Poemas neste tema
Alma
Pablo Neruda
V - Os Bosques
Para os bosques frios e os lagos
do Norte verde,
as águas masurianas,
entrando em toda parte,
tanques amplos invadidos
pelo pálido céu,
lagoas como agulhas,
todas as formas plácidas da água
ali ficaram como se uma estrela
se houvesse destroçado
ou lua verde em gotas
caindo da altura.
Formoso é o ar, e o vento
penteia as eriçadas cabeleiras
dos pinhais acerados.
Formoso é o ar, fresco
e azul sob os pinheiros.
De repente o vento traja
seu trêmulo vestido
de oxigênio e agulhas.
Solene é o vento na selva.
Faz pequenos ruídos
como cartas que tombam,
ou ressoa com um pranto de garrafa
ou brita pedras, busca
fragmentos de madeira
que arrasta com mãos de pai
ou sopra e sobe
de uma árvore a outra
espantando os pássaros.
Formoso é o vento do Norte,
irmão da neve,
na profundidade dos pinhais.
E marcho sem chapéu.
Em minha cabeça o ar
me coroa de frio,
novos lábios me mordem.
Entro cantando
no frescor verde
como num alto oceano.
Canto
e piso a erva
recém-condecorada
com pequenas estrelas amarelas.
Formoso Norte de largos ombros,
de lagos e pinhais,
te saúdo:
deixa-me respirar-te,
andar entre os pinheiros e as águas
cantando e silvando
e descansar em tua molhada alfombra
como uma árvore caída
sob teu sonho verde.
do Norte verde,
as águas masurianas,
entrando em toda parte,
tanques amplos invadidos
pelo pálido céu,
lagoas como agulhas,
todas as formas plácidas da água
ali ficaram como se uma estrela
se houvesse destroçado
ou lua verde em gotas
caindo da altura.
Formoso é o ar, e o vento
penteia as eriçadas cabeleiras
dos pinhais acerados.
Formoso é o ar, fresco
e azul sob os pinheiros.
De repente o vento traja
seu trêmulo vestido
de oxigênio e agulhas.
Solene é o vento na selva.
Faz pequenos ruídos
como cartas que tombam,
ou ressoa com um pranto de garrafa
ou brita pedras, busca
fragmentos de madeira
que arrasta com mãos de pai
ou sopra e sobe
de uma árvore a outra
espantando os pássaros.
Formoso é o vento do Norte,
irmão da neve,
na profundidade dos pinhais.
E marcho sem chapéu.
Em minha cabeça o ar
me coroa de frio,
novos lábios me mordem.
Entro cantando
no frescor verde
como num alto oceano.
Canto
e piso a erva
recém-condecorada
com pequenas estrelas amarelas.
Formoso Norte de largos ombros,
de lagos e pinhais,
te saúdo:
deixa-me respirar-te,
andar entre os pinheiros e as águas
cantando e silvando
e descansar em tua molhada alfombra
como uma árvore caída
sob teu sonho verde.
1 166
Pablo Neruda
Volta Espanha
Espanha, Espanha coração violeta,
me faltaste ao peito, tu me faltas
não como falta o sol na cintura
mas como o sal na garganta,
como o pão nos dentes, como o ódio
na colmeia negra, como o dia
em cima dos sobressaltos da aurora,
mas não é isso ainda, como o tecido
do elemento visceral, profunda
pálpebra que não fita e que não cede,
terreno mineral, rosa de osso
aberta em minha razão como um castelo.
A quem posso chamar senão à tua boca?
Tenho outros lábios que me representem?
Estás abandonada ou estou mudo?
Que significa tua calada esfera?
Aonde vou sem tua voz, areia mãe?
Que sou sem teu fanal crucificado?
Onde estou sem a água de tua rocha?
Que és tu se não me deste sangue?
Oh tormento! Recobra-me, recebe-me
antes que meu nome e minhas espigas
desapareçam na primavera.
Porque a tuas solidões iradas
vai meu destino acorrentado, ao peso
de tua vitória. A ti vou conduzido.
Espanha, és mais grave que uma data,
que uma adivinhação, que uma tormenta,
e não importa a torre desapiedada
de tua perdida voz, mas a dura
resistência, a pedra que sustenta.
Mas por que, se sou areia tua,
água em tuas águas, sangue em tuas feridas,
hoje me recusas a boca que me chama,
tua voz, a construção dê minha existência?
Peço ao que em teu ser é minha substância,
a teu dilaceramento de facas,
que se abram hoje, sobre a desventura,
as iluminações de teu rosto,
e te levantes, perfurando o céu,
rompendo as trevas e os sinais,
até surgir, farinha e alvorada,
lua acesa sobre os ossários.
Matarás. Mata, Espanha, santa virgem,
levanta-te empunhando a ternura
como uma cega rosa desatada
sobre as pedrarias infernais.
Vem a mim, devolve-me a torre
que me roubaram,
devolve-me a língua
e o povo que me esperam, espanta-me
com a unidade final de tua formosura.
Levanta-te em teu sangue e em teu fogo
o sangue que deste, o primeiro,
e o fogo, ninho de tua luz sagrada.
1 325
Pablo Neruda
Vi - Estás Em Toda Parte
Estirpe de Fucik, linhagem
de alegres silenciosos,
por toda a terra estendeis
o ferro humano inextinguível.
Coréia, terra amada, provaste
aos bestiais invasores
de Filadélfia que a raça
de Fucik, sobre a cinza,
sobre o incêndio e o martírio,
continua acesa e vence a morte.
Longe, no Paraguai obscuro
e venenosamente verde,
os pequenos encarcerados,
os perseguidos na selva,
ao cair sobre as folhas
ensanguentadas, junto ao rio,
fecham para sempre a mesma
boca sobre-humana de Fucik.
No Irã o petróleo
volta às mãos do povo
escrevendo com letras rubras
teu nome, Júlio de Praga.
E a moça do Vietnam
que com doces mãos de flor
maneja a metralhadora,
em sua bolsa arranhada
pelos espinhos da selva,
leva teu livro em caracteres
que não poderias ler:
o livro que nos últimos dias
os justiçados de Atenas
levam escrito nos nobres rostos
para que os assassinos
descubram de novo tuas palavras
sobre o sangue poeirento.
de alegres silenciosos,
por toda a terra estendeis
o ferro humano inextinguível.
Coréia, terra amada, provaste
aos bestiais invasores
de Filadélfia que a raça
de Fucik, sobre a cinza,
sobre o incêndio e o martírio,
continua acesa e vence a morte.
Longe, no Paraguai obscuro
e venenosamente verde,
os pequenos encarcerados,
os perseguidos na selva,
ao cair sobre as folhas
ensanguentadas, junto ao rio,
fecham para sempre a mesma
boca sobre-humana de Fucik.
No Irã o petróleo
volta às mãos do povo
escrevendo com letras rubras
teu nome, Júlio de Praga.
E a moça do Vietnam
que com doces mãos de flor
maneja a metralhadora,
em sua bolsa arranhada
pelos espinhos da selva,
leva teu livro em caracteres
que não poderias ler:
o livro que nos últimos dias
os justiçados de Atenas
levam escrito nos nobres rostos
para que os assassinos
descubram de novo tuas palavras
sobre o sangue poeirento.
1 157
Pablo Neruda
Viii - Radiante Julius
Radiante Julius — do favo das vidas
célula férrea e doce, feita de mel e fogo! —
dá-nos hoje como o pão diário
tua essência, tua presença,
tua simples retidão de raio puro.
Vem a nós hoje, amanhã, sempre,
porque, singelo herói,
és a arquitetura
do homem de amanhã.
Quando te feriu a morte, a luz
brilhou sobre o planeta
com a cor de abelha de teus olhos,
e o germe do mel e da luta,
da doçura e da dureza,
ficaram implantados
na vida do homem.
Tua decisão destruiu o medo,
e tua ternura, a escuridão.
Entraste, homem nu,
na boca de nosso inferno
e com o corpo lacerado,
intacto, sem quebrar foi teu gesto
e a verdade ativa
que apesar da morte preservaste.
célula férrea e doce, feita de mel e fogo! —
dá-nos hoje como o pão diário
tua essência, tua presença,
tua simples retidão de raio puro.
Vem a nós hoje, amanhã, sempre,
porque, singelo herói,
és a arquitetura
do homem de amanhã.
Quando te feriu a morte, a luz
brilhou sobre o planeta
com a cor de abelha de teus olhos,
e o germe do mel e da luta,
da doçura e da dureza,
ficaram implantados
na vida do homem.
Tua decisão destruiu o medo,
e tua ternura, a escuridão.
Entraste, homem nu,
na boca de nosso inferno
e com o corpo lacerado,
intacto, sem quebrar foi teu gesto
e a verdade ativa
que apesar da morte preservaste.
1 151
Pablo Neruda
XIV - Os homens
Longe, longe, longe continuamos,
nos afastamos das duras máscaras
erigidas em pleno silêncio e iremos
envoltos em seu orgulho, em sua distância.
E para que viemos até a ilha?
Não será o sorriso dos homens floridos,
nem as crepitantes cadeiras de Ataroa, a bela,
nem os rapazes a cavalo, de olhos impertinentes,
o que levaremos conosco regressando
mas sim um vazio oceânico, uma pobre pergunta
com mil contestações de lábios desdenhosos.
nos afastamos das duras máscaras
erigidas em pleno silêncio e iremos
envoltos em seu orgulho, em sua distância.
E para que viemos até a ilha?
Não será o sorriso dos homens floridos,
nem as crepitantes cadeiras de Ataroa, a bela,
nem os rapazes a cavalo, de olhos impertinentes,
o que levaremos conosco regressando
mas sim um vazio oceânico, uma pobre pergunta
com mil contestações de lábios desdenhosos.
1 216
Pablo Neruda
Manhã - IV
Recordarás aquela quebrada caprichosa
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância, barro de ouro,
ervas do mato, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância, barro de ouro,
ervas do mato, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.
1 273
Pablo Neruda
Então Te Ocultavas
Ali onde estavas, anjo da Guarda?
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
1 144
Pablo Neruda
Iii - Contemplada a Grécia
Oh lágrimas, não é tempo
de acudir a meus olhos,
não é hora
de acudir aos olhos dos homens,
pálpebras, levantai-vos
do fundo da escuridão do sonho, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, o ano, o dia,
vertendo o sangue de seu povo,
batendo as faces
em seu terrível capitel de espinhos.
Olhai, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, o açoite
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vê como se levanta a cabeça
de seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento cresce suas bandeiras,
a ação confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.
Oh Grécia clara,
se em ti rodou a escuridão seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti mesma
está a claridade, que recolhes
a noite inteira em teu regaço
até que de tuas mãos
se levanta a aurora,
vôo branco molhado de orvalho.
Em sua luz te veremos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos de novo tua brancura
de estátua, entre os montes
de acudir a meus olhos,
não é hora
de acudir aos olhos dos homens,
pálpebras, levantai-vos
do fundo da escuridão do sonho, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, o ano, o dia,
vertendo o sangue de seu povo,
batendo as faces
em seu terrível capitel de espinhos.
Olhai, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, o açoite
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vê como se levanta a cabeça
de seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento cresce suas bandeiras,
a ação confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.
Oh Grécia clara,
se em ti rodou a escuridão seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti mesma
está a claridade, que recolhes
a noite inteira em teu regaço
até que de tuas mãos
se levanta a aurora,
vôo branco molhado de orvalho.
Em sua luz te veremos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos de novo tua brancura
de estátua, entre os montes
1 185
Pablo Neruda
Veio a Morte de Paul
Nestes dias recebi a morte
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
1 052
Pablo Neruda
O Anjo Solitário
Ia defendendo-se então
do ar indomável, do rio,
das pedras em furacão
e da aspereza espinhosa.
Ia defendendo-me o anjo,
da matilha que me odiava,
dos que ululando aguardavam
meu sangue nas ruas do crime.
do ar indomável, do rio,
das pedras em furacão
e da aspereza espinhosa.
Ia defendendo-me o anjo,
da matilha que me odiava,
dos que ululando aguardavam
meu sangue nas ruas do crime.
1 009
Pablo Neruda
O Anjo Dos Rios
Saberás talvez que entre os rios férreos
da América passei. O alargamento
do Paraná me recebeu tremendo.
Era sua lentidão como a lua
que se desborda sobre as campinas
e era povoado de secretos lábios
que iam beijando seu gesto selvagem.
Rios territoriais, filhos rubros
das trevas úmidas da América,
eu vim a vossas águas, ao sangue
que noite e dia a combater areias
transporta vosso nome numeroso,
eu fui um ramo equatorial, uma réstia
de terra tua, de fluvial folhagem.
As longas águas me contaram toda
sua cantata de sangue paraguaio
e de Assunção as torres do martírio:
como muda de tigre a espessura,
como o petróleo mancha o estandarte
e como azeite e lodo se derramam
sobre os pobres mortos da pátria.
E o rio me contou o que os mortos
dizem falando do fundo das raízes,
pedindo ajuda ainda lá na morte,
sustendo bandeiras enterradas
enquanto os estrangeiros do petróleo
bebem com o carrasco no palácio.
Ali entre rios te encontrei, as águas
ainda iam dentro de meu próprio sangue
enumerando páginas do bosque,
e ali, anjo novo, estavas no fundo
da América
e sem reconhecer-te, “Camarada
anjo, és tu?” te disse,
e longas terras, trigos, ameaças,
ondas e pinheiros percorremos juntos
até que eu também sobre os mares
fechei os olhos e voei adormecido.
da América passei. O alargamento
do Paraná me recebeu tremendo.
Era sua lentidão como a lua
que se desborda sobre as campinas
e era povoado de secretos lábios
que iam beijando seu gesto selvagem.
Rios territoriais, filhos rubros
das trevas úmidas da América,
eu vim a vossas águas, ao sangue
que noite e dia a combater areias
transporta vosso nome numeroso,
eu fui um ramo equatorial, uma réstia
de terra tua, de fluvial folhagem.
As longas águas me contaram toda
sua cantata de sangue paraguaio
e de Assunção as torres do martírio:
como muda de tigre a espessura,
como o petróleo mancha o estandarte
e como azeite e lodo se derramam
sobre os pobres mortos da pátria.
E o rio me contou o que os mortos
dizem falando do fundo das raízes,
pedindo ajuda ainda lá na morte,
sustendo bandeiras enterradas
enquanto os estrangeiros do petróleo
bebem com o carrasco no palácio.
Ali entre rios te encontrei, as águas
ainda iam dentro de meu próprio sangue
enumerando páginas do bosque,
e ali, anjo novo, estavas no fundo
da América
e sem reconhecer-te, “Camarada
anjo, és tu?” te disse,
e longas terras, trigos, ameaças,
ondas e pinheiros percorremos juntos
até que eu também sobre os mares
fechei os olhos e voei adormecido.
1 161
Pablo Neruda
I - Em Berlim a Manhã
Despertei. Era Berlim. Pela janela
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
1 100
Pablo Neruda
Anjo Vyka
Anjo hirsuto da Polônia, Vyka,
tenho que fazer-te estas perguntas:
atravessando toda a vida
de teu país, o resplendor ardente
do ferro dominando em Katowicz,
os trigais que estendem sua ondulada alegria
sobre toda a tua terra, as procissões
de medieval catolicismo, a fumaça
do território do carvão, o ar
de Cracóvia, ar de livro seco,
o Báltico outra vez empurrando suas brancas
asas e ondas entre novas gruas,
o tijolo amassado com o pó
da infinita destruição subindo
outra vez no céu de Varsóvia,
e o metálico aroma dos pinheiros em cima
dos lagos masures, testemunhas transparentes
da carnificina,
e de aldeia em aldeia
sobre a destroçada arquitetura
o homem recobrou a beleza
de tua terra, enchendo com sementes
de sua ressurreição todo o silêncio.
Esta fecundidade inesperada
até ontem, este leite transmitido
de boca em boca como um sinal novo,
e essa terra que canta e se reparte
sem evadir-se como a água, mas
outorgando metais e celeiros,
dize-me, anjo Vyka, tu que acompanhaste
com descuidoso coração meus passos,
que tens, que temos que ocultar,
por que intentam negar estas regiões,
estas colheitas, este mel singelo,
por que intentam apagar esta grandeza
e afastar esta vitória humana?
Foste diariamente o silencioso
anjo amigo de estirpe obscura,
apenas para que o bosque resguardasse
as mínimas porções de seus morangos
para teu companheiro de outros mares,
ou o redondo caracol penetrasse
na minha ternura de naturalista,
e assim entre areias e pinhais ou entre
marítimos de Gdansk ou entre motores
toda tua pátria aberta me mostraste
iluminada como um sorriso.
tenho que fazer-te estas perguntas:
atravessando toda a vida
de teu país, o resplendor ardente
do ferro dominando em Katowicz,
os trigais que estendem sua ondulada alegria
sobre toda a tua terra, as procissões
de medieval catolicismo, a fumaça
do território do carvão, o ar
de Cracóvia, ar de livro seco,
o Báltico outra vez empurrando suas brancas
asas e ondas entre novas gruas,
o tijolo amassado com o pó
da infinita destruição subindo
outra vez no céu de Varsóvia,
e o metálico aroma dos pinheiros em cima
dos lagos masures, testemunhas transparentes
da carnificina,
e de aldeia em aldeia
sobre a destroçada arquitetura
o homem recobrou a beleza
de tua terra, enchendo com sementes
de sua ressurreição todo o silêncio.
Esta fecundidade inesperada
até ontem, este leite transmitido
de boca em boca como um sinal novo,
e essa terra que canta e se reparte
sem evadir-se como a água, mas
outorgando metais e celeiros,
dize-me, anjo Vyka, tu que acompanhaste
com descuidoso coração meus passos,
que tens, que temos que ocultar,
por que intentam negar estas regiões,
estas colheitas, este mel singelo,
por que intentam apagar esta grandeza
e afastar esta vitória humana?
Foste diariamente o silencioso
anjo amigo de estirpe obscura,
apenas para que o bosque resguardasse
as mínimas porções de seus morangos
para teu companheiro de outros mares,
ou o redondo caracol penetrasse
na minha ternura de naturalista,
e assim entre areias e pinhais ou entre
marítimos de Gdansk ou entre motores
toda tua pátria aberta me mostraste
iluminada como um sorriso.
1 153
Pablo Neruda
Eu Saí de Minha Pátria
Cruzei as cordilheiras a cavalo.
Um tiranete, um bailarino vendia
minha pátria com metais e mineiros,
e enchia de paredes e prisões
o recinto ocupado pela aurora.
Saltei pelas gargantas arranhadas
da natureza galopando
sob um silêncio de arvoredo escuro.
De repente os gélidos pombais
da geleira despenhavam força,
plumas glaciais, puro poderio:
de repente terra e árvores se tornaram
áspera adversidade e cicatrizes,
talha-mares de súbita madeira,
impenetrável densidade tecida
como uma catedral, entre as folhas,
ou titânico sal resvaladiço,
ou desdentado cinturão de pedra.
Ainda mais, desci de repente
a terra vertical, e os ginetes
cindiam com suas tochas o caminho,
onde esperava o deus vertiginoso
de um novo rio desbordando espadas,
despenhando sua música secreta
sobre a hostilidade da espessura.
Um tiranete, um bailarino vendia
minha pátria com metais e mineiros,
e enchia de paredes e prisões
o recinto ocupado pela aurora.
Saltei pelas gargantas arranhadas
da natureza galopando
sob um silêncio de arvoredo escuro.
De repente os gélidos pombais
da geleira despenhavam força,
plumas glaciais, puro poderio:
de repente terra e árvores se tornaram
áspera adversidade e cicatrizes,
talha-mares de súbita madeira,
impenetrável densidade tecida
como uma catedral, entre as folhas,
ou titânico sal resvaladiço,
ou desdentado cinturão de pedra.
Ainda mais, desci de repente
a terra vertical, e os ginetes
cindiam com suas tochas o caminho,
onde esperava o deus vertiginoso
de um novo rio desbordando espadas,
despenhando sua música secreta
sobre a hostilidade da espessura.
1 123
Pablo Neruda
Manhã - V
Não te toque a noite nem o ar nem a aurora,
só a terra, a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas de teu país fragrante.
Desde Quinchamalí onde fizeram teus olhos
aos teus pés criados para mim na Fronteira
és a greda escura que conheço:
em teus quadris toco de novo todo o trigo.
Talvez tu não saibas, araucana,
que quando antes de amar-te me esqueci de teus beijos
meu coração ficou recordando tua boca
e fui como um ferido pelas ruas
até que compreendi que havia encontrado
amor, meu território de beijos e vulcões.
só a terra, a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas de teu país fragrante.
Desde Quinchamalí onde fizeram teus olhos
aos teus pés criados para mim na Fronteira
és a greda escura que conheço:
em teus quadris toco de novo todo o trigo.
Talvez tu não saibas, araucana,
que quando antes de amar-te me esqueci de teus beijos
meu coração ficou recordando tua boca
e fui como um ferido pelas ruas
até que compreendi que havia encontrado
amor, meu território de beijos e vulcões.
1 227
Pablo Neruda
Anjo, Oh Camarada
Guerreiro solitário, anjo de todas
as latitudes, apareces
talvez nas sombrias cavidades
da mina, quando a repressão e a fadiga
vão dobrar teus braços, e levantas
tuas asas minerais como escudo.
Estão naquela sombra entre os povoados,
quando teu voo organizado cruza
as difíceis terras do espinho,
os aramados negros da morte.
Camarada, te espera o que sucumbe,
te espera o que reserva
sua energia, o que brota do perigo
e o que torna ao perigo. Estás no meio
do tempo tempestuoso, da cólera
com chapéu sovado, semelhante
a todo o mundo, com as asas listas
sob a luz comum de uma pobre jaqueta.
Destes destinos és a unidade.
Sobre a terra inteira estás voando.
Ninguém te reconhece salvo aqueles
que também lêem na noite negra
a radiante escrita de amanhã.
Sem ver-te muitos homens
junto a ti passarão, junto à esquina
em que apoiado ao muro serás rua
ou árvore sem nome no arvoredo humano.
Mas o que vem a ti sabe que existes.
E esse, por trás de teus comuns olhos,
adivinha a espada dos povos.
Ou melhor em plena luz nas regiões
libertadas do Este nos recebes a todos,
não como a desterrados, mas sorridente
para dar-nos
a paz, e o pão, as chaves
da terra.
as latitudes, apareces
talvez nas sombrias cavidades
da mina, quando a repressão e a fadiga
vão dobrar teus braços, e levantas
tuas asas minerais como escudo.
Estão naquela sombra entre os povoados,
quando teu voo organizado cruza
as difíceis terras do espinho,
os aramados negros da morte.
Camarada, te espera o que sucumbe,
te espera o que reserva
sua energia, o que brota do perigo
e o que torna ao perigo. Estás no meio
do tempo tempestuoso, da cólera
com chapéu sovado, semelhante
a todo o mundo, com as asas listas
sob a luz comum de uma pobre jaqueta.
Destes destinos és a unidade.
Sobre a terra inteira estás voando.
Ninguém te reconhece salvo aqueles
que também lêem na noite negra
a radiante escrita de amanhã.
Sem ver-te muitos homens
junto a ti passarão, junto à esquina
em que apoiado ao muro serás rua
ou árvore sem nome no arvoredo humano.
Mas o que vem a ti sabe que existes.
E esse, por trás de teus comuns olhos,
adivinha a espada dos povos.
Ou melhor em plena luz nas regiões
libertadas do Este nos recebes a todos,
não como a desterrados, mas sorridente
para dar-nos
a paz, e o pão, as chaves
da terra.
1 344
Pablo Neruda
O Anjo da Poesia
União Soviética, floresces
com outras flores que na terra
não têm ainda nome.
Tua firmeza é a flor da árvore do aço.
É tua fraternidade a flor do pão fragrante.
É teu inverno uma flor em que a neve
ilumina o amor sem ameaça.
Eu percorri a terra onde Pushkin voltava
para elevar em seu canto a luz dos cristais,
e presenciei como seu povo levantava
esta constelação sobre as mãos
acostumadas a elevar o trigo.
Pushkin, foste o anjo
do Comitê Central.
Contigo visitei ruínas sagradas
ali onde os soldados de teu povo
defenderam as sílabas de tua alma.
Contigo vi crescer dos escombros
o gigantesco voo da vida,
as rodas do trator rumo ao outono,
novas cidades cheias de ruídos,
aviões amarelos como abelhas.
E quando entrei no museu ou na casa,
na fábrica, no rio que te segue cantando,
ou quando na cidade de Lenin vi apagadas
as cicatrizes do martírio augusto,
oh camarada transparente, estavas
junto a meu coração dando-me toda
a orgulhosa estrutura de tua pátria.
Ali, enfim, um anjo não levava mais arma
que um ramo cristalino de relâmpagos
e ele e toda sua terra defendiam
as sílabas errantes de meu canto.
Ali por fim a paz me resguardava.
E Pushkin me dizia: “Vem comigo
até Novosibirsk, além nas terras
desérticas, povoadas
antes pela solidão e pelas dores,
hoje a bandeira de minha voz passeia
sobre as construções orgulhosas”
Anjo, querias que toda tua vida
visitasse, tocando as espigas,
enumerando fábricas e escolas,
conversando com meninos e soldados.
com outras flores que na terra
não têm ainda nome.
Tua firmeza é a flor da árvore do aço.
É tua fraternidade a flor do pão fragrante.
É teu inverno uma flor em que a neve
ilumina o amor sem ameaça.
Eu percorri a terra onde Pushkin voltava
para elevar em seu canto a luz dos cristais,
e presenciei como seu povo levantava
esta constelação sobre as mãos
acostumadas a elevar o trigo.
Pushkin, foste o anjo
do Comitê Central.
Contigo visitei ruínas sagradas
ali onde os soldados de teu povo
defenderam as sílabas de tua alma.
Contigo vi crescer dos escombros
o gigantesco voo da vida,
as rodas do trator rumo ao outono,
novas cidades cheias de ruídos,
aviões amarelos como abelhas.
E quando entrei no museu ou na casa,
na fábrica, no rio que te segue cantando,
ou quando na cidade de Lenin vi apagadas
as cicatrizes do martírio augusto,
oh camarada transparente, estavas
junto a meu coração dando-me toda
a orgulhosa estrutura de tua pátria.
Ali, enfim, um anjo não levava mais arma
que um ramo cristalino de relâmpagos
e ele e toda sua terra defendiam
as sílabas errantes de meu canto.
Ali por fim a paz me resguardava.
E Pushkin me dizia: “Vem comigo
até Novosibirsk, além nas terras
desérticas, povoadas
antes pela solidão e pelas dores,
hoje a bandeira de minha voz passeia
sobre as construções orgulhosas”
Anjo, querias que toda tua vida
visitasse, tocando as espigas,
enumerando fábricas e escolas,
conversando com meninos e soldados.
1 220
Pablo Neruda
Ii - Jovens Alemães
Como um ramo vermelho
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.
E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.
Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.
Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.
E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.
Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.
Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
1 228
Pablo Neruda
Tarde - LXXVIII
Não tenho nunca mais, não tenho sempre. Na areia
a vitória deixou seus pés perdidos.
Sou um pobre homem disposto a amar seus semelhantes.
Não sei quem és. Te amo. Não dou, não vendo espinhos.
Alguém saberá talvez que não teci coroas
sangrentas, que combati o engano,
e que em verdade enchi a preamar de minha alma.
Eu paguei a vileza com pombas.
Eu não tenho jamais porque distinto
fui, sou, serei. E em nome
de meu mutante amor proclamo a pureza.
A morte é só pedra do esquecimento.
Te amo, beijo em tua boca a alegria.
Tragamos lenha. Faremos fogo na montanha.
a vitória deixou seus pés perdidos.
Sou um pobre homem disposto a amar seus semelhantes.
Não sei quem és. Te amo. Não dou, não vendo espinhos.
Alguém saberá talvez que não teci coroas
sangrentas, que combati o engano,
e que em verdade enchi a preamar de minha alma.
Eu paguei a vileza com pombas.
Eu não tenho jamais porque distinto
fui, sou, serei. E em nome
de meu mutante amor proclamo a pureza.
A morte é só pedra do esquecimento.
Te amo, beijo em tua boca a alegria.
Tragamos lenha. Faremos fogo na montanha.
1 205
Pablo Neruda
Primeira Aparição do Anjo
E ali transpondo o rio,
quando as águas duplicavam
a ação das cavalgaduras,
e de repente uma aragem entrava
como uma flecha na minha garganta,
quando tropeçava a besta
e eram as águas a meu lado
um torrencial lance de agulhas,
e a catarata esperava
como um relâmpago nas pedras,
olhei ali atrás de mim,
e sem barbear-se, enrugado,
com uma pistola e um laço
vi pela primeira vez o anjo.
Ia cuidando-me o anjo,
ia sem asas junto a mim
o anjo do Comitê Central.
quando as águas duplicavam
a ação das cavalgaduras,
e de repente uma aragem entrava
como uma flecha na minha garganta,
quando tropeçava a besta
e eram as águas a meu lado
um torrencial lance de agulhas,
e a catarata esperava
como um relâmpago nas pedras,
olhei ali atrás de mim,
e sem barbear-se, enrugado,
com uma pistola e um laço
vi pela primeira vez o anjo.
Ia cuidando-me o anjo,
ia sem asas junto a mim
o anjo do Comitê Central.
1 240
Pablo Neruda
O Anjo Dos Pampas
Oh lua inabarcável, nas campinas,
oh sol azul sobre todo o espaço,
pampa de solidão, estrela reta
estendida em desertas dimensões.
Erva argentina, terra interminável,
olor de céu cereal, caminho
feito de todos os caminhos, larga
primavera sem pálpebras, planura.
Eu fui de cabo a cabo, trepidando
na velocidade, transpondo o dia
e a noite nua do planeta.
E ali perdido na distância, quando
o avestruz errante ou a pomba
da terra selvagem apareceram,
quando cansaço e solidão encheram
a taça transparente do pampa,
quando pude sentir-me desamparado e último, quando fui só ausência, sonho, suor e pó,
rumo à liberdade com os olhos abertos,
com outro rosto,
amarradas as mãos ao volante,
sem sonho e sorrindo através da noite,
ali estava de novo, ali
estava defendendo minha fadiga:
não sei como se chama, talvez López,
talvez Ibieta, o anjo
do Comitê Central.
oh sol azul sobre todo o espaço,
pampa de solidão, estrela reta
estendida em desertas dimensões.
Erva argentina, terra interminável,
olor de céu cereal, caminho
feito de todos os caminhos, larga
primavera sem pálpebras, planura.
Eu fui de cabo a cabo, trepidando
na velocidade, transpondo o dia
e a noite nua do planeta.
E ali perdido na distância, quando
o avestruz errante ou a pomba
da terra selvagem apareceram,
quando cansaço e solidão encheram
a taça transparente do pampa,
quando pude sentir-me desamparado e último, quando fui só ausência, sonho, suor e pó,
rumo à liberdade com os olhos abertos,
com outro rosto,
amarradas as mãos ao volante,
sem sonho e sorrindo através da noite,
ali estava de novo, ali
estava defendendo minha fadiga:
não sei como se chama, talvez López,
talvez Ibieta, o anjo
do Comitê Central.
1 315
Pablo Neruda
Outro
De tanto andar uma região
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
1 432
Pablo Neruda
Meio-Dia - L
Cotapos disse que teu riso tomba
como um falcão de alguma brusca torre
e, é verdade, atravessas a folhagem do mundo
com um só relâmpago de tua estirpe celeste
que cai, e corta, e saltam as línguas do orvalho,
as águas do diamante, a luz com suas abelhas
e ali onde vivia com sua barba o silêncio
rebentam as granadas do sol e as estrelas,
vem abaixo o céu com a noite sombria,
ardem à lua cheia, sinos e cravos,
e correm os cavalos dos talabarteiros1,
porque tu sendo tão pequeninha como és,
do teu meteoro deixas cair o riso
eletrizando o nome da natureza.
1 Talabarteiros – seleiros. Termo usado no Rio Grande do Sul. (N.T.)
como um falcão de alguma brusca torre
e, é verdade, atravessas a folhagem do mundo
com um só relâmpago de tua estirpe celeste
que cai, e corta, e saltam as línguas do orvalho,
as águas do diamante, a luz com suas abelhas
e ali onde vivia com sua barba o silêncio
rebentam as granadas do sol e as estrelas,
vem abaixo o céu com a noite sombria,
ardem à lua cheia, sinos e cravos,
e correm os cavalos dos talabarteiros1,
porque tu sendo tão pequeninha como és,
do teu meteoro deixas cair o riso
eletrizando o nome da natureza.
1 Talabarteiros – seleiros. Termo usado no Rio Grande do Sul. (N.T.)
1 246
Pablo Neruda
Manhã - XXII
Quantas vezes, amor, te amei sem ver-te e talvez sem lembrança,
sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura,
em regiões contrárias, num meio-dia queimante:
era só o aroma dos cereais que amo.
Talvez te vi, te supus ao passar levantando uma taça
em Angola, à luz da lua de junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e ressoou como o mar desmedido.
Te amei sem que eu o soubesse, e busquei tua memória.
Nas casas vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato.
Mas eu já não sabia como eras. De repente
enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida:
diante de meus olhos estavas, regendo-me, e reinas.
Como fogueira nos bosques o fogo é teu reino.
sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura,
em regiões contrárias, num meio-dia queimante:
era só o aroma dos cereais que amo.
Talvez te vi, te supus ao passar levantando uma taça
em Angola, à luz da lua de junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e ressoou como o mar desmedido.
Te amei sem que eu o soubesse, e busquei tua memória.
Nas casas vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato.
Mas eu já não sabia como eras. De repente
enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida:
diante de meus olhos estavas, regendo-me, e reinas.
Como fogueira nos bosques o fogo é teu reino.
1 195