Poemas neste tema
Alma
Frederico Barbosa
Como quem lê
Virar a chave,como quem lê uma página:abrir por dentro,libertar-se sendo.Como quem se envolve na personagem,lento.
Descobrir o além do sonho,o impensado, o certo,o mais que imaginado.O que os olhos buscam cobrirno sonho.
Ver em você, minha cara,minha cara interpretada:metade minha, metade clara.
Poema em espanhol
Descobrir o além do sonho,o impensado, o certo,o mais que imaginado.O que os olhos buscam cobrirno sonho.
Ver em você, minha cara,minha cara interpretada:metade minha, metade clara.
Poema em espanhol
1 401
Gabriel Archanjo de Mendonça
Sêmen
Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
955
Francisco Carvalho
Escada do Paraíso
Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.
1 253
Flávio Villa-Lobos
Separação
Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
789
Gabriel Nascente
Anjo em Ruínas
Ao poeta Antônio Carlos Osório, compadre
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
1 036
Frederico Barbosa
Rarefato
Outra trilogia do tédio
I
Nenhuma voz humana aqui se pronunciachove um fantasma anárquico, demolidor
amplo nada no vazio deste desertoanuncia-se como ausência, carne em unha
odor silencioso no vento escarpacorte de um espectro pousando na água
tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa
II
Sentia o término correndo nas veias.Há pressa: via.Houve um momento grave.(O filme era ruim. O cinema, lotado.Na luz neblina, escondido, um cigarro.)Impossível escapar ao pânico,prever o vazio provável.De repente: o estalo.Terminal,a consciência do zero rondando.Estado, condição, estado.Abre:
III
Dominado pela pedra, insone,descolorido, o crime principianas altas horas de noite vaziaganha corpo no decorrer do dia.
Ganha corpo no decorrer do dia,dominado pela pedra insonedor de náusea delicada e infame,das altas horas da noite vazia.
Dor de náusea delicada, infame,nas altas horas na noite vaziaganha corpo no decorrer, no diadominada pela pedra, insone.
Ganha corpo no decorrer do dia,dor de naúsea delicada e infamedescolorido, o crime principiaalia-se ao tédio impune e some.
Poema em espanhol
I
Nenhuma voz humana aqui se pronunciachove um fantasma anárquico, demolidor
amplo nada no vazio deste desertoanuncia-se como ausência, carne em unha
odor silencioso no vento escarpacorte de um espectro pousando na água
tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa
II
Sentia o término correndo nas veias.Há pressa: via.Houve um momento grave.(O filme era ruim. O cinema, lotado.Na luz neblina, escondido, um cigarro.)Impossível escapar ao pânico,prever o vazio provável.De repente: o estalo.Terminal,a consciência do zero rondando.Estado, condição, estado.Abre:
III
Dominado pela pedra, insone,descolorido, o crime principianas altas horas de noite vaziaganha corpo no decorrer do dia.
Ganha corpo no decorrer do dia,dominado pela pedra insonedor de náusea delicada e infame,das altas horas da noite vazia.
Dor de náusea delicada, infame,nas altas horas na noite vaziaganha corpo no decorrer, no diadominada pela pedra, insone.
Ganha corpo no decorrer do dia,dor de naúsea delicada e infamedescolorido, o crime principiaalia-se ao tédio impune e some.
Poema em espanhol
1 479
Francisco Carvalho
Domingo
É domingo no bosque dos sargaços
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos
ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos
e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio
O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.
É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos
ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos
e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio
O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.
É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.
1 091
Frederico Barbosa
Na mira
quartetos
(fragmentos)
I
Em vão jogar dados contaminados:sempre esperando, caso sobre caso,acidente branco em campo minado,uma certa explosão em cada passo.
Apostar em conta-gotas viciado:certeza de fratura exposta em aço,circulo só rabisco nos quadrados,isca disfarçada em frágil acaso.
V
Escapo por pura sorte.O criminoso se enrola.A noite fere e explode,nenhuma estrela me chora.
Quando acordo pela morte,que falha, cala e consola,vislumbro o lume que foge,perfeita pedra por fora.
Poema em espanhol
(fragmentos)
I
Em vão jogar dados contaminados:sempre esperando, caso sobre caso,acidente branco em campo minado,uma certa explosão em cada passo.
Apostar em conta-gotas viciado:certeza de fratura exposta em aço,circulo só rabisco nos quadrados,isca disfarçada em frágil acaso.
V
Escapo por pura sorte.O criminoso se enrola.A noite fere e explode,nenhuma estrela me chora.
Quando acordo pela morte,que falha, cala e consola,vislumbro o lume que foge,perfeita pedra por fora.
Poema em espanhol
1 187
Gabriel Archanjo de Mendonça
Segredo
Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
918
Fernanda dos Santos
Bruços
Caminha o olhar sobre
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...
822
Flávio Villa-Lobos
Sobressalto
Há de acontecer repentinamente
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
917
Fabio Valor Caldas
Tudo Que For Pecado
Sinta a minha presença
Dentro da sua vida,
Dentro do seu corpo,
E seguiremos juntos, sem destino,
Viveremos milhares de loucuras,
Sem um dia certo para acabar.
Eu quero te conhecer,
Em todos os sentidos.
O que é que te excita?
O que te faz feliz?
Seremos capazes de fazer
Tudo que for proibido,
Tudo que for censurado,
Tudo que for pecado.
Você chegou para
Mudar a minha vida.
Vamos mudar o mundo,
Junto poderemos mudar tudo,
E se não formos nós
Quem mais poderá mudar?
A vida termina
Onde começa o amor,
E o nosso amor
Está no limite de tudo.
Um dia o mundo acaba,
A vida acaba sem razão,
Tudo se destrói com o tempo,
Tudo que for pecado.
Eu gosto de olhar
Para os seus olhos,
E sentir toda a sua presença,
Todo o seu carinho,
Como se fosse um mundo
Para se conquistar.
A vida não teria o mesmo sentido
Sem a tua presença.
Dentro da sua vida,
Dentro do seu corpo,
E seguiremos juntos, sem destino,
Viveremos milhares de loucuras,
Sem um dia certo para acabar.
Eu quero te conhecer,
Em todos os sentidos.
O que é que te excita?
O que te faz feliz?
Seremos capazes de fazer
Tudo que for proibido,
Tudo que for censurado,
Tudo que for pecado.
Você chegou para
Mudar a minha vida.
Vamos mudar o mundo,
Junto poderemos mudar tudo,
E se não formos nós
Quem mais poderá mudar?
A vida termina
Onde começa o amor,
E o nosso amor
Está no limite de tudo.
Um dia o mundo acaba,
A vida acaba sem razão,
Tudo se destrói com o tempo,
Tudo que for pecado.
Eu gosto de olhar
Para os seus olhos,
E sentir toda a sua presença,
Todo o seu carinho,
Como se fosse um mundo
Para se conquistar.
A vida não teria o mesmo sentido
Sem a tua presença.
813
Francisco Carvalho
Tríptipo
I
tudo o que possuis
a alma, o pomar da lascívia
a fome de palavras
a sede de volúpia
a sentença lavrada
na poeira dos arquivos:
tudo cabe, poeta,
dentro de uma gaveta.
II
o olho da serpente
passeia na treva
o seu fulgor breve
lambe o odor da presa
entre folhas mortas
mastiga as horas
e uma ceia de besouros.
III
somos apanhados
numa teia de mitos
nada sabemos da alma
e do logaritmo binário
entre conchas e búzios
baionetas e obuses
a esfinge nos espreita
nos decifra e devora.
tudo o que possuis
a alma, o pomar da lascívia
a fome de palavras
a sede de volúpia
a sentença lavrada
na poeira dos arquivos:
tudo cabe, poeta,
dentro de uma gaveta.
II
o olho da serpente
passeia na treva
o seu fulgor breve
lambe o odor da presa
entre folhas mortas
mastiga as horas
e uma ceia de besouros.
III
somos apanhados
numa teia de mitos
nada sabemos da alma
e do logaritmo binário
entre conchas e búzios
baionetas e obuses
a esfinge nos espreita
nos decifra e devora.
1 020
Gabriel Archanjo de Mendonça
Aclive
A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
871
Fernanda dos Santos
A menina e a Brisa
Um sopro vem
vem mansinho
devagarinho ;
Um vento vem ,
vem ligeiro ,
faceiro .
O primeiro :
- calor ( de amor )
O segundo :
- vapor ( de tempo a girar nos ponteiros )
E respira a
acetinada pele da nuca .
E sacode ,
confunde os fios que escorrem
suave .
Ela não se move .
O sopro e o vento
se misturam e
a sensação engrandece ,
pele enrubresce ,
e a muda telepática
de tocar róseos úmidos
é concebido .
Um segundo
uma brisa .
Uma pulsação
de início .
vem mansinho
devagarinho ;
Um vento vem ,
vem ligeiro ,
faceiro .
O primeiro :
- calor ( de amor )
O segundo :
- vapor ( de tempo a girar nos ponteiros )
E respira a
acetinada pele da nuca .
E sacode ,
confunde os fios que escorrem
suave .
Ela não se move .
O sopro e o vento
se misturam e
a sensação engrandece ,
pele enrubresce ,
e a muda telepática
de tocar róseos úmidos
é concebido .
Um segundo
uma brisa .
Uma pulsação
de início .
889
Francisco Carvalho
Gravura Nordestina
A Eduardo Campos
Este sol é um deus feroz
que dardeja e que incendeia
os esqueletos dos bois.
As redondas oiticicas
são carpideiras de luto
chorando a morte dos brutos.
Em vôos rasantes, ao léu,
os urubus mais parecem
anjos expulsos do céu.
Gaviões roçam de esguelha
as asas martirizadas
nas costelas das ovelhas.
Cigarra, ali,devaneia.
Morre de tanto cantar
em sua concha de areia.
Uma rajada de vento
sacode os gonzos das portas
como se fosse um lamento.
Os leitos secos dos rios
são tumbas de faraós
ou de monarcas fenícios.
Quando o sol chega no vértice
os mandacarus acendem
os seus fanais de quermesse.
Os bichos magros cochilam
à sombra dos juazeiros
à espera de alguma brisa.
O canto da juriti
trespassa as almas dos homens
com seu punhal de vizir.
O balido das ovelhas
assusta as aves e os ninhos
que elas fizeram nas telhas.
Entre esquivâncias e astúcias
jumenta se entrega ao macho
que entorna o vinho das núpcias.
Ao mugido de uma rês
percorre toda a paisagem
um clamor de viuvez.
Nas varandas das fazendas
as redes brancas desenham
corpos que são oferendas.
Ninguém que ouse ou que vá
toldar os sonhos de linho
das moças no copiá.
Este sol é um deus feroz
que dardeja e que incendeia
os esqueletos dos bois.
As redondas oiticicas
são carpideiras de luto
chorando a morte dos brutos.
Em vôos rasantes, ao léu,
os urubus mais parecem
anjos expulsos do céu.
Gaviões roçam de esguelha
as asas martirizadas
nas costelas das ovelhas.
Cigarra, ali,devaneia.
Morre de tanto cantar
em sua concha de areia.
Uma rajada de vento
sacode os gonzos das portas
como se fosse um lamento.
Os leitos secos dos rios
são tumbas de faraós
ou de monarcas fenícios.
Quando o sol chega no vértice
os mandacarus acendem
os seus fanais de quermesse.
Os bichos magros cochilam
à sombra dos juazeiros
à espera de alguma brisa.
O canto da juriti
trespassa as almas dos homens
com seu punhal de vizir.
O balido das ovelhas
assusta as aves e os ninhos
que elas fizeram nas telhas.
Entre esquivâncias e astúcias
jumenta se entrega ao macho
que entorna o vinho das núpcias.
Ao mugido de uma rês
percorre toda a paisagem
um clamor de viuvez.
Nas varandas das fazendas
as redes brancas desenham
corpos que são oferendas.
Ninguém que ouse ou que vá
toldar os sonhos de linho
das moças no copiá.
1 175
Flávio Villa-Lobos
Desencontro
Tantas mentiras dissemos um
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
852
Flávia Wanderley
As sombras da noite
As sombras da noite
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar
É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".
Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde
Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...
Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.
Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar
É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".
Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde
Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...
Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.
Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...
877
Flávio Villa-Lobos
Delírio
Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.
Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.
Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.
Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.
Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.
Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.
Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.
901
Gabriel Archanjo de Mendonça
Fastio
Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.
A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.
A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.
845
Flávio Villa-Lobos
À Espreita
Inventar uma lua cheia
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.
Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.
Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.
Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.
Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.
Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.
Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.
Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.
Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.
871
Francisco Carvalho
Poema para Escrever no Asfalto
Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.
Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.
Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.
Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.
Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.
Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.
Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.
Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.
Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.
Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.
Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.
1 101
Yoji Fujiyama
Opus Zero
A Élcio Xavier
Transmutas tua face, ó Morte, em grave
silêncio. E a comunhão das árvores
humildes é completa pelo toque solene
da fonte. Efêmera e resignada fonte
onde bebias com a indiferença de um vencedor.
Morte, Morte sem símbolo. Inútil espanto
das aves inocentes. Inútil oferta
de um sacrifício. Que representaria o altar
se nele vivesse o perene e não o ocasional?
Que representaria o perpetuar-se
de um canto se a certeza do eterno
bafejasse os seus passos? Oh incerto,
trivial alimento de uma casta de condenados!
Transmutas tua face, ó Morte, em grave
silêncio. E a comunhão das árvores
humildes é completa pelo toque solene
da fonte. Efêmera e resignada fonte
onde bebias com a indiferença de um vencedor.
Morte, Morte sem símbolo. Inútil espanto
das aves inocentes. Inútil oferta
de um sacrifício. Que representaria o altar
se nele vivesse o perene e não o ocasional?
Que representaria o perpetuar-se
de um canto se a certeza do eterno
bafejasse os seus passos? Oh incerto,
trivial alimento de uma casta de condenados!
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