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Poemas neste tema

Alma

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tim-Tim Para Luís Martins

I

Caro Luís inspetor federal de colégios
sem colégios para inspecionar
(padre sem igreja, maquinista sem locomotiva, amante sem amada)
no ano-fumaça — lembra-se? — de 38.
Designam você para Jaú,
solução mais perto, mais amável.
Lá vai o inspetor com uma camisa na pasta
e a convicção de que Jaú é pertíssimo.
Chega nove horas e meia depois:
uma hora a cavalo, da fazenda à estação,
uma hora de trem a Jundiaí,
quatro horas e meia de Jundiaí a Ityrapina
(com y, que agrava a distância),
finalmente três horas até Jaú.
Gasta você na brincadeira
com passagens, hotel e refeições
mais da metade do mesquinho ordenado futuro
e terá de voltar três vezes por semana…
Ser funcionário às vezes dói
como canelada. Ou faca no estômago.

II

Como, não sei, você surge em Minas (jornalista?)
na posse do ilustríssimo Governador-Mor Valadares
entre luminárias bailes populares festança grossa.
De manhã, excursão
ao sonho barroco de Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes,
à qual, que lástima, você não comparece,
pois é de dormir tarde ou mesmo não dormir
quando a cimitarra da lua ceifa a imensidão mineira.
Suas noites são de prosear com amigos em torno de honesta cerveja
e as manhãs para o sono velado pelo Deus dos boêmios.
Ir a Minas e não ver o Aleijadinho!
Muitos anos lhe punge n’alma esse pecado.

III

De novo em Belo Horizonte. Desta vez, o Congresso
de Escritores estentóricos discutindo o porvir nacional.
Salvemos a Pátria mediante nossas prosopopeias!
Gosto de quedar a seu lado no Bar Pinguim
noites seguidas e melodiosas, alheios à retórica,
em doce paz de consciência.
Você imita Segall à perfeição
e eu admiro sua digna mansuetude entre os paladinos adversos.
Ensina (sem pretensão) a gentil dignidade.

IV

Lembro coisas assim a esmo
para conjurar a acidez da notícia de sua morte,
a mais injusta, a mais absurda para alguém como você,
que viveu em doçura, sem atropelar ninguém
no pensamento ou na vida.
Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa, na rua.
Conservar você perto da gente, malgrado o final.
Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade.

23/04/1981
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Mão

Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
e nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos.
A mão cresce mais e faz
do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos.
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor.
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da terra domicílio do homem.

Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.

Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.

(lc)
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

As Notícias

E lá se foi aquela extraordinária
Eunice Weaver: cada preventório
para filhos de lázaros proclama,
pelo Brasil inteiro, o seu supremo
dom de servir à vida das crianças.
Já na Gamboa umedecidos lenços
despedem-se… Ficou de Dona Eunice
uma lição de amor, cheia de graça.

Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.
Chartres no Russell, toda iluminada?
Tenho a Glória do Outeiro, estou com tudo.

Só me faltam, nas férias dos meninos,
dois elefantes, vastos ou pequenos.
Quando virão? Exige-se vacina,
identidade, visto de aduana,
título de eleitor em Bombaim
e prova de que são bichos de bem.
Oi, meus elefantinhos ofertados
por Indira (?), tão logo repelidos
para a jângal natal: ficai por lá,
que saudoso de vós me quedo aqui.
Não vos desejo pouso na Ilha Grande,
pois muito mais a gosto ficais onde
a um paquiderme não se exige tanto
papelório que a um bípede põe tonto.

A papoula sangrenta, a flor dos hippies,
antes tão alva? A mão pega do lápis,
anotando massacres. Sharon Tate,
My Lai, nosso “Esquadrão”… Matar é um ato
de prazer, como uma extensão do sexo,
um novo haxixe, um fascinante tóxico?
Matar em grosso; nunca um só, apenas.
Aos cinco, aos mil: esporte de bacanos.
Então, por que temer, pergunto, a gripe
A-2 Hong-Kong, no seu doido galope?
O vírus isolar, em honra à vida,
para depois fazê-la espedaçada?
O mundo é dos carrascos? Deus é fábula
esmaecida no pó de um incunábulo?
Ou vamos aprender a ser humanos
— ao menos aprendizes pequeninos?

13/12/1969
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sequestro de Guilhermino César

Ao completar setent’anos


Um dia convoco Cyro dos Anjos e planejo com ele um sequestro.
Voamos (perucas e bigodes despistadores) para Porto Alegre.
Lá ficaremos à espreita na Avenida Independência.
Quando sair de certo edifício um incauto senhor de óculos,
nosso carro lhe embargará os passos
e ele será convidado a seguir conosco
rumo a lugar que bem sabe.
Assim roubaremos Guilhermino César ao País do Rio Grande
e o transportaremos ao País da Memória,
país de cafés-sentados e redações não eletrônicas de jornais,
de repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,
autores de discursos que jamais pronunciaríamos,
pois os concebíamos para outros os pronunciarem
no majestático palanque do Poder,
enquanto refocilávamos em orgias
com a ninfa de coxas de espuma e seios-orquídea
chamada Literatura,
nosso maior amor e perdição.

Levaremos Guilhermino para livrarias
que não existem mais,
cinemas, bailes estudantis, piqueniques serranos
que não existem mais,
debates flamívomos, cambalhotas de vanguarda
que não existem mais,
tudo que não existe mais e continua,
anulado, existindo.
Nesse país que foi o nosso
na neblinosa companhia de Emílio Moura,
João Alphonsus, outros, outros
de que já não há notícia terrestre,
reflorescemos
ao som indelével da valsa e do fox-trot
brindados pela orquestra do Maestro Vespasiano.

Refloresceremos todos. O tempo, acidente.
Outro, mudanças. Guilhermino
acaba de chegar de Cataguases,
estudante de medicina e ritmo,
nosso mais moço companheiro para sempre.
Nunca sairá daqui, não sairemos.
Ninguém fará de nós os septuagenários que somos,
dispersos, divididos no mapa das circunstâncias.
Este, o nosso eterno, etéreo território.
Aqui assistimos, somos. O resto, aparência.
Este mesmo escrito: aparência,
não a realidade que se refere.
No único país real encontramo-nos em Guilhermino,
o que, menino, pediu ao pai uma bicicleta
e o velho deu-lhe as poesias de Bilac.
Que não nos procurem, não nos importunem. Deixem-nos
fruir o néctar absoluto.
740
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Notícias de Janeiro

Janeiro:
preparo lento e longo combimed
o coração batendo comcitec
nervos elétricos comsart
na geografia
que o Rio transformou em Cesgranrio.
Janeiro, estoura o grito
de euforia em frente ao gabarito
ou o morder de lábios do malogro
que o computador tritura em números.
(Computador: cara moderna do destino.)
Janeiro, o ano inteiro
a repetir os jogos malabares
da arte de decifrar em amarelo
rosa verde azul e cor de angústia
a quíntupla verônica da esfinge?
Janeiro, me levaste
(ah, não foi justo este começo de ano)
o mais jovem poeta brasileiro,
aquele que ia sempre mariscando
dentro do verso um outro verso
não verso, exato signo
no campo visual onde o poema
envolve em sua luz a linha livre.

Caríssimo Cassiano
Ricardo em Lourdes completado,
sutil denunciador
de nossa condição sobrevivente
à espera de nascer,
como nasce a caviúna
de sua própria raiz,
solene anunciador
da infância futura.

Requintaste, janeiro, em desfalcar-nos,
e já nos levas outro: Nilo Aparecida,
poeta-concha, quase silencioso
conversador da Rua São José
(ou sua concha era o castelo do soneto
despojado de enxúndias parnasianas,
objeto sereno e cristalino?).

Outras faltas prometes, e já vejo
um ano despojado de matérias-
-primas, ano de tanga
ou sem ela. Faltará também amor,
essa matéria-prima entre as mais primas,
que resume em rondó todas as rimas?
Faltará ao encontro a namorada
como à vista faltou o Kohoutek?
Juízo faltará… ou já faltava,
e a gente nem sequer desconfiava?

Não me faltem ao menos os crepúsculos
no salso belvedere do Arpoador,
mesmo que eu lá não vá; quero saber
do ir e vir de gaivotas, e da tarde
pousando sobre a espuma em leque de íris.

Quero, 74, ter a graça
de ver uma rolinha visitar
a janela e, chegando entre meus livros
e o rosto de Baudelaire por Manet
gravado (que é presente de uma amiga),
sair sem censurar que perdi tempo,
meu tempo consumindo entre aparências
de sombras, palpitantes nessas páginas.

O que te peço? Umas pequenas coisas,
independentes de poder ou guerra,
umas coloridas, outras brancas,
todas leves, levíssimas, no vento…
Ora, atende-me, pois; vê se te mancas.

19/01/1974
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Rio Em Flor de Janeiro

A gente passa, a gente olha, a gente para
e se extasia.
Que aconteceu com esta cidade
da noite para o dia?
O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor,
uma soberba flor por sobre todas,
e a ela rendo meu tributo apaixonado.

Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde
é Baby Vignolli, é Léa Távora.
(Homem nenhum sabe nomes vegetais,
porém mulher se liga à natureza
em raízes, semente, fruto e ninho.)
Iúca! Iúca, meu amor deste verão,
que melhor se chamara primavera.
Yucca gloriosa, mexicana
dádiva aos canteiros cariocas.
Em toda parte a vejo. Em Botafogo,
Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá,
a ostentar panículas de pérola,
eretos lampadários, urnas santas,
de majestade simples. Tão rainha,
deixa-se florir no alto, coroando
folhas pontiagudas e pungentes.

A gente olha, a gente estaca
e logo uma porção de nomes populares
brota da ignorância de nós todos.
Essa gorda baiana me sorri:
— Círio de Nossa Senhora… (ou de Iemanjá?).
— Vela de pureza, outra acrescenta.
— Lanceta é que se chama. — Não, baioneta.
— Baioneta espanhola, não sabia?
E a flor, que era anônima em sua glória,
toda se entreflora de etiquetas.

Deixemo-la reinar. Sua presença
é mel e pão de sonho para os olhos.
Não esqueçamos, gente, os flamboyants,
que em toda a sua pompa se engalanam
aqui, ali, no Rio flóreo.
Nem a dourada acácia,
nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira,
esse adágio lilás do manacá,
esse luxo do ipê que nem-te-conto,
mais a vermelha aparição
dos brincos-de-princesa nos jardins
onde a banida cor volta a imperar.

Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar, para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)
ver?

22/01/1980
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Amiga Voltou

Muitas promessas não foram cumpridas nos últimos doze meses.
Eu mesmo, ativo cobrador de promessas,
terei prometido e faltado
no mínimo sete vezes por semana
e, o que é pior,
ostentando indefectível cara de pau.
Homens enganaram homens e mulheres
com voz de flauta doce:
“Vou fazer isso, vou fazer aquilo,
vocês têm de confiar neste compatriota…”
Fez? Pois sim, seu Serafim.

Mas essa amiga prometeu e cumpriu:
“Tou de volta em janeiro.”
E tá. No Parque do Flamengo;
como anunciara. E um pouco
por toda parte: Iúca
e sua branca floração em cachos.

Temia que não viesses mais,
Iúca. As coisas andam pretas,
e tuas alvas panículas contrastantes
com o negro sobrecenho
deste Rio assustado
podiam parecer provocação.
Mas sorriste do medo.
Chegaste, amiga nossa,
pontual,
lirial,
janeiramente abril.

É consolo, conforto
saber que não mudaste
e restauras em nós a matutina esperança
de ter um dia bonito à nossa frente.
Pronto, ganhei o dia,
só de te ver e de beijar com os olhos
tua florada em forma de turíbulo
ou lâmpada suspensa.

Assim fazem as plantas,
honradas, tranquilas companheiras
neste viver em grupo, conturbado.
Não seguem portarias
nem do Banco Central nem do Conselho
Interministerial de Preços Altos.
Têm seu próprio destino prefixado
(não correção incerta monetária),
e a ele são fiéis. Fiel Iúca,
a trabalhar de graça para os pobres
olhos da população carente de feijão,
de sossego, de carne e de carinho.
Não tens partido, entre os partidos
tão repartidos que hoje se emaranham
na tentativa de comprar o passe
de partidários outros e volúveis.
Iúca, tua glória
não resulta de novelas,
nem de estádios, palácios, ministérios
de trombeteada fama nacional.
És apenas tu mesma, arbusto digno
que promete florir e cumpre
na hora certa o verde prometido.

Muito obrigado, amiga.
Eu precisava bem deste reencontro.
Nós precisávamos bem deste reencontro.
A folha de rija ponta espiniforme
não molesta ninguém: prepara a flor
inumerável, ofertada
ao dia brasileiro angustiado.

17/01/1981
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nova Rua São José

Cultivando o prazer de andar a pé,
tiro de meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da Rua São José.

Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.

De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.

É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolve à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.

Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para nos ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.

A flor, em flor, na rua — que convite
ao passante angustiado: “Para um pouco.
Dez ou quinze minutos de far niente
e voltarás depois ao mundo louco.

Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.

Aqui não te perseguem carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.

Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e das aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei”.

Assim murmura a flor, e corre a brisa,
“Apoiado”, ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar

(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.

11/08/1973
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Reunião Em Dezembro

Dezembro, e dói (ou não?) um pouco
esse abrir os braços para abraçar
o corpo, ou o sem-corpo, de uma espera
nervosa.

Dezembro, e não te lembra
os que não estão mais para jogar
o jogo repetido da esperança?

Oh, não te faças de amargo.
Joga também, mas chama
ao balcão da memória
e junto do teu corpo
aqueles companheiros dispersados
em não sei que país não mapeado,
pois sem nome e latitude,
onde o tempo sem número é repleto
(ou deserto) de todo pensamento.
E reserva
poltronas especiais para os que ainda há pouco
se foram. Não estão acostumados
ainda ao novo lar, ou somos nós
que de perdê-los não nos demos conta?
Repara: a teu aceno
as perdas deste ano se transformam
em nova relação interior.
Ganhamos o perdido. Vem chegando
cada um no seu passo costumeiro,
no seu modo de ser e de existir.

Esta
é Ana Amélia, rainha sem diadema.
Reina em doçura entre estudantes
e anjos barrocos. Calmos decassílabos
fluem de suas mãos e vão voando
para onde a poesia se concentra
em bondade e beleza:
sinônimo de alma.

Para um instante, Murilo; olha, Miranda,
quanta coisa fizeste na inquietude
de fazer coisas. Pois não basta, homem?
As artes mais as letras te agradecem
quanto penaste por amor de sonhos
culturais, que no esquecimento somem.

Mas que rumor é este, que risada
rouca, feliz, irada, insubmissa,
entre as festas do povo se anuncia?
É carnaval, folclore, são vivências
de um gato, da Amazônia, que sei mais?
O furacão chamado Eneida
tem garras verdes e quedou tranquilo.

Pelo telefone, a voz te pede
a colaboração do suplemento.
Anos a fio, vida a fio.
José Condé faz o jornal,
mas seu coração foge ao plantão
e perfura, no chão natal,
o poço dorido-alegre
de imagens pernambucanas.

Willy Lewin, viola ou violino
afinadíssimo, ouvido apenas
em surdina de câmara e recato.
Que requinte no seu sigilo,
seu desencanto modulado:

a melhor poesia é um signo
abafado.

Brumoso Luís Santa Cruz: a cruz,
entre súcubos a espicaçá-lo,
exorciza lêmures. Vago,
fantasmal ele próprio, ouvindo-lhe
a voz baixa, é o sussurro que ouves
de um mundo abissal, de sombras.

Por último vem teu compadre
e teu irmão Emílio, o doce
mavioso Moura irmão mineiro. Sorrindo,
como a pedir desculpas de uma falta:
“Fui proibido de beber
e de pitar um cigarrinho”
e de outra falta, mais grave:
“Fui-me embora, deixei você falando
sozinho”.

Dezembro, e o que perdido
foi neste ano, volta, iluminado
pelo claro pensar,
e reanima-se
o jogo eterno (e vão?), o jogo
da vida renascendo de si mesma.

02/12/1971
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