Poemas neste tema
Alma
Sá Júnior
Partes
As asas partem
sem as partes do
seu corpo/pássaro.
Voam debruçadas
no flerte do ar.
O corpo/pássaro
sem as suas partes
não vai no vôo:
apenas voa...
sem as partes do
seu corpo/pássaro.
Voam debruçadas
no flerte do ar.
O corpo/pássaro
sem as suas partes
não vai no vôo:
apenas voa...
1 007
Ruy Pereira e Alvim
Manifesto 2 - Contra o Medo e a Dúvida
Parto em segredo.
Descubro - horas mortas -
no meu Reino, o medo
e a vigília absorta
na dúvida,
que tarde ou cedo,
bate à minha porta!
Descubro - horas mortas -
no meu Reino, o medo
e a vigília absorta
na dúvida,
que tarde ou cedo,
bate à minha porta!
888
Ruy Pereira e Alvim
Monólogo em Noite sem Estrelas
Da pátria chegam as noites
como semáforos vermelhos
a interromper o caminho
por onde me afoito.
E o jogo de palavras
percorre o tempo
à procura de um sonho entorpecido.
O continente esvazia-se
e flutua sobre pélagos
gelados:
só contém loucura
e sonhos sufocados.
Emergem estranhos arquipélagos
de um estranho rito
de anjos mascarados.
As estrelas apagam suas luzes
e o céu dorme às escuras
na longa noite sem poemas.
como semáforos vermelhos
a interromper o caminho
por onde me afoito.
E o jogo de palavras
percorre o tempo
à procura de um sonho entorpecido.
O continente esvazia-se
e flutua sobre pélagos
gelados:
só contém loucura
e sonhos sufocados.
Emergem estranhos arquipélagos
de um estranho rito
de anjos mascarados.
As estrelas apagam suas luzes
e o céu dorme às escuras
na longa noite sem poemas.
877
Ruy Pereira e Alvim
Acto de Contrição
Não tenho direito à prece,
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
1 035
Renato Russo
Mil Pedaços
Eu não perdi
E mesmo assim você me abandonou
Você quis partir
E agora estou sozinho
Mas vou me acostumar
Com o silêncio em casa
om um prato só na mesa
Eu não me perdi
O Sândalo perfuma
O machado que feriu
Adeus adeus
Adeus meu grande amor
E tanto faz
De tudo o que ficou
Guardo um retrato teu
E a saudade mais bonita
Eu não me perdi
E mesmo assim ninguém te perdoou
Pobre coração - quando o teu
Estava comigo era tão bom.
Não sei por quê
Acontece assim e é sem querer
O que não era pra ser:
Vou fugir dessa dor.
Meu amor, se quiseres voltar - volta não
Porque me quebraste em mil pedaços.
E mesmo assim você me abandonou
Você quis partir
E agora estou sozinho
Mas vou me acostumar
Com o silêncio em casa
om um prato só na mesa
Eu não me perdi
O Sândalo perfuma
O machado que feriu
Adeus adeus
Adeus meu grande amor
E tanto faz
De tudo o que ficou
Guardo um retrato teu
E a saudade mais bonita
Eu não me perdi
E mesmo assim ninguém te perdoou
Pobre coração - quando o teu
Estava comigo era tão bom.
Não sei por quê
Acontece assim e é sem querer
O que não era pra ser:
Vou fugir dessa dor.
Meu amor, se quiseres voltar - volta não
Porque me quebraste em mil pedaços.
1 576
Ruy Pereira e Alvim
Cada esperança é uma estrela
Com um gesto
ou um risco
muda a geografia
muda o leito do rio
e o destino é cisco
que flutua
nas águas represadas.
Não grito nem resisto.
Minha voz cansada
flutua no ar,
abafada
pela multidão
solidária
que me devolve a solidão
das noites sem destino.
No meu universo de exilados
cada esperança é uma estrela
solitária
que precede os três Reis Magos.
ou um risco
muda a geografia
muda o leito do rio
e o destino é cisco
que flutua
nas águas represadas.
Não grito nem resisto.
Minha voz cansada
flutua no ar,
abafada
pela multidão
solidária
que me devolve a solidão
das noites sem destino.
No meu universo de exilados
cada esperança é uma estrela
solitária
que precede os três Reis Magos.
888
Ruy Pereira e Alvim
Viagem de Reconhecimento
Procuro-me convicto
na luxúria tropical.
No corpo líquido
de minhas odisséias
no cerne de meu habitat
vegetal.
E só encontro areias,
arestas e restos de epopéias,
e velhos guerreiros
amarrados às ameias
de meus sonhos jovens de cristal.
na luxúria tropical.
No corpo líquido
de minhas odisséias
no cerne de meu habitat
vegetal.
E só encontro areias,
arestas e restos de epopéias,
e velhos guerreiros
amarrados às ameias
de meus sonhos jovens de cristal.
874
Renato Russo
1ordm de Julho
Eu vejo que aprendi o quanto te ensinei
E nos teus braços que ele vai saber
Não há porque voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez
O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que guardei pra ti
Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Já que nào me entendes, não me julgues, não me tente
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e milha filha, minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e nào de quem quiser
Sou Deus, tua Deusa, meu amor
Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração
Baby, baby, baby, baby
O que fazes por sonhar
É o mundo que virá pra ti e para mim
Vamos juntos descobrir o mundo juntos baby
Quero aprender com teu pequeno grande coração
Meu amor, meu amor
Baby
E nos teus braços que ele vai saber
Não há porque voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez
O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que guardei pra ti
Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Já que nào me entendes, não me julgues, não me tente
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e milha filha, minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e nào de quem quiser
Sou Deus, tua Deusa, meu amor
Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração
Baby, baby, baby, baby
O que fazes por sonhar
É o mundo que virá pra ti e para mim
Vamos juntos descobrir o mundo juntos baby
Quero aprender com teu pequeno grande coração
Meu amor, meu amor
Baby
1 108
Sá Júnior
Bar Público
Os rumos desses sons
lampejam sonoras tempestades em mim.
Aqui neste canto de bar,
teço minha líquida esperança.
Ao término do milésimo chope,
o amor e outras sensações naturais
tornam-se fuscos e distantes.
A música (eu sinto) sai lá de dentro dos olhos,
dos dedos, da emoção do cantor.
Bebo vagarosamente toda a ilusão
diluída no leve álcool do chope.
As luzes galvanizam meu último sopro
de pessoa intacta e lúcida.
A música devora a timidez do cantor.
O álcool dissimula a minha.
As pessoas presentes e tão distantes
fazem coro com meu choro e riso.
A quase-embriaguez já me controla:
levanto exasperadamente a voz
e não mais sequer controlo
a inútil pantomima dos gestos...
Os rumos desses sons
sugerem coisas que minha parca lucidez
não logrará encontrar em esquina alguma.
Aqui neste canto de bar
o líquido veloz do chope
projeta um filme sem fim...
lampejam sonoras tempestades em mim.
Aqui neste canto de bar,
teço minha líquida esperança.
Ao término do milésimo chope,
o amor e outras sensações naturais
tornam-se fuscos e distantes.
A música (eu sinto) sai lá de dentro dos olhos,
dos dedos, da emoção do cantor.
Bebo vagarosamente toda a ilusão
diluída no leve álcool do chope.
As luzes galvanizam meu último sopro
de pessoa intacta e lúcida.
A música devora a timidez do cantor.
O álcool dissimula a minha.
As pessoas presentes e tão distantes
fazem coro com meu choro e riso.
A quase-embriaguez já me controla:
levanto exasperadamente a voz
e não mais sequer controlo
a inútil pantomima dos gestos...
Os rumos desses sons
sugerem coisas que minha parca lucidez
não logrará encontrar em esquina alguma.
Aqui neste canto de bar
o líquido veloz do chope
projeta um filme sem fim...
954
Elíude Viana
Imigrante
Dos teus pés
a areia e o sal
misturam-se à água doce
em que me banho.
Chegas,
pedes paragem:
- Entra,
minha casa
não tem portas.
Atravessas-me as fronteiras...
Somes
por dentro de mim
rompendo-me a calma
e a disciplina.
a areia e o sal
misturam-se à água doce
em que me banho.
Chegas,
pedes paragem:
- Entra,
minha casa
não tem portas.
Atravessas-me as fronteiras...
Somes
por dentro de mim
rompendo-me a calma
e a disciplina.
1 059
Ruy Pereira e Alvim
Cidade Nua
Convulsa verdade
flutua no ar frio
da cidade avulsa.
A cidade ulula
sob a verdade
que não é sua...
A alma nua
largou o corpo
ocioso na rua
a chapinhar
na água da chuva.
É água suja,
condensa e resídua
verdade
que flutua
sobre a cidade
crua.
flutua no ar frio
da cidade avulsa.
A cidade ulula
sob a verdade
que não é sua...
A alma nua
largou o corpo
ocioso na rua
a chapinhar
na água da chuva.
É água suja,
condensa e resídua
verdade
que flutua
sobre a cidade
crua.
866
Renato Russo
Quando Você Voltar
Vai, se você precisa ir
Não quero mais brigar esta noite
Nossas acusações infantis
E palavras mordazes que machucam tanto
Não vão levar a nada, como sempre
Vai, clareia um pouco a cabeça
Já que você não quer conversar.
Já brigamos tanto mas não vale a pena
Vou ficar aqui, com um bom livro ou com a TV
Sei que existe alguma coisa incomodando você
Meu amor, cuidado na estrada
E quando você voltar
Tranque o portão
Feche as janelas
Apague a luz
E saiba que te amo
Não quero mais brigar esta noite
Nossas acusações infantis
E palavras mordazes que machucam tanto
Não vão levar a nada, como sempre
Vai, clareia um pouco a cabeça
Já que você não quer conversar.
Já brigamos tanto mas não vale a pena
Vou ficar aqui, com um bom livro ou com a TV
Sei que existe alguma coisa incomodando você
Meu amor, cuidado na estrada
E quando você voltar
Tranque o portão
Feche as janelas
Apague a luz
E saiba que te amo
1 658
Ruy Pereira e Alvim
Sou Náufrago Solitário
Não vejo,
não ouço,
não sinto.
Sou cálice de absinto
bebido no meu naufrágio...
Horas para sonhar
tempo sem dimensão...
Não vejo,
não ouço,
não sinto.
E com certeza não minto
ao cantar minha evasão!...
Sou náufrago solitário
na ilha da solidão...
não ouço,
não sinto.
Sou cálice de absinto
bebido no meu naufrágio...
Horas para sonhar
tempo sem dimensão...
Não vejo,
não ouço,
não sinto.
E com certeza não minto
ao cantar minha evasão!...
Sou náufrago solitário
na ilha da solidão...
795
Saulo Mendonça
Poema Diante de Augusto dos Anjos
Explodem visceras de ferro e força
no corpo magro, parado e surdo
à sombra de sua dramática solidão.
Abro infinitamente o compacto bronze
com meus olhos nus e serenados
olhando o mistério triste e amargo
no vertical denso que o guarda.
Na fisionomia inflexível
sua onipresença se estende
o mecanismo da fala muda
canta no imóvel magicamente.
E no cérebro duro de férreas substâncias
sua individualidade retorna.
O hermetismo de estanho e bronze
se plasma na poesia eterna que balbucia.
Absorvo o peito tremido de Augusto
fitando sua dor exclamativa.
Rasgam-se vôos doloridos
de sua fala quieta e explosiva.
A imagem sórdida da morte se sucumbe
e eu o vejo falar, ainda vivo
no seu íntimo silêncio de bronze.
no corpo magro, parado e surdo
à sombra de sua dramática solidão.
Abro infinitamente o compacto bronze
com meus olhos nus e serenados
olhando o mistério triste e amargo
no vertical denso que o guarda.
Na fisionomia inflexível
sua onipresença se estende
o mecanismo da fala muda
canta no imóvel magicamente.
E no cérebro duro de férreas substâncias
sua individualidade retorna.
O hermetismo de estanho e bronze
se plasma na poesia eterna que balbucia.
Absorvo o peito tremido de Augusto
fitando sua dor exclamativa.
Rasgam-se vôos doloridos
de sua fala quieta e explosiva.
A imagem sórdida da morte se sucumbe
e eu o vejo falar, ainda vivo
no seu íntimo silêncio de bronze.
1 088
Elíude Viana
Duas Velas
Levo o infortúnio de não ter
- como os relógios -
horas eternas...
Nem a felicidade
que têm os faróis
de ficar à deriva, indefinidamente...
Sou uma Embarcação
- atracada -
querendo voar com as gaivotas.
- como os relógios -
horas eternas...
Nem a felicidade
que têm os faróis
de ficar à deriva, indefinidamente...
Sou uma Embarcação
- atracada -
querendo voar com as gaivotas.
1 037
Ruy Pereira e Alvim
Desencanto
Eu canto o canto
do meu desencanto.
Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.
E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.
Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.
do meu desencanto.
Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.
E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.
Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.
988
Ruy Pereira e Alvim
Manifesto 3 - Contra o Número
Qualquer lugar
é destino
para quem não quer ficar.
Eu vou
porque estou cansado de esperar
nesta indiferença.
Alquimia de esperança
que vem da fé
que me conforma
e que adoça e amansa
a alma do guerreiro
dividida
entre a renúncia e a lança!...
Vou, porque não suporto
o hálito podre que exala
do respirar colectivo da Cidade
e do sonho frustrado
que a embala.
Vou, porque tudo é vulgaridade.
Vou, porque se eu protestar
será contra a Humanidade.
E ela é número
e ela é erro
em quantidade...
Ela é maioria
ela é a "Cidade"!...
em sua soberana fantasia.
E eu não suporto o desterro
de ser vivo em minoria...
Eu vou porque não quero ser número
à esquerda ou à direita
deste silencioso túmulo
colectivo, uniforme, inseguro.
De ferro frio, como o aço
da lança que eu não uso...
é destino
para quem não quer ficar.
Eu vou
porque estou cansado de esperar
nesta indiferença.
Alquimia de esperança
que vem da fé
que me conforma
e que adoça e amansa
a alma do guerreiro
dividida
entre a renúncia e a lança!...
Vou, porque não suporto
o hálito podre que exala
do respirar colectivo da Cidade
e do sonho frustrado
que a embala.
Vou, porque tudo é vulgaridade.
Vou, porque se eu protestar
será contra a Humanidade.
E ela é número
e ela é erro
em quantidade...
Ela é maioria
ela é a "Cidade"!...
em sua soberana fantasia.
E eu não suporto o desterro
de ser vivo em minoria...
Eu vou porque não quero ser número
à esquerda ou à direita
deste silencioso túmulo
colectivo, uniforme, inseguro.
De ferro frio, como o aço
da lança que eu não uso...
928
Renato Russo
Longe Do Meu Lado
Se a paixão fosse realmente um bálsamo
O mundo não pareceria tão equivocado
Te dou carinho, respeito e um afago
Mas entenda, eu não estou apaixonado
A paixão já passou em minha vida
Foi até bom mas ao final deu tudo errado
E agora carrego em mim
Uma dor trsite, um coração cicatrizado
E olha que tentei o meu caminho
Mas tudo agora é coisa do passado
Quero respeito e sempre ter alguém
Que me entenda e fique sempre a meu lado
Mas não, não quero estar apaixonado
A paixão quer sangue e corações arruinados
E suade é só mágoa por ter sido
Feito tanto estrago
E essa escravidão e essa dor não quero mais
Quando acreditei que tudo era um fato consumado
Veio a foice e jogou-te longe
Longe do meu lado
Não estou mais pronto para lágrimas
Podemos ficar junto e vivermos
O futuro, não o passado
Veja o nosso mundo
Eu também sei que dizem
Que não existe amor errado
Mas entenda, não quero estar apaixonado
O mundo não pareceria tão equivocado
Te dou carinho, respeito e um afago
Mas entenda, eu não estou apaixonado
A paixão já passou em minha vida
Foi até bom mas ao final deu tudo errado
E agora carrego em mim
Uma dor trsite, um coração cicatrizado
E olha que tentei o meu caminho
Mas tudo agora é coisa do passado
Quero respeito e sempre ter alguém
Que me entenda e fique sempre a meu lado
Mas não, não quero estar apaixonado
A paixão quer sangue e corações arruinados
E suade é só mágoa por ter sido
Feito tanto estrago
E essa escravidão e essa dor não quero mais
Quando acreditei que tudo era um fato consumado
Veio a foice e jogou-te longe
Longe do meu lado
Não estou mais pronto para lágrimas
Podemos ficar junto e vivermos
O futuro, não o passado
Veja o nosso mundo
Eu também sei que dizem
Que não existe amor errado
Mas entenda, não quero estar apaixonado
1 525
Renato Russo
Soul Parsifal
Ninguém pode dizer o que sentir
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim
1 441
Ruy Pereira e Alvim
Carta Aberta ao Homem Novo
Irmão que não conheço
e a quem não peço
a identidade.
Homem de qualquer cidade
a tua cor desconheço
e não peço a tua condição.
Procuro na palavra exacta
a ponte em que atravesso
o abismo da indeferença
que nos separa
em margens sem acesso.
Procuro no olhar adverso
o espaço, a nesga aberta
no teu coração hermético
para apoiar meu verso.
e a quem não peço
a identidade.
Homem de qualquer cidade
a tua cor desconheço
e não peço a tua condição.
Procuro na palavra exacta
a ponte em que atravesso
o abismo da indeferença
que nos separa
em margens sem acesso.
Procuro no olhar adverso
o espaço, a nesga aberta
no teu coração hermético
para apoiar meu verso.
968
Ruy Ventura
Chuvas no Alentejo
chuva no poema
noite ardida a flutuar na rua
— o espaço do último sangue
estranha geometria
pontuação que se fecha sobre o tempo
como quem colhe na tarde
o fermentou que restou
de uma vírgula ou insecto
vírgula no poema aguaceiro
forte acolhendo a sombra
que do retrato o rosto faz
cair
pouco importa o vento
que vem das velhas fotografias
ou nas cartas que se não abriram
só importa a chuva
aceite entre duas sílabas
como um pássaro ou um livro
noite ardida a flutuar na rua
— o espaço do último sangue
estranha geometria
pontuação que se fecha sobre o tempo
como quem colhe na tarde
o fermentou que restou
de uma vírgula ou insecto
vírgula no poema aguaceiro
forte acolhendo a sombra
que do retrato o rosto faz
cair
pouco importa o vento
que vem das velhas fotografias
ou nas cartas que se não abriram
só importa a chuva
aceite entre duas sílabas
como um pássaro ou um livro
417
Renato Russo
Música Ambiente
Se um dia fores embora
Te amarei bem mais do que esta hora
Me lembrarei de tudo que eu não disse
E de quando havia tudo que existe
Quando choramos abraçados
E caminhamos lado a lado
Por favor amor me acredite
Não há palavras para explicar o que eu sinto
Mesmo que tenhamos planejado
Um caminho diferente
Tenho mais do que eu preciso
Estar contigo é o bastante.
Certas coisas de todo dia
Nos trazem a alegria
De caminharmos juntos lado a lado por amor.
E quando eu for embora
Não, não chore por mim.
Te amarei bem mais do que esta hora
Me lembrarei de tudo que eu não disse
E de quando havia tudo que existe
Quando choramos abraçados
E caminhamos lado a lado
Por favor amor me acredite
Não há palavras para explicar o que eu sinto
Mesmo que tenhamos planejado
Um caminho diferente
Tenho mais do que eu preciso
Estar contigo é o bastante.
Certas coisas de todo dia
Nos trazem a alegria
De caminharmos juntos lado a lado por amor.
E quando eu for embora
Não, não chore por mim.
1 318
Sá Júnior
Ao Vivo e a Cores
A solidez da mensagem poética
desistimula minha dor e as possibilidades
da poesia vencem meu insistente cansaço.
A liquidez das palavras
me prova que a poesia
é uma coisa bem sólida.
Poemas são náuseas cotidianas,
engarrafamentos, greves,
trágicas touradas de Espanha,
afogados em Copacabana
e em outras tantas partes do mundo.
A gigantesca sede de vitória
é muito mais que metafísica:
engulo pílulas e pílulas do sucesso,
assisto diuturnamente às coisas da tevê.
Balizo meus passos e meus gestos
ao padrão ideal da propaganda.
Meus dedos tremulam no compasso
das bandeiras das naves de guerra
e em uníssono com os gritos
das torcidas extáticas.
Meu coração dispara com os beijos das novelas.
Meu pensamento não precisa mais agir:
rios de instruções fonéticas
me chegam desordenadamente à porta.
A hipnotizante velocidade urbana
escapou dos olhos das ruas
e eletriza a multidão disforme.
A tecnologia tenta engavetar as palavras,
mas sua liquidez escorre incontrolavelmente
dos dedos, dos olhos, das privações do povo,
das meretrizes com seus noturnos hematomas.
A liquidez das palavras
inunda avenidas, impulsiona multidões,
impregnando nas coisas modernas
o sopro e a necessária
gravidez sonora do poema.
desistimula minha dor e as possibilidades
da poesia vencem meu insistente cansaço.
A liquidez das palavras
me prova que a poesia
é uma coisa bem sólida.
Poemas são náuseas cotidianas,
engarrafamentos, greves,
trágicas touradas de Espanha,
afogados em Copacabana
e em outras tantas partes do mundo.
A gigantesca sede de vitória
é muito mais que metafísica:
engulo pílulas e pílulas do sucesso,
assisto diuturnamente às coisas da tevê.
Balizo meus passos e meus gestos
ao padrão ideal da propaganda.
Meus dedos tremulam no compasso
das bandeiras das naves de guerra
e em uníssono com os gritos
das torcidas extáticas.
Meu coração dispara com os beijos das novelas.
Meu pensamento não precisa mais agir:
rios de instruções fonéticas
me chegam desordenadamente à porta.
A hipnotizante velocidade urbana
escapou dos olhos das ruas
e eletriza a multidão disforme.
A tecnologia tenta engavetar as palavras,
mas sua liquidez escorre incontrolavelmente
dos dedos, dos olhos, das privações do povo,
das meretrizes com seus noturnos hematomas.
A liquidez das palavras
inunda avenidas, impulsiona multidões,
impregnando nas coisas modernas
o sopro e a necessária
gravidez sonora do poema.
817
Ruy Pereira e Alvim
Novíssimas Catacumbas
No fundo da vida
há vida diferente.
Há gente que sente
carência de amor.
Há gente que mente
para não se humilhar.
Há gente perdida
para não se encontrar.
Há gente que pede
para ser esquecida.
Há gente em silêncio
por ser oprimida.
Há gente que sofre
por ser esquecida.
Há gente sem nome
há gente escondida.
No fundo da vida
há vida ... também!...
há vida diferente.
Há gente que sente
carência de amor.
Há gente que mente
para não se humilhar.
Há gente perdida
para não se encontrar.
Há gente que pede
para ser esquecida.
Há gente em silêncio
por ser oprimida.
Há gente que sofre
por ser esquecida.
Há gente sem nome
há gente escondida.
No fundo da vida
há vida ... também!...
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