Temas
Poemas neste tema

Alma

Renato Rezende

Renato Rezende

[Pessoa]

A pessoa que olha para si mesma e diz,

Deus, eu preciso sair de mim!

(Eu preciso entrar em mim)

O que se pede?:

Que você brote em mim.

Eu já percebia essas coisas em você desde que nos conhecemos. Noque diz respeito aos relacionamentos, você me parecia ser uma pessoa que dá um passo a frente e dois para trás. Confesso que isso me dava uma certa vontade (ou impulso) de provocar, uma coisa meio: “quero ver se ele sai do sério...”. Mas não pense que era um jogo ou algo assim, não era nada de caso pensado, só um impulso provocado (sem intenção, creio eu) por aquele seu jeito. E talvez aquele seu jeito nunca tenha realmente mudado. Acho perfeitamente normal querer e não querer. Você pode não querer intimidade, mas pode querer se aproximar de alguém de vez em quando, se sentir atraído e sentir que é capaz de atrair. Você pode não querer morder a maçã e acabar com o caroço nas mãos, mas pode querer ter maçãs por perto às vezes, cheirar, apreciar e até dar uma mordidinha. Por que não?

Acordo no meio da noite gritando
minha vida está acabando!

Preso no corpo, no corredor do tempo, um segundo de cada vez—
a via estreita. .

EU QUERO!

Às vezes me dou conta como minha vida é intrinsecamente inseparável de mim; ou seja, como o que eu sou é a expressão fiel do que sou. Minha vida é a expressão exata do que sou, em traço e pulsão, do que sou em semente e potência. Para libertar-me e viver eu preciso de fato morrer, ou seja, libertar-me do que existe em mim que dá expressão material à minha vida, erradicar o que mais irredutivelmente em mim sou eu. Para enfim brotar em mim: eu sendo, aquilo que se É.

Aqui poderia viver, uma vez que aqui vivo

Se o tempo passa,
é porque já passou

Primeira premonição da Morte:

O homem que eu fui
E a mulher que eu fui;
E os homens que eu não fui
E as mulheres que eu não fui;
Somam-se agora ao meu corpo.

Nosso assombro é a nossa alegria.

(O que está vivo, está morto)

Deus é doido

(E todos eles ressuscitaram e retornaram às suas vidas)

O espírito deve se apossar do corpo e fazer dele um corpo divino— um corpo de ouro.

O Amor é dentro e fora; no interior e ao redor do corpo

Quando sou AMOR estou na ETERNIDADE

A distância mais potente de queda
726
Renato Rezende

Renato Rezende

[Hosana]

Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada

o seu uma vermelha?

Podemos viver sem o corpo
apenas mente

e sua matéria rara?

Qual a distância correta?

euforia e desamparo

Amamos melhor quando amamos em Presença?

Asa-palavra

Esse é um poema fora de órbita

Stella do Patrocínio:

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo

Eu quero sempre, em suspenso

—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.

—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.

—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.

—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.

—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.

—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.

—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.

—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.

—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.

Quem quer se casar comigo?

Deus, quer se casar comigo?

Estrela
Eu-sou
Eu-posso

Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio

Oh, Goethe!
1 009
Renato Rezende

Renato Rezende

[Beija-Flor]

Ele viu um beija-flor todo enroscado numa teia de aranha. O beijaflor estava praticamente mumificado e, se ainda vivia, não seria por muito tempo. Ele ficou um tempão observando aquilo, surpreso, sem entender como um pássaro podia ficar preso em algo tão frágil quanto uma teia de aranha. Ele achava que isso só acontecia com insetos. Como é que o beija-flor, que era muito mais forte, não havia simplesmente rompido a teia? Então lhe ocorreu que a gente pode se enroscar na própria fragilidade, até chegar ao ponto de perder as forças. Por algum motivo o beija-flor se enroscou, e se debateu em vez de apenas ir embora, entrou em pânico, perdeu o caminho, exauriu-se. E aí foi fácil para a aranha tecer mais e mais teia em volta dele.

Estou carregando um cadáver.

É preciso vencer de uma vez por todas essa zona magnética de dor que me evita chegar em mim mesmo.

Apesar de ainda manter fortes resquícios de um véu doloroso e sentimentos de confusão e incerteza, sinto que estou reagindo bem e vencendo o caos sem deixar que ele se expanda.

Invoquei a Deusa—a deusa é uma realidade. Senti-me a deusa. É preciso fazer todos os esforços para manter a experiência do amor divino, a chama acesa dentro do corpo brilhando alto. Invoquei Durga, e vi seu pé gigantesco, seu dedão do pé direito gigantesco, seu corpo que subia até os céus e seu rosto que era o rosto de Deus.

Disse à deusa: corte minha cabeça. E me inclinei.

Não se enrosque na fragilidade.

Homens ou mulheres; somos todos mulheres.

Corte minha cabeça
e beba meu sangue.

Eu não sou eu; eu sou uma coisa muito diferente de mim mesmo.
Não. Somos todos iguais, sim. Em cada um de nós existe a luz e a escuridão. Eu preciso tomar posse de todo meu território. E direcionar minha vida. Pois o direcionamento acontece no tempo, e o tempo é a dimensão humana. O que eu vou fazer com esta vida que me foi dada,
assim, de repente? Estou nervosa. Muito nervosa. Vou sangrar. Rôo unhas.
Tenho unhas. Vou sair andando como se fosse de fato uma pessoa, e vou fazer coisas que uma pessoa faz. Vou gastar meu tempo escrevendo.

Dianóia

Posso ser enquanto falo?
1 081
Renato Rezende

Renato Rezende

Odysseus

One day, taking a coffee break, he noticed a book someone had forgotten on a table.
Surprised, he saw the book was written on his native language. He brought it to the kitchen and
tried to read while working. But he didn't have a chance. At the end of the day he took the book
home. He was excited.
It was the story of Odysseus and during the night, reading it in his room, he felt his heart
being overwhelmed by beauty. He read all night long and the next day he didn't show up for work.
Instead, he went for a walk with no directions. It was the beginning of spring and everything was
beautiful, everyone looked happy. He was surprised he hadn't really noticed the spring before. He
walked to a park in the top of a hill and sat down.
He stayed there for a long time. From there he could see the whole city and the suburbs. He
remembered some passages of the book; the beauty of it had remained with him. He had a strange
feeling; he felt his heart was so big he could fit the whole world in it. Suddenly he stood up and
shouted: I'm Odysseus!


Poderia ser em sueco: En dag under en kaffepaus lade han marke till en bok som någon hade glömt på ett bord. Till
sin förvåning såg han att boken var skriven på hans eget modersmål. Han tog den med sig till köket och försökte läsa
medan han arbetade. Men det gick inte alls. När dagen var slut tog han med sig boken hem. Han var entusiastisk. Det
var berättelsen om Odysseus och under natten medan han läste boken i sitt rum, kände han att hans hjärta var
överväldigat av dess skönhet. Han läste hela natten och nästa dag gick han inte till sitt arbete. Istället tog han en
promenad utan mål. Våren hade just börjat och allt var väckert, alla såg lyckliga ut. Det förvånade honom att han inte
lagt märke till våren tidigare. Han gick till en park på en kulle och satte sig ned. Han stannade där länge. Därifrån
kunde han se hela staden och förstäderna. Han erinrade sig några avsnitt ur boken, dess skönhet hade förblivit hos
honom. Han hade en underlig känsla, han kände att hans hjärta var så stort att det rymde hela världen. Plötsligt reste
han sig upp och skrek: Jag är Odysseus!
980
Renato Rezende

Renato Rezende

[Troll]

Da importância de não se ter amigos

O saber é uma superstição,
um vício.

Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.

Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.

O amor sustenta o artista.

Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.

Grau Zero.

Pego meu chapéu e saio da minha mente.

Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.

A língua destrói constantemente

[a possibilidade de se dizer]

Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.

O que acontece na vida não importa.

Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.

Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.

Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.

Solto

Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões

Já não acredito
em que eu penso—

sou o que penso

eu era pensamento
mas não sou

mais

Nada é onde há palavra

Máscaras
1 068