Sá Júnior

Sá Júnior

José de Sá Júnior foi um poeta e professor português, cuja obra se insere predominantemente no contexto do modernismo português. Destacou-se pela sua poesia lírica e reflexiva, explorando temas como o amor, a natureza e a efemeridade da vida, com uma linguagem cuidada e musicalidade apurada. A sua escrita reflete um diálogo com a tradição poética, ao mesmo tempo que se abre a novas sensibilidades e formas de expressão, marcando a sua individualidade no panorama literário da sua época.

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Ao Vivo e a Cores

A solidez da mensagem poética
desistimula minha dor e as possibilidades
da poesia vencem meu insistente cansaço.

A liquidez das palavras
me prova que a poesia
é uma coisa bem sólida.
Poemas são náuseas cotidianas,
engarrafamentos, greves,
trágicas touradas de Espanha,
afogados em Copacabana
e em outras tantas partes do mundo.

A gigantesca sede de vitória
é muito mais que metafísica:
engulo pílulas e pílulas do sucesso,
assisto diuturnamente às coisas da tevê.
Balizo meus passos e meus gestos
ao padrão ideal da propaganda.
Meus dedos tremulam no compasso
das bandeiras das naves de guerra
e em uníssono com os gritos
das torcidas extáticas.
Meu coração dispara com os beijos das novelas.
Meu pensamento não precisa mais agir:
rios de instruções fonéticas
me chegam desordenadamente à porta.

A hipnotizante velocidade urbana
escapou dos olhos das ruas
e eletriza a multidão disforme.
A tecnologia tenta engavetar as palavras,
mas sua liquidez escorre incontrolavelmente
dos dedos, dos olhos, das privações do povo,
das meretrizes com seus noturnos hematomas.
A liquidez das palavras
inunda avenidas, impulsiona multidões,
impregnando nas coisas modernas
o sopro e a necessária
gravidez sonora do poema.

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Biografia

Identificação e contexto básico

José de Sá Júnior foi um poeta e professor português. O seu nome completo é José de Sá Júnior. A sua obra poética está associada ao movimento modernista em Portugal.

Infância e formação

A informação sobre a sua infância e formação específica é escassa nos registos disponíveis. No entanto, a sua atividade posterior como professor sugere uma sólida formação académica.

Percurso literário

Sá Júnior iniciou o seu percurso literário como poeta, com uma obra que se alinha com as tendências do modernismo português. A sua escrita revela uma evolução na exploração de temas líricos e existenciais, embora detalhes sobre fases específicas ou colaborações em publicações sejam limitados.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Sá Júnior caracteriza-se por um lirismo introspectivo e uma linguagem poética elaborada. Os temas recorrentes incluem o amor, a natureza e a reflexão sobre o tempo e a condição humana. A sua poesia demonstra um cuidado com a forma e a musicalidade, embora a exploração do verso livre também possa estar presente, em linha com as inovações modernistas. O tom poético é frequentemente melancólico e reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sá Júnior viveu e escreveu num período marcado pelo modernismo em Portugal, um movimento que procurava renovar a expressão artística e literária, em resposta às rápidas mudanças sociais e culturais do início do século XX. O seu percurso como professor também o insere no contexto da educação e intelectualidade da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de José de Sá Júnior, incluindo relações afetivas, amizades ou experiências marcantes, não são amplamente documentados nas fontes gerais de consulta.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Sá Júnior parece ter sido mais discreto em comparação com outros nomes proeminentes do modernismo. Informações sobre prémios ou distinções específicas são limitadas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que a obra de Sá Júnior tenha sido influenciada pelos grandes poetas da sua época e pela tradição poética portuguesa. O seu legado reside na sua contribuição individual para a poesia modernista, expressa através de um estilo lírico e reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Análises críticas detalhadas da obra de Sá Júnior não são amplamente divulgadas, o que dificulta uma exploração profunda das suas interpretações ou controvérsias literárias.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida ou obra de Sá Júnior são escassas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não foram encontrados dados específicos sobre as circunstâncias da morte de José de Sá Júnior nem sobre publicações póstumas.

Poemas

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Ao Vivo e a Cores

A solidez da mensagem poética
desistimula minha dor e as possibilidades
da poesia vencem meu insistente cansaço.

A liquidez das palavras
me prova que a poesia
é uma coisa bem sólida.
Poemas são náuseas cotidianas,
engarrafamentos, greves,
trágicas touradas de Espanha,
afogados em Copacabana
e em outras tantas partes do mundo.

A gigantesca sede de vitória
é muito mais que metafísica:
engulo pílulas e pílulas do sucesso,
assisto diuturnamente às coisas da tevê.
Balizo meus passos e meus gestos
ao padrão ideal da propaganda.
Meus dedos tremulam no compasso
das bandeiras das naves de guerra
e em uníssono com os gritos
das torcidas extáticas.
Meu coração dispara com os beijos das novelas.
Meu pensamento não precisa mais agir:
rios de instruções fonéticas
me chegam desordenadamente à porta.

A hipnotizante velocidade urbana
escapou dos olhos das ruas
e eletriza a multidão disforme.
A tecnologia tenta engavetar as palavras,
mas sua liquidez escorre incontrolavelmente
dos dedos, dos olhos, das privações do povo,
das meretrizes com seus noturnos hematomas.
A liquidez das palavras
inunda avenidas, impulsiona multidões,
impregnando nas coisas modernas
o sopro e a necessária
gravidez sonora do poema.

825

Cinema Transcendental

Estou à janela
do fim de ano
pela enésima vez.
Meu coração dispara,
pensa coisas felizes.

O mundo passa
de mãos dadas com a justiça e a verdade.
Os homens irmanaram-se
num ritual de procura e discernimento.

Em toda parte,
distribuem-se abraços
a todos sem a menor distinção.

Sorrio com prazer
às pessoas com quem encontro,
e trocamos sinceras palavras
de ânimo e de graça.
Nossos anseios se encontram
e nossos gestos se completam,
num natural compromisso
de jamais querer tapear alguém.

Presencio a enésima
passagem de ano.
E mais uma vez
assisto
a esse filme tão distante...

773

Disputa Literária

Anunciam um concurso,
e um poema novo
tem que me nascer.

Aflora-me uma oportunidade
de compor um poema industrial,
com data, finalidade e número de série.

A proposta me insinua
vantajosa e fácil,
e nem minha emoção
pondera o peso
de tamanha aventura.

A disputa literária
que espere meus olhos
lacrimejarem na próxima esquina...

826

Momento Inefável

Leio numa biblioteca pública.
Pessoas riem alegres.
Um mapa do mundo
geografiza-me no presente da vida.
(Distantes de nós mesmos!)
O momento é mágico
e as horas indecisas.

Imerso em palavras,
meu corpo evapora vontades nas sílabas,
meus olhos enfurecem-se nos sons dos vocábulos.

Leio.
Amo em demasia
essa ação descontínua.
A corda rompe do lado forte.
A bomba por mais que se queira jamais explode!

Leio.
A vida prolonga-se em cenas suaves.
Palavras constroem ações.
Sóis rompem regras e regulamentos
e outros tantos astros danificam irremediavelmente todas as leis.

Leio.
As sugestões das palavras
não me enganam pantomimicamente.
Insuflam em mim a mais natural e poderosa emoção.

Leio,
bebendo soluços e lágrimas.
A luz entra nitidamente pelas janelas...
As pessoas pensam, falam e ouvem com atenção.

1 488

Bar Público

Os rumos desses sons
lampejam sonoras tempestades em mim.
Aqui neste canto de bar,
teço minha líquida esperança.
Ao término do milésimo chope,
o amor e outras sensações naturais
tornam-se fuscos e distantes.
A música (eu sinto) sai lá de dentro dos olhos,
dos dedos, da emoção do cantor.
Bebo vagarosamente toda a ilusão
diluída no leve álcool do chope.
As luzes galvanizam meu último sopro
de pessoa intacta e lúcida.

A música devora a timidez do cantor.
O álcool dissimula a minha.
As pessoas presentes e tão distantes
fazem coro com meu choro e riso.
A quase-embriaguez já me controla:
levanto exasperadamente a voz
e não mais sequer controlo
a inútil pantomima dos gestos...

Os rumos desses sons
sugerem coisas que minha parca lucidez
não logrará encontrar em esquina alguma.
Aqui neste canto de bar
o líquido veloz do chope
projeta um filme sem fim...

964

Partes

As asas partem
sem as partes do
seu corpo/pássaro.
Voam debruçadas
no flerte do ar.

O corpo/pássaro
sem as suas partes
não vai no vôo:
apenas voa...

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