Poemas neste tema
Alma
Gabriel Nascente
Anjo em Ruínas
Ao poeta Antônio Carlos Osório, compadre
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.
Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.
Reino, quimera e caos.
Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.
Imperecível, voraz — és tu, poesia!
1 043
Glícia Rodrigues
Olhares Cruzados
Abro a janela
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.
1 006
Georgeocohama
O Jardim de Caminhos que se Bifurcam
A Caetano Veloso
A tarde era íntima, infinita.
Pareceu-me incrível que esse dia
sem premonições ou símbolos
fosse o de minha morte implacável.
Depois refleti
que todas as coisas nos acontecem;
precisamente,
precisamente agora.
Séculos de séculos
e apenas no presente ocorrem os fatos;
inumeráveis homens no ar,
na terra e mar,
e tudo o que realmente sucede,
sucede a mim.
Não é em vão que sou
bisneto daquele Tui Pen,
que foi governador de Yunan
e que renunciou ao poder temporal
aos prazeres da opressão,
da justiça,
do numeroso leito,
dos banquetes e ainda da erudição
e enclausurou-se
no Pavilhão da Límpida Solidão
para escrever um romance
que fosse ainda mais populoso
que o Hung Lu Meng
e para edificar um labirinto
em que todos os homens se perdessem.
Um labirinto de marfim,
inviolado e perfeito,
no cume de uma montanha.
Um labirinto mínimo,
disfarçado por arrozais
ou debaixo d’água.
Um labirinto de símboos,
infinito,
não já de quiosques oitavados
e de caminhos que voltam,
mas sim de rios e províncias e reinos.
Um labirinto de labirintos,
um sinuoso labirinto crescente
— um invisível labirinto de tempo —
que abarcasse o passado, o presente e o
futuro.
Os vários futuros, não todos,
o jardim de caminhos que se bifurcam.
A tarde era íntima, infinita.
A tarde era íntima, infinita.
Pareceu-me incrível que esse dia
sem premonições ou símbolos
fosse o de minha morte implacável.
Depois refleti
que todas as coisas nos acontecem;
precisamente,
precisamente agora.
Séculos de séculos
e apenas no presente ocorrem os fatos;
inumeráveis homens no ar,
na terra e mar,
e tudo o que realmente sucede,
sucede a mim.
Não é em vão que sou
bisneto daquele Tui Pen,
que foi governador de Yunan
e que renunciou ao poder temporal
aos prazeres da opressão,
da justiça,
do numeroso leito,
dos banquetes e ainda da erudição
e enclausurou-se
no Pavilhão da Límpida Solidão
para escrever um romance
que fosse ainda mais populoso
que o Hung Lu Meng
e para edificar um labirinto
em que todos os homens se perdessem.
Um labirinto de marfim,
inviolado e perfeito,
no cume de uma montanha.
Um labirinto mínimo,
disfarçado por arrozais
ou debaixo d’água.
Um labirinto de símboos,
infinito,
não já de quiosques oitavados
e de caminhos que voltam,
mas sim de rios e províncias e reinos.
Um labirinto de labirintos,
um sinuoso labirinto crescente
— um invisível labirinto de tempo —
que abarcasse o passado, o presente e o
futuro.
Os vários futuros, não todos,
o jardim de caminhos que se bifurcam.
A tarde era íntima, infinita.
945
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 098
Goulart Gomes
Batalha Final
se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
1 086
Gabriel Archanjo de Mendonça
Segredo
Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
924
Gabriel Archanjo de Mendonça
Sêmen
Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
965
Ana Garrett
Converti-me num lago
Converti-me num lago
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.
Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.
Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.
850
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
A Palavra
A palavra é matéria. A palavra tem forma física. A palavra tem som. A palavra de Adélia Prado. A palavra de Drummond. A palavra do direito. A que libertou navios negreiros.. .A palavra universal, que fez poemas clássicos, prosas sociais, romances realistas. A palavra apalavrada, silenciada, a que continua no coração do poeta. Palavra! Oh! Palavra! Concedei-me a permissão, honrosa concessão, para utilizar-me de ti, sem restrições. Sob tua forma quero falar um pouco da minha solidão.
1 088
Gregório de Matos
A S Francisco Tomando o Poeta o Habito de Terceyro
Ó magno serafim, que a Deus voaste
Com asas de humildade, e paciência,
E absorto já nessa divina essência
Logras o eterno bem, a que aspiraste:
Pois o caminho aberto nos deixaste,
Para alcançar de Deus também clemência
Na ordem singular de penitência
Destes Filhos Terceiros, que criaste.
A Filhos, como Pai, olha queridos,
E intercede por nós, Francisco Santo,
Para que te sigamos, e imitemos.
E assim desse teu hábito vestidos
Na terra blasonemos de bem tanto,
E depois para o Céu juntos voemos.
Com asas de humildade, e paciência,
E absorto já nessa divina essência
Logras o eterno bem, a que aspiraste:
Pois o caminho aberto nos deixaste,
Para alcançar de Deus também clemência
Na ordem singular de penitência
Destes Filhos Terceiros, que criaste.
A Filhos, como Pai, olha queridos,
E intercede por nós, Francisco Santo,
Para que te sigamos, e imitemos.
E assim desse teu hábito vestidos
Na terra blasonemos de bem tanto,
E depois para o Céu juntos voemos.
1 586
Ana Garrett
Entre o ser ou o não ser
Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
936
Glícia Rodrigues
Jantar
A mesa farta
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
898
Gabriel Archanjo de Mendonça
Virtuose
Na vastidão de bocas desdentadas
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
837
Gentil Braga
O Orvalho
Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
2 428
Gervásio de Pilares
Soneto
Ó triste mausoléu! Ó urna fria!
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
397
Gregório de Matos
A Nossa Senhora da Madre de Deus Indo Lá o Poeta
Venho, Madre de Deus, ao Vosso monte
E reverente em vosso altar sagrado,
Vendo o Menino em berço argenteado
O sol vejo nascer desse Horizonte.
Oh quanto o verdadeiro Faetonte
Lusbel, e seu exército danado
Se irrita, de que um braço limitado
Exceda na soltura a Alcidemonte.
Quem vossa devoção não enriquece?
A virtude, Senhora, é muito rica,
E a virtude sem vós tudo empobrece.
Não me espanto, que quem vos sacrifica
Essa hóstia do altar, que vos ofrece,
Que vós o enriqueçais, se a vós a aplica.
E reverente em vosso altar sagrado,
Vendo o Menino em berço argenteado
O sol vejo nascer desse Horizonte.
Oh quanto o verdadeiro Faetonte
Lusbel, e seu exército danado
Se irrita, de que um braço limitado
Exceda na soltura a Alcidemonte.
Quem vossa devoção não enriquece?
A virtude, Senhora, é muito rica,
E a virtude sem vós tudo empobrece.
Não me espanto, que quem vos sacrifica
Essa hóstia do altar, que vos ofrece,
Que vós o enriqueçais, se a vós a aplica.
2 499
Guy Corrêa
Um País
Havia um povo
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
858
Gilberto Diener
Introdução
Éramos meninos ainda,
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982
996
Gabriel Archanjo de Mendonça
Fastio
Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.
A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.
A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.
851
Goulart Gomes
Mariniello
agosto seis
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa
caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais
tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada
e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa
caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais
tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada
e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...
896
Gilson Nascimento
Biête do sertão
Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
976
Pedro António Correia Garção
Soneto
Três vezes vi, Marília, de alva lua,
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
1 701
Ana Garrett
Poder Cósmico
Poder cósmico tem esse teu olhar,
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
824
Goulart Gomes
Algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
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