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Alma

Renato Rezende

Renato Rezende

[Abelhas]

Ele pensa que existe, mas no fundo, quem existe sou apenas eu. Sem saber quem é, ele rodopia sem parar pelo mundo. Como uma borboleta, como um beija-flor, sem núcleo, sem centro, vazio-oco. Na caverna dele estou eu, mas ele não me vê, escondida que estou em luz. Por isso ele gira estonteante, amando tudo o que sente, o que vê, o que toca. Eu o fiz para isso mesmo. Para ele me amar. Um dia eu me revelo e ele me descobre.

Ele é apenas uma sombra, no fundo, seu medo tem fundamento. Intui que não existe, sabe que vai morrer. Quem existe sou eu: não mais a Morte, mas a Bem-Aventurança.

A pessoa viva deseja. A morta ama.

Eu sou sempre-viva porque todos os dias me despedaço por ele.
Todos os dias bebo meu próprio sangue por ele. Você se sacrificaria por mim?

Mais cedo ou mais tarde, tem um dia em que o teto cai, a gente rola para dentro do próprio ralo. Minha amiga: eu fico aqui, de boca aberta, esperando, torcendo. Você terá coragem de passar por esse ralo? Você vem jorrar em minha boca?

Eu não escrevo poemas; eu sou um poema. Eu escrevo pessoas. Por exemplo, agora, estou escrevendo você.

Enquanto você se transforma em palavras, eu te transformo em pessoa. Sei que é difícil de entender, mas é assim mesmo. Você é como um molde de cera, um equilíbrio de passagem. Assim que esvaziarse toda em palavra e seu frágil molde derreter pelo meu fogo, vai perceber surpresa que em seu lugar você agora é: ouro. Vida nova.

Vida viva. Ouro aéreo: luz: o universo iluminado. Vai se sentir virada do avesso. Grata: esse trabalho quem faz sou eu.

Mas é preciso que você queira. É preciso que você me deseje obscenamente. Venha, minha amiga, sejamos cachorras.

Não se assuste. Minha função é pôr a mão na sua caixa de marimbondos. Libertar suas abelhas vermelhas, ferozes. Você multiplicada, dividida, em milhões de abelhas douradas pelo espaço aberto. Você suportará seu próprio zumbir?

Eu posso perfeitamente mastigar abelhas vivas. Quer ver?
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Santo]

—é essa a humanidade que pulsa agora.

Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.

Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.

Minha querida devoradora de corações,

Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.

Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.

A palavra do erotismo é o espírito! O salto.

(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).

Tigre,

Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida

Então posso ser o homem

da sua morte?

E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?

Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.

Sim, a matéria salva.

É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.

Eu não estou escrevendo isso.

Eu não estou sentado nessa sala.

Eu estou aqui

(para vocês),
mas eu não estou aqui.

O coração é meu órgão sexual.

Quero gozar o tempo todo.

Amor divino: castidade absoluta.

Eu sou o homem e eu sou a mulher.

Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.

Quanto mais santo mais no mundo?
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Oceano]

Círculos de luz opaca, em vibrações, como se saíssem de mim, da região entre os olhos: a sensação de levantar-me dentro de mim mesmo, e ascender, ao ver um objeto caindo, caindo, caindo sem fim e se espatifando junto a uma grande encosta murada, uma muralha que parecia erguer-se indefinidamente, e de repente, eu vendo, lá de cima, o infinito vale muito embaixo, onde corre o rio que era eu o objeto espatifado.

—Então me mata?

[Ela está pedindo para você matá-la]

Não Posso.

—Então me carrega no colo, em silêncio.

Sou uma pepita de ouro no seu ventre.

No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.

O oceano iluminado.

Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.

Uma voz agora:
Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.

O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.

Ser como um cão farejador de Amor.

Eu não quero ir a lugar algum.

—se for preciso, cavo.

Escorrer a vida e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.

O Amor transforma o Tempo num oceano.

Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo

a todos

Lá vou eu
choramingando de ternura pelos cantos.

Sou muito grata por existir.

Tudo é a Verdade.

Sou
partícula de fogo que retorna ao Sol

Esse corpo nunca mais.

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Renato Rezende

Renato Rezende

[Furniture]

Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?

Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.

Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.

Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.

Mas o que não é sempre não é nunca?

(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)

O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.

I’m cooking

Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.

Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.

Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.

A explosão no aqui e agora.

As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.

(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).

E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais

Sou enfim um corpo neutro
outro

Did you pay a lot for your furniture?

Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.

Sempre habitei uma tenda.

O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.

Nômade.

Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.

Descartáveis.

Uma vida descartável.

Tirar-se a vida como se tira uma calça.

Ah, o deserto.

A árvore da vida enraíza-se por dentro.
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Renato Rezende

Renato Rezende

Alhures

Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Estilhaços]

[estar: dois ou mais
locais ao mesmo tempo.]

Já sei o que vou fazer. Nada.
E quando o dinheiro acabar? Nada.

Do chão ninguém passa.

Eu não tenho compromisso com o real.

De vez em quando rompe-se um espelho.

Ainda não suporto
a força desse gozo.

Vou-me embora para Pasárgada? Que nada
Vou ficar aqui mesmo
Aqui
sou amigo dos meus inimigos, rei dos mosquitos.

Quanto mais belo, mais verdadeiro
Quanto mais verdadeiro, mais pleno

Tudo que é dito é desmentido.
Tudo o que é, também não é.

Estamos todos aqui de forma oblíqua—estilhaços.

Quando virarei do avesso?

A arte de estar onde se está

Ser é estar

esse habitar, esse ser quem é dentro de si

Penso, logo penso que existo.

só as ações são sólidas

o importante não é estar aqui ou ali
estar com este ou aquela

pq a pressa em morrer?
logo logo estará morto

a vida nunca é a vida
viver nunca é viver

Toda cultura inventa um corpo

Quer chá? Não quer chá.

Viver é sempre um construir

Uma coisa de barro é mais humana que uma de plástico?

Por quê?

Há palavras sagradas?

Há uma força maior? Algo que nos atravessa?

Ser Renato como poderia ser qualquer pessoa. O Renato tem seu destino. Ser Renato sendo o que observa o Renato, sendo o que assiste, estupefato, divertido, o filme do desenvolver da vida do Renato. Ser Renato não sendo o Renato, e sim aquele que assiste. Ser aquele que testemunha a vida do Renato sendo o Renato. Ser o que assiste—ser o observador—a vida do Renato interferindo na vida do Renato através do Amor.
Ser o que assiste amando. O ponto de encontro entre o Renato sendo e o que o assiste enquanto: é o Amor.

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Renato Rezende

Renato Rezende

[O Dia]

Somos todos iguais, é preciso ter compaixão pelas limitações dos outros e pelas minhas também. Preciso de mais compaixão por mim mesmo. Vou deixar rolar o que está acontecendo. Por que essa agonia? Está tudo bem. Sim, existe um grande esforço interno para chegar ao ponto de encontro entre o Ser e o não-Ser, e me sinto confuso.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.

Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.

Tranquila/ No centro de sua maravilha.

Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.

Se é para morrer, melhor morrer logo.

Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.

Não quero fazer nada.

Dai-me um corpo, uma voz, uma função.

O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.

Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.

Felicidade. Angústia.

Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[O Outro]

Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos

Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento

(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)

Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver

o seio...

Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.

E às vezes viver é um mar de doçura.

Vontade de vadiar o dia todo

Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim

(mulher)

Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?

Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.

Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.

Uma voz tentando dizer alguma coisa.

Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.

Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.

Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...

Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.

A poesia serve para desmascarar.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Ensaios]

Saberei renascer em vida?

De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.

Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.

Ensaios.

Vou perder o medo de ficar louco.

Começar a ser o que eu sou.

Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto

Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.

Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.

Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.

Por acaso eu sou eu.

Eu:

Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.

Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.

Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.

Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.

Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.

Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.

É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.

AMA ET FAC UT VIS

Tenho sido meticulosamente destruído.

Era uma casa abandonada, sem telhado

e as vacas

a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):

era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.

Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.

Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.

Eu vivo minha vida como se eu não existisse.

A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.

Não me importo com o que possa vir a acontecer.

Eu só sossegarei com o silêncio.

Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.

Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.

Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Irisar]

É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—

Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.

Constante crepitar

Areia que se desloca

A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.

Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.

É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.

Há anos que venho morrendo.

Há anos caminho nesse deserto.

Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.

Areia e céu se fundem.

Não está na hora de chegar?

Não é aqui a chegada?

Disse luminoso? E essas sombras

que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?

Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?

A vida é o aceno da morte.

É pela vida que a morte se revela.

Irisar

É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.

Quando começarei a desmontar o circo?

Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.

Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.

O Amor é
Amor

Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.

Nuvens:

Essa umidade toda mais parece uma mulher.

Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.

essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue

escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada

Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.

Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.

E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda

essa entrada no corpo.

E essa entrada, sou eu ou sou o outro?

Estou prenhe de morte.

Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?

Estou cansada da morte.

Estou com medo da morte.

E essas luzes douradas, o que são?

Esta vida estabanada. Como se vive?

Como se vive a vida de um homem? Como

Se morre?

A questão é que nunca me sei suficientemente morto.

Esta é a vida que pedi a Deus.
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