuma frase é dona de si mesma —
e então o teatro que apresenta a frase não é dono de nada
mas só do recurso
de ganhar uma regra e recusar a regra ganha —
assim como a voz abdica no silêncio e o silêncio
abdica na voz para dizer apenas que é uma forma de silêncio —
um génio animal inexplicável como uma queda no escuro —
enquanto as vozes são cada vez mais astrológicas e loucas —
e desaparecemos no silêncio levando com uma grande
leveza a queimadura inteira na cabeça


1974-
676
Herberto Helder

Herberto Helder

4

Boca.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.

Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.

Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.

Nunca durmo.

Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.

Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
1 036
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - Vii

Pequenas estrelas que mudam de cor, frias
pêras ao alto
de raízes queimadas, ainda doces, profundamente
cor de turquesa — eu tudo sei.
Como a época leve que entra,
como as crianças que despertam e sorriem
lapidarmente, e morrem
sem que se note, na própria clareira viva
do seu sorriso.
A onda que envolve os peixes, e dos peixes
absorve o rápido estremecimento — eu tudo sei.
Porque mudo, queimo-me.
Porque as ondas me batem na boca.

Pequenas estrelas passadas de cor para cor, pêras
que rolam de um degrau
para outro degrau de amadurecimento. Enquanto
estou deitado sob o céu brutal, e a noite
avança terrivelmente plácida.
E por baixo a terra vive, abstracta
e espalhada.
Quero dizer: eu tudo sei.
Junto aos ossos em gelo bate uma veia
que sobe, quente; que em silêncio ascende
e bate na língua: — Eu amo o pão que amadurece
no fogo.
Amo a ideia que a morte alimenta
agora na noite. Cinza sobre pepitas.
O açafrão nas pedras encarnadas.

Cerro os olhos para ouvir durante toda a noite,
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida—o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo — eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.

E eis que todo esse puro tempo passado
se levanta, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa — e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida — sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade — e sei tudo.
Digo: minha alegria é tenebrosa.

E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.

Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia —
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.
1 087
Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - I

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.

O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o álcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.

Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo
da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tãp
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.

Alguém se debruça para gritar e ouvir em meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim — a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.

Alguém se procura dentro de meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.

Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.
1 014
Herberto Helder

Herberto Helder

Para o Leitor Ler De/Vagar

Volto minha existência derredor para. O leitor. As mãos
espalmadas. As costas
das. Mãos. Leitor: eu sou lento.
Esta candeia que rodo amarela por fora,
e ardentescura por dentro.
Candeia tão baixa-viva. Sou lento numa luminosidade como em meio de ilusão.
Volto o que é um rosto ou um
esquecimento. Uma vida distribuída
por solidão.

Sou fechado
como uma pedra pedrissima. Perdidíssima
da boca transacta. Fechado
como uma. Pedra sem orelhas. Pedra una
reduzida a. Pedra.
Pedra sem válvulas. Com a cor reduzida
a. Um dia de louvor. Proferida lenta.
Escutada lenta.

— Todo o leitor é de safira, é
de. Turquesa.
E a vida executada. Devagar.
Torna-se a infiltrada cor da. Pedra
do leitor.
Volto para essa pedra absoluta. Relativa
à minha pedra.
Minha pedra pensada com a forma
de. Uma lenta vida elementar.

Leitor acentuado, redobrado leitor moroso.
Que entende o relato sem poros,
o mês atroz dealbado sobre a pedra
sem orelhas, pedra sem boca. E que desce os dedos
sobre. Meus dedos pelo ar. E toca e passa.
Pelas pálpebras paradas. Pelos
cerrados lábios até às raízes.
E cai com seus dedos em meus dedos.
E espera devagar.
Leitor que espera uma flor atravancada,
balouçando baixa
sobre. Mergulhados
filamentos no terror
devagar.

Mas que espera. Doce. Contra o hermético
movimento do mundo.
E que o mundo movimenta contra.
As ondas de Deus auxiliado
auxiliar. E que Deus movimenta contra. Suas ondas
muito lentas, amargas ondas muito.
Antigas, ignoradas, corridas. Sobre
a primitiva face do poema. Leitor
que saberá o que sabe dentro. Do que sabe
de mais selado. E esperará
dias e anos dobrado, leitor. Varrido
pelo movimento dos dias.
Contra o movimento nocturno do. Poema devagar.

E que espera.
E para quem volto. Muitas coisas sobre
uma coisa. Volto
uma exaltante morte de Deus. Auxiliado
auxiliar. O espírito, a pedra.
Do poema.
Leitor à minha frente. Vindo
do mais difícil lado
das noites. Ainda tocado e molhado
de suas flores aniquiladas.
Rodo. Para esse rosto difuso e vagaroso
meu sono.
A fantasia minuciosa. A oblíqua inovação.
A solidão. Trémula devagar.

Leitor: volto
para ti. Um livro que vai morrer depressa.
Depressa antes. Que a onda venha, a onda
alague: A noite caída em cima de teus dedos.
De encontro à cor de encontro à. Paragem
da cor. Este livro apertado nas estrelas
da boca, estrelas.
Aderentes fechadas. Por fora
leves às vezes, presas.
Para eu batê-las durante o tempo.
Eterno, o tempo. De uma onda maior que o nosso
tempo. O tempo leitor de um. Autor.
Ou um livro e um Deus com ondas de um mar
mais pacientes. —
Ondas do que um leitor devagar.
1 292
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - V

Explico uma cidade quando as luzes evoluem.
Quando é assaltada pelos gestos devotados.
Explico um espaço solene e unido
por virtude do fogo infantil.
Com a boca sobre um casulo
de som, uma criança
é sempre livre e encerrada.
Explico uma cidade através
de brilhos interiores. De pedras raras
viradas na palma da mão.

Cidades são janelas em brasa com cortinas
puras, praças com a forma da chuva.
Quartos. Jarras.
Rostos como girando sobre gonzos.
E por dentro de tudo a morte ou a loucura.
Estátuas encarnadas cheias
de sangue. E o silêncio
dobrado para a frente na força da luz.

Cidades existem entre as mães que contemplam
as flores e as folhas
do sono. A criança branca
e prolongada para dentro como no fundo
de uma estampada idade do ouro.
Cidades são aposentos fixos
quer na cabeça, entre brasas, quer
no gosto, na audição.
Barulho de passos, profundidade,
devotamento misterioso.
É o girassol do talento materno
amando o movimento por cima brilhante.

Ao longo de sons sempre passaram
mulheres apaixonadas,
separando os pés sobre frigidas gotas.
Mulheres partindo, chegando, voltando
o corpo na luz suspensa
e inteligente. Mulheres cheias de uma
atenta suspeita.
Vergadas para o fundo de uma existência
dura e pura.

Cidades que se envolvem de ecos e em cuja
solidão extraordinária
as mulheres batem seus dedos cândidos.
Sua sinistra fantasia.
Tiradas dos limbos segundo um ardente
princípio de ilusão.
Amadas por Deus e entrando
na corrupção de Deus.

São quentes e frias, colocadas sobre moventes
comoções antigas.
Metidas pelo espanto dentro, enterradas
até ao livre espírito e ao terror.
Fábulas de comércio.
Imagens delicadas de uma suave indústria.
Cidades dotadas de uma inteira falta de intenção.
Abertas aligeiras canções tenebrosas e,
sobre as graves canções, fechadas
como pedras frias.

Na noite impressa nos dois lados e,
pelo mais escuro lado antigo,
a revelação. Cada cidade é uma vingança
anterior onde a beleza passa
vestida de mulher.
Beleza lembrada e relembrada em seu
circuito ardente.
Escoada, esquecida.
E logo ressurrecta.
Tão próxima.
Cidades vazias de cócoras contra a noite,
ao lado de uma enorme ressurreição.

E os arquitectos deslocam-se, unindo
nos dedos a pedra encurvada.
Ouvindo o som contra o som.
Imaginando uma paixão espantosa
no sono.
E agarrando-se às vozes, como as vozes brilhantes
se agarram à língua para fora.
Arquitectos fechados sobre as mãos com instrumentos
que se voltam no ar. Principiando
a queimar-se.
Isolando concepções geladas
que entram na terrível purificação universal.
E então levanta-se o exemplo dos violinos.
E eis o que se ama: o som.
Arco ligado que leva a música
em louvor das fêmeas.
As cordas, as chaves, a caixa soante
dos vivos e dos mortos.
Lírica
antropologia.
642
Herberto Helder

Herberto Helder

3.

Esta ciência selvagem de investigar a força
por dentro dos olhos:
a treva parada numa parte: do outro lado faiscando
todos os astros:
as obturações as
aberturas na carne: não sei ver nos livros a aparição do rosto
todo cercado por uma casa:
não conheço quando nasce a ribeira no meio:
quando nasce quando
a ribeira de uma montanha
no meio
brilhante:
a maldade da linguagem se o cinema mostra
as janelas das paisagens:
e essa forma repleta de passos para indagar:
e então é preciso outra maneira de poema: uma
espécie furiosa de pessoa comentando
com muito pormenor:
cabeças cheias de raiva e murmúrios no escuro:
a intensidade dos cabelos em volta dos cornos: e logo o poema
traz as coisas para o quarto: coloca
tudo mais perto do centro:
vê-se a teia que vai da fronte às coxas com os braços reluzentes
por cima
e no meio um remoinho cego:
o sexo: a estrela
tumefacta:
esta ciência é um movimento das mãos contra o espelho:
a parte de trás da cabeça onde vibra o meteoro: é
a onda aproximada: uma porta na sala
que fecha de estrela a estrela:
apenas o sangue e a testa um pouco louca entre os dedos:
copo de mármore:
planeta de aço:
uma flor rija ascensional com os pulmões chamejando
na terra:
essa velocidade que há na noite de lado a lado:
e a testa fervente abismada no mundo: e os pólos
do corpo:
clareira
cerrada à volta: esse modo secreto de tudo mexer
com uma finura viva:
não sei que dedos no estilo para queimar a cara forte
paralisada: a combustão
dentro da fotografia: a sibilante cara:
a cara:
e a maneira sagaz de trazer cada coisa até à própria labareda:
as mãos enxutas muito abertas: o
medo sem um só grito
em frente da noite cosida: camisa
redonda: e este saber
que vê passar os animais fundos e claros e tem
a sua loucura para alimento:
e a casa
para morrer e falar durante o sono e andar
de um canto para outro
com os dedos alumiando limpamente: o circuito magnético entre as
têmporas:
a raiz da ciência desde os pés até aos olhos
2 037
Herberto Helder

Herberto Helder

Astro Assoprado

Astro assoprado, sombria ligeireza, dom: eu sei.
Nada me toca.
Apenas um dedo de mármore na cabeça.
Trespassa-a, têmpora a têmpora, coroa de uma agonia
na escuridão das camas. Para dançar.
A roupa treme ao choque do sangue,
magnetizada,
viva repentinamente. Ninguém me diz como
se tece o casulo, e a seda
transpira de si mesma. O arpão de mármore traz,
directa do coração,
a ferida. Depois danço, e carne e roupa
são a mesma coisa, a coisa que dança, a chaga
dessa leveza. Prodígio
do talento pontuado à força de branca pedra
demoníaca.

Que me dê essa coroa, que me levante
da sonolência, da obscura inocência
que em mim corre também, entre os lençóis e o tremendo
esplendor das vísceras. Das partes negras,
da queimadura
na boca, os intestinos onde brilha o alimento,
o ânus que me fundamenta
nas trevas, e
dentre a raiz dos membros — arranca
um planeta que dance, limpo, apenas com um anel
saturnino à volta. E o eixo
de mármore implacável.

Que tenha Deus um sonho em carne viva.
Uma noite que trema pelo poder astronómico.
Mas que me poupe assim concêntrico
ao campo, e divagante, a curva
tensa:
o arco, o braço.
E as chispas súbitas, frechas
tão ferozmente pela carne dentro até ao escuro
do próprio astro, deixando um orifício
fulgurante:
um tubo de som,
sopro de ponta a ponta
— aquela baixa música mortal.
Vêm os animais, alvorecendo, os cornos a rasgarem a cabeça
outra espécie de luxo,
de melancolia.
E o corpo é uma harpa de repente.

Animal de Deus, eu.

Uma ferida.
1 154
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar Último

Escrevo sobre um tema alucinante e antigo.
Esquecimento
que me lembrasse agora para sempre
como
uma roseira. Como
que escrevo assim com um grito maravilhoso
dentro da carne, terrivelmente.
Nas pancadas da boca.
— Sei cantar devagar, de pé, a enlouquecer muito.
Respirando, sangrando tanto.
Sei cantar com estrelas iradas.
Há uma elevada mulher com flores
na boca e no ânus.
Contra mim, contra minha divagação.

Penso: a flecha ama a onça.
A morte ama o que morre.
Pensei ainda pela pancada dentro: a mulher
ama o homem.
E quando brilhavas debaixo da minha luz
espantada, também pensei:
eu amo-a. Porque mexeste nos meus
nomes desde o nascimento.
Contei-te pelas pétalas coloridas,
e agora
o meu amor é puro puro louco louco.
E o que dorme dorme
do que é forte.

Uma mulher passou quando eu dormia ou acordava.
Era uma luz molhada.
Estava ao cimo como lágrimas, estava
com folhas à tona da idade.
Passou uma delicadeza, uma mulher
que ficou.
Existiu um campo transviado.
Uma alagada adivinhação. Por cima
abruptamente
uma — pancada na noite dos órgãos.

A noite é não ter amor senão
em luzes.
Como uma pedra sobre a boca.
Apedra sente a boca, a solidão sente
o homem. Digo que um homem beija
interiormente a boca.
Mas era uma mulher que morria,
uma mulher que nascia agora altamente.
Um lúcido campo morto.

Passou, transferiu-se, reviveu
sobre a minha cabeça. Atravessava-a uma flecha. Era
uma cabra silvestre uma cabra azul
uma cabra colorida
pela ira e a doçura e pela altura
saltada de uma cabra entrevista nos grandes céus
loucos.
Era caçada pelo caçador do amor.
Era com os cascos e os malmequeres. Com a delicadíssima
boca humana.
Os veios de ouro.
Era como as belas mamas brancas.
Quente como as urtigas.
Era deitada cor de violeta.
Uma mulher retumbante com todo o silêncio.
Dormia contra mim.
Ela vigiava, corria no ar.
Quebrava no ar. Era a mulher tão pura.

—Anos e anos de viagem sideral com os pés
iracundamente
azuis. Sou eu,
como um retrato de cabeça para baixo.
Conheci-me cantador em estado
de amante. Tive
o desviado ofício de canteiro.
Fiz uma catedral. Morri
acocorado. Eu era um amante
com ofício de poeta cego. Um dia
transformei-me na mulher que amava.

Em tantos anos não ignoro como tudo amadurece.
Neste lado de agora
vejo: os cravos batem no ar que bate
na roupa que bate nas pedras.
E penso: houve uma quinta, quarta, uma
terça, uma segunda-feira, uma sexta-
-feira.
Bocados exaltados por cima.
Porta extática debaixo dos raios.
Sábado era um dia de ardente vileza.
Um domingo de amor ou de exemplo.
Eu era um amante que era uma semana
de lado:
ou era a chuva
amada por uma misteriosa velocidade,
ou o sol que a lentidão
apaixona por dentro.

Eu era uma mesa com tantos anos
sentados para comer-me em estado
de pêra inclinada.
Eu fui um amante numa torre
ao meio da praça. Eu fui parado e unido.
Quantos anos iracundos. Cantadores.
E se a roupa molhada bate
sobre a minha cabeça, e nela se embebe
a luz penetrante — é preciso transformar-me.
Fui amante como um cão. Fui
de divagação em divagação a lua lua. Eu ladrava de cima.
Eu era a baixa lua lua onde os pântanos
caíam em êxtase. Perdi
todas as mãos, e na derradeira mão
transformei-me na morte.
Batem os levíssimos nomes como pedras
no ar, mais verdes, como
crisântemos abrindo-se e depois
fechando-se. Crisântemos — digo —
virtuais. Com tantos tantos anos delicados
iracundos de todas as cores.

— Celebro agora os dias da sombra de onde
sagrada a loucura se levantava. Quando os cantores eram tomados
pela embriaguez
soturna, e falavam
alto com as ondas à volta. E eu lembro
a entrada
desses dias retumbantes, quando alguém
entoava em sonhos as fontes
da ilusão. E a idade avançava por dentro
da aguda alegria, por dentro e a gente
gritava que era alto tão tão alto — o amor.

Celebro a tecelagem, as mãos sombriamente embebidas no trabalho. E por cima
de tudo as pedras
rosas da cabeça, os cestos, as liras, o pão.
E em baixo o sangue bate acendendo e apagando. E eu agora sei tudo, e esqueço
muito devagar. Também com força uma mulher
aperta
os pés sobre a minha boca. E eu pareço
pensar no ar. Pareço
dormir entre gotas frias. Ou então
também pareço vir vergado e louco debaixo do estuar celeste.
Nas noites onde cerrados os girassóis
esperavam a ressurreição. Ou nos dias levantados
sobre as melancolias mais fortes. Quando
a mulher era levada pela interior
fantasia do seu próprio encerramento.

Noites oh noites tantas e
tantas noites oh tantas noites seguidas
intactas, despedaçadas, regeneradas como noites
para dentro e para fora,
debaixo da chuva. Enlouquecendo.
E cantando o corpo, as voltas, os terrenos, os fetos
do corpo, e as achas aproximadas e brilhantes
do corpo humano.

E talvez seja este o último exemplo
de amor e a imemorial noite lancinante, solidão.
E eu me transmude na zona de uma idade
antiga, e Deus
fale de em mim no puro alto da carne.
E uma onda e outra onda e outra e outra
e outra
onda e onda
batem em sua belíssima deserta altíssima
voz.
E não sabemos escutar o barulho,
nem vemos os roseirais dominados pelo silêncio,
oh nem
deliramos nos enormes inóspitos campos
de Deus.
1 182
Herberto Helder

Herberto Helder

2

Eis como que uma coisa como que nos interessa: destruir os textos.
Passa-se que:
o caçador vai à procura de cabeças. Que é como quem diz.
Traz cabeças faz um monte.
Um monte de cabeças intempestivas, vociferantes, cabeças rebarbativas.
Arruma tudo, limpa o ar só para elas, um monte grande
luzindo, sibilando assim, ovídeo
turbilhona.
Um monte de desenfreadas cabeças cheias de nós de cá para lá
no vídeo
com uma pressa faiscante.
Atulhadas de pequenas ideias assassinas assim: sibilando
a sua canção estereofónica.
Eis que é como que isso que é como que
é preciso desmanchar: fazer
uma paisagem centrífuga, porque a violência
alimenta-se de música,
música fervente. Electrochoque para os textos apoiados assim
como que em música como que
ali. Isso. Como que: o dínamo nas cabeças lírico-psicóticas:
truculentas — estragando.
Suadas. Soldadas a isto: a ideias frenéticas, como que
soldadas como que
às mãos, aos dedos todos: frenéticos; às garras.
É como que se faz aos textos: toda a destruição.
Pensamos que interessa varrer tudo muito bem:
não é nada com a atmosfera, não é nada que não seja
com destruir por conta
da paisagem escrita que começa sempre à volta de um orifício.
As estações como que trabalham naquilo de
trazer
para muito perto do orifício
a fruta toda os buracos os ovos as víboras os astros as pedras tudo
faiscando.
E o orifício.
E então e o orifício traga tudo. Como as cabeças ficam
faiscando nas mãos.
Queremos dizer que como que abanamos depressa as mãos.
Não se pode acreditar na beleza concentrada
da gramática
como que cheia de como que
força pura,
cintilação,
violência.
Destrói: esta paisagem eternamente em órbita em torno
deste eixo.
Este show treinado como um movimento da terra
com o seu furo incandescente no meio, destrói.
Empurrar as cabeças cheias de relâmpagos para todos os lados
como frases
com fósforo. Cortar aos pedaços.
Quando o vídeo brilha como uma janela como um lirismo
arrebatador. Deitar fora. Ver e marcar onde está o sangue, só.
1 017
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - Iii

As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
1 363