Lista de Poemas

Momento Inefável

Leio numa biblioteca pública.
Pessoas riem alegres.
Um mapa do mundo
geografiza-me no presente da vida.
(Distantes de nós mesmos!)
O momento é mágico
e as horas indecisas.

Imerso em palavras,
meu corpo evapora vontades nas sílabas,
meus olhos enfurecem-se nos sons dos vocábulos.

Leio.
Amo em demasia
essa ação descontínua.
A corda rompe do lado forte.
A bomba por mais que se queira jamais explode!

Leio.
A vida prolonga-se em cenas suaves.
Palavras constroem ações.
Sóis rompem regras e regulamentos
e outros tantos astros danificam irremediavelmente todas as leis.

Leio.
As sugestões das palavras
não me enganam pantomimicamente.
Insuflam em mim a mais natural e poderosa emoção.

Leio,
bebendo soluços e lágrimas.
A luz entra nitidamente pelas janelas...
As pessoas pensam, falam e ouvem com atenção.

1 455

Partes

As asas partem
sem as partes do
seu corpo/pássaro.
Voam debruçadas
no flerte do ar.

O corpo/pássaro
sem as suas partes
não vai no vôo:
apenas voa...

970

Cinema Transcendental

Estou à janela
do fim de ano
pela enésima vez.
Meu coração dispara,
pensa coisas felizes.

O mundo passa
de mãos dadas com a justiça e a verdade.
Os homens irmanaram-se
num ritual de procura e discernimento.

Em toda parte,
distribuem-se abraços
a todos sem a menor distinção.

Sorrio com prazer
às pessoas com quem encontro,
e trocamos sinceras palavras
de ânimo e de graça.
Nossos anseios se encontram
e nossos gestos se completam,
num natural compromisso
de jamais querer tapear alguém.

Presencio a enésima
passagem de ano.
E mais uma vez
assisto
a esse filme tão distante...

736

Disputa Literária

Anunciam um concurso,
e um poema novo
tem que me nascer.

Aflora-me uma oportunidade
de compor um poema industrial,
com data, finalidade e número de série.

A proposta me insinua
vantajosa e fácil,
e nem minha emoção
pondera o peso
de tamanha aventura.

A disputa literária
que espere meus olhos
lacrimejarem na próxima esquina...

792

Ao Vivo e a Cores

A solidez da mensagem poética
desistimula minha dor e as possibilidades
da poesia vencem meu insistente cansaço.

A liquidez das palavras
me prova que a poesia
é uma coisa bem sólida.
Poemas são náuseas cotidianas,
engarrafamentos, greves,
trágicas touradas de Espanha,
afogados em Copacabana
e em outras tantas partes do mundo.

A gigantesca sede de vitória
é muito mais que metafísica:
engulo pílulas e pílulas do sucesso,
assisto diuturnamente às coisas da tevê.
Balizo meus passos e meus gestos
ao padrão ideal da propaganda.
Meus dedos tremulam no compasso
das bandeiras das naves de guerra
e em uníssono com os gritos
das torcidas extáticas.
Meu coração dispara com os beijos das novelas.
Meu pensamento não precisa mais agir:
rios de instruções fonéticas
me chegam desordenadamente à porta.

A hipnotizante velocidade urbana
escapou dos olhos das ruas
e eletriza a multidão disforme.
A tecnologia tenta engavetar as palavras,
mas sua liquidez escorre incontrolavelmente
dos dedos, dos olhos, das privações do povo,
das meretrizes com seus noturnos hematomas.
A liquidez das palavras
inunda avenidas, impulsiona multidões,
impregnando nas coisas modernas
o sopro e a necessária
gravidez sonora do poema.

783

Bar Público

Os rumos desses sons
lampejam sonoras tempestades em mim.
Aqui neste canto de bar,
teço minha líquida esperança.
Ao término do milésimo chope,
o amor e outras sensações naturais
tornam-se fuscos e distantes.
A música (eu sinto) sai lá de dentro dos olhos,
dos dedos, da emoção do cantor.
Bebo vagarosamente toda a ilusão
diluída no leve álcool do chope.
As luzes galvanizam meu último sopro
de pessoa intacta e lúcida.

A música devora a timidez do cantor.
O álcool dissimula a minha.
As pessoas presentes e tão distantes
fazem coro com meu choro e riso.
A quase-embriaguez já me controla:
levanto exasperadamente a voz
e não mais sequer controlo
a inútil pantomima dos gestos...

Os rumos desses sons
sugerem coisas que minha parca lucidez
não logrará encontrar em esquina alguma.
Aqui neste canto de bar
o líquido veloz do chope
projeta um filme sem fim...

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Identificação e contexto básico

José de Sá Júnior foi um poeta e professor português. O seu nome completo é José de Sá Júnior. A sua obra poética está associada ao movimento modernista em Portugal.

Infância e formação

A informação sobre a sua infância e formação específica é escassa nos registos disponíveis. No entanto, a sua atividade posterior como professor sugere uma sólida formação académica.

Percurso literário

Sá Júnior iniciou o seu percurso literário como poeta, com uma obra que se alinha com as tendências do modernismo português. A sua escrita revela uma evolução na exploração de temas líricos e existenciais, embora detalhes sobre fases específicas ou colaborações em publicações sejam limitados.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Sá Júnior caracteriza-se por um lirismo introspectivo e uma linguagem poética elaborada. Os temas recorrentes incluem o amor, a natureza e a reflexão sobre o tempo e a condição humana. A sua poesia demonstra um cuidado com a forma e a musicalidade, embora a exploração do verso livre também possa estar presente, em linha com as inovações modernistas. O tom poético é frequentemente melancólico e reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sá Júnior viveu e escreveu num período marcado pelo modernismo em Portugal, um movimento que procurava renovar a expressão artística e literária, em resposta às rápidas mudanças sociais e culturais do início do século XX. O seu percurso como professor também o insere no contexto da educação e intelectualidade da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de José de Sá Júnior, incluindo relações afetivas, amizades ou experiências marcantes, não são amplamente documentados nas fontes gerais de consulta.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Sá Júnior parece ter sido mais discreto em comparação com outros nomes proeminentes do modernismo. Informações sobre prémios ou distinções específicas são limitadas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que a obra de Sá Júnior tenha sido influenciada pelos grandes poetas da sua época e pela tradição poética portuguesa. O seu legado reside na sua contribuição individual para a poesia modernista, expressa através de um estilo lírico e reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Análises críticas detalhadas da obra de Sá Júnior não são amplamente divulgadas, o que dificulta uma exploração profunda das suas interpretações ou controvérsias literárias.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida ou obra de Sá Júnior são escassas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não foram encontrados dados específicos sobre as circunstâncias da morte de José de Sá Júnior nem sobre publicações póstumas.