Poemas neste tema
Alma
Zito Batista
Monólogo de um Cego
Falaram-me do sol! Maravilhoso o sol
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
1 109
Reinaldo Ferreira
Rosa, a mulata, desperta
Rosa, a mulata, desperta
Com os morcegos, à hora
Em que a Lua, nódoa, incerta
E sem vulto, no céu aflora.
E Vénus, mito propício
Que em seu destino decide,
Convoca as filhas do Vício
Ao culto a que ela preside.
Com os morcegos, à hora
Em que a Lua, nódoa, incerta
E sem vulto, no céu aflora.
E Vénus, mito propício
Que em seu destino decide,
Convoca as filhas do Vício
Ao culto a que ela preside.
2 027
Reinaldo Ferreira
Canção do pastor perdido
Ia eu pra Belém
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
1 873
Reinaldo Ferreira
Porque a não tenho? Tão doce
Porque a não tenho? Tão doce
E tão ao pé de acabar!
Largando, como se fosse
Um barco novo a chegar!
Quisera-a, para brinquedo
Da minha vã meninice.
Nem brincaria, com medo
Que ela, de frágil, partisse.
Bastava só que ficasse
Mito a roçar-se no Fim
E o seu sorriso acalmasse
A angústia dentro de mim.
E tão ao pé de acabar!
Largando, como se fosse
Um barco novo a chegar!
Quisera-a, para brinquedo
Da minha vã meninice.
Nem brincaria, com medo
Que ela, de frágil, partisse.
Bastava só que ficasse
Mito a roçar-se no Fim
E o seu sorriso acalmasse
A angústia dentro de mim.
2 016
Reinaldo Ferreira
Apocalipse
João, iracundo João,
Tu, que sabias dos tempos que haviam de vir
Senão que eras judeu e perseguido?
João, iracundo João!
Possas agora
(Que o reino temporal do Messias falhou
E os demónios governam sem freio o mundo)
Olhar, do único reino possível,
O planeta onde somos à espera
Do final dos tempos
Possas João! E vejas
Como a tua cenografia patética
Empalideceu ante o drama real
Que tu, João,
Iracundo João!
Perseguido e judeu,
Não podias prever
No largo mar olhaste
E, fanático, não viste
mais do que o ódio e o caos,
A vingança e o extremínio.
Tu, que sabias dos tempos que haviam de vir
Senão que eras judeu e perseguido?
João, iracundo João!
Possas agora
(Que o reino temporal do Messias falhou
E os demónios governam sem freio o mundo)
Olhar, do único reino possível,
O planeta onde somos à espera
Do final dos tempos
Possas João! E vejas
Como a tua cenografia patética
Empalideceu ante o drama real
Que tu, João,
Iracundo João!
Perseguido e judeu,
Não podias prever
No largo mar olhaste
E, fanático, não viste
mais do que o ódio e o caos,
A vingança e o extremínio.
1 683
Reinaldo Ferreira
Natal de longe
Natal! Natal!
A boca o diz,
A mão o escreve,
O coração já não sente.
Que a emoção,
Vibração
Das asas da fantasia
No voo do pensamento,
Deixou-se ficar parada
Só porque a noite está quente;
Só porque ser indolente
É como parar na estrada
E desistir da jornada,
Sem coragem de voltar
Pelo caminho tão rude!
Natal! Natal!
A doce força que tinha
Devorou-a a latitude.
A boca o diz,
A mão o escreve,
O coração já não sente.
Que a emoção,
Vibração
Das asas da fantasia
No voo do pensamento,
Deixou-se ficar parada
Só porque a noite está quente;
Só porque ser indolente
É como parar na estrada
E desistir da jornada,
Sem coragem de voltar
Pelo caminho tão rude!
Natal! Natal!
A doce força que tinha
Devorou-a a latitude.
2 046
Reinaldo Ferreira
A tua mão é que desperta Abril
A tua mão é que desperta Abril
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
1 556
Reinaldo Ferreira
Na tarde erramos
Na tarde erramos,
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.
Discreto calo,
Pra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.
Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Sòmente em mim
Pensasses.
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.
Discreto calo,
Pra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.
Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Sòmente em mim
Pensasses.
1 856
Sebastião Corrêa
Homem
Quantos milhões de séculos viveste?
A Atlântida esqueceste, e, hoje, andas triste,
Comungando a ilusão que não pediste,
Na sentença da dor que mereceste!
Como aquele filósofo ateniense,
Interrogas as tímidas estrelas...
Para quê? — ninguém sabe compreendê-las.
Vence a luz a distância; e o homem, que vence?
Que me dirás das lâmpadas divinas?
— meu vendedor de lágrimas, das ruínas
Do teu sonho forjaste um pensamento!
E andas pálido e triste, procurando
O que há milênios vem te acompanhando:
A vida — abençoado sofrimento!
A Atlântida esqueceste, e, hoje, andas triste,
Comungando a ilusão que não pediste,
Na sentença da dor que mereceste!
Como aquele filósofo ateniense,
Interrogas as tímidas estrelas...
Para quê? — ninguém sabe compreendê-las.
Vence a luz a distância; e o homem, que vence?
Que me dirás das lâmpadas divinas?
— meu vendedor de lágrimas, das ruínas
Do teu sonho forjaste um pensamento!
E andas pálido e triste, procurando
O que há milênios vem te acompanhando:
A vida — abençoado sofrimento!
830
Taumaturgo Vaz
Minha Madrinha
Aqui na terra, desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
1 417
Reinaldo Ferreira
Agora o céu não é das aves
Agora o céu não é das aves,
Agora o mar não é dos peixes!
Desabam tectos, quebram-se as traves,
Tu não me deixes, tu não me deixes!
Olha que o Tempo sua os segundos
No manicómio da Eternidade!
Estoiram os astros, chocam-se os mundos.
Tu não me deixes, por piedade!
Repara a hora como endoidece,
Como acelera, como recua.
Eu tenho a culpa do que acontece,
Mas, se me deixas, a culpa é tua.
Agora o mar não é dos peixes!
Desabam tectos, quebram-se as traves,
Tu não me deixes, tu não me deixes!
Olha que o Tempo sua os segundos
No manicómio da Eternidade!
Estoiram os astros, chocam-se os mundos.
Tu não me deixes, por piedade!
Repara a hora como endoidece,
Como acelera, como recua.
Eu tenho a culpa do que acontece,
Mas, se me deixas, a culpa é tua.
2 230
Reinaldo Ferreira
Componho para a hora em que for lido
Componho para a hora em que for lido,
Para aquela, entre todas improvável,
Em que, estando eu já morto e já esquecido,
O que escrevo for póstumo e for estável.
Componho com receio do desdoiro
De quem sonho hei-de ser. Fito o futuro.
O que é grosseiro em mim, eu o apuro,
O que é vago e banal, o pulo e doiro.
Para aquela, entre todas improvável,
Em que, estando eu já morto e já esquecido,
O que escrevo for póstumo e for estável.
Componho com receio do desdoiro
De quem sonho hei-de ser. Fito o futuro.
O que é grosseiro em mim, eu o apuro,
O que é vago e banal, o pulo e doiro.
1 398
Reinaldo Ferreira
Os Profetas
Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.
1 884
Raul Machado
Póstuma
Noite fechada, lúgubre, sombria.
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
1 664
Rogério Bessa
Do Canto VII:
Viagem de Retorno e Reencontro de SI, Seu Lenitivo:
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
992
Rogério Bessa
Do Canto VIII:
O Cabo das Tormentas:
Minúsculos Adamastores e um Mundo Coberto de Pó
nesses olhos me revejo
na eterna insônia das noites,
giz me descreve letárgico
mundo coberto de pó.
povoe-me sonhos em sono,
mas não constitua herança,
pavana, espelho ou ocaso
aos olhos dessa criança.
momentos tredos e ledos
apascentam o giz nutriz
que me seduz como fora
trevo enredo ou flor-de-lis.
Minúsculos Adamastores e um Mundo Coberto de Pó
nesses olhos me revejo
na eterna insônia das noites,
giz me descreve letárgico
mundo coberto de pó.
povoe-me sonhos em sono,
mas não constitua herança,
pavana, espelho ou ocaso
aos olhos dessa criança.
momentos tredos e ledos
apascentam o giz nutriz
que me seduz como fora
trevo enredo ou flor-de-lis.
876
Rogério Bessa
Do Canto III:
Onomatopéia e Cibernética; Orbitas do Homem:
Sua Aurora e Seu Ocaso
no princípio, não era o homem,
antes sonossexo, depois vigília,
o não-sono das coisas.
madrugada sono e sonho
com a descoberta de si,
fecha-se ao vir das sombras
e se despe homem vassalo
de sua mesma contextura
qual ode passada a limpo.
Sua Aurora e Seu Ocaso
no princípio, não era o homem,
antes sonossexo, depois vigília,
o não-sono das coisas.
madrugada sono e sonho
com a descoberta de si,
fecha-se ao vir das sombras
e se despe homem vassalo
de sua mesma contextura
qual ode passada a limpo.
918
Raul Machado
Céu do Brasil
Praz-me ver este céu que em palpitante messe
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
1 097
Raimundo Fontenele
O Cavalo das Horas
era um cavalo negro sem tamanho
no prado sul do mundo onde corria
o sangue dos ginetes destroçados
era um cavalo grosso reluzente
varando espaços fortes velozmente
tangido a um prado e a outro sempre-sempre
era um cavalo branco frio mudo
em cujos olhos crianças se atiravam
na sela da manhã no chão no limbo
era um cavalo horáculo fogoso
sustentando o peito três medalhas
de heróis tombados sobre o véu do muro
era um cavalo azul de tanto medo
de patas farejando o firmamento
onde pessoas e prantos misturaram-se
era um cavalo verde só de sono
que carregava os tristes para um outro
campo de plantação devasso / puro
era um cavalo novo nova idade
secular instrumento da discórdia
que não subia ao céu nem ia à terra
no prado sul do mundo onde corria
o sangue dos ginetes destroçados
era um cavalo grosso reluzente
varando espaços fortes velozmente
tangido a um prado e a outro sempre-sempre
era um cavalo branco frio mudo
em cujos olhos crianças se atiravam
na sela da manhã no chão no limbo
era um cavalo horáculo fogoso
sustentando o peito três medalhas
de heróis tombados sobre o véu do muro
era um cavalo azul de tanto medo
de patas farejando o firmamento
onde pessoas e prantos misturaram-se
era um cavalo verde só de sono
que carregava os tristes para um outro
campo de plantação devasso / puro
era um cavalo novo nova idade
secular instrumento da discórdia
que não subia ao céu nem ia à terra
978
Renato Castelo Branco
Retorno
Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.
Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.
Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.
Um dia eu serei
o que já fui.
e de meu seio brotarão
flores agrestes.
Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.
Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.
Um dia eu serei
o que já fui.
1 686
Ricardo Gonçalves
O Batuque
Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
1 066
Nana Corrêa de Lima
Medo
Medo
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
879
Rogério Bessa
Redescoberta de Orfeu ou O Mundo Nunca Encontrado
Do Canto I:
Prólogo Menos
lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.
sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.
grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.
Prólogo Menos
lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.
sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.
grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.
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Nelson Motta
Dados Sobre um Lance
um lance do acaso
não abolirá jamais
o amor dado,
dizia o mallarmado.
4 de 8
mar morto
sol posto
teu rosto
meu porto
identidade perigosa
por ser eu a sua
e você(no fundo e dentro)
a minha cara,
o nosso drama
e nossa irônica aventura rara:
o tanto que nos une
é o mesmo que nos separa.
não abolirá jamais
o amor dado,
dizia o mallarmado.
4 de 8
mar morto
sol posto
teu rosto
meu porto
identidade perigosa
por ser eu a sua
e você(no fundo e dentro)
a minha cara,
o nosso drama
e nossa irônica aventura rara:
o tanto que nos une
é o mesmo que nos separa.
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