Poemas neste tema
Alma
Quintino Cunha
Comunhão da Serra
Ontem, à noite, eu vi a minha Serra,
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.
Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.
Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!
o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!
Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.
E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.
Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.
Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!
o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!
Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.
E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!
1 668
Rogério Bessa
Do Canto II:
A Saída do Poema:
Fuga e Despedida das Melomanias Antiórficas
essa coita que me invade,
gran coyta que damor ey,
foi a que, vivendo El-Rey,
experimentou Guilhade.
os olhos verdes damiga
me fazen ora pensar:
se azuis não eram, cantiga
só, quem dela saberá!
sei que cantiga damigo
decanta os olhos dalguém
do hoje outrora que consigo
lembrar por mal e por bem.
Fuga e Despedida das Melomanias Antiórficas
essa coita que me invade,
gran coyta que damor ey,
foi a que, vivendo El-Rey,
experimentou Guilhade.
os olhos verdes damiga
me fazen ora pensar:
se azuis não eram, cantiga
só, quem dela saberá!
sei que cantiga damigo
decanta os olhos dalguém
do hoje outrora que consigo
lembrar por mal e por bem.
1 181
Nana Corrêa de Lima
São Tomé das Letras
São Tomé das Letras
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
1 460
Rossini Corrêa
Soneto da Arte Poética
Como escrever um soneto antológico,
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território
verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.
— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...
Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território
verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.
— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...
Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.
1 008
Sânzio de Azevedo
Soneto
Já que buscas um sonho e não o alcanças,
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...
Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!
Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranqüilidades...
Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...
Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!
Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranqüilidades...
Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...
1 132
Rogério Bessa
Soneto da Amada
vou perdido e achado em ti
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
953
Raimundo Fontenele
Poética
curvos e curvas
sopram mais que males
no cordão dos ares
da verdade nua
nua e crua como
a palidez do sono
quando a natureza
dos pés à cabeça
nos pergunta: como?
palha gralha linda
calvo favo aceso
lâmpada do nada
sobre o pó desfeito
de um chão fugido
por bicar um pássaro
maçã tarde e calma
Ah! eu adormeço...
longe e longo tomo
um farol sumido
nos confins da noite
grito, coração, que grito?
fala para a ala
dúbio alvorecer
fala parasia
antes de morrer
do capim dourado
morivigerando
no verdor da lua
salta o sol de quando
tudo era na erva
o fluxo de existir
vida-taça, gota
do ser no devir.
sopram mais que males
no cordão dos ares
da verdade nua
nua e crua como
a palidez do sono
quando a natureza
dos pés à cabeça
nos pergunta: como?
palha gralha linda
calvo favo aceso
lâmpada do nada
sobre o pó desfeito
de um chão fugido
por bicar um pássaro
maçã tarde e calma
Ah! eu adormeço...
longe e longo tomo
um farol sumido
nos confins da noite
grito, coração, que grito?
fala para a ala
dúbio alvorecer
fala parasia
antes de morrer
do capim dourado
morivigerando
no verdor da lua
salta o sol de quando
tudo era na erva
o fluxo de existir
vida-taça, gota
do ser no devir.
972
Paulo Véras
Oferenda
Trago nas mãos
um resto da noite passada
e entre os dedos o suco das estrelas
que como sábias irmãs
me fizeram companhia
Faltou tua orelhinha de búzio
onde eu escutava as marés
e retirava o sal amargo
com a língua em arpão
Esta memória de hoje
é apenas o retrato morto
de um corpo com impressões digitais
sobre a pele
Uma lembrança
que traz de volta
uma dor antiga
uma ferida que é uma boca
de tão aberta
E este peito
está tão cinzento
que chego a pensar
que chove nas vísceras
um resto da noite passada
e entre os dedos o suco das estrelas
que como sábias irmãs
me fizeram companhia
Faltou tua orelhinha de búzio
onde eu escutava as marés
e retirava o sal amargo
com a língua em arpão
Esta memória de hoje
é apenas o retrato morto
de um corpo com impressões digitais
sobre a pele
Uma lembrança
que traz de volta
uma dor antiga
uma ferida que é uma boca
de tão aberta
E este peito
está tão cinzento
que chego a pensar
que chove nas vísceras
924
Prado Kelly
Relógio
Teces, fios do Tempo, as Horas... Em nevoentos
dias, severo deus, Cronos vívido, escreves,
na eterna oscilação dos nossos pensamentos,
glórias benditas, gozos suaves, sonhos leves.
E, enquanto marcas, no fragor dos sentimentos,
horas rubras de chama e horas frias de neves,
para instantes de dor teus compassos são lentos,
para sonhos de amor teus minutos são breves.
Dá-me repouso, ó Tempo, e dai-me, Horas augustas,
a esmola do sossego e a mercê do abandono.
Quero dormir... A treva é a luz das almas justas.
E, ó Destino, concede à minha alma incendida
a Morte, pois a Morte é o infinito do sono
e o sono, mais que tudo, é o conforto da Vida.
dias, severo deus, Cronos vívido, escreves,
na eterna oscilação dos nossos pensamentos,
glórias benditas, gozos suaves, sonhos leves.
E, enquanto marcas, no fragor dos sentimentos,
horas rubras de chama e horas frias de neves,
para instantes de dor teus compassos são lentos,
para sonhos de amor teus minutos são breves.
Dá-me repouso, ó Tempo, e dai-me, Horas augustas,
a esmola do sossego e a mercê do abandono.
Quero dormir... A treva é a luz das almas justas.
E, ó Destino, concede à minha alma incendida
a Morte, pois a Morte é o infinito do sono
e o sono, mais que tudo, é o conforto da Vida.
654
Renato Castelo Branco
O Esperado
para meu neto Rodrigo
Só agora você chegou
de uma espera de milênios.
Só agora você chegou
de regiões ignotas
perdido em mundos misteriosos.
Só agora você chegou
do fundo da História
para preencher seu lugar
entre nós.
Mas eu lhe esperava
desde o começo da vida,
elo a ser preenchido
em infinita cadeia
de ancestrais.
Agora você está aqui
conosco
parte de nossa vida
e de nossa eternidade.
Só agora você chegou
de uma espera de milênios.
Só agora você chegou
de regiões ignotas
perdido em mundos misteriosos.
Só agora você chegou
do fundo da História
para preencher seu lugar
entre nós.
Mas eu lhe esperava
desde o começo da vida,
elo a ser preenchido
em infinita cadeia
de ancestrais.
Agora você está aqui
conosco
parte de nossa vida
e de nossa eternidade.
932
Renato Castelo Branco
O Instante
É um instante
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
1 145
Rogério Bessa
Do Canto V:
Viagem Dentro e ao Redor de um Canteiro/
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
834
Rogério Bessa
Do Canto VI:
Ao Redor do Homem:
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
867
Rogério Bessa
Poema do Bom Pastor
cruzeiro luminoso não feito de acrílico
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje
o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade
Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios
Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas
Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça
Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje
o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade
Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios
Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas
Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça
Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.
1 830
Nana Corrêa de Lima
Yanomani
Yanomani
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
946
Paulo Véras
Marujo
Dentro da minha casa
acolho uma velhice
que me acompanha desde que nasci
O copo de prata de vovó
com seus lábios bordados na borda
Os olhos de uma tia morta
a vigiar-me da moldura oval
A bengala de meu avô
incentivando-me o passeio na calçada
A fruteira de vidro verde
(com frutas de cera)
a decepar-me o apetite
O aparelho de jantar azul
a fornecer-me a penumbra e a sopa
das seis da tarde
Na beira do rio
tem quermesse e eu não posso ir
tem bingo e leilão de peru assado
tem barquinho e rolete de cana
Estou vestido de marinheiro
e só posso navegar no jardim
acolho uma velhice
que me acompanha desde que nasci
O copo de prata de vovó
com seus lábios bordados na borda
Os olhos de uma tia morta
a vigiar-me da moldura oval
A bengala de meu avô
incentivando-me o passeio na calçada
A fruteira de vidro verde
(com frutas de cera)
a decepar-me o apetite
O aparelho de jantar azul
a fornecer-me a penumbra e a sopa
das seis da tarde
Na beira do rio
tem quermesse e eu não posso ir
tem bingo e leilão de peru assado
tem barquinho e rolete de cana
Estou vestido de marinheiro
e só posso navegar no jardim
1 128
Nelson Motta
Cara
Para Cora
Você é uma mulher cara,
minha cara,
caríssima:
o coração endividado até a alma
pede concordata, quebra e
fale,
diga:
prisioneiros do desejo
teu desejo é cadeia que enleia
elo que soma nosso ele e ela,
o meu desejo é sempre ir e vir
para teu corpo como planta à terra.
enterra esses teus fundos olhos dentros meus
e dá-te a mim, mata-me, possui-me
para que seja eu as asas do teu vôo
que sou eu, teu, o tanto quanto és tua.
Você é uma mulher cara,
minha cara,
caríssima:
o coração endividado até a alma
pede concordata, quebra e
fale,
diga:
prisioneiros do desejo
teu desejo é cadeia que enleia
elo que soma nosso ele e ela,
o meu desejo é sempre ir e vir
para teu corpo como planta à terra.
enterra esses teus fundos olhos dentros meus
e dá-te a mim, mata-me, possui-me
para que seja eu as asas do teu vôo
que sou eu, teu, o tanto quanto és tua.
1 143
Nelson Motta
Noite Interna
ao longo da longa noite
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
1 208
Rogério Bessa
Do Canto IV:
A Retirada:
Antimitos Lua e Viagem ao (Im)Possível
gracilianos entre ramos
mortos e rumos épicos
deparar é o que vamos;
fabianos sem vitórias
régias ao mor março tépidos
entre telúricas glórias;
todos seres patagônias
à procura de pasárgadas,
sonhos leves, amazônias.
Antimitos Lua e Viagem ao (Im)Possível
gracilianos entre ramos
mortos e rumos épicos
deparar é o que vamos;
fabianos sem vitórias
régias ao mor março tépidos
entre telúricas glórias;
todos seres patagônias
à procura de pasárgadas,
sonhos leves, amazônias.
755
Nana Corrêa de Lima
Andarilho
Andarilho
Apenas dois pés
verdes de vivência.
Numa ânsia infantil
de andar sempre mais rápido.
Apenas dois pés
verdes de vivência.
Numa ânsia infantil
de andar sempre mais rápido.
898
Nelson Motta
Amare, Há Mares
te amar suave e silenciosamente
como o vento às velas,em movimento
como o fogo à vela, luzente
como a planta à terra:semente
navios iluminados nos teus olhos-cais
paisagem erótica
no ventre do vento
uma chuva enxuta
aguarda o arco-íris.
por ele se molha e se derrama
se enterra na terra
sob um céu celestial.
querer & poder
os casais,
sejam de opostos ou iguais,
quanto mais se querem,
mais são anti-sociais,
e é natural que assim seja:
o apaixonado deseja
nada além de dois e sonha
com de dois fazer um, sós.
como o poder, que pretende,
suprimindo as diferenças,
tornar uma só vontade
a de todos
os casais.
como o vento às velas,em movimento
como o fogo à vela, luzente
como a planta à terra:semente
navios iluminados nos teus olhos-cais
paisagem erótica
no ventre do vento
uma chuva enxuta
aguarda o arco-íris.
por ele se molha e se derrama
se enterra na terra
sob um céu celestial.
querer & poder
os casais,
sejam de opostos ou iguais,
quanto mais se querem,
mais são anti-sociais,
e é natural que assim seja:
o apaixonado deseja
nada além de dois e sonha
com de dois fazer um, sós.
como o poder, que pretende,
suprimindo as diferenças,
tornar uma só vontade
a de todos
os casais.
1 029
Raul Machado
Lágrimas de Cera
Quando Estela morreu choravam tanto!
Chovia tanto nessa madrugada!
— Era o pranto dos seus, casado ao pranto
Da Natureza — mãe desventurada
Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse logo, em cada canto
Dos olhos uma lágrima engastada !
Ah! ... não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas, quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,
Acendidos à sua cabeceira,
Iam chorando, no seu pranto mudo,
Um rosário de lágrimas de cera!
Chovia tanto nessa madrugada!
— Era o pranto dos seus, casado ao pranto
Da Natureza — mãe desventurada
Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse logo, em cada canto
Dos olhos uma lágrima engastada !
Ah! ... não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas, quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,
Acendidos à sua cabeceira,
Iam chorando, no seu pranto mudo,
Um rosário de lágrimas de cera!
1 705
Madi
Príncipe
Príncipe
Eu sou uma mulher moderna, mas que ainda acredita em príncipes
Não sou nenhuma princesa, mas tenho um príncipe
O meu gosta de bebidas amargas,
não tem cavalo branco, tem mais de meio século
e os meus olhos o enxergam na flor da idade
Ele gosta de vinho. Eu gosto do príncipe
e tudo nele vale o meu carinho
Meu príncipe é o homem menos moderno que eu conheço
Sua pressão é alta, sua alegria é contida,
mas ao lado dele eu me sinto solta
como quando soltos ficam os laços de fita
Ele não tem alma de artista
Veste a cara do Poder mais sizudo da República
mas é meigo como todo príncipe deve ser
e tem voz doce como todos devem ter
Vejo meu príncipe, assim, com os olhos da paixão
Dele sou tão dependente e carente
que, ao meu coração, até o seu silêncio é eloqüente
Eu sou uma mulher moderna, mas que ainda acredita em príncipes
Não sou nenhuma princesa, mas tenho um príncipe
O meu gosta de bebidas amargas,
não tem cavalo branco, tem mais de meio século
e os meus olhos o enxergam na flor da idade
Ele gosta de vinho. Eu gosto do príncipe
e tudo nele vale o meu carinho
Meu príncipe é o homem menos moderno que eu conheço
Sua pressão é alta, sua alegria é contida,
mas ao lado dele eu me sinto solta
como quando soltos ficam os laços de fita
Ele não tem alma de artista
Veste a cara do Poder mais sizudo da República
mas é meigo como todo príncipe deve ser
e tem voz doce como todos devem ter
Vejo meu príncipe, assim, com os olhos da paixão
Dele sou tão dependente e carente
que, ao meu coração, até o seu silêncio é eloqüente
944
João Quental
Certa Vez de Manhã Cedo
Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
813