Poemas neste tema
Alma
Marina Colasanti
COM A DESTREZA DE QUEM
Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
944
Marina Colasanti
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
1 196
Marina Colasanti
SOBRE A ESTRADA
Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
1 163
Marina Colasanti
TARDE E CASA VAZIA
O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
998
Marina Colasanti
AO REDOR
Ao redor, a pele.
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.
Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas
Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.
A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?
Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.
Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.
É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga
como o areal
abriga a concha?
A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.
Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas
Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.
A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?
Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.
Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.
É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga
como o areal
abriga a concha?
A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?
1 165
Marina Colasanti
NUM MESMO CÉU
Neste hotel de aeroporto
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar
Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento
Frankfurt 1994
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar
Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento
Frankfurt 1994
854
Marina Colasanti
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 212
Marina Colasanti
INSTRUMENTO SEM SOM
Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
1 271
Marina Colasanti
COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL
Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
1 111
Marina Colasanti
MEU AMIGO AO NÍVEL DO CHÃO
Quando vi meu amigo morto
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?
1 162
Marina Colasanti
QUASE UM ÂMBAR
O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
999
Marina Colasanti
SIM, PODE-SE
Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
1 055
Allen Ginsberg
A Kerouac no Hospital
Gentis nos faz a morte; a dor que mata
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
789
Allen Ginsberg
Sutra do girassol
Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
1 128
Allen Ginsberg
Garatuja
Rexroth, seu rosto refletindo a cansada
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo
1 096
Allen Ginsberg
Crepúsculo “S.S. Azemour”
Enquanto a laranja luz-do-ocaso cai numa velha ideia
Eu atravesso minha mão na página
sentindo por fora o confuso estranho ser que Eu sou por dentro
E procuro uma cabeça disto — Seraphim
avanço em flash lampejo através da tempestade de éter
Mensageiros chegam chifrudos barbados da esfera Magnética
Rádios que desaparecem recebem galáxias anciãs
Rodas da imensidão espelhadas em cada direção
Anúncio passando de Invisível para Invisível
A cauda do dragão-Eternidade perdida pelo olho
Morte estranha, nascimentos esquecidos, vozes chamando no passado
“Eu era” que saúda “Eu sou” que escreve agora “Eu serei”
Exércitos marcham sempre e sempre no velho campo de batalha —
Que poderes sentam em suas tendas redondas e decretam a Eterna Vitória?
Eu sento em minha mesa e escrevo a mensagem sem-fim de mim mesmo para minha própria mão.
Marselha-Tanger, 1961.
Eu atravesso minha mão na página
sentindo por fora o confuso estranho ser que Eu sou por dentro
E procuro uma cabeça disto — Seraphim
avanço em flash lampejo através da tempestade de éter
Mensageiros chegam chifrudos barbados da esfera Magnética
Rádios que desaparecem recebem galáxias anciãs
Rodas da imensidão espelhadas em cada direção
Anúncio passando de Invisível para Invisível
A cauda do dragão-Eternidade perdida pelo olho
Morte estranha, nascimentos esquecidos, vozes chamando no passado
“Eu era” que saúda “Eu sou” que escreve agora “Eu serei”
Exércitos marcham sempre e sempre no velho campo de batalha —
Que poderes sentam em suas tendas redondas e decretam a Eterna Vitória?
Eu sento em minha mesa e escrevo a mensagem sem-fim de mim mesmo para minha própria mão.
Marselha-Tanger, 1961.
702
Marina Colasanti
Sistema solar
No prato oval
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
1 093
Marina Colasanti
Gardênias e um espelho
As cinco e vinte e cinco
uma luz sem relógio
lança-se de viés contra a vidraça
e estilhaça
as quatro flores brancas
frente ao espelho.
Prata despetalada
breves cacos
suspensos.
Cego o seu corte
já se desfaz a luz
e sem espada
a sombra cicatriza.
Rola decapitado o sol
atrás do monte.
Na sala o espelho è poço
de noturnas areias
que lento traga as flores
recompostas.
uma luz sem relógio
lança-se de viés contra a vidraça
e estilhaça
as quatro flores brancas
frente ao espelho.
Prata despetalada
breves cacos
suspensos.
Cego o seu corte
já se desfaz a luz
e sem espada
a sombra cicatriza.
Rola decapitado o sol
atrás do monte.
Na sala o espelho è poço
de noturnas areias
que lento traga as flores
recompostas.
1 117
Allen Ginsberg
Malest Cornifici tuo Catullo
Estou feliz, Kerouac, seu louco Allen
finalmente conseguiu: achou um cara novo
e minha imagem de um garoto eterno
passeia pelas ruas de San Francisco,
lindo, e me encontra nas cafeterias
e me ama. Ah, não pense que estou maluco.
Você está zangado comigo. Pelos meus amantes?
É duro comer merda, sem ter visões;
quando eles me olham, para mim é o Paraíso.
finalmente conseguiu: achou um cara novo
e minha imagem de um garoto eterno
passeia pelas ruas de San Francisco,
lindo, e me encontra nas cafeterias
e me ama. Ah, não pense que estou maluco.
Você está zangado comigo. Pelos meus amantes?
É duro comer merda, sem ter visões;
quando eles me olham, para mim é o Paraíso.
1 458
Allen Ginsberg
Iluminação de Sather Gate
Por que nego o maná para os outros?
Porque o nego para mim.
Por que me neguei para mim mesmo?
Quem mais me rejeitou?
Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen -
e você tio amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade,
seu Alien original nu respirando
alguma vez você voltará a negar alguém?
Querido Walter, obrigado pelo seu recado
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, Autêntico Americano.
Bombardeiros rasgam o céu, em uníssonos doze,
os pilotos suam nervosos diante dos comandos das suas cabines quentes.
Sobre quais almas despejarão eles suas bombas mal-amadas?
0 Campanário espeta as nuvens com sua inocente cabeça de granito branco para que eu o olhe.
Uma senhora aleijada explica a gramática francesa com uma voz aguda e doce: Regarder é olhar -
toda a língua francesa olhá nas árvores do campus.
As vozes assombradas das garotas marcam silenciosos encontros para as 2 horas - no entanto uma delas acena dando
adeus e acaba sorrindo - sua saia vermelha balançando mostra o quanto ela se ama.
Outra, envolta num clarão de saias escocesas, saltita apressada sobre o cimento - pela porta - oh, coitada! - quem irá recebê-la nos escritórios do amor?
Quantos garotos lindos eu já vi neste lugar?
As árvores parecem a ponto de mexer-se - ah! elas se mexem na brisa.
Novamente o ronco dos aviões no céu. Todos olham para cima.
E você sabia que todo esse esfregar de olhos & dolorosos movimentos da testa
dos estudantes de temo entrando em Dwinelle (saguão) são sinais sagrados? - ansiedade ou medo?
Por quantos anos terei que flutuar nesse adocicado cenário de árvores & seres humanos pisoteando o chão -
Oh, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos
brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Meu estômago está leve, descontraio-me, novas frases entram em cena para descrever as formas espontâneas do Tempo -
árvores, cachorros dormindo, aviões atravessando o ar, negros
com seus livros para o lanche da ansiedade, maçãs e sanduíches, hora do almoço, sorvete, Intemporal -
E até mesmo o mais feio buscará a beleza - “O que você vai fazer
Sexta à noite?”
pergunta o marinheiro com seu gorro branco de aprendiz & botões dourados & capote azul,
e o macaquinho de paletó verde e calças bojudas e pasta cheia de livros na qual está escrito “Quartetos”
Toda Sexta à noite, belos quartetos para homenagear e agradar minha alma e toda a sua cabeleira - Música!
e ele depois se afasta em largas passadas, partindo pedaços de chocolate de uma barra embrulhada em papel Hershey
marrom e papel prateado, comendo a rosa de chocolate.
& como poderio esses outros garotos ser felizes em seus uniformes marrons de treinamento militar?
Agora uma menina aleijada rebola enquanto caminha com gestos de foda dos seus quadris tortos -
deixa ela rolar seus olhos em abandono & “camp” angelical pelo campus rebolando prazeirosamente o corpo -
alguém certamente sacará essa energia pélvica.
Essas listas brancas escorrendo da sua torta de chocolate, Senhora (segurando-a diante do seu nariz enquanto termina
a frase preparatória da mordida),
foram pintadas aí para deliciá-la pela artística mão industrial de algum espanhol numa distante doceira,
habilidosa mão para simplórias mensagens de listas brancas em milhões de doces-mensagem.
Eu tenho uma mensagem para vocês todos - denotarei cada uma das suas particularidades!
E lá vai o Professor Hart cruzando iluminado pelos anos o
portal e a arcada que ele construiu (na sua mente) e conhece -
ele também viu certa vez as ruínas de Yucatan -
seguido por um solitário faxineiro de chapéu cinzento de vendedor italiano de frutas como o de Chico Marx empurrando sua redonda barriga entre as árvores.
vê todas as garotas
como visões da
sua buceta interna,
sim, é verdade!
e todos os homens passam
por aí pensando
nos seus caralhos do espírito.
E agora vejam esse pobre garoto apavorado
com seus pêlos negros de dois dias
por toda a sua cara suja,
como deve odiar seu caralho
- Chineses parem de tremer
e agora, para terminar com isso, uma subida e uma elipse -
Agora, os garotos estão conversando com as meninas “Se
eu fosse uma garota eu amaria todos os rapazes” & as garotas
dando risadinhas do outro lado, todas bonitas de algum jeito
e até eu tenho minhas camas e amantes secretos sob outra luz da lua, estejam certos
e a qualquer momento espero ver entrar em cena um carrinho de bebê
e todo mundo voltar-se atento como o fizeram para os aviões e a risada, como num Campus grego
e o cachorrão marrom de pêlos hirsutos deitado preguiçosamente na sombra de olhos abertos
levanta a cabeça & fareja & baixa a cabeça sobre suas patas douradas & deixa sua barriga roncar despreocupadamente.
. . . os rubros olhos do leão
Deixarão escorrer lágrimas de ouro.
Agora o silêncio é quebrado, estudantes derramam-se pela
praça, as portas estão cheias, o cachorro levanta-se e vai embora,
a aleijada rebola saindo de Dwinelle, até mesmo uma monja, pergunto-me a seu respeito, uma velha senhora tomada distinta por sua bengala,
olhamos todos, o silêncio se mexe, enormes mudanças no chão,
e no ar voam pensamentos por todo lugar, enchendo o espaço.
Minha dor por Peter não me amar era uma dor por eu mesmo não me amar.
Enormes Carmas de mentes partidas em corpos maravilhosos incapazes de receberem o amor por não se reconhecerem a si mesmos como adoráveis - Pais e Professores!
Vejo em todas as pessoas a visível evidência de um eu interior pelo modo como me tratam: quem se ama me ama a mim que me amo.
1956
Porque o nego para mim.
Por que me neguei para mim mesmo?
Quem mais me rejeitou?
Agora acredito que você seja adorável, minha alma, alma de Allen, Allen -
e você tio amada, tão doce, tão lembrada na sua verdadeira amabilidade,
seu Alien original nu respirando
alguma vez você voltará a negar alguém?
Querido Walter, obrigado pelo seu recado
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, Autêntico Americano.
Bombardeiros rasgam o céu, em uníssonos doze,
os pilotos suam nervosos diante dos comandos das suas cabines quentes.
Sobre quais almas despejarão eles suas bombas mal-amadas?
0 Campanário espeta as nuvens com sua inocente cabeça de granito branco para que eu o olhe.
Uma senhora aleijada explica a gramática francesa com uma voz aguda e doce: Regarder é olhar -
toda a língua francesa olhá nas árvores do campus.
As vozes assombradas das garotas marcam silenciosos encontros para as 2 horas - no entanto uma delas acena dando
adeus e acaba sorrindo - sua saia vermelha balançando mostra o quanto ela se ama.
Outra, envolta num clarão de saias escocesas, saltita apressada sobre o cimento - pela porta - oh, coitada! - quem irá recebê-la nos escritórios do amor?
Quantos garotos lindos eu já vi neste lugar?
As árvores parecem a ponto de mexer-se - ah! elas se mexem na brisa.
Novamente o ronco dos aviões no céu. Todos olham para cima.
E você sabia que todo esse esfregar de olhos & dolorosos movimentos da testa
dos estudantes de temo entrando em Dwinelle (saguão) são sinais sagrados? - ansiedade ou medo?
Por quantos anos terei que flutuar nesse adocicado cenário de árvores & seres humanos pisoteando o chão -
Oh, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos
brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Meu estômago está leve, descontraio-me, novas frases entram em cena para descrever as formas espontâneas do Tempo -
árvores, cachorros dormindo, aviões atravessando o ar, negros
com seus livros para o lanche da ansiedade, maçãs e sanduíches, hora do almoço, sorvete, Intemporal -
E até mesmo o mais feio buscará a beleza - “O que você vai fazer
Sexta à noite?”
pergunta o marinheiro com seu gorro branco de aprendiz & botões dourados & capote azul,
e o macaquinho de paletó verde e calças bojudas e pasta cheia de livros na qual está escrito “Quartetos”
Toda Sexta à noite, belos quartetos para homenagear e agradar minha alma e toda a sua cabeleira - Música!
e ele depois se afasta em largas passadas, partindo pedaços de chocolate de uma barra embrulhada em papel Hershey
marrom e papel prateado, comendo a rosa de chocolate.
& como poderio esses outros garotos ser felizes em seus uniformes marrons de treinamento militar?
Agora uma menina aleijada rebola enquanto caminha com gestos de foda dos seus quadris tortos -
deixa ela rolar seus olhos em abandono & “camp” angelical pelo campus rebolando prazeirosamente o corpo -
alguém certamente sacará essa energia pélvica.
Essas listas brancas escorrendo da sua torta de chocolate, Senhora (segurando-a diante do seu nariz enquanto termina
a frase preparatória da mordida),
foram pintadas aí para deliciá-la pela artística mão industrial de algum espanhol numa distante doceira,
habilidosa mão para simplórias mensagens de listas brancas em milhões de doces-mensagem.
Eu tenho uma mensagem para vocês todos - denotarei cada uma das suas particularidades!
E lá vai o Professor Hart cruzando iluminado pelos anos o
portal e a arcada que ele construiu (na sua mente) e conhece -
ele também viu certa vez as ruínas de Yucatan -
seguido por um solitário faxineiro de chapéu cinzento de vendedor italiano de frutas como o de Chico Marx empurrando sua redonda barriga entre as árvores.
vê todas as garotas
como visões da
sua buceta interna,
sim, é verdade!
e todos os homens passam
por aí pensando
nos seus caralhos do espírito.
E agora vejam esse pobre garoto apavorado
com seus pêlos negros de dois dias
por toda a sua cara suja,
como deve odiar seu caralho
- Chineses parem de tremer
e agora, para terminar com isso, uma subida e uma elipse -
Agora, os garotos estão conversando com as meninas “Se
eu fosse uma garota eu amaria todos os rapazes” & as garotas
dando risadinhas do outro lado, todas bonitas de algum jeito
e até eu tenho minhas camas e amantes secretos sob outra luz da lua, estejam certos
e a qualquer momento espero ver entrar em cena um carrinho de bebê
e todo mundo voltar-se atento como o fizeram para os aviões e a risada, como num Campus grego
e o cachorrão marrom de pêlos hirsutos deitado preguiçosamente na sombra de olhos abertos
levanta a cabeça & fareja & baixa a cabeça sobre suas patas douradas & deixa sua barriga roncar despreocupadamente.
. . . os rubros olhos do leão
Deixarão escorrer lágrimas de ouro.
Agora o silêncio é quebrado, estudantes derramam-se pela
praça, as portas estão cheias, o cachorro levanta-se e vai embora,
a aleijada rebola saindo de Dwinelle, até mesmo uma monja, pergunto-me a seu respeito, uma velha senhora tomada distinta por sua bengala,
olhamos todos, o silêncio se mexe, enormes mudanças no chão,
e no ar voam pensamentos por todo lugar, enchendo o espaço.
Minha dor por Peter não me amar era uma dor por eu mesmo não me amar.
Enormes Carmas de mentes partidas em corpos maravilhosos incapazes de receberem o amor por não se reconhecerem a si mesmos como adoráveis - Pais e Professores!
Vejo em todas as pessoas a visível evidência de um eu interior pelo modo como me tratam: quem se ama me ama a mim que me amo.
1956
1 021
Allen Ginsberg
Europa! Europa!
Mundo mundo mundo
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
1 682
Allen Ginsberg
Um supermercado na Califórnia
Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
1 861
Allen Ginsberg
Kaddish
para Naomi Ginsberg193
1894-1956
I
Estranho pensar em você agora que partiu sem espartilhos & olhos, enquanto percorro o calçamento ensolarado de Greenwich Village
na direção do Centro de Manhattan, meio-dia claro de inverno e passei a noite toda acordado, falando, falando, lendo o Kaddish em voz alta, escutando o grito cego dos blues de Ray Charles na vitrola,
o ritmo, o ritmo – e tua lembrança na minha cabeça três anos depois – E li em voz alta, sozinho, os triunfantes versos finais de Adonais194 –
chorei ao perceber o quanto sofremos –
E o quanto a Morte é o lenitivo sonhado, cantado, profetizado por todos os cantores, como no Hino Hebraico ou no Livro Budista das Respostas – e uma folha murcha em minha própria imaginação – ao amanhecer –
Sonhando de novo através da vida, Teu tempo – e o meu acelerando-se rumo ao Apocalipse,
o momento final – a flor queimando no Dia – e o que virá depois,
olhando a mente que por sua vez enxergou uma cidade americana
num relance, e o grande sonho de Mim ou China ou você ou uma Rússia
fantasma ou uma cama desfeita que nunca existiu –
como um poema escuro – que escapou de volta para o Esquecimento –
Mais nada para ser dito e mais nada para ser chorado, só os seres no Sonho, agarrados ao desaparecerem,
suspirando, berrando, comprando e vendendo pedaços de fantasma, adorando-se uns aos outros,
adorando o Deus incluído nisso tudo – desejo ou fatalidade? – enquanto dura, uma Visão – mais nada?
Salta ao meu redor enquanto saio e caminho pela rua, olho para trás, Sétima Avenida, a muralha de prédios de escritórios com suas janelas, acotovelando-se altos sob a nuvem, altos por um momento como o céu
– e o céu acima – um velho lugar azul.
ou rua abaixo pela Avenida para o Sul, para – enquanto caminho na direção do Baixo East Side – lá onde você caminhou há 50 anos, menina – da Rússia, comendo os primeiros tomates venenosos da América –
amedrontada no cais –
então debatendo-se na multidão de Orchard Street, para onde? – para Newark –
para as confeitarias, primeiras sodas caseiras do século, sorvete batido à mão no quarto dos fundos em mesas de madeira escura mofada –
Para a educação casamento colapso nervoso, operação, escola normal e aprendendo a ser louca, num sonho – que vida é essa?
Para a Chave na Janela195 – E a grande Chave repousa sua cabeça de luz no topo de Manhattan, no assoalho, repousa na calçada – um só raio de luz que se mexe enquanto desço pela Primeira Avenida na direção do Teatro Iídiche – e do lugar da pobreza
que você conheceu e eu conheci, mas sem preocupar-me agora – Estranho
ter passado por Paterson e o Oeste e a Europa e novamente aqui, agora com os gritos dos espanhóis nas soleiras das portas, meninos negros e escadas de emergência tão velhas quanto você
– Embora você não esteja mais velha, agora isso ficou aqui comigo
Eu, de qualquer modo, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez –
Isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dente no final –
Embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro, a alma em nós, Ah! oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança –
pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio pelado, costela quebrada, pele rasgada, Implacabilidade
Ai, ai! cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte a deixou de fora, a Morte teve piedade, você passou por seu século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – Finalmente passou por você mesma – Pura – De volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo –
Lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Sei para onde foi, tudo bem.
Mais nada de flores nos campos estivais de Nova York, agora mais nada da alegria nem do medo de Louis, 196
e mais nada de sua doçura e óculos, suas décadas de escolas, dívidas, casos amorosos, telefonemas amedrontados, leitos de parto, parentes, mãos –
Mais nada da irmã Elanor – ela partiu antes de você – nós não contamos –
você a matou – ou ela se matou por ter que aguentar você – coração artrítico – Porém a Morte as matou, às duas – Tanto faz –
Nem mais nada de lembranças da sua mãe, lágrimas de 1915 em filmes mudos por semanas e semanas seguidas – esquecendo, sofrendo ao assistir Marie Dressler197 dirigir-se à humanidade, Chaplin jovem dançando,
ou Boris Godunov, Chaliapin no Met198 elevando sua voz de Czar choroso em pé no saguão com Elanor & Max – olhando também os capitalistas ocuparem seus lugares na plateia, alvos casacos de pele, diamantes, com os Jovens Socialistas, 199 pegando uma carona pela Pennsylvania, bojudas calças pretas de ginástica, fotografias de 4 garotas cada qual com as mãos na cintura da outra, olhar risonho, tão recatadas, solidão virginal de 1920,
todas essas meninas envelheceram ou já morreram, e suas longas cabeleiras no túmulo – felizes ao arranjarem maridos mais tarde –
Você conseguiu – eu também cheguei! – meu irmão Eugene antes – até hoje se afligindo e se apertando até sua última mão enrijecida enquanto convive com seu câncer – ou se matará – mais tarde talvez – logo pensará –
E este é o último momento do qual me lembro, no qual os vejo todos, agora através de mim – mas não vejo você
Não antevi o que você sentiu – qual abismo mais horrendo desdentado de boca estragada chegou primeiro – para você – e estava você preparada?
Para ir aonde? Para aquela escuridão – aquela – aquele Deus? um clarão?
Um senhor no Vazio? como um olho dentro da nuvem negra no sonho?
Adonais finalmente com você?
Ultrapassa minha lembrança! Incapaz de adivinhar! Não é só o crânio amarelo no túmulo ou uma caixa de pó com vermes e uma tira de pano encardido – Caveira com auréola? Podes crer?
Será apenas o sol que brilha uma única vez para a mente, só o clarão da existência que já foi?
Nada além do que temos – do que você teve – tão pouca coisa – no entanto, Triunfo
por teres estado aqui e te transformado, como árvore caída ou flor – ligada ao solo – mas louca, com suas pétalas coloridas pensando no Grande Universo, abalada, a copa cortada, folha arrancada, escondida num hospital como um caixote vazio de ovos, trouxa de roupas, amarga –
perdida no cérebro lunático da Lua, anulação.
Nenhuma flor igual a essa flor que sabia estar no jardim e que lutou contra a faca – e que perdeu
Decepada pelo alfanje gelado do imbecil Boneco de Neve – e isso na Primavera – estranho pensamento fantasmagórico – que Morte – Afiado gume de gelo na mão – coroado de rosas murchas – um cachorro no lugar dos olhos – uma fábrica de escravos como caralho200 – coração de ferro elétrico.
Todas as acumulações da vida que nos consomem – relógios, corpos, consciência, sapatos, seios – filhos paridos – seu Comunismo –
“paranoia” nos hospitais.
Certa vez você chutou Elanor na perna, mais tarde ela morreu do coração.
Você de derrame. Dormindo? no espaço de um ano, vocês duas, irmãs
na morte. Estará Elanor feliz?
Max padece sozinho num escritório no Baixo Broadway, solitários bigodões sobre relatórios de Contabilidade a noite toda, algo assim. Sua vida passa – como é que ele a vê – e do que duvida agora? Ainda sonhando com ganhar dinheiro ou que poderia ter ganho dinheiro, contratado babá, tido filhos, até mesmo ter achado tua Imortalidade,
Naomi?
Logo o verei. Agora preciso continuar – para conversar com você – assim como eu não o fiz enquanto você tinha boca.
Para sempre. E estamos fadados a isso, Para Sempre – como os cavalos de Emily Dickinson201 – voltados para o Fim.
Eles conhecem o caminho – Esses Corcéis – correm mais rápido do que pensamos – é nossa própria vida que eles cruzam – e carregam consigo.
Magnífica, não mais carpida, golpeada no coração, mente para trás, sonhada casada mortal mudada – Bunda e rosto acabados com assassinato.
No mundo, doada, enlouquecida flor, Utopia que não chegou a ser, encerrada sob o lenho, consolada na Terra, confortada no Ermo, Jeová, aceita.
Inominado, Face Una, Para sempre além de mim, sem começo, sem fim, Pai da Morte. Ainda que eu não esteja preparado para esta Profecia, eu que não me casei, eu sem hinos, eu sem Céu, sem meta na bem-aventurança, ainda assim te adorarei.
A ti, Céu depois da morte, Único abençoado no Vazio, nem luz nem escuridão, Eternidade Sem Dias –
Recebe isto, este salmo, vindo de mim, um dia jorrado da minha mão, alguma coisa do meu Tempo agora entregue ao Nada – para louvar-Te –
Porém a Morte
Este é o fim, a redenção da Selvageria, caminho para o Maravilhado, casa almejada por Todos, lenço negro lavado pelas lágrimas – página para além do Salmo – Última transformação minha e de Naomi – rumo à perfeita Escuridão de Deus – Morte, para teus fantasmas!
II
De volta e de volta – refrão – dos Hospitais – ainda não escrevi tua
história – deixá-la abstrata – umas poucas imagens passam pela cabeça – como o coro de saxofone das casas e dos anos –
lembrança de eletrochoques.
Por aquelas longas noites quando criança no apartamento em Paterson, observando teu nervosismo – você era gorda – seu próximo passo –
Por aquela tarde quando fiquei em casa em vez de ir à escola, para cuidar de você – de uma vez por todas – quando fiz um voto para sempre, já que o homem discordava da minha opinião sobre o cosmos, então eu estava perdido –
Por minha missão mais tarde – promessa de iluminar a humanidade –
isto é, soltar partículas – (louco como você) – (sanidade um truque convencional) –
Mas você olhava pela janela para a esquina da Igreja de Broadway e espreitava um assassino místico de Newark,
Assim, telefonei para o Doutor – “OK, leve-a para repousar” – assim, vesti meu casaco e levei-a rua abaixo – No caminho, um garoto da escola berrou inesperadamente – “Para onde vai, senhora, para a Morte?”
Estremeci –
E você tapou o nariz com a gola de pele comida pelas traças, máscara antigases contra o veneno infiltrado na atmosfera da cidade, espalhado pela Vovó –
E quem seria o motorista da camioneta de queijos, se não um membro da quadrilha? Você teve um sobressalto ao vê-lo, mal podia conduzi-la –
para Nova York, Times Square mesmo, pegar outro ônibus da Greyhound –
– e lá ficamos parados umas 2 horas combatendo insetos invisíveis e doença judaica – brisa venenosa de Roosevelt –
soltos para pegá-la – e eu acompanhando-a, torcendo para que tudo
acabasse bem num quarto sossegado numa casa vitoriana junto a um lago.
3 horas de viagem por túneis passando por toda a indústria americana, Bayonne preparando-se para a Segunda Guerra Mundial, tanques, refinarias, fábricas de soda, refeitórios, rotundas fortificadas das locomotivas – até os pinheirais de índios de Nova Jersey – cidades tranquilas – longas estradas por bosques arenosos –
Pontes atravessando riachos sem cervos, antigos colares de contas enchendo o leito arenoso – lá embaixo, uma machadinha ou osso de Pocahontas – e um milhão de velhas votando em Roosevelt nas suas casinhas pintadas de marrom, estradas saindo da rodovia da loucura –
talvez um gavião numa árvore ou um ermitão procurando um galho cheio de corujas –
O tempo todo reclamando – com medo dos estranhos no banco da frente, roncando descuidadamente – em que viagem de ônibus estarão eles roncando agora?
“Allen, será que você não entende – é que – desde que enfiaram aquelas 3 varas grandes nas minhas costas – fizeram qualquer coisa comigo no Hospital, me envenenaram, querem me ver morta – 3 varas grandes, 3 varas grandes –
“A Puta! Vovó! Semana passada a vi, vestindo calças como um velho, um saco nas costas, subindo no prédio pela parede de tijolos
“Na escada de emergência, com germes de veneno, para jogar em mim
– à noite – talvez Louis a esteja ajudando – está dominado por ela –
“Eu sou sua mãe, leve-me para Lakewood” (perto do lugar onde o Graf Zeppelin havia caído, todo Hitler na Explosão) “onde eu possa me esconder”.
Chegamos lá – a casa de repouso do Dr. Whatzis – ela escondeu-se
atrás de um armário – exigiu transfusão de sangue.
Fomos postos para fora – caminhando com a maleta rumo a
desconhecidas casas com gramados à sombra – anoitecer, penumbra entre os pinheiros – longas ruas mortas cheias de grilos e urtigas –
Então já havia mandado ela calar a boca – casa grande CASA DE
REPOUSO, QUARTOS – deixei o pagamento para a semana com a senhoria – levei a maleta de ferro para dentro – sentei na cama esperando a hora de fugir –
Quarto limpo no sótão com uma colcha acolhedora – cortinas de laçarotes – tapete tecido à mão – Papel de parede manchado tão velho quanto Naomi – Estávamos em casa –
Parti no ônibus seguinte para Nova York – reclinei a cabeça no encosto do último banco, deprimido – o pior ainda por vir – deixando-a, viajei entorpecido – eu só tinha 12 anos.
Iria ela esconder-se no quarto para descer alegremente na hora do café?
Ou trancaria a porta para espreitar pela janela procurando espiões nas esquinas? Escutando o invisível gás Hitleriano pelo buraco da fechadura?
Sonhando numa poltrona – ou divertindo-se às minhas custas – diante de um espelho, só?
Aos 12 anos atravessando Nova Jersey de ônibus à noite, deixando Naomi entregue às Parcas na casa mal-assombrada de Lakewood – eu entregue ao ônibus do meu destino – afundado no assento – todos os violinos partidos – meu coração amargurado entre minhas costelas –
mente vazia – estivesse ela em segurança no seu caixão –
Ou então de volta à Escola Normal de Newark, estudando sobre a América de saia negra – inverno nas ruas sem almoço – um tostão, um pão202 – à noite em casa para cuidar de Elanor no quarto –
Primeiro colapso nervoso em 1919 – ficou em casa deitada no quarto escuro sem ir à escola por três semanas – alguma coisa ruim – nunca disse o que foi – todo ruído machucava – sonhando com as fendas de Wall Street
–
Antes da depressão cinzenta – mudou-se para o Estado de Nova York –
sarou – Louis tirou uma foto sua de pernas cruzadas na grama – seus longos cabelos com flores – sorrindo – tocando canções de ninar num bandolim – a fumaça das urtigas em colônias de férias de tendências esquerdistas e eu vendo árvores na infância –
ou de novo lecionando, rindo com os idiotas, as turmas mais atrasadas
– sua especialidade russa – idiotas de lábios sonhadores, olhos grandes, pés delgados & dedos doentios, recurvados, raquíticos –
cabeças grandes balançando sobre Alice no País das Maravilhas, um quadro-negro cheio de G A T O.
Naomi lendo pacientemente, histórias tiradas de um livro de contos de fadas comunistas – História da Súbita Doçura do Ditador – Clemência dos Bruxos – Exércitos beijando-se –
Caveiras ao redor da Mesa Verde – O Rei & os Trabalhadores – o Jornal de Paterson os publicou nos anos 30 até ela enlouquecer eles ou eles fecharem ou ambas as coisas.
Ó, Paterson! Cheguei tarde em casa aquela noite. Louis estava preocupado. Como podia eu ser tão – será que não pensava? Não a devia ter largado lá. Louca em Lakewood. Chamar o médico. Telefonar para a casa no pinheiral. Tarde demais.
Fui para a cama exausto, querendo largar o mundo (provavelmente de novo apaixonado por R aquele ano – meu herói do colégio na minha mente, garoto judeu que mais tarde se tornou médico, então um garoto
quieto e fino –
Eu mais tarde dando a vida por ele, mudei-me para Manhattan – segui-o na Faculdade – Rezei na balsa prometendo ajudar a humanidade se entrasse – prometi, o dia que fui fazer o vestibular –
que seria honesto revolucionário advogado trabalhista – me prepararia para isso – inspirado em Sacco Vanzetti, Norman Thomas, Debs, Altgeld, Sandburg, Poe – Brochuras Azuis. 203 Pretendia ser Presidente ou então Senador.
promessa ingênua – depois sonhos de prosternar-me diante dos joelhos escandalizados de R declarando meu amor em 1941 – Que doçura haveria ele de me mostrar, pois, a mim que tanto o desejara e tanto me desesperara
– primeiro amor – um choque –
Mais tarde uma avalanche mortal, montanhas de homossexualismo, Matterhorns de caralho, Grand Canyons de cu – pesando na minha cabeça melancólica –
enquanto isso caminhava pela Broadway imaginando o Infinito como uma bola de borracha sem espaço além dela – e o que existiria fora dela? –
voltando para casa na Graham Avenue ainda melancólico passando pelas solitárias cercas de arbustos ao longo da rua, sonhando depois do cinema –
)
O telefone tocou às 2 da madrugada – Emergência – ficou louca –
Naomi escondendo-se debaixo da cama gritando por causa dos percevejos de Mussolini – Socorro! Louis! Buba! 204 Fascistas! Morte! – a dona da pensão aterrorizada – o empregado bicha velha gritando com ela –
Terror que despertou os vizinhos – velhas do segundo andar recuperando-se da menopausa – todos aqueles trapos entre coxas, lençóis limpos, tristes por bebês perdidos – maridos cinéreos – filhos troçando em
Yale ou passando brilhantina no cabelo na Universidade de Nova York – ou tremendo na Faculdade de Educação de Montclair como Eugene –
Sua perna grossa dobrada até o peito, mão estendida Afastem-se, vestido de lã na altura das coxas, casaco de pele puxado para baixo da cama – entrincheirada com as malas ao pé da cama.
Louis de pijama ao telefone ouvindo apavorado – agora? Quem poderia resolver? – minha culpa, despachando-a para a solidão – sentado no quarto escuro, no sofá, trêmulo, tentando resolver –
Tomou o trem da manhã para Lakewood, Naomi sob a cama – pensou
que ele estivesse trazendo policiais com veneno – Naomi gritando – Louis, o que então aconteceu com seu coração? – Teria ele sido morto pelo êxtase de Naomi?
Arrastou-a para fora, dobrando a esquina, táxi, enfiou-a para dentro com a maleta mas o motorista os largou na frente da drogaria205 – Ponto de ônibus, duas horas de espera.
Eu nervoso, deitado na cama do apartamento de 4 cômodos, a cama grande da sala, junto à escrivaninha de Louis – tremendo – ele chegou tarde da noite em casa, contou-me o que acontecera.
Naomi no balcão dos remédios defendendo-se do inimigo – revoadas de livros infantis, saquinhos de banho de espuma, aspirinas, vidros, sangue
–
Louis aterrorizado junto ao balcão dos refrigerantes – com escoteiras de Lakewood – viciadas em Coca – enfermeiros – motoristas de ônibus esperando seu turno – Policiais da delegacia local, perplexos – e um padre, sonhando com porcos num antigo penhasco?
Farejando o ar – Louis apontando para o vazio? Fregueses vomitando suas Cocas – ou encarando – Louis humilhado – Naomi triunfante – A
Revelação da Conspiração. O ônibus chega, os motoristas não os levarão para Nova York.
Telefonema para o Dr. Whatzis, “ela precisa ser internada”, o Hospital psiquiátrico – Médicos do Estado em Greystone – Traga-a para cá, Mr.
Ginsberg.
Naomi, Naomi – suando, olhos esbugalhados, gorda, o vestido desabotoado de lado – cabelo na testa, meias malignamente caídas nas pernas – gritando que queria transfusão de sangue – uma mão reivindicatória levantada – sapato na mão – descalça na Farmácia –
A chegada dos inimigos – quais venenos? Gravadores? FBI?
Zdanov206 escondido atrás do balcão? Trotsky criando bacilo de rato no fundo da loja? Tio Sam em Newark, preparando mortais perfumes no bairro negro? Tio Ephraim, bêbado de assassinatos no bar dos políticos, tramando algo para Haia? Tia Rose afiando as agulhas da Guerra Civil Espanhola? 207
Até que a ambulância alugada por 35 dólares veio de Red Bank –
Agarraram-na pelos braços – ataram-na à padiola – gemendo, envenenada por coisas imaginárias, vomitando química através de Jersey, pedindo piedade desde Essex Country até Morristown –
E de volta a Greystone onde ficou por três anos – esse foi o ataque final, devolveu-a mais uma vez ao Hospício –
Em que pavilhões – andei por lá mais tarde, muito – velhas senhoras catatônicas? cinzentas como nuvens ou cinza ou paredes – sentadas cantarolando pelo chão – Cadeiras – e as bruxas encarquilhadas, reclamando – implorando por minha misericórdia de 13 anos de idade –
“Leve-me para casa” – Algumas vezes fui sozinho em busca da Naomi
perdida tomando eletrochoques – e eu dizia, “Não, Mamãe você está louca,
– Confie nos Drs.”
E Eugene, meu irmão, seu filho mais velho, estudando direito fora de casa num quarto mobiliado em Newark –
Chegou a Paterson no dia seguinte – sentou-se no sofá cambaio da sala
– “Tivemos de mandá-la de volta a Greystone” –
– sua cara perplexa, tão jovem, então só olhos com lágrimas – então só lágrimas rastejando pelo seu rosto – “Para quê?”, lamento vibrando no seu maxilar, olhos fechados, voz aguda – a cara da dor de Eugene.
Ele longe, refugiado num elevador da Biblioteca de Newark, sua garrafa diária de leite no peitoril da janela do apartamento mobiliado por 5
dólares a semana no Centro dos trilhos do bonde –
Ele trabalhava 5 horas por dia a 20 dólares/semana – durante os anos da Faculdade de Direito – permaneceu só e inocente perto dos prostíbulos dos negros.
Sem trepar, pobre virgem – escrevendo poemas sobre Ideais e cartas políticas para o editor do Pat Eve News208 – (ambos escrevíamos, denunciando o Senador Borah e os Isolacionistas – e sentindo algo de misterioso no Paço Municipal de Paterson –
Esgueirei-me lá dentro uma vez – torre do Moloch local com um pináculo fálico e cimeira ornamentada, estranha Poesia gótica plantada na Market Street – réplica do Hotel de Ville de Lyon –
alas, balcões e portais ornamentados, entrada para o gigantesco relógio da cidade, quarto secreto de mapas cheios de Haworthone209 – escuros Socialistas na comissão de Finanças – Rembrandt fumando na penumbra –
Silenciosas mesas envernizadas na grande sala de reuniões –
Vereadores? Comissão de Finanças? – Mosca, o cabeleireiro, conspirando
– Crapp, o gângster, dando ordens a partir da privada – Briga de loucos por
Zonas, Bombeiros, Tiros & Metafísica de Quartinho dos Fundos – estamos todos mortos – lá fora, no ponto de ônibus, Eugene mirava através da sua infância – na qual o Pastor Evangelista pregou loucamente por 3 décadas, cabelo arrepiado, pirado & fiel à sua Bíblia desprezível – rabiscou Prepara-te para Encontrar Teu Deus na calçada cívica –
Ou Deus é Amor na passarela sobre a ferrovia – delirava como eu deliraria, o solitário Evangelista – morte no Paço Municipal – )
Mas Gene, jovem – na Faculdade de Educação de Montclair por 4 anos
– lecionou por um semestre & largou tudo para seguir em frente na vida –
com medo dos Problemas Disciplinares – estudantes italianas de sexo escuro, garotas rudes dando trepadas, nada de inglês, sonetos deixados de lado – e ele não sabia muita coisa – só o que perdeu –
assim partiu sua vida em duas e entrou em Direito – manuais azuis realmente grandões e conduzindo o velho elevador a 13 milhas de distância em Newark e estudou para valer para o futuro.
acabara de deparar-se com o Grito de Naomi na soleira da porta do seu fracasso, pela última vez, Naomi fora-se, nós sozinhos – em casa – ele sentado lá –
Então tome um pouco de canja de galinha, Eugene. O Homem do Evangelho desespera-se diante do Paço Municipal. E esse ano Louis tem amores poéticos de meia-idade de subúrbio – em segredo – música de seu livro de 1937 – Sincero – ele aspira à beleza –
Nenhum amor desde que Naomi gritou – desde 1923? – agora perdida
no pavilhão de Greystone – novo choque para ela – Eletricidade seguindo a Insulina 40.
E o metrasol a fez engordar.
Eis que alguns anos mais tarde ela voltou de novo para casa –
havíamos antecipado e planejado muita coisa – eu esperava por aquele dia
– minha Mãe de novo para cozinhar & – tocar piano – cantar ao bandolim
– Ensopado de Bofe, & Stenka Razin, 210 & a linha comunista na guerra com a Finlândia – e Louis endividado – suspeita de ser dinheiro envenenado – capitalismos misteriosos
– & percorreu o longo saguão da entrada & olhou a mobília. Ela nunca lembrou de tudo. Alguma amnésia. Examinou as toalhinhas de mesa – e o conjunto da sala de jantar havia sido vendido –
a mesa de Mogno – 20 anos de amor – foi para o brechor – ainda tínhamos o piano – e o livro de Poe – e o Bandolim, empoeirado, precisando de cordas –
Ela foi para o quarto dos fundos deitar-se na cama e ruminar ou tirar uma soneca, esconder-se – Entrei com ela, não deixá-la sozinha – deitei-me a seu lado – venezianas fechadas, penumbra, fim de tarde – Louis na sala da frente, na mesa, esperando – talvez cozinhando galinha para o jantar –
“Não tenha medo de mim só porque estou voltando do Sanatório – Sou sua mãe –”
Pobre amor, perdido – que medo – eu deitado lá – Disse, “Te amo, Naomi”, – duro, junto a seu braço. Teria chorado, era essa a união solitária sem consolo? – Nervosa e logo se levantou.
Estaria ela satisfeita alguma vez? E – veio sentar-se no sofá novo junto à janela da frente, pouco à vontade – queixo apoiado na mão – estreitando os olhos – para qual fatalidade naquele dia –
Palitando seus dentes com a unha, lábios formando um O, suspeita –
velha vagina gasta do pensamento – ausente olhar de soslaio – alguma dívida maligna anotada na parede, a ser paga & os envelhecidos seios de
Newark chegando perto –
Pode ter escutado uma intriga no rádio pelos fios elétricos da sua cabeça controlada pelas 3 grandes varas deixadas nas suas costas por gângsteres da amnésia, durante o hospital – doíam entre os ombros –
Na sua cabeça – Roosevelt devia saber do seu caso, contou-me – com medo de matá-la, agora que o governo conhecia seus nomes – rastreados até Hitler – queria deixar a casa de Louis para sempre.
Uma noite, súbito ataque – seu barulho no banheiro – como se fosse sua alma crocitando – convulsões e vômito vermelho saindo da sua boca –
água de diarreia explodindo do seu traseiro – de quatro diante da privada –
urina escorrendo entre suas pernas – largada vomitando no chão de azulejos lambuzados com suas fezes negras – sem desmaiar –
Aos quarenta, varicosa, nua, gorda, condenada, escondendo-se do lado de fora do apartamento junto ao elevador, chamando a Polícia, gritando para que sua amiga Rose viesse socorrê-la –
Uma vez trancou-se com lâmina de barbear ou iodo – podia ouvi-la tossindo em prantos no lavabo – Louis arrombou a porta pelo vidro pintado de verde, arrastamo-la até o quarto.
Então quieta por meses aquele inverno – passeios sozinha, lá perto na Broadway, lia o Daily Worker. 211 Quebrou o braço, caindo na rua gelada –
Começou a planejar sua fuga das conspirações financeiras cósmicas assassinas – mais tarde fugiu até o Bronx para sua irmã Elanor. E aí está outra saga da finada Naomi em Nova York.
Ou por Elanor ou pela Associação dos Trabalhadores onde trabalhava, endereçando envelopes, ela foi levando – fazia compras de sopa de tomates Campbell’s – economizava o dinheiro que Louis lhe mandava –
Mais tarde arranjou um namorado e era médico – Dr. Isaac trabalhava
para o Sindicato Nacional dos Marítimos – agora uma velha boneca italiana gorda, atarracada e calva – e ele também era órfão – mas o puseram na rua – Velhas crueldades –
Mais desarrumada, sentada na cama ou na cadeira, de combinação, sonhando sozinha – “Estou com calor – Estou ficando gorda – Eu tinha um corpo tão bonito antes de ir para o hospital – Deviam ter me visto em Woodbine –” Isso num quarto mobiliado perto da sede do Sindicato dos Marítimos, 1943.
Olhando as fotos dos bebês nus nas revistas – anúncios de talco para nenê, papinha de cenoura espremida com carne – “Não pensarei em nada a não ser pensamentos belos.”
Virando a cabeça, dando voltas e voltas ao redor do pescoço em hipnose à luz da janela no verão, em recordações de sonho –
“Toco no seu rosto, toco no seu rosto, ele toca meus lábios com sua mão, eu tenho pensamentos belos, o bebê tem uma mão tão bonita.” –
Ou um repelão-Não no seu corpo, repugnância – algum pensamento de
Buchenwald212 – alguma insulina passando por sua cabeça – um sobressalto nervoso de careta do Involuntário – (como o estremecimento quando mijo) – má química da sua córtex – “Não, não pense nisso. Ele é um rato.”
Naomi: “E quando morremos nos transformamos numa cebola, num repolho, numa cenoura, numa abóbora, numa verdura.” Eu cheguei de Columbia para a cidade e concordo. Ela lê a Bíblia, pensa pensamentos belos o dia todo.
“Ontem eu vi Deus. Como ele é? Bem, à tarde subi por uma escada –
ele tem uma casinha modesta no campo, como em Monroe, NY, as granjas de galinhas no bosque. É um velho solitário com uma barba branca.
“Cozinhei o jantar para ele. Fiz um belo jantar – sopa de lentilha, verduras, pão e manteiga, – leite – ele sentou-se à mesa e comeu, estava triste.
“Eu lhe disse, Veja todas essas lutas e matanças acontecendo por aqui, O que há? Por que não dá um jeito nisso?
“Eu tento, disse ele – É tudo que posso fazer, parecia cansado.
Continua solteiro até hoje e gosta de sopa de lentilha.” Servindo-me enquanto isso um prato de peixe frio – repolho cru picado encharcado de água da torneira – tomates mal cheirosos – comida dietética velha de semanas – beterraba & cenoura ralada com molho aguado, morno – mais e mais dessa lamentável comida – às vezes não consigo comê-la de náusea –
a Caridade das suas mãos fedendo a Manhattan, loucura, desejo de agradar-me, peixe frio mal cozido – vermelho pálido junto ao osso. Seus cheiros – e frequentemente nua no quarto, então olho para a frente ou folheio um livro ignorando-a.
Certa vez achei que estava querendo que eu trepasse com ela –
flertando consigo mesma no lavabo – deitada na cama enorme que ocupava a maior parte do quarto, vestido levantado até os quadris, grande talho de pelos, cicatrizes de operação, pâncreas, feridas no ventre, abortos, apêndice, as marcas dos cortes destacando-se na gordura como horríveis zíperes grossos longos lábios esgarçados entre suas pernas – O que, até mesmo cheiro de cu? Fiquei frio – mais tarde um pouco enojado, não muito – pareceu uma boa ideia talvez tentar – conhecer o Monstro do Útero Inicial – talvez – dessa maneira. Iria ela se incomodar? Precisa de um amante.
Yisborach, v’istabach, v’yispoar, v’yisroman, v’yisnaseh, v’yisshador, v’yishalleh, v’yishallol, sh’meh, d’kudsho, b’rich hu213
E Louis recuperando-se no apartamento encardido do bairro negro de Newark – morando em quartos escuros – mas encontrou uma garota com a qual mais tarde se casou, apaixonando-se de novo – embora marcado e tímido – ferido por 20 anos do louco idealismo de Naomi.
Certa vez voltei para casa depois de muito tempo em NY, ele solitário
– sentados no quarto de dormir, ele na cadeira da escrivaninha virada de frente para mim – chorando, lágrimas nos olhos vermelhos sob os óculos –
Que o havíamos deixado – Gene estranhamente entrou no exército – ela vivendo fora por sua conta, quase infantil no seu quarto mobiliado. Assim, Louis caminhava até o centro para buscar a correspondência, dava aulas no colégio – sentava-se à escrivaninha da poesia, desamparado – comeu sofrimento no Bickford’s aqueles anos todos – passados.
Eugene saiu do Exército e voltou para casa, mudado e solitário – cortou fora o nariz na operação judaica – durante anos abordando garotas na Broadway oferecendo-lhes cafezinhos para transar com elas – Entrou na Universidade de Nova York, a sério, para terminar Direito –
E Gene morou com ela, comeu suas tortas vagabundas de peixe enquanto ela ficava cada vez mais louca – Emagreceu ou sentiu-se incapaz, Naomi exibindo poses de 1920 para a Lua, seminua na cama ao lado.
roía as unhas e estudava – era o filho-enfermeiro da louca – Ano seguinte mudou-se para um quarto perto de Columbia – pensara que ela queria viver com os filhos –
“Ouça a súplica da sua mãe, peço-lhe” – Louis ainda lhe mandando cheques – aquele ano eu estive no hospício por 8 meses214 – minhas próprias visões não mencionadas neste Lamento aqui –
Mas então ficou meio doida – Hitler no seu quarto, via seu bigode no
lavabo – agora com medo do Dr. Isaac, desconfiando que ele estivesse na conspiração de Newark – mandou-se para Bronx e foi viver junto ao Coração Reumático de Elanor –
E Tio Max nunca levantava antes do meio-dia, porém Naomi já ligava o rádio às 6 da manhã, procurando espiões – ou vigiando o peitoril da janela,
pois no terreno baldio embaixo rastejava um velho com seu saco, enfiando pacotes de lixo no seu capote preto.
Edie, irmã de Max, trabalha – por 17 anos guarda-livros na Gimbels215 – morava num apartamento embaixo, divorciada – assim, Edie acolheu Naomi na Avenida Rochambeau –
Cemitério de Woodlawn do outro lado da rua, amplo campo de tumbas
onde Poe certa vez – Última parada do metrô de Bronx – monte de comunistas naquela zona.
Que então se matriculou nas aulas noturnas de pintura da Escola para Adultos do Bronx – caminhava sozinha para a aula sob o Elevado Van Courtland – pintava Naomismos –
Seres humanos sentados na grama de alguma Colônia de Férias da Despreocupação dos verões de outrora – santos cabisbaixos com longas calças mal ajambradas, do hospital –
Noivas na frente do Baixo East Side com noivos baixinhos – trens perdidos do Elevado correndo sobre a cobertura da babilônia dos prédios de apartamento do Bronx –
Pinturas tristes – mas ela se expressava. Seu bandolim acabara, todas as cordas partidas na sua cabeça, ela tentava. Em direção à Beleza? ou a alguma velha Mensagem de vida?
Mas começou a chutar Elanor e Elanor tinha um problema de coração –
subia para interrogá-la sobre Espionagem durante horas – Elanor extenuada. Max fora de casa no escritório, fazendo a contabilidade de tabacarias até a noite.
“Eu sou uma grande mulher – e verdadeiramente uma bela alma – por
isso eles (Hitler, Vovó, Hearst, 216 os Capitalistas, Franco, o Daily News, os anos 20, Mussolini, os mortos-vivos) querem silenciar-me. Buba é a chefe de uma rede de espionagem – ”
Chutando as meninas, Edie & Elanor – Despertava Edie à meia-noite para dizer-lhe que ela era uma espiã e Elanor um rato. Edie trabalhava o dia todo e não aguentava – Estava organizando o Sindicato – E Elanor começou a morrer no andar de cima, na cama.
Os parentes me chamam, ela está piorando – Só sobrara eu – Fui de metrô com Eugene para vê-la, comi peixe velho –
“Minha irmã cochicha pelo rádio – Louis deve estar no seu apartamento – sua mãe lhe diz o que falar – MENTIROSOS! – Preparei comida para meus dois filhos – toquei bandolim –”
A noite passada a cotovia me despertou / A noite passada quando tudo estava quieto / cantava na dourada luz da lua / cantava na colina gelada.
Ela fez.
Empurrei-a contra a porta e gritei “NÃO CHUTE ELANOR!” – ela me
olhou – Desprezo – morrer – incrédula, seus filhos tão ingênuos, tão bobos
– “Elanor é o pior dos espiões! Ela está sendo comandada!”
“– Não há fios no quarto!” – Estou gritando com ela – última tentativa, Eugene escutando na cama – o que poderia fazer para fugir dessa Mamãe fatal – “Você separada de Louis faz anos – Vovó velha demais para andar –
”
De repente estamos todos vivos – até eu & Gene & Naomi num
mitológico quarto primordial – gritando uns com os outros no Para Sempre – Eu de jaqueta de Columbia, ela semidespida.
Eu socando aquela cabeça que via Rádios, Varas, Hitlers – a escala completa das alucinações – de verdade – seu próprio universo – nenhuma estrada levando a outro lugar – nem ao meu – nenhuma América, nem mesmo um mundo –
No qual você vá como todos os homens, como Van Gogh, como Hannah a louca, tudo a mesma coisa – até a sentença final – Trovão, Espíritos, Relâmpago!
Eu vi seu túmulo! Ó, estranha Naomi! Meu próprio – túmulo fendido!
Shema Y’Israel217 – Eu sou Svul Avrum218 – você – na morte?
Sua última noite na escuridão do Bronx – telefonei – por meio do hospital para a polícia secreta.
Que veio, quando você e eu estávamos sós, você berrando com Elanor no meu ouvido – ela que arquejava na sua cama, emagrecera –
Tampouco esquecerei, diante das batidas na porta, seu terror dos espiões, – a Lei que avança, pela minha honra – Eternidade entrando no quarto – você fugindo para o banheiro, nua, escondendo-se num protesto de derradeiro destino heroico –
olhando-me nos meus olhos, traída – os policiais finais da loucura, salvando-me – do seu pé contra o coração partido de Elanor,
sua voz para cima de Edie exausta de Gimbels chegando em casa para o rádio quebrado – e Louis precisando de um divórcio barato, ele quer casar logo – Eugene sonhando, escondendo-se na rua 125, movendo ações contra negros para fazê-los pagarem mobília de segunda mão, defendendo garotas negras –
Protestos no banheiro – Disse que estava sã – vestindo uma roupa de
algodão, seus sapatos então novos, sua bolsa e recortes de jornais – não sua honestidade –
enquanto inutilmente tornava seus lábios mais reais com baton, olhando pelo espelho para ver se a Insanidade era eu ou um carro cheio de policiais
ou Vovó espionando aos 78 – Sua visão – Ela subindo pelas paredes do cemitério com um saco de sequestrador político – ou o que você viu nos muros de Bronx, de camisola cor-de-rosa à meia-noite, olhando o terreno baldio pela janela –
Ah, Avenida Rochambeau – Playground de Fantasmas – último prédio
de apartamentos para espiões no Bronx – último lar para Elanor ou Naomi, foi aqui que essas duas irmãs comunistas perderam sua revolução –
“Está certo – ponha seu casaco, Sra. – vamos – Estamos com o carro embaixo – quer vir com ela até a delegacia?”
Então a viagem até lá – segurei a mão de Naomi e segurei sua cabeça junto do meu peito, sou mais alto – beijei-a e disse que estava fazendo aquilo pelo seu próprio bem – Elanor doente – e Max com problemas cardíacos – Necessidades –
Para mim, – “Por que fez isto?” – “Sim Sra. seu filho terá que deixá-la dentro de uma hora” – A Ambulância
demorou umas poucas horas – partiu às 4 da madrugada rumo a algum
Bellevue dentro da noite no centro da cidade – partiu para o hospital para sempre. Vi-a sendo levada – acenava, lágrimas nos olhos.
Dois anos mais tarde, de volta de uma viagem ao México219 –
desolação da paisagem plana de Brentwood, arbustos mirrados e mato ao longo dos trilhos do ramal não utilizado da ferrovia na direção do hospício
–
prédio central de tijolos novos com 20 andares – perdido nos amplos gramados da cidade de loucos de Long Island – enorme cidade da Lua.
Asilo estendendo suas asas gigantes sobre o caminho para um buraco negro minúsculo – a porta – entrada pelo escroto –
Entrei – cheiro esquisito – de novo os corredores – pelo elevador – até uma porta de vidro no Pavilhão das Mulheres – até Naomi – Duas rosadas enfermeiras de branco – Elas a trouxeram para fora, Naomi me encarou – e eu ofeguei – Ela havia sofrido um derrame –
Muito pequena, encarquilhada até os ossos – a velhice chegara para Naomi – agora alquebrada em cabelos brancos – vestido solto sobre o esqueleto – rosto encovado, velha! definhava – bochecha de anciã –
Uma mão rígida – o peso dos quarenta anos e menopausa reduzidos a
isso por um ataque cardíaco, agora capenga – rugas – uma cicatriz na cabeça, a lobotomia – ruína, a mão apontando para baixo, para a morte –
Ó rosto de russa, mulher na grama, teu comprido cabelo negro será coroado de flores, o bandolim nos teus joelhos –
Beleza Comunista, sentada aqui desposada no verso entre margaridas, felicidade prometida ao alcance da mão –
mãe santa, agora sorri para o amor, seu mundo renasceu, crianças correm nuas pelo campo recoberto de ranúnculos,
elas comem no pomar de ameixeiras no fim do prado onde encontram
uma cabana na qual um preto velho de cabelos brancos conta os segredos da sua barrica de chuva –
filha abençoada vem à América, anseio ouvir de novo tua voz, lembrando a música da tua mãe, a canção do Front Natural –
Ó musa gloriosa que me carregou no ventre, deu-me para sugar a primeira vida mística & ensinou-me a fala e a música, da tua cabeça
sofredora primeiro recebi a Visão –
Torturada e ferida no crânio – Que alucinações loucas dos malditos levaram-me para fora do meu crânio em busca da Eternidade até que eu encontrasse a paz em Ti, Ó Poesia – e em todo o chamamento da humanidade pela Origem,
Morte que és a mãe do universo! – Agora veste tua nudez para sempre, alvas flores no cabelo, teu casamento lacrado atrás do céu – revolução alguma destruirá essa virgindade –
Ó, bela Garbo do meu Carma – todas as fotografias de 1920 na Colônia de Férias Nicht-Gedeiget220 aqui intocadas – com todos os professores de Newark – Elanor não partiu, Max não espera seu espectro – nem Louis se aposentou do Colégio –
De volta! Você! Naomi! Quebranto em você! Imortalidade descarnada
e revolução chegaram – mulher mirrada e alquebrada – aos cinéreos olhares intramuros dos hospitais, cinzento dos pavilhões na pele –
“Você é um espião?” Eu sentado na mesa do amargor, olhos enchendo-
se de lágrimas – “Quem é você? Louis o mandou? Os fios –”
em seu cabelo enquanto batia na cabeça – “Não sou uma menina má –
não me mate! – eu ouço o teto – eu criei dois filhos –”
Dois anos desde que lá estive – comecei a chorar – Ela me encarou – a enfermeira interrompeu o encontro por um momento – entrei no banheiro para esconder-me atrás das brancas paredes do toalete
“O Horror” eu chorando – vê-la de novo – “O Horror” – como se ela
estivesse morta e com a podridão do funeral – “O Horror!”
Voltei, ela gritou mais ainda – levaram-na embora – “Você não é Allen
– ” observei seu rosto – mas ela passou por mim, sem olhar –
Abriu a porta do pavilhão – cruzou-a sem uma olhada para trás,
subitamente sossegada – olhei mais uma vez – ela parecia velha – à beira do túmulo – “Todo o Horror!”
Mais um ano, deixei NY – no chalé da Costa Oeste em Berkeley221
sonhei com sua alma – a qual, através da vida, de que maneira se mantivera naquele corpo, em cinzas ou maníaco, além da alegria –
próxima de sua morte – com olhos – era meu próprio amor em sua forma, Naomi, ainda minha mãe na terra – mandei-lhe uma longa carta –
& escrevi hinos aos loucos – Obra do misericordioso Senhor da Poesia que faz com que a erva arrancada permaneça verde ou que a rocha se abra em ervas – ou que o Sol seja constante para a terra – Sol de todos os girassóis e dias em claras pontes de ferro – que brilha nos velhos hospitais
– assim como em meu jardim –
Voltando certa noite de San Francisco, Orlovsky no meu quarto –
Whalen em sua calma cadeira – um telegrama de Gene, Naomi morta –
Lá fora inclinei minha cabeça até o chão sob os arbustos junto à garagem – sabia que ela estava melhor –
finalmente – não mais deixada para olhar sozinha pela Terra – 2 anos de solidão – ninguém, perto dos 60 anos – velha mulher descarnada –
outrora Naomi de longas tranças da Bíblia –
Ou Ruth que chorou na América – Rebeca envelhecida em Newark –
Davi recordando-se de sua harpa, agora advogado em Yale
ou Svul Avrum – Israel Abraham – eu mesmo – para cantar na selva em louvor a Deus – Ó Elohim! – e assim até o fim – 2 dias depois da morte recebi sua carta –
Estranhas profecias, de novo! Ela escreveu – “A chave está na janela, a chave está na luz do sol na janela – Eu tenho a chave – Case-se Allen não tome drogas – a chave está entre as barras, na luz do sol na janela.
Com amor,
sua mãe”
a qual é Naomi –
HINO
No mundo que Ele criou de acordo com sua vontade Bendito Louvado
Glorificado Celebrado Exaltado o Nome do Santificado Bendito é Ele!
Na casa de Newark Bendito é Ele! Na casa dos loucos Bendito é Ele! Na casa da Morte Bendito é Ele!
Bendito seja Ele na homossexualidade! Bendito seja Ele na Paranoia!
Bendito seja Ele na cidade! Bendito seja Ele no Livro!
Bendito seja Ele que mora na sombra! Bendito seja Ele! Bendito seja Ele!
Bendita seja você Naomi em lágrimas! Bendita seja você Naomi nos medos!
Bendita Bendita Bendita na doença!
Bendita seja você Naomi nos Hospitais! Bendita seja você Naomi na solidão! Bendito seja seu triunfo! Benditas sejam tuas grades! Bendita seja a solidão dos teus últimos anos!
Bendito seja teu fracasso! Bendito seja teu ataque! Bendito seja o fechar dos teus olhos! Bendito seja o encovado da tua face! Benditas sejam tuas coxas murchas!
Bendita sejas tu Naomi na Morte! Bendita seja a Morte! Bendita seja a Morte!
Bendito seja Ele Quem leva todo sofrimento para o céu! Bendito seja Ele no final!
Bendito seja Ele que constrói o Céu na escuridão! Bendito Bendito Bendito seja Ele! Bendito seja Ele! Bendita seja a Morte de Todos nós!
III
Só por não esquecer o começo quando ela bebeu refrigerantes baratos nos necrotérios de Newark,
só por tê-la visto chorar nas mesas cinzentas dos longos pavilhões do seu universo
só por ter conhecido suas ideias malucas de Hitler na porta, os fios na sua cabeça, as três grandes varas
marretadas nas suas costas, as vozes do forro berrando por causa das suas feias trepadas cedo por 30 anos,
só por ter visto os saltos no tempo, a memória apagar-se, o troar das guerras, o rugido e o silêncio de um imenso choque elétrico,
só por tê-la visto pintar grosseiros quadros de trens correndo por cima dos telhados do Bronx
seus irmãos mortos em Riverside ou Rússia, sua solidão em Long Island escrevendo uma carta perdida – e sua imagem na luz do sol na janela
“A chave está na luz do sol na janela nas grades a chave está na luz do sol”,
só por ter chegado até aquela noite escura do ataque numa cama de ferro enquanto o sol se punha em Long Island
e lá fora o vasto Atlântico rugia o grande clamor do Ser para si
mesmo para retornar ao Pesadelo – criação dividida – com sua cabeça pousada num travesseiro de hospital para morrer
– num último relance – toda a Terra uma Luz perene na familiar escuridão
– nada de lágrimas por causa dessa visão –
Mas a chave devia ser deixada para trás – na janela – a chave na luz do sol
– para os vivos – que podem receber
essa fatia de luz nas mãos – e abrir a porta – e olhar para trás enxergando a
Criação que resplandece de volta ao mesmo túmulo, do tamanho do universo,
do tamanho do tique-taque do relógio do hospital no arco sobre a porta branca –
IV
Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de
Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey222 morrendo numa ambulância com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs223
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de
Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo
corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa
ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores
V
Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol224
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có
Senhor NY, 1959
1894-1956
I
Estranho pensar em você agora que partiu sem espartilhos & olhos, enquanto percorro o calçamento ensolarado de Greenwich Village
na direção do Centro de Manhattan, meio-dia claro de inverno e passei a noite toda acordado, falando, falando, lendo o Kaddish em voz alta, escutando o grito cego dos blues de Ray Charles na vitrola,
o ritmo, o ritmo – e tua lembrança na minha cabeça três anos depois – E li em voz alta, sozinho, os triunfantes versos finais de Adonais194 –
chorei ao perceber o quanto sofremos –
E o quanto a Morte é o lenitivo sonhado, cantado, profetizado por todos os cantores, como no Hino Hebraico ou no Livro Budista das Respostas – e uma folha murcha em minha própria imaginação – ao amanhecer –
Sonhando de novo através da vida, Teu tempo – e o meu acelerando-se rumo ao Apocalipse,
o momento final – a flor queimando no Dia – e o que virá depois,
olhando a mente que por sua vez enxergou uma cidade americana
num relance, e o grande sonho de Mim ou China ou você ou uma Rússia
fantasma ou uma cama desfeita que nunca existiu –
como um poema escuro – que escapou de volta para o Esquecimento –
Mais nada para ser dito e mais nada para ser chorado, só os seres no Sonho, agarrados ao desaparecerem,
suspirando, berrando, comprando e vendendo pedaços de fantasma, adorando-se uns aos outros,
adorando o Deus incluído nisso tudo – desejo ou fatalidade? – enquanto dura, uma Visão – mais nada?
Salta ao meu redor enquanto saio e caminho pela rua, olho para trás, Sétima Avenida, a muralha de prédios de escritórios com suas janelas, acotovelando-se altos sob a nuvem, altos por um momento como o céu
– e o céu acima – um velho lugar azul.
ou rua abaixo pela Avenida para o Sul, para – enquanto caminho na direção do Baixo East Side – lá onde você caminhou há 50 anos, menina – da Rússia, comendo os primeiros tomates venenosos da América –
amedrontada no cais –
então debatendo-se na multidão de Orchard Street, para onde? – para Newark –
para as confeitarias, primeiras sodas caseiras do século, sorvete batido à mão no quarto dos fundos em mesas de madeira escura mofada –
Para a educação casamento colapso nervoso, operação, escola normal e aprendendo a ser louca, num sonho – que vida é essa?
Para a Chave na Janela195 – E a grande Chave repousa sua cabeça de luz no topo de Manhattan, no assoalho, repousa na calçada – um só raio de luz que se mexe enquanto desço pela Primeira Avenida na direção do Teatro Iídiche – e do lugar da pobreza
que você conheceu e eu conheci, mas sem preocupar-me agora – Estranho
ter passado por Paterson e o Oeste e a Europa e novamente aqui, agora com os gritos dos espanhóis nas soleiras das portas, meninos negros e escadas de emergência tão velhas quanto você
– Embora você não esteja mais velha, agora isso ficou aqui comigo
Eu, de qualquer modo, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez –
Isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dente no final –
Embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro, a alma em nós, Ah! oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança –
pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio pelado, costela quebrada, pele rasgada, Implacabilidade
Ai, ai! cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte a deixou de fora, a Morte teve piedade, você passou por seu século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – Finalmente passou por você mesma – Pura – De volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo –
Lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Sei para onde foi, tudo bem.
Mais nada de flores nos campos estivais de Nova York, agora mais nada da alegria nem do medo de Louis, 196
e mais nada de sua doçura e óculos, suas décadas de escolas, dívidas, casos amorosos, telefonemas amedrontados, leitos de parto, parentes, mãos –
Mais nada da irmã Elanor – ela partiu antes de você – nós não contamos –
você a matou – ou ela se matou por ter que aguentar você – coração artrítico – Porém a Morte as matou, às duas – Tanto faz –
Nem mais nada de lembranças da sua mãe, lágrimas de 1915 em filmes mudos por semanas e semanas seguidas – esquecendo, sofrendo ao assistir Marie Dressler197 dirigir-se à humanidade, Chaplin jovem dançando,
ou Boris Godunov, Chaliapin no Met198 elevando sua voz de Czar choroso em pé no saguão com Elanor & Max – olhando também os capitalistas ocuparem seus lugares na plateia, alvos casacos de pele, diamantes, com os Jovens Socialistas, 199 pegando uma carona pela Pennsylvania, bojudas calças pretas de ginástica, fotografias de 4 garotas cada qual com as mãos na cintura da outra, olhar risonho, tão recatadas, solidão virginal de 1920,
todas essas meninas envelheceram ou já morreram, e suas longas cabeleiras no túmulo – felizes ao arranjarem maridos mais tarde –
Você conseguiu – eu também cheguei! – meu irmão Eugene antes – até hoje se afligindo e se apertando até sua última mão enrijecida enquanto convive com seu câncer – ou se matará – mais tarde talvez – logo pensará –
E este é o último momento do qual me lembro, no qual os vejo todos, agora através de mim – mas não vejo você
Não antevi o que você sentiu – qual abismo mais horrendo desdentado de boca estragada chegou primeiro – para você – e estava você preparada?
Para ir aonde? Para aquela escuridão – aquela – aquele Deus? um clarão?
Um senhor no Vazio? como um olho dentro da nuvem negra no sonho?
Adonais finalmente com você?
Ultrapassa minha lembrança! Incapaz de adivinhar! Não é só o crânio amarelo no túmulo ou uma caixa de pó com vermes e uma tira de pano encardido – Caveira com auréola? Podes crer?
Será apenas o sol que brilha uma única vez para a mente, só o clarão da existência que já foi?
Nada além do que temos – do que você teve – tão pouca coisa – no entanto, Triunfo
por teres estado aqui e te transformado, como árvore caída ou flor – ligada ao solo – mas louca, com suas pétalas coloridas pensando no Grande Universo, abalada, a copa cortada, folha arrancada, escondida num hospital como um caixote vazio de ovos, trouxa de roupas, amarga –
perdida no cérebro lunático da Lua, anulação.
Nenhuma flor igual a essa flor que sabia estar no jardim e que lutou contra a faca – e que perdeu
Decepada pelo alfanje gelado do imbecil Boneco de Neve – e isso na Primavera – estranho pensamento fantasmagórico – que Morte – Afiado gume de gelo na mão – coroado de rosas murchas – um cachorro no lugar dos olhos – uma fábrica de escravos como caralho200 – coração de ferro elétrico.
Todas as acumulações da vida que nos consomem – relógios, corpos, consciência, sapatos, seios – filhos paridos – seu Comunismo –
“paranoia” nos hospitais.
Certa vez você chutou Elanor na perna, mais tarde ela morreu do coração.
Você de derrame. Dormindo? no espaço de um ano, vocês duas, irmãs
na morte. Estará Elanor feliz?
Max padece sozinho num escritório no Baixo Broadway, solitários bigodões sobre relatórios de Contabilidade a noite toda, algo assim. Sua vida passa – como é que ele a vê – e do que duvida agora? Ainda sonhando com ganhar dinheiro ou que poderia ter ganho dinheiro, contratado babá, tido filhos, até mesmo ter achado tua Imortalidade,
Naomi?
Logo o verei. Agora preciso continuar – para conversar com você – assim como eu não o fiz enquanto você tinha boca.
Para sempre. E estamos fadados a isso, Para Sempre – como os cavalos de Emily Dickinson201 – voltados para o Fim.
Eles conhecem o caminho – Esses Corcéis – correm mais rápido do que pensamos – é nossa própria vida que eles cruzam – e carregam consigo.
Magnífica, não mais carpida, golpeada no coração, mente para trás, sonhada casada mortal mudada – Bunda e rosto acabados com assassinato.
No mundo, doada, enlouquecida flor, Utopia que não chegou a ser, encerrada sob o lenho, consolada na Terra, confortada no Ermo, Jeová, aceita.
Inominado, Face Una, Para sempre além de mim, sem começo, sem fim, Pai da Morte. Ainda que eu não esteja preparado para esta Profecia, eu que não me casei, eu sem hinos, eu sem Céu, sem meta na bem-aventurança, ainda assim te adorarei.
A ti, Céu depois da morte, Único abençoado no Vazio, nem luz nem escuridão, Eternidade Sem Dias –
Recebe isto, este salmo, vindo de mim, um dia jorrado da minha mão, alguma coisa do meu Tempo agora entregue ao Nada – para louvar-Te –
Porém a Morte
Este é o fim, a redenção da Selvageria, caminho para o Maravilhado, casa almejada por Todos, lenço negro lavado pelas lágrimas – página para além do Salmo – Última transformação minha e de Naomi – rumo à perfeita Escuridão de Deus – Morte, para teus fantasmas!
II
De volta e de volta – refrão – dos Hospitais – ainda não escrevi tua
história – deixá-la abstrata – umas poucas imagens passam pela cabeça – como o coro de saxofone das casas e dos anos –
lembrança de eletrochoques.
Por aquelas longas noites quando criança no apartamento em Paterson, observando teu nervosismo – você era gorda – seu próximo passo –
Por aquela tarde quando fiquei em casa em vez de ir à escola, para cuidar de você – de uma vez por todas – quando fiz um voto para sempre, já que o homem discordava da minha opinião sobre o cosmos, então eu estava perdido –
Por minha missão mais tarde – promessa de iluminar a humanidade –
isto é, soltar partículas – (louco como você) – (sanidade um truque convencional) –
Mas você olhava pela janela para a esquina da Igreja de Broadway e espreitava um assassino místico de Newark,
Assim, telefonei para o Doutor – “OK, leve-a para repousar” – assim, vesti meu casaco e levei-a rua abaixo – No caminho, um garoto da escola berrou inesperadamente – “Para onde vai, senhora, para a Morte?”
Estremeci –
E você tapou o nariz com a gola de pele comida pelas traças, máscara antigases contra o veneno infiltrado na atmosfera da cidade, espalhado pela Vovó –
E quem seria o motorista da camioneta de queijos, se não um membro da quadrilha? Você teve um sobressalto ao vê-lo, mal podia conduzi-la –
para Nova York, Times Square mesmo, pegar outro ônibus da Greyhound –
– e lá ficamos parados umas 2 horas combatendo insetos invisíveis e doença judaica – brisa venenosa de Roosevelt –
soltos para pegá-la – e eu acompanhando-a, torcendo para que tudo
acabasse bem num quarto sossegado numa casa vitoriana junto a um lago.
3 horas de viagem por túneis passando por toda a indústria americana, Bayonne preparando-se para a Segunda Guerra Mundial, tanques, refinarias, fábricas de soda, refeitórios, rotundas fortificadas das locomotivas – até os pinheirais de índios de Nova Jersey – cidades tranquilas – longas estradas por bosques arenosos –
Pontes atravessando riachos sem cervos, antigos colares de contas enchendo o leito arenoso – lá embaixo, uma machadinha ou osso de Pocahontas – e um milhão de velhas votando em Roosevelt nas suas casinhas pintadas de marrom, estradas saindo da rodovia da loucura –
talvez um gavião numa árvore ou um ermitão procurando um galho cheio de corujas –
O tempo todo reclamando – com medo dos estranhos no banco da frente, roncando descuidadamente – em que viagem de ônibus estarão eles roncando agora?
“Allen, será que você não entende – é que – desde que enfiaram aquelas 3 varas grandes nas minhas costas – fizeram qualquer coisa comigo no Hospital, me envenenaram, querem me ver morta – 3 varas grandes, 3 varas grandes –
“A Puta! Vovó! Semana passada a vi, vestindo calças como um velho, um saco nas costas, subindo no prédio pela parede de tijolos
“Na escada de emergência, com germes de veneno, para jogar em mim
– à noite – talvez Louis a esteja ajudando – está dominado por ela –
“Eu sou sua mãe, leve-me para Lakewood” (perto do lugar onde o Graf Zeppelin havia caído, todo Hitler na Explosão) “onde eu possa me esconder”.
Chegamos lá – a casa de repouso do Dr. Whatzis – ela escondeu-se
atrás de um armário – exigiu transfusão de sangue.
Fomos postos para fora – caminhando com a maleta rumo a
desconhecidas casas com gramados à sombra – anoitecer, penumbra entre os pinheiros – longas ruas mortas cheias de grilos e urtigas –
Então já havia mandado ela calar a boca – casa grande CASA DE
REPOUSO, QUARTOS – deixei o pagamento para a semana com a senhoria – levei a maleta de ferro para dentro – sentei na cama esperando a hora de fugir –
Quarto limpo no sótão com uma colcha acolhedora – cortinas de laçarotes – tapete tecido à mão – Papel de parede manchado tão velho quanto Naomi – Estávamos em casa –
Parti no ônibus seguinte para Nova York – reclinei a cabeça no encosto do último banco, deprimido – o pior ainda por vir – deixando-a, viajei entorpecido – eu só tinha 12 anos.
Iria ela esconder-se no quarto para descer alegremente na hora do café?
Ou trancaria a porta para espreitar pela janela procurando espiões nas esquinas? Escutando o invisível gás Hitleriano pelo buraco da fechadura?
Sonhando numa poltrona – ou divertindo-se às minhas custas – diante de um espelho, só?
Aos 12 anos atravessando Nova Jersey de ônibus à noite, deixando Naomi entregue às Parcas na casa mal-assombrada de Lakewood – eu entregue ao ônibus do meu destino – afundado no assento – todos os violinos partidos – meu coração amargurado entre minhas costelas –
mente vazia – estivesse ela em segurança no seu caixão –
Ou então de volta à Escola Normal de Newark, estudando sobre a América de saia negra – inverno nas ruas sem almoço – um tostão, um pão202 – à noite em casa para cuidar de Elanor no quarto –
Primeiro colapso nervoso em 1919 – ficou em casa deitada no quarto escuro sem ir à escola por três semanas – alguma coisa ruim – nunca disse o que foi – todo ruído machucava – sonhando com as fendas de Wall Street
–
Antes da depressão cinzenta – mudou-se para o Estado de Nova York –
sarou – Louis tirou uma foto sua de pernas cruzadas na grama – seus longos cabelos com flores – sorrindo – tocando canções de ninar num bandolim – a fumaça das urtigas em colônias de férias de tendências esquerdistas e eu vendo árvores na infância –
ou de novo lecionando, rindo com os idiotas, as turmas mais atrasadas
– sua especialidade russa – idiotas de lábios sonhadores, olhos grandes, pés delgados & dedos doentios, recurvados, raquíticos –
cabeças grandes balançando sobre Alice no País das Maravilhas, um quadro-negro cheio de G A T O.
Naomi lendo pacientemente, histórias tiradas de um livro de contos de fadas comunistas – História da Súbita Doçura do Ditador – Clemência dos Bruxos – Exércitos beijando-se –
Caveiras ao redor da Mesa Verde – O Rei & os Trabalhadores – o Jornal de Paterson os publicou nos anos 30 até ela enlouquecer eles ou eles fecharem ou ambas as coisas.
Ó, Paterson! Cheguei tarde em casa aquela noite. Louis estava preocupado. Como podia eu ser tão – será que não pensava? Não a devia ter largado lá. Louca em Lakewood. Chamar o médico. Telefonar para a casa no pinheiral. Tarde demais.
Fui para a cama exausto, querendo largar o mundo (provavelmente de novo apaixonado por R aquele ano – meu herói do colégio na minha mente, garoto judeu que mais tarde se tornou médico, então um garoto
quieto e fino –
Eu mais tarde dando a vida por ele, mudei-me para Manhattan – segui-o na Faculdade – Rezei na balsa prometendo ajudar a humanidade se entrasse – prometi, o dia que fui fazer o vestibular –
que seria honesto revolucionário advogado trabalhista – me prepararia para isso – inspirado em Sacco Vanzetti, Norman Thomas, Debs, Altgeld, Sandburg, Poe – Brochuras Azuis. 203 Pretendia ser Presidente ou então Senador.
promessa ingênua – depois sonhos de prosternar-me diante dos joelhos escandalizados de R declarando meu amor em 1941 – Que doçura haveria ele de me mostrar, pois, a mim que tanto o desejara e tanto me desesperara
– primeiro amor – um choque –
Mais tarde uma avalanche mortal, montanhas de homossexualismo, Matterhorns de caralho, Grand Canyons de cu – pesando na minha cabeça melancólica –
enquanto isso caminhava pela Broadway imaginando o Infinito como uma bola de borracha sem espaço além dela – e o que existiria fora dela? –
voltando para casa na Graham Avenue ainda melancólico passando pelas solitárias cercas de arbustos ao longo da rua, sonhando depois do cinema –
)
O telefone tocou às 2 da madrugada – Emergência – ficou louca –
Naomi escondendo-se debaixo da cama gritando por causa dos percevejos de Mussolini – Socorro! Louis! Buba! 204 Fascistas! Morte! – a dona da pensão aterrorizada – o empregado bicha velha gritando com ela –
Terror que despertou os vizinhos – velhas do segundo andar recuperando-se da menopausa – todos aqueles trapos entre coxas, lençóis limpos, tristes por bebês perdidos – maridos cinéreos – filhos troçando em
Yale ou passando brilhantina no cabelo na Universidade de Nova York – ou tremendo na Faculdade de Educação de Montclair como Eugene –
Sua perna grossa dobrada até o peito, mão estendida Afastem-se, vestido de lã na altura das coxas, casaco de pele puxado para baixo da cama – entrincheirada com as malas ao pé da cama.
Louis de pijama ao telefone ouvindo apavorado – agora? Quem poderia resolver? – minha culpa, despachando-a para a solidão – sentado no quarto escuro, no sofá, trêmulo, tentando resolver –
Tomou o trem da manhã para Lakewood, Naomi sob a cama – pensou
que ele estivesse trazendo policiais com veneno – Naomi gritando – Louis, o que então aconteceu com seu coração? – Teria ele sido morto pelo êxtase de Naomi?
Arrastou-a para fora, dobrando a esquina, táxi, enfiou-a para dentro com a maleta mas o motorista os largou na frente da drogaria205 – Ponto de ônibus, duas horas de espera.
Eu nervoso, deitado na cama do apartamento de 4 cômodos, a cama grande da sala, junto à escrivaninha de Louis – tremendo – ele chegou tarde da noite em casa, contou-me o que acontecera.
Naomi no balcão dos remédios defendendo-se do inimigo – revoadas de livros infantis, saquinhos de banho de espuma, aspirinas, vidros, sangue
–
Louis aterrorizado junto ao balcão dos refrigerantes – com escoteiras de Lakewood – viciadas em Coca – enfermeiros – motoristas de ônibus esperando seu turno – Policiais da delegacia local, perplexos – e um padre, sonhando com porcos num antigo penhasco?
Farejando o ar – Louis apontando para o vazio? Fregueses vomitando suas Cocas – ou encarando – Louis humilhado – Naomi triunfante – A
Revelação da Conspiração. O ônibus chega, os motoristas não os levarão para Nova York.
Telefonema para o Dr. Whatzis, “ela precisa ser internada”, o Hospital psiquiátrico – Médicos do Estado em Greystone – Traga-a para cá, Mr.
Ginsberg.
Naomi, Naomi – suando, olhos esbugalhados, gorda, o vestido desabotoado de lado – cabelo na testa, meias malignamente caídas nas pernas – gritando que queria transfusão de sangue – uma mão reivindicatória levantada – sapato na mão – descalça na Farmácia –
A chegada dos inimigos – quais venenos? Gravadores? FBI?
Zdanov206 escondido atrás do balcão? Trotsky criando bacilo de rato no fundo da loja? Tio Sam em Newark, preparando mortais perfumes no bairro negro? Tio Ephraim, bêbado de assassinatos no bar dos políticos, tramando algo para Haia? Tia Rose afiando as agulhas da Guerra Civil Espanhola? 207
Até que a ambulância alugada por 35 dólares veio de Red Bank –
Agarraram-na pelos braços – ataram-na à padiola – gemendo, envenenada por coisas imaginárias, vomitando química através de Jersey, pedindo piedade desde Essex Country até Morristown –
E de volta a Greystone onde ficou por três anos – esse foi o ataque final, devolveu-a mais uma vez ao Hospício –
Em que pavilhões – andei por lá mais tarde, muito – velhas senhoras catatônicas? cinzentas como nuvens ou cinza ou paredes – sentadas cantarolando pelo chão – Cadeiras – e as bruxas encarquilhadas, reclamando – implorando por minha misericórdia de 13 anos de idade –
“Leve-me para casa” – Algumas vezes fui sozinho em busca da Naomi
perdida tomando eletrochoques – e eu dizia, “Não, Mamãe você está louca,
– Confie nos Drs.”
E Eugene, meu irmão, seu filho mais velho, estudando direito fora de casa num quarto mobiliado em Newark –
Chegou a Paterson no dia seguinte – sentou-se no sofá cambaio da sala
– “Tivemos de mandá-la de volta a Greystone” –
– sua cara perplexa, tão jovem, então só olhos com lágrimas – então só lágrimas rastejando pelo seu rosto – “Para quê?”, lamento vibrando no seu maxilar, olhos fechados, voz aguda – a cara da dor de Eugene.
Ele longe, refugiado num elevador da Biblioteca de Newark, sua garrafa diária de leite no peitoril da janela do apartamento mobiliado por 5
dólares a semana no Centro dos trilhos do bonde –
Ele trabalhava 5 horas por dia a 20 dólares/semana – durante os anos da Faculdade de Direito – permaneceu só e inocente perto dos prostíbulos dos negros.
Sem trepar, pobre virgem – escrevendo poemas sobre Ideais e cartas políticas para o editor do Pat Eve News208 – (ambos escrevíamos, denunciando o Senador Borah e os Isolacionistas – e sentindo algo de misterioso no Paço Municipal de Paterson –
Esgueirei-me lá dentro uma vez – torre do Moloch local com um pináculo fálico e cimeira ornamentada, estranha Poesia gótica plantada na Market Street – réplica do Hotel de Ville de Lyon –
alas, balcões e portais ornamentados, entrada para o gigantesco relógio da cidade, quarto secreto de mapas cheios de Haworthone209 – escuros Socialistas na comissão de Finanças – Rembrandt fumando na penumbra –
Silenciosas mesas envernizadas na grande sala de reuniões –
Vereadores? Comissão de Finanças? – Mosca, o cabeleireiro, conspirando
– Crapp, o gângster, dando ordens a partir da privada – Briga de loucos por
Zonas, Bombeiros, Tiros & Metafísica de Quartinho dos Fundos – estamos todos mortos – lá fora, no ponto de ônibus, Eugene mirava através da sua infância – na qual o Pastor Evangelista pregou loucamente por 3 décadas, cabelo arrepiado, pirado & fiel à sua Bíblia desprezível – rabiscou Prepara-te para Encontrar Teu Deus na calçada cívica –
Ou Deus é Amor na passarela sobre a ferrovia – delirava como eu deliraria, o solitário Evangelista – morte no Paço Municipal – )
Mas Gene, jovem – na Faculdade de Educação de Montclair por 4 anos
– lecionou por um semestre & largou tudo para seguir em frente na vida –
com medo dos Problemas Disciplinares – estudantes italianas de sexo escuro, garotas rudes dando trepadas, nada de inglês, sonetos deixados de lado – e ele não sabia muita coisa – só o que perdeu –
assim partiu sua vida em duas e entrou em Direito – manuais azuis realmente grandões e conduzindo o velho elevador a 13 milhas de distância em Newark e estudou para valer para o futuro.
acabara de deparar-se com o Grito de Naomi na soleira da porta do seu fracasso, pela última vez, Naomi fora-se, nós sozinhos – em casa – ele sentado lá –
Então tome um pouco de canja de galinha, Eugene. O Homem do Evangelho desespera-se diante do Paço Municipal. E esse ano Louis tem amores poéticos de meia-idade de subúrbio – em segredo – música de seu livro de 1937 – Sincero – ele aspira à beleza –
Nenhum amor desde que Naomi gritou – desde 1923? – agora perdida
no pavilhão de Greystone – novo choque para ela – Eletricidade seguindo a Insulina 40.
E o metrasol a fez engordar.
Eis que alguns anos mais tarde ela voltou de novo para casa –
havíamos antecipado e planejado muita coisa – eu esperava por aquele dia
– minha Mãe de novo para cozinhar & – tocar piano – cantar ao bandolim
– Ensopado de Bofe, & Stenka Razin, 210 & a linha comunista na guerra com a Finlândia – e Louis endividado – suspeita de ser dinheiro envenenado – capitalismos misteriosos
– & percorreu o longo saguão da entrada & olhou a mobília. Ela nunca lembrou de tudo. Alguma amnésia. Examinou as toalhinhas de mesa – e o conjunto da sala de jantar havia sido vendido –
a mesa de Mogno – 20 anos de amor – foi para o brechor – ainda tínhamos o piano – e o livro de Poe – e o Bandolim, empoeirado, precisando de cordas –
Ela foi para o quarto dos fundos deitar-se na cama e ruminar ou tirar uma soneca, esconder-se – Entrei com ela, não deixá-la sozinha – deitei-me a seu lado – venezianas fechadas, penumbra, fim de tarde – Louis na sala da frente, na mesa, esperando – talvez cozinhando galinha para o jantar –
“Não tenha medo de mim só porque estou voltando do Sanatório – Sou sua mãe –”
Pobre amor, perdido – que medo – eu deitado lá – Disse, “Te amo, Naomi”, – duro, junto a seu braço. Teria chorado, era essa a união solitária sem consolo? – Nervosa e logo se levantou.
Estaria ela satisfeita alguma vez? E – veio sentar-se no sofá novo junto à janela da frente, pouco à vontade – queixo apoiado na mão – estreitando os olhos – para qual fatalidade naquele dia –
Palitando seus dentes com a unha, lábios formando um O, suspeita –
velha vagina gasta do pensamento – ausente olhar de soslaio – alguma dívida maligna anotada na parede, a ser paga & os envelhecidos seios de
Newark chegando perto –
Pode ter escutado uma intriga no rádio pelos fios elétricos da sua cabeça controlada pelas 3 grandes varas deixadas nas suas costas por gângsteres da amnésia, durante o hospital – doíam entre os ombros –
Na sua cabeça – Roosevelt devia saber do seu caso, contou-me – com medo de matá-la, agora que o governo conhecia seus nomes – rastreados até Hitler – queria deixar a casa de Louis para sempre.
Uma noite, súbito ataque – seu barulho no banheiro – como se fosse sua alma crocitando – convulsões e vômito vermelho saindo da sua boca –
água de diarreia explodindo do seu traseiro – de quatro diante da privada –
urina escorrendo entre suas pernas – largada vomitando no chão de azulejos lambuzados com suas fezes negras – sem desmaiar –
Aos quarenta, varicosa, nua, gorda, condenada, escondendo-se do lado de fora do apartamento junto ao elevador, chamando a Polícia, gritando para que sua amiga Rose viesse socorrê-la –
Uma vez trancou-se com lâmina de barbear ou iodo – podia ouvi-la tossindo em prantos no lavabo – Louis arrombou a porta pelo vidro pintado de verde, arrastamo-la até o quarto.
Então quieta por meses aquele inverno – passeios sozinha, lá perto na Broadway, lia o Daily Worker. 211 Quebrou o braço, caindo na rua gelada –
Começou a planejar sua fuga das conspirações financeiras cósmicas assassinas – mais tarde fugiu até o Bronx para sua irmã Elanor. E aí está outra saga da finada Naomi em Nova York.
Ou por Elanor ou pela Associação dos Trabalhadores onde trabalhava, endereçando envelopes, ela foi levando – fazia compras de sopa de tomates Campbell’s – economizava o dinheiro que Louis lhe mandava –
Mais tarde arranjou um namorado e era médico – Dr. Isaac trabalhava
para o Sindicato Nacional dos Marítimos – agora uma velha boneca italiana gorda, atarracada e calva – e ele também era órfão – mas o puseram na rua – Velhas crueldades –
Mais desarrumada, sentada na cama ou na cadeira, de combinação, sonhando sozinha – “Estou com calor – Estou ficando gorda – Eu tinha um corpo tão bonito antes de ir para o hospital – Deviam ter me visto em Woodbine –” Isso num quarto mobiliado perto da sede do Sindicato dos Marítimos, 1943.
Olhando as fotos dos bebês nus nas revistas – anúncios de talco para nenê, papinha de cenoura espremida com carne – “Não pensarei em nada a não ser pensamentos belos.”
Virando a cabeça, dando voltas e voltas ao redor do pescoço em hipnose à luz da janela no verão, em recordações de sonho –
“Toco no seu rosto, toco no seu rosto, ele toca meus lábios com sua mão, eu tenho pensamentos belos, o bebê tem uma mão tão bonita.” –
Ou um repelão-Não no seu corpo, repugnância – algum pensamento de
Buchenwald212 – alguma insulina passando por sua cabeça – um sobressalto nervoso de careta do Involuntário – (como o estremecimento quando mijo) – má química da sua córtex – “Não, não pense nisso. Ele é um rato.”
Naomi: “E quando morremos nos transformamos numa cebola, num repolho, numa cenoura, numa abóbora, numa verdura.” Eu cheguei de Columbia para a cidade e concordo. Ela lê a Bíblia, pensa pensamentos belos o dia todo.
“Ontem eu vi Deus. Como ele é? Bem, à tarde subi por uma escada –
ele tem uma casinha modesta no campo, como em Monroe, NY, as granjas de galinhas no bosque. É um velho solitário com uma barba branca.
“Cozinhei o jantar para ele. Fiz um belo jantar – sopa de lentilha, verduras, pão e manteiga, – leite – ele sentou-se à mesa e comeu, estava triste.
“Eu lhe disse, Veja todas essas lutas e matanças acontecendo por aqui, O que há? Por que não dá um jeito nisso?
“Eu tento, disse ele – É tudo que posso fazer, parecia cansado.
Continua solteiro até hoje e gosta de sopa de lentilha.” Servindo-me enquanto isso um prato de peixe frio – repolho cru picado encharcado de água da torneira – tomates mal cheirosos – comida dietética velha de semanas – beterraba & cenoura ralada com molho aguado, morno – mais e mais dessa lamentável comida – às vezes não consigo comê-la de náusea –
a Caridade das suas mãos fedendo a Manhattan, loucura, desejo de agradar-me, peixe frio mal cozido – vermelho pálido junto ao osso. Seus cheiros – e frequentemente nua no quarto, então olho para a frente ou folheio um livro ignorando-a.
Certa vez achei que estava querendo que eu trepasse com ela –
flertando consigo mesma no lavabo – deitada na cama enorme que ocupava a maior parte do quarto, vestido levantado até os quadris, grande talho de pelos, cicatrizes de operação, pâncreas, feridas no ventre, abortos, apêndice, as marcas dos cortes destacando-se na gordura como horríveis zíperes grossos longos lábios esgarçados entre suas pernas – O que, até mesmo cheiro de cu? Fiquei frio – mais tarde um pouco enojado, não muito – pareceu uma boa ideia talvez tentar – conhecer o Monstro do Útero Inicial – talvez – dessa maneira. Iria ela se incomodar? Precisa de um amante.
Yisborach, v’istabach, v’yispoar, v’yisroman, v’yisnaseh, v’yisshador, v’yishalleh, v’yishallol, sh’meh, d’kudsho, b’rich hu213
E Louis recuperando-se no apartamento encardido do bairro negro de Newark – morando em quartos escuros – mas encontrou uma garota com a qual mais tarde se casou, apaixonando-se de novo – embora marcado e tímido – ferido por 20 anos do louco idealismo de Naomi.
Certa vez voltei para casa depois de muito tempo em NY, ele solitário
– sentados no quarto de dormir, ele na cadeira da escrivaninha virada de frente para mim – chorando, lágrimas nos olhos vermelhos sob os óculos –
Que o havíamos deixado – Gene estranhamente entrou no exército – ela vivendo fora por sua conta, quase infantil no seu quarto mobiliado. Assim, Louis caminhava até o centro para buscar a correspondência, dava aulas no colégio – sentava-se à escrivaninha da poesia, desamparado – comeu sofrimento no Bickford’s aqueles anos todos – passados.
Eugene saiu do Exército e voltou para casa, mudado e solitário – cortou fora o nariz na operação judaica – durante anos abordando garotas na Broadway oferecendo-lhes cafezinhos para transar com elas – Entrou na Universidade de Nova York, a sério, para terminar Direito –
E Gene morou com ela, comeu suas tortas vagabundas de peixe enquanto ela ficava cada vez mais louca – Emagreceu ou sentiu-se incapaz, Naomi exibindo poses de 1920 para a Lua, seminua na cama ao lado.
roía as unhas e estudava – era o filho-enfermeiro da louca – Ano seguinte mudou-se para um quarto perto de Columbia – pensara que ela queria viver com os filhos –
“Ouça a súplica da sua mãe, peço-lhe” – Louis ainda lhe mandando cheques – aquele ano eu estive no hospício por 8 meses214 – minhas próprias visões não mencionadas neste Lamento aqui –
Mas então ficou meio doida – Hitler no seu quarto, via seu bigode no
lavabo – agora com medo do Dr. Isaac, desconfiando que ele estivesse na conspiração de Newark – mandou-se para Bronx e foi viver junto ao Coração Reumático de Elanor –
E Tio Max nunca levantava antes do meio-dia, porém Naomi já ligava o rádio às 6 da manhã, procurando espiões – ou vigiando o peitoril da janela,
pois no terreno baldio embaixo rastejava um velho com seu saco, enfiando pacotes de lixo no seu capote preto.
Edie, irmã de Max, trabalha – por 17 anos guarda-livros na Gimbels215 – morava num apartamento embaixo, divorciada – assim, Edie acolheu Naomi na Avenida Rochambeau –
Cemitério de Woodlawn do outro lado da rua, amplo campo de tumbas
onde Poe certa vez – Última parada do metrô de Bronx – monte de comunistas naquela zona.
Que então se matriculou nas aulas noturnas de pintura da Escola para Adultos do Bronx – caminhava sozinha para a aula sob o Elevado Van Courtland – pintava Naomismos –
Seres humanos sentados na grama de alguma Colônia de Férias da Despreocupação dos verões de outrora – santos cabisbaixos com longas calças mal ajambradas, do hospital –
Noivas na frente do Baixo East Side com noivos baixinhos – trens perdidos do Elevado correndo sobre a cobertura da babilônia dos prédios de apartamento do Bronx –
Pinturas tristes – mas ela se expressava. Seu bandolim acabara, todas as cordas partidas na sua cabeça, ela tentava. Em direção à Beleza? ou a alguma velha Mensagem de vida?
Mas começou a chutar Elanor e Elanor tinha um problema de coração –
subia para interrogá-la sobre Espionagem durante horas – Elanor extenuada. Max fora de casa no escritório, fazendo a contabilidade de tabacarias até a noite.
“Eu sou uma grande mulher – e verdadeiramente uma bela alma – por
isso eles (Hitler, Vovó, Hearst, 216 os Capitalistas, Franco, o Daily News, os anos 20, Mussolini, os mortos-vivos) querem silenciar-me. Buba é a chefe de uma rede de espionagem – ”
Chutando as meninas, Edie & Elanor – Despertava Edie à meia-noite para dizer-lhe que ela era uma espiã e Elanor um rato. Edie trabalhava o dia todo e não aguentava – Estava organizando o Sindicato – E Elanor começou a morrer no andar de cima, na cama.
Os parentes me chamam, ela está piorando – Só sobrara eu – Fui de metrô com Eugene para vê-la, comi peixe velho –
“Minha irmã cochicha pelo rádio – Louis deve estar no seu apartamento – sua mãe lhe diz o que falar – MENTIROSOS! – Preparei comida para meus dois filhos – toquei bandolim –”
A noite passada a cotovia me despertou / A noite passada quando tudo estava quieto / cantava na dourada luz da lua / cantava na colina gelada.
Ela fez.
Empurrei-a contra a porta e gritei “NÃO CHUTE ELANOR!” – ela me
olhou – Desprezo – morrer – incrédula, seus filhos tão ingênuos, tão bobos
– “Elanor é o pior dos espiões! Ela está sendo comandada!”
“– Não há fios no quarto!” – Estou gritando com ela – última tentativa, Eugene escutando na cama – o que poderia fazer para fugir dessa Mamãe fatal – “Você separada de Louis faz anos – Vovó velha demais para andar –
”
De repente estamos todos vivos – até eu & Gene & Naomi num
mitológico quarto primordial – gritando uns com os outros no Para Sempre – Eu de jaqueta de Columbia, ela semidespida.
Eu socando aquela cabeça que via Rádios, Varas, Hitlers – a escala completa das alucinações – de verdade – seu próprio universo – nenhuma estrada levando a outro lugar – nem ao meu – nenhuma América, nem mesmo um mundo –
No qual você vá como todos os homens, como Van Gogh, como Hannah a louca, tudo a mesma coisa – até a sentença final – Trovão, Espíritos, Relâmpago!
Eu vi seu túmulo! Ó, estranha Naomi! Meu próprio – túmulo fendido!
Shema Y’Israel217 – Eu sou Svul Avrum218 – você – na morte?
Sua última noite na escuridão do Bronx – telefonei – por meio do hospital para a polícia secreta.
Que veio, quando você e eu estávamos sós, você berrando com Elanor no meu ouvido – ela que arquejava na sua cama, emagrecera –
Tampouco esquecerei, diante das batidas na porta, seu terror dos espiões, – a Lei que avança, pela minha honra – Eternidade entrando no quarto – você fugindo para o banheiro, nua, escondendo-se num protesto de derradeiro destino heroico –
olhando-me nos meus olhos, traída – os policiais finais da loucura, salvando-me – do seu pé contra o coração partido de Elanor,
sua voz para cima de Edie exausta de Gimbels chegando em casa para o rádio quebrado – e Louis precisando de um divórcio barato, ele quer casar logo – Eugene sonhando, escondendo-se na rua 125, movendo ações contra negros para fazê-los pagarem mobília de segunda mão, defendendo garotas negras –
Protestos no banheiro – Disse que estava sã – vestindo uma roupa de
algodão, seus sapatos então novos, sua bolsa e recortes de jornais – não sua honestidade –
enquanto inutilmente tornava seus lábios mais reais com baton, olhando pelo espelho para ver se a Insanidade era eu ou um carro cheio de policiais
ou Vovó espionando aos 78 – Sua visão – Ela subindo pelas paredes do cemitério com um saco de sequestrador político – ou o que você viu nos muros de Bronx, de camisola cor-de-rosa à meia-noite, olhando o terreno baldio pela janela –
Ah, Avenida Rochambeau – Playground de Fantasmas – último prédio
de apartamentos para espiões no Bronx – último lar para Elanor ou Naomi, foi aqui que essas duas irmãs comunistas perderam sua revolução –
“Está certo – ponha seu casaco, Sra. – vamos – Estamos com o carro embaixo – quer vir com ela até a delegacia?”
Então a viagem até lá – segurei a mão de Naomi e segurei sua cabeça junto do meu peito, sou mais alto – beijei-a e disse que estava fazendo aquilo pelo seu próprio bem – Elanor doente – e Max com problemas cardíacos – Necessidades –
Para mim, – “Por que fez isto?” – “Sim Sra. seu filho terá que deixá-la dentro de uma hora” – A Ambulância
demorou umas poucas horas – partiu às 4 da madrugada rumo a algum
Bellevue dentro da noite no centro da cidade – partiu para o hospital para sempre. Vi-a sendo levada – acenava, lágrimas nos olhos.
Dois anos mais tarde, de volta de uma viagem ao México219 –
desolação da paisagem plana de Brentwood, arbustos mirrados e mato ao longo dos trilhos do ramal não utilizado da ferrovia na direção do hospício
–
prédio central de tijolos novos com 20 andares – perdido nos amplos gramados da cidade de loucos de Long Island – enorme cidade da Lua.
Asilo estendendo suas asas gigantes sobre o caminho para um buraco negro minúsculo – a porta – entrada pelo escroto –
Entrei – cheiro esquisito – de novo os corredores – pelo elevador – até uma porta de vidro no Pavilhão das Mulheres – até Naomi – Duas rosadas enfermeiras de branco – Elas a trouxeram para fora, Naomi me encarou – e eu ofeguei – Ela havia sofrido um derrame –
Muito pequena, encarquilhada até os ossos – a velhice chegara para Naomi – agora alquebrada em cabelos brancos – vestido solto sobre o esqueleto – rosto encovado, velha! definhava – bochecha de anciã –
Uma mão rígida – o peso dos quarenta anos e menopausa reduzidos a
isso por um ataque cardíaco, agora capenga – rugas – uma cicatriz na cabeça, a lobotomia – ruína, a mão apontando para baixo, para a morte –
Ó rosto de russa, mulher na grama, teu comprido cabelo negro será coroado de flores, o bandolim nos teus joelhos –
Beleza Comunista, sentada aqui desposada no verso entre margaridas, felicidade prometida ao alcance da mão –
mãe santa, agora sorri para o amor, seu mundo renasceu, crianças correm nuas pelo campo recoberto de ranúnculos,
elas comem no pomar de ameixeiras no fim do prado onde encontram
uma cabana na qual um preto velho de cabelos brancos conta os segredos da sua barrica de chuva –
filha abençoada vem à América, anseio ouvir de novo tua voz, lembrando a música da tua mãe, a canção do Front Natural –
Ó musa gloriosa que me carregou no ventre, deu-me para sugar a primeira vida mística & ensinou-me a fala e a música, da tua cabeça
sofredora primeiro recebi a Visão –
Torturada e ferida no crânio – Que alucinações loucas dos malditos levaram-me para fora do meu crânio em busca da Eternidade até que eu encontrasse a paz em Ti, Ó Poesia – e em todo o chamamento da humanidade pela Origem,
Morte que és a mãe do universo! – Agora veste tua nudez para sempre, alvas flores no cabelo, teu casamento lacrado atrás do céu – revolução alguma destruirá essa virgindade –
Ó, bela Garbo do meu Carma – todas as fotografias de 1920 na Colônia de Férias Nicht-Gedeiget220 aqui intocadas – com todos os professores de Newark – Elanor não partiu, Max não espera seu espectro – nem Louis se aposentou do Colégio –
De volta! Você! Naomi! Quebranto em você! Imortalidade descarnada
e revolução chegaram – mulher mirrada e alquebrada – aos cinéreos olhares intramuros dos hospitais, cinzento dos pavilhões na pele –
“Você é um espião?” Eu sentado na mesa do amargor, olhos enchendo-
se de lágrimas – “Quem é você? Louis o mandou? Os fios –”
em seu cabelo enquanto batia na cabeça – “Não sou uma menina má –
não me mate! – eu ouço o teto – eu criei dois filhos –”
Dois anos desde que lá estive – comecei a chorar – Ela me encarou – a enfermeira interrompeu o encontro por um momento – entrei no banheiro para esconder-me atrás das brancas paredes do toalete
“O Horror” eu chorando – vê-la de novo – “O Horror” – como se ela
estivesse morta e com a podridão do funeral – “O Horror!”
Voltei, ela gritou mais ainda – levaram-na embora – “Você não é Allen
– ” observei seu rosto – mas ela passou por mim, sem olhar –
Abriu a porta do pavilhão – cruzou-a sem uma olhada para trás,
subitamente sossegada – olhei mais uma vez – ela parecia velha – à beira do túmulo – “Todo o Horror!”
Mais um ano, deixei NY – no chalé da Costa Oeste em Berkeley221
sonhei com sua alma – a qual, através da vida, de que maneira se mantivera naquele corpo, em cinzas ou maníaco, além da alegria –
próxima de sua morte – com olhos – era meu próprio amor em sua forma, Naomi, ainda minha mãe na terra – mandei-lhe uma longa carta –
& escrevi hinos aos loucos – Obra do misericordioso Senhor da Poesia que faz com que a erva arrancada permaneça verde ou que a rocha se abra em ervas – ou que o Sol seja constante para a terra – Sol de todos os girassóis e dias em claras pontes de ferro – que brilha nos velhos hospitais
– assim como em meu jardim –
Voltando certa noite de San Francisco, Orlovsky no meu quarto –
Whalen em sua calma cadeira – um telegrama de Gene, Naomi morta –
Lá fora inclinei minha cabeça até o chão sob os arbustos junto à garagem – sabia que ela estava melhor –
finalmente – não mais deixada para olhar sozinha pela Terra – 2 anos de solidão – ninguém, perto dos 60 anos – velha mulher descarnada –
outrora Naomi de longas tranças da Bíblia –
Ou Ruth que chorou na América – Rebeca envelhecida em Newark –
Davi recordando-se de sua harpa, agora advogado em Yale
ou Svul Avrum – Israel Abraham – eu mesmo – para cantar na selva em louvor a Deus – Ó Elohim! – e assim até o fim – 2 dias depois da morte recebi sua carta –
Estranhas profecias, de novo! Ela escreveu – “A chave está na janela, a chave está na luz do sol na janela – Eu tenho a chave – Case-se Allen não tome drogas – a chave está entre as barras, na luz do sol na janela.
Com amor,
sua mãe”
a qual é Naomi –
HINO
No mundo que Ele criou de acordo com sua vontade Bendito Louvado
Glorificado Celebrado Exaltado o Nome do Santificado Bendito é Ele!
Na casa de Newark Bendito é Ele! Na casa dos loucos Bendito é Ele! Na casa da Morte Bendito é Ele!
Bendito seja Ele na homossexualidade! Bendito seja Ele na Paranoia!
Bendito seja Ele na cidade! Bendito seja Ele no Livro!
Bendito seja Ele que mora na sombra! Bendito seja Ele! Bendito seja Ele!
Bendita seja você Naomi em lágrimas! Bendita seja você Naomi nos medos!
Bendita Bendita Bendita na doença!
Bendita seja você Naomi nos Hospitais! Bendita seja você Naomi na solidão! Bendito seja seu triunfo! Benditas sejam tuas grades! Bendita seja a solidão dos teus últimos anos!
Bendito seja teu fracasso! Bendito seja teu ataque! Bendito seja o fechar dos teus olhos! Bendito seja o encovado da tua face! Benditas sejam tuas coxas murchas!
Bendita sejas tu Naomi na Morte! Bendita seja a Morte! Bendita seja a Morte!
Bendito seja Ele Quem leva todo sofrimento para o céu! Bendito seja Ele no final!
Bendito seja Ele que constrói o Céu na escuridão! Bendito Bendito Bendito seja Ele! Bendito seja Ele! Bendita seja a Morte de Todos nós!
III
Só por não esquecer o começo quando ela bebeu refrigerantes baratos nos necrotérios de Newark,
só por tê-la visto chorar nas mesas cinzentas dos longos pavilhões do seu universo
só por ter conhecido suas ideias malucas de Hitler na porta, os fios na sua cabeça, as três grandes varas
marretadas nas suas costas, as vozes do forro berrando por causa das suas feias trepadas cedo por 30 anos,
só por ter visto os saltos no tempo, a memória apagar-se, o troar das guerras, o rugido e o silêncio de um imenso choque elétrico,
só por tê-la visto pintar grosseiros quadros de trens correndo por cima dos telhados do Bronx
seus irmãos mortos em Riverside ou Rússia, sua solidão em Long Island escrevendo uma carta perdida – e sua imagem na luz do sol na janela
“A chave está na luz do sol na janela nas grades a chave está na luz do sol”,
só por ter chegado até aquela noite escura do ataque numa cama de ferro enquanto o sol se punha em Long Island
e lá fora o vasto Atlântico rugia o grande clamor do Ser para si
mesmo para retornar ao Pesadelo – criação dividida – com sua cabeça pousada num travesseiro de hospital para morrer
– num último relance – toda a Terra uma Luz perene na familiar escuridão
– nada de lágrimas por causa dessa visão –
Mas a chave devia ser deixada para trás – na janela – a chave na luz do sol
– para os vivos – que podem receber
essa fatia de luz nas mãos – e abrir a porta – e olhar para trás enxergando a
Criação que resplandece de volta ao mesmo túmulo, do tamanho do universo,
do tamanho do tique-taque do relógio do hospital no arco sobre a porta branca –
IV
Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de
Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey222 morrendo numa ambulância com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs223
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de
Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo
corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa
ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores
V
Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol224
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có
Senhor NY, 1959
1 804
Allen Ginsberg
No túmulo de Apollinaire
. .. void le temps
Oú I’on connaitre I’avehir
Sans mourir de connaissance
I
Visitei Père Lachaise para procurar os restos mortais de Apolli
naire no dia em que o Presidente dos Estados Unidos apareceu
na França para a grande conferência dos chefes de estado
é isso aí o aeroporto azul de Orly claridade de primavera no ar de Paris
Eisenhower chegando do seu sepulcro americano
e sobre os túmulos com sapos de Père Lachaise uma ilusória
neblina espessa como fumaça de marijuana
Peter Orlovsky e eu caminhamos suavemente por Père Lachaise
ambos sabíamos que iríamos morrer
e assim nos demos nossas temporárias mãos ternamente numa
eternidade em miniatura como uma cidade
estradas e sinais pedras e colinas e nomes nas casas de todos
procurando o endereço perdido de um notável Francês do Vazio
para cometer nosso terno crime de homenagear seu abandonado menhire deixar meu temporário Uivo Americano no topo do seu silencioso Calligramme
para que ele o lesse nas entrelinhas com olhos de Raio X de poeta
assim como miraculosamente lera sua própria lírica da morte no Sena
espero que algum garotío pirado deixe seu panfleto no meu túmulo para que assim Deus o leia para mim nas frias
noites de inverno do céu
nossas mãos já sumiram daquele lugar minha mão agora escreve
no quarto de Git-Le-Coeur Paris
Você não pode dirigir automóveis num túmulo de um metro e
oitenta no entanto o universo é um mausoléu suficiente
mente grande para qualquer coisa
o universo é um sepulcro e eu dou voltas sozinho por aqui
sabendo que Apollinaire andou pela mesma rua há 50 anos
sua loucura acaba de dobrar a esquina e Genet está conosco roubando livros
o Oddente está de novo em guerra e de que será o lúcido suicídio que deixará tudo em ordem outra vez
Guillaume Guillaume como invejo sua fama sua contribuição para as letras americanas
seu Zone com suas longas linhas loucas de besteiras sobre a morte
sai para fora do seu túmulo e fala pela porta da minha mente
solta novas séries de imagens hai-kus oceânicos táxis azuis em
Moscou negras estátuas de Buda
reza por mim na gravação fonográfica da sua existência anterior
com uma voz pausada e triste e com versos de uma profunda
música suave triste e estridente como a 1? Guerra Mundial
comi as cenouras azuis que você me mandou do túmulo e a orelha de Van Gogh e o peiote desvairado de Artaud
e caminharei pela ruas de Nova York envolto no manto negro da Poesia Francesa
fazendo improvisos sobre nossa conversa no Père Lachaise em Paris
e o poema do futuro que recebe sua inspiração da luz que escorre para dentro do seu túmulo
II
Aqui em Paris sou teu hóspede Oh sombra amistosa a mão ausente de Max Jacob
Picasso jovem me passa uma bisnaga de Mediterrâneo
eu presente no antigo banquete vermelho de Rousseau eu comi seu violino
grande festa no Bateau Lavoir não mencionada nos livros de texto sobre a Argélia
Huidobro esquecido no ósseo oceano Ungaretti recordando o branco pêlo púbico
Tzara no Bois de Boulogne explicando a alquimia das metralhadoras de cucos
ele chora ao traduzir-me para o sueco
bem vestido de gravata violeta e calças pretas
uma doce barba ruiva que emerge do seu rosto como o musgoque pende pelas paredes do Anarquismo
ele me contou infindavelmente suas brigas com André Breton
a quem um dia ajudara a aparar o bigode dourado
o velho Blaise Cendrars recebeu-me em seu estúdio e falou-me cansado da imensidão da Sibéria
Jacques Vaché convidou-me para examinar sua terrível coleção de pistolas
o pobre Cocteau amargurado por causa do outrora maravilhoso Radiguet diante do seu último pensamento eu desmaiei
Rigaut104 com uma carta de apresentação para a Morte
e Gide que elogiou o telefone e outras notáveis invenções
em princípio concordamos apesar da sua conversa de roupa de baixo de lavanda
mas mesmo assim ele bebeu para valer da erva de Whitman e mostrou-se intrigado por todos os amantes chamados Colorado
príncipes da América chegando com braçadas de Shrapnel e baseball
Ah Guillaume o mundo era tão fácil de combater parecia tio fácil
você sabia que os grandes classicistas políticos iriam invadir Montparnasse
com nenhuma coroa de louro profético para reverdecer suas testas
nenhum ramo verde nos seus travesseiros nenhuma folha dassuas guerras —Maiakovski chegou e revoltou-se
III
Voltei sentei-me num túmulo e fiquei encarando teu tosco menhir
um pedaço de granito delgado como um falo inacabado
uma cruz apagada na pedra 2 poemas na lápide um Coeur Renversé
outro Habituez-vous comme moi A ces prodiges que j’annonce
Guillaume Apollinaire de Kostrowitsky
alguém deixou um pote de geléia com margaridas e uma rosa
surrealista de louça de datilografa a 5 ou 10 centavos
alegre túmulo pequeno com flores e coração virado
debaixo de uma delicada árvore musgosa sob a qual me sentei tronco tortuoso
ramagens de verão e cobertura de folhagens sobre o menhir e ninguém lá
Et quelle voix sinistre ulule Guillaume qu’es-tu devenu
seu vizinho ao lado é uma árvore
lá embaixo os ossos cruzados amontoados e talvez o crânio amarelo
e os poemas impressos Ãlcools no meu bolso sua voz no museu
Agora passadas de meia-idade percorrem o cascalho
um homem encara o nome e segue na direção do crematório
o mesmo céu rola entre as nuvens assim como nos dias mediterrâneos da Riviera durante a guerra
enamorado Apoio bebendo comendo ocasionalmente ópio recebendo a luz
Devem ter sentido o choque em St. Germain quando ele partiu Jacob & Picasso tossindo no escuro
uma atadura desenrolada e o crânio largado quieto na cama dedos grossos esticados o mistério e o ego idos
um sino dobra no campanário rua abaixo pássaros gorgeiam nas castanheiras
a Família Bremond dorme ao lado Cristo dependurado peitudo e sexy no túmulo deles
o cigarro queima no meu colo e enche a página de fumaça e chamas
uma formiga percorre minha manga de veludo cotelê a árvore
na qual estou recostado cresce vagarosamente
arbustos e ramagens erguem-se entre os túmulos uma sedosa
teia de aranha reluz no granito
eu estou enterrado aqui e sentado sobre meu sepulcro à sombra de uma árvore
Oú I’on connaitre I’avehir
Sans mourir de connaissance
I
Visitei Père Lachaise para procurar os restos mortais de Apolli
naire no dia em que o Presidente dos Estados Unidos apareceu
na França para a grande conferência dos chefes de estado
é isso aí o aeroporto azul de Orly claridade de primavera no ar de Paris
Eisenhower chegando do seu sepulcro americano
e sobre os túmulos com sapos de Père Lachaise uma ilusória
neblina espessa como fumaça de marijuana
Peter Orlovsky e eu caminhamos suavemente por Père Lachaise
ambos sabíamos que iríamos morrer
e assim nos demos nossas temporárias mãos ternamente numa
eternidade em miniatura como uma cidade
estradas e sinais pedras e colinas e nomes nas casas de todos
procurando o endereço perdido de um notável Francês do Vazio
para cometer nosso terno crime de homenagear seu abandonado menhire deixar meu temporário Uivo Americano no topo do seu silencioso Calligramme
para que ele o lesse nas entrelinhas com olhos de Raio X de poeta
assim como miraculosamente lera sua própria lírica da morte no Sena
espero que algum garotío pirado deixe seu panfleto no meu túmulo para que assim Deus o leia para mim nas frias
noites de inverno do céu
nossas mãos já sumiram daquele lugar minha mão agora escreve
no quarto de Git-Le-Coeur Paris
Você não pode dirigir automóveis num túmulo de um metro e
oitenta no entanto o universo é um mausoléu suficiente
mente grande para qualquer coisa
o universo é um sepulcro e eu dou voltas sozinho por aqui
sabendo que Apollinaire andou pela mesma rua há 50 anos
sua loucura acaba de dobrar a esquina e Genet está conosco roubando livros
o Oddente está de novo em guerra e de que será o lúcido suicídio que deixará tudo em ordem outra vez
Guillaume Guillaume como invejo sua fama sua contribuição para as letras americanas
seu Zone com suas longas linhas loucas de besteiras sobre a morte
sai para fora do seu túmulo e fala pela porta da minha mente
solta novas séries de imagens hai-kus oceânicos táxis azuis em
Moscou negras estátuas de Buda
reza por mim na gravação fonográfica da sua existência anterior
com uma voz pausada e triste e com versos de uma profunda
música suave triste e estridente como a 1? Guerra Mundial
comi as cenouras azuis que você me mandou do túmulo e a orelha de Van Gogh e o peiote desvairado de Artaud
e caminharei pela ruas de Nova York envolto no manto negro da Poesia Francesa
fazendo improvisos sobre nossa conversa no Père Lachaise em Paris
e o poema do futuro que recebe sua inspiração da luz que escorre para dentro do seu túmulo
II
Aqui em Paris sou teu hóspede Oh sombra amistosa a mão ausente de Max Jacob
Picasso jovem me passa uma bisnaga de Mediterrâneo
eu presente no antigo banquete vermelho de Rousseau eu comi seu violino
grande festa no Bateau Lavoir não mencionada nos livros de texto sobre a Argélia
Huidobro esquecido no ósseo oceano Ungaretti recordando o branco pêlo púbico
Tzara no Bois de Boulogne explicando a alquimia das metralhadoras de cucos
ele chora ao traduzir-me para o sueco
bem vestido de gravata violeta e calças pretas
uma doce barba ruiva que emerge do seu rosto como o musgoque pende pelas paredes do Anarquismo
ele me contou infindavelmente suas brigas com André Breton
a quem um dia ajudara a aparar o bigode dourado
o velho Blaise Cendrars recebeu-me em seu estúdio e falou-me cansado da imensidão da Sibéria
Jacques Vaché convidou-me para examinar sua terrível coleção de pistolas
o pobre Cocteau amargurado por causa do outrora maravilhoso Radiguet diante do seu último pensamento eu desmaiei
Rigaut104 com uma carta de apresentação para a Morte
e Gide que elogiou o telefone e outras notáveis invenções
em princípio concordamos apesar da sua conversa de roupa de baixo de lavanda
mas mesmo assim ele bebeu para valer da erva de Whitman e mostrou-se intrigado por todos os amantes chamados Colorado
príncipes da América chegando com braçadas de Shrapnel e baseball
Ah Guillaume o mundo era tão fácil de combater parecia tio fácil
você sabia que os grandes classicistas políticos iriam invadir Montparnasse
com nenhuma coroa de louro profético para reverdecer suas testas
nenhum ramo verde nos seus travesseiros nenhuma folha dassuas guerras —Maiakovski chegou e revoltou-se
III
Voltei sentei-me num túmulo e fiquei encarando teu tosco menhir
um pedaço de granito delgado como um falo inacabado
uma cruz apagada na pedra 2 poemas na lápide um Coeur Renversé
outro Habituez-vous comme moi A ces prodiges que j’annonce
Guillaume Apollinaire de Kostrowitsky
alguém deixou um pote de geléia com margaridas e uma rosa
surrealista de louça de datilografa a 5 ou 10 centavos
alegre túmulo pequeno com flores e coração virado
debaixo de uma delicada árvore musgosa sob a qual me sentei tronco tortuoso
ramagens de verão e cobertura de folhagens sobre o menhir e ninguém lá
Et quelle voix sinistre ulule Guillaume qu’es-tu devenu
seu vizinho ao lado é uma árvore
lá embaixo os ossos cruzados amontoados e talvez o crânio amarelo
e os poemas impressos Ãlcools no meu bolso sua voz no museu
Agora passadas de meia-idade percorrem o cascalho
um homem encara o nome e segue na direção do crematório
o mesmo céu rola entre as nuvens assim como nos dias mediterrâneos da Riviera durante a guerra
enamorado Apoio bebendo comendo ocasionalmente ópio recebendo a luz
Devem ter sentido o choque em St. Germain quando ele partiu Jacob & Picasso tossindo no escuro
uma atadura desenrolada e o crânio largado quieto na cama dedos grossos esticados o mistério e o ego idos
um sino dobra no campanário rua abaixo pássaros gorgeiam nas castanheiras
a Família Bremond dorme ao lado Cristo dependurado peitudo e sexy no túmulo deles
o cigarro queima no meu colo e enche a página de fumaça e chamas
uma formiga percorre minha manga de veludo cotelê a árvore
na qual estou recostado cresce vagarosamente
arbustos e ramagens erguem-se entre os túmulos uma sedosa
teia de aranha reluz no granito
eu estou enterrado aqui e sentado sobre meu sepulcro à sombra de uma árvore
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