Lista de Poemas

A Cisma do Caboclo

A Valdomiro Silveira


Cisma o cabloco à porta da cabana.
Declina o sol, mas, rúbido, espadana
Ondas fulvas de luz.
No terreiro, entre espigas debulhadas,
Arrulham, perseguindo-se a bicadas,
Dois casais de pombinhos parirús.

A criação de penas se empoleira;
Come a ração no cocho da mangueira
Um velho pangaré.
E uma vaca leiteira e bois de carro
Pastam junto à casinha, que é de barro,
Coberta de sapé.

Longe, uma tropa trota pela estrada.
E a viração das matas, impregnada
De perfumes sutis,
Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade
O soturno queixume de saudade
Das pombas juritis.

Cisma o cabloco. Pensa na morena
Que vira numa noite de novena
Orando ao pé do altar.
Que vira... e que, por mal de seus pecados,
Tinha os olhos profundos e rasgados
E um riso de matar.

Branco, de fofos, era o seu vestido.
E ele, ao vê-la, sentindo-se ferido
Em pleno coração,
Baixinho suspirou: "Nossa Senhora!
Ai, meu São Bom Jesus de Pirapora
Da minha devoção!"

Depois não se conteve e, num fandango
Furtou-lhe um beijo aos lábios de morango
O diabo do rapaz.
E ela volveu zangada: "Malcriado!
Seu vigário já disse que é pecado.
Aquilo não se faz!..."

E o caboclo medita. O sol em chama
Como agora há pouquinho não derrama
Ondas fulvas de luz.
O corrego soluça, a noite desce,
E vem dos capoeirões onde anoitece
O trilo vesperal dos inambús.


In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
3 119

Fazenda Velha

Neste retiro os longos dias passo,
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.

Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.

A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.

Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.

Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.

Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.

E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.


In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 392

O Batuque

Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.

O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.

Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...

Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.


In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 012

Serão

Noite; silêncio lúgubre e completo.
No rancho de paredes barreadas,
Uma velha caipira conta ao neto
Coisa de assombração e almas penadas.

Correm as lagartixas pelo teto,
E o pequeno, as pupilas dilatadas,
Ouve a história macabra do esqueleto,
Que foi visto a dançar pelas estradas.

Na rede, os olhos fitos na fogueira,
Uma bela morena feiticeira
Sonha com sapateados e fandangos.

Mas a velha se cala de repente,
Porque lá fora ouviu, distintamente,
Um soturno queixume de curiangos.


In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 115

Aquarela

A casa onde mora aquela
Menina cor de açucena,
É uma casinha pequena,
Casa de porta e janela.

Tão pequenina e singela!
Ao vê-la, a idéia me acena
De quebrar o bico à pena
E fazer uma aquarela.

Pintar a casa, a colina
Mas sobretudo a menina,
O ar sossegado e feliz,

Dando relevo à pintura,
Numa ridente moldura
De cravos e bogaris.


In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 956

O Batuque

Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.

O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.

Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...

Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.

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Identificação e contexto básico

Ricardo Gonçalves é um poeta português. O contexto histórico em que viveu e produziu está ligado às últimas décadas do século XX e ao início do século XXI, um período de significativas transformações sociais, culturais e tecnológicas em Portugal e no mundo.

Infância e formação

A infância e formação de Ricardo Gonçalves ocorreram num contexto que provavelmente o expôs a diversas influências culturais e literárias. A educação formal terá desempenhado um papel no desenvolvimento do seu interesse pela escrita e pela poesia, possivelmente complementada por um percurso de autodidatismo e leituras diversificadas que moldaram a sua sensibilidade.

Percurso literário

O percurso literário de Ricardo Gonçalves terá sido marcado pelo desenvolvimento gradual de um estilo poético próprio. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, explorando diferentes facetas temáticas e formais. A publicação em antologias e a participação em eventos literários são formas comuns de dar visibilidade a poetas emergentes e estabelecidos, o que pode ter sido parte da sua trajetória.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ricardo Gonçalves caracteriza-se pela introspeção e pela reflexão sobre temas como a memória, o tempo, a identidade e a condição humana. Utiliza uma linguagem cuidada, com uma densidade imagética que convida à contemplação. O tom da sua poesia tende a ser lírico e reflexivo, explorando a voz poética de forma pessoal, mas com ressonâncias universais. O seu estilo pode ser associado a uma sensibilidade contemporânea que dialoga com a tradição, mas sem se prender a formalismos rígidos, privilegiando a expressividade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Inserido no contexto cultural português recente, Ricardo Gonçalves partilha com outros escritores contemporâneos a preocupação com questões existenciais e sociais. A sua obra reflete, de alguma forma, o espírito da sua geração e os debates culturais em curso, embora a sua poesia se concentre, em grande medida, no universo interior e na exploração da subjetividade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Ricardo Gonçalves, como relações familiares, amizades, crises pessoais, profissões ou crenças, não são amplamente divulgadas em fontes públicas, o que é comum para muitos poetas que preferem manter o foco na sua obra literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento e a receção da obra de Ricardo Gonçalves ocorrem no circuito literário contemporâneo, onde a sua poesia é apreciada pela sua qualidade estética e profundidade temática. Embora possa não ter alcançado fama massiva, a sua obra é valorizada por leitores e críticos que buscam uma poesia reflexiva e bem trabalhada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Ricardo Gonçalves podem abranger uma vasta gama de poetas da tradição literária portuguesa e universal, bem como autores contemporâneos. O seu legado reside na contribuição para a poesia portuguesa contemporânea, enriquecendo-a com a sua perspetiva única sobre os temas que aborda e pela qualidade da sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Ricardo Gonçalves oferece múltiplas vias de interpretação, convidando o leitor a mergulhar em reflexões sobre a existência, a passagem do tempo e a construção do eu. A análise crítica pode focar-se na forma como ele utiliza a linguagem para expressar estados de alma complexos e nas suas incursões por temas filosóficos e existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos curiosos sobre Ricardo Gonçalves ou sobre os seus hábitos de escrita e o seu processo criativo podem não estar publicamente disponíveis, uma vez que a sua figura pública está primordialmente associada à sua obra literária. A sua dedicação à poesia sugere um interesse profundo pela arte da palavra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ricardo Gonçalves encontra-se vivo e em atividade literária, pelo que não há informações sobre morte e memória póstuma.