Poemas neste tema
Alma
Elisa Sayeg
Visita
Santa Alva trazia no peito
Um mártir de flores bordadas.
O veículo da noite a trazia
Da estrela fosforescente.
De repente voltava a brilhar
O coágulo precioso do peito
Como sopram na primavera
Os perfumes do campo.
Um mártir de flores bordadas.
O veículo da noite a trazia
Da estrela fosforescente.
De repente voltava a brilhar
O coágulo precioso do peito
Como sopram na primavera
Os perfumes do campo.
939
Eduardo Martins
Haicai
Solidão
Noite. Às horas mortas
o vento perpassa lento
pelas ermas portas.
Noturno
Na sala de estudo
um grilo preto de trilo
metálico, agudo.
Noite. Às horas mortas
o vento perpassa lento
pelas ermas portas.
Noturno
Na sala de estudo
um grilo preto de trilo
metálico, agudo.
1 039
Eunice Arruda
Um Visitante
Quem escreve
é
um visitante
Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome
Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome
é
um visitante
Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome
Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome
1 185
Edielson Pereira
Sertão
Por acaso nunca viste
Uma seca no sertão?
O sol indo dormir triste
Por ter queimado o chão.
Num córrego, lama rachando,
Galinhas cacarejando,
E um velho de enxada na mão;
Um fogareiro, uma panela
Um pote d’água, uma tigela
À luz do lampião.
O nascimento da lua
Prateando a terra cinzenta;
Amarrada numa estaca
Uma magricela vaca
E a fome que a arrebenta;
Sem chuvas um inverno indo
Mais um dia quente findo
Uma forte fé nos sustenta.
À mesa uma família triste
Faz sua lamentação;
Por acaso nunca viste
Uma seca no sertão?
812
Eduardo Bacelar
Noites em Claro
Meia noite e o telefone não tocou,
A noite inteira já acabou.
Quem quisesse poderia ter me encontrado.
Se quisessem....
22 e passam das 4
Muito cedo para acordar,
Muito tarde para dormir.
Mas sempre posso escrever
Como faço agora,
Como não tenho nada mais a fazer,
Quero tanto
E tão pouco…
A noite é minha amiga.
Amiga cruel de minha solidão,
De minhas paixões não correspondidas,
De minha vida não vivida.
No silêncio e na escuridão,
Tudo parece possível,
Meus sonhos e pesadelos
São reais e estão vivos.
A medida que escrevo
O tempo passa,
Alheio a tudo.
Obstinado como já fui.
Quando procuro minha cama,
Já sentindo o peso de meus pensamentos,
Minha janela está como passei a noite.
Em claro.
A noite inteira já acabou.
Quem quisesse poderia ter me encontrado.
Se quisessem....
22 e passam das 4
Muito cedo para acordar,
Muito tarde para dormir.
Mas sempre posso escrever
Como faço agora,
Como não tenho nada mais a fazer,
Quero tanto
E tão pouco…
A noite é minha amiga.
Amiga cruel de minha solidão,
De minhas paixões não correspondidas,
De minha vida não vivida.
No silêncio e na escuridão,
Tudo parece possível,
Meus sonhos e pesadelos
São reais e estão vivos.
A medida que escrevo
O tempo passa,
Alheio a tudo.
Obstinado como já fui.
Quando procuro minha cama,
Já sentindo o peso de meus pensamentos,
Minha janela está como passei a noite.
Em claro.
584
Elielson Rodrigues
Putrefação
Quando a putrefação
ultrapassa tua pele,
quando deixa teu coração
e toma conta de tudo.
Quando teu corpo apodrece
e todos olham sem fazer nada,
E você descobre que merece
tudo que acontece na tua vida.
Não há Mártir que aguente,
contemplar sua propria morte,
Ver seu corpo em correntes,
e esperar a sua sorte.
Sua vida acaba antes do meio,
e começa no seu fim,
Morte, vivo no teu seio,
me diz... o que farás de mim?
ultrapassa tua pele,
quando deixa teu coração
e toma conta de tudo.
Quando teu corpo apodrece
e todos olham sem fazer nada,
E você descobre que merece
tudo que acontece na tua vida.
Não há Mártir que aguente,
contemplar sua propria morte,
Ver seu corpo em correntes,
e esperar a sua sorte.
Sua vida acaba antes do meio,
e começa no seu fim,
Morte, vivo no teu seio,
me diz... o que farás de mim?
1 013
Edmir Domingues
Poema para Velhos
onde se fala da emoção imperdoável — e vergonhosa
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.
Não pisaram, jamais, terras de Infância.
já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.
Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.
A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.
(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.
A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.
Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?
Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.
Não pisaram, jamais, terras de Infância.
já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.
Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.
A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.
(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.
A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.
Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?
Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
1 479
Daniel Orlandi Mattos Edmundson
A Escola
Estudar, Estourar, Esfregar na nossa cara que somos burros
Na escola a gente
Aprende a ser gente
E sente na pele
A semente da desgraça
Posta a coçar
Cogitar, Armar, Amedrontar
Fulminar o seu eu interior.
Tão somente quando tudo acabar
Você vai ver, e se defrontar
Com quem você realmente é
E vai jogar fora sua máscara,
E se porá a correr.
Na escola a gente
Aprende a ser gente
E sente na pele
A semente da desgraça
Posta a coçar
Cogitar, Armar, Amedrontar
Fulminar o seu eu interior.
Tão somente quando tudo acabar
Você vai ver, e se defrontar
Com quem você realmente é
E vai jogar fora sua máscara,
E se porá a correr.
965
Emílio Burlamaqui
Um Tema
[Lá vai o grande rio
[Solene como uma procissão.
[Roçando florestas e rochas,
[Seu manto se alastra, se alonga
[E, qual pálio de rei antigo,
[Passa em lento e grave desfile.
[Sua essência: a água.
[Seu estado: o movimento.
[Mas, chegará um ponto de sua caminhada
[Em que o movimento lhe será retirado.
[Esse termo estará no seu encontro com o mar.
[O caráter essencial de água persistirá.
[No entanto — imóvel — como rio se findará.
[Deixou de existir o rio? Sim.
[Passou a inexistir a água? Não.
[A água se integrou no seu mar.
[Vamos ao homem, ser de índole tão andante,
[Esse rio humano que afronta a natureza,
[E rege, com maestria idêntica,
[Violinos e canhões, salmos e prantos.
[Pêndulo oscilante entre o nefando e o sublime.
[E lá vai o homem, inquieto, aflito,
[Em marcha desordenada
[Buscando o que não alcançará.
[Sua essência: a alma.
[Seu estado: o movimento.
[Sobreviverá o ansejo inelutável
[Em que o movimento que lhe era inerente
[Se converterá em estagnação.
[Sua essência, a alma, esta remanescerá.
[Não obstante — inerte — o homem já não será.
[Deixou de existir o homem? Sim.
[Passou a inexistir a alma? Não.
[A alma terá encontrado seu mar.
[Solene como uma procissão.
[Roçando florestas e rochas,
[Seu manto se alastra, se alonga
[E, qual pálio de rei antigo,
[Passa em lento e grave desfile.
[Sua essência: a água.
[Seu estado: o movimento.
[Mas, chegará um ponto de sua caminhada
[Em que o movimento lhe será retirado.
[Esse termo estará no seu encontro com o mar.
[O caráter essencial de água persistirá.
[No entanto — imóvel — como rio se findará.
[Deixou de existir o rio? Sim.
[Passou a inexistir a água? Não.
[A água se integrou no seu mar.
[Vamos ao homem, ser de índole tão andante,
[Esse rio humano que afronta a natureza,
[E rege, com maestria idêntica,
[Violinos e canhões, salmos e prantos.
[Pêndulo oscilante entre o nefando e o sublime.
[E lá vai o homem, inquieto, aflito,
[Em marcha desordenada
[Buscando o que não alcançará.
[Sua essência: a alma.
[Seu estado: o movimento.
[Sobreviverá o ansejo inelutável
[Em que o movimento que lhe era inerente
[Se converterá em estagnação.
[Sua essência, a alma, esta remanescerá.
[Não obstante — inerte — o homem já não será.
[Deixou de existir o homem? Sim.
[Passou a inexistir a alma? Não.
[A alma terá encontrado seu mar.
899
Elielson Rodrigues
Clâmide Sepulcral
Não te atreles ao passado,
Ilumina teu céptico futuro,
e caminha ao meu lado,
sucumbindo em lugar seguro.
Dentre a bruma que cobre teu túmulo,
vi voar um anjo que me disse o quanto,
aquele lugar é santo,
queimando o velário que te torna nulo.
O Areópago me condena
à vida cenobial...
que outra gangrena,
me vestiria a clâmide sepulcral?
Ilumina teu céptico futuro,
e caminha ao meu lado,
sucumbindo em lugar seguro.
Dentre a bruma que cobre teu túmulo,
vi voar um anjo que me disse o quanto,
aquele lugar é santo,
queimando o velário que te torna nulo.
O Areópago me condena
à vida cenobial...
que outra gangrena,
me vestiria a clâmide sepulcral?
896
Edmundo de Bettencourt
Sugestão
Entro na igreja majestosa e calma,
erro na sombra sob as arcarias.
Anda no ar silêncio, e a minha alma
toma a frieza das colunas frias...
Numa capela triste aonde espalma,
dourado lustre, chamas fugidias,
tocam-me o peito as sete duma palma,
a evocar-me de Cristo as agonias.
Começa o som do órgão, morno, errante,
o aroma do incenso penetrante
como as garras aduncas do tormento.
E já o desejo acre de esquecer,
ao longe o mundo eu só escutar e ver,
coração me nasce brando e lento. . .
erro na sombra sob as arcarias.
Anda no ar silêncio, e a minha alma
toma a frieza das colunas frias...
Numa capela triste aonde espalma,
dourado lustre, chamas fugidias,
tocam-me o peito as sete duma palma,
a evocar-me de Cristo as agonias.
Começa o som do órgão, morno, errante,
o aroma do incenso penetrante
como as garras aduncas do tormento.
E já o desejo acre de esquecer,
ao longe o mundo eu só escutar e ver,
coração me nasce brando e lento. . .
1 117
Dora Ferreira da Silva
Pássaro e Mulher
Quem me prende
mais do que a terra?
Impossível o vôo
agora.
Quente fremente
a intenção de alguém.
Desfez-se a palidez
perdi meu vôo
nas grades de seu peito.
Aprísiona-me - grilhão -
o seio suave e
no calor do instante
a união.
mais do que a terra?
Impossível o vôo
agora.
Quente fremente
a intenção de alguém.
Desfez-se a palidez
perdi meu vôo
nas grades de seu peito.
Aprísiona-me - grilhão -
o seio suave e
no calor do instante
a união.
1 708
Edmundo de Bettencourt
Canção
Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.
Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.
Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.
Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.
Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!
1 181
Efer Cilas dos Santos Junior
Dor Infinita
Dor Infinita
Um dia nasce e, por fim, morre então;
Surge depois outro e também fenece,
Assim nossa existência acontece
E, aos poucos se dissipa qual poção.
Mas o que tem o pesar como irmão,
E de uma dor profunda assim padece,
Todo dia tormento lhe parece
Insuportável sua condição...
Não há riqueza, sorte, ou até conquista
Que impedir possa que tal dor persista
E faça rir de novo o triste ser...
Que dor é essa maior que o existir?
É sem um amor ter que resistir!
É sem carinho ter que então viver!
Um dia nasce e, por fim, morre então;
Surge depois outro e também fenece,
Assim nossa existência acontece
E, aos poucos se dissipa qual poção.
Mas o que tem o pesar como irmão,
E de uma dor profunda assim padece,
Todo dia tormento lhe parece
Insuportável sua condição...
Não há riqueza, sorte, ou até conquista
Que impedir possa que tal dor persista
E faça rir de novo o triste ser...
Que dor é essa maior que o existir?
É sem um amor ter que resistir!
É sem carinho ter que então viver!
1 001
Elizabeth Hazin
Não Escute
Não escute meu choro
quieto:
eu sou um deserto
e preciso chorar
Não escute meu amor
fugidio:
eu sou um rio
e preciso passar
Não escute meu sorriso
constante:
eu sou um instante
e preciso durar
quieto:
eu sou um deserto
e preciso chorar
Não escute meu amor
fugidio:
eu sou um rio
e preciso passar
Não escute meu sorriso
constante:
eu sou um instante
e preciso durar
1 025
Egito Gonçalves
Os Vegetantes
Continuam aqui
roendo as unhas!
Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.
Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistem à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do mais inútil.
Curvam ao solo os ombros
escorjados; curvam-nos para
duradouras urtigas, seixos
sem horizontes, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.
Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
"É a vida!". Sementes violadas
não germinam.
Em vão os bombardeiros os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressaca.
E fazem do amor essa triste umidade,
um delíquio formal logo amortalhado.
São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.
roendo as unhas!
Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.
Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistem à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do mais inútil.
Curvam ao solo os ombros
escorjados; curvam-nos para
duradouras urtigas, seixos
sem horizontes, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.
Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
"É a vida!". Sementes violadas
não germinam.
Em vão os bombardeiros os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressaca.
E fazem do amor essa triste umidade,
um delíquio formal logo amortalhado.
São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.
1 588
Di Souto
Busca
Há momentos
em que me vejo
em mim:
é quando descinjo
as brumas do pensamento
e encontro-me
em ti.
Há momentos
em que te vejo
em mim:
é quando os entroses
(nossas arcadas)
moem o beijo
de outras bocas,
que é só nosso.
Há momentos
em que somos,
um para o outro,
simplesmente estranhos,
no vazio do universo.
Há momentos
em que somos,
unidos,
o cinzel de nossas almas,
a chaminé das idéias,
ou o cinturão,
desusado,
da ternura.
Há momentos
em que não me vejo
em mim
e nem em ti.
(Extrínsecas almas
flutuantes no nada
sem sermos nada.)
Há momentos
em que me vejo
em mim
e em ti:
é quando os sapatos
desamarrados,
jogados na areia,
esperam nossos pés
que se perderam,
em busca de nós mesmos
Messejana, 23.12.70
em que me vejo
em mim:
é quando descinjo
as brumas do pensamento
e encontro-me
em ti.
Há momentos
em que te vejo
em mim:
é quando os entroses
(nossas arcadas)
moem o beijo
de outras bocas,
que é só nosso.
Há momentos
em que somos,
um para o outro,
simplesmente estranhos,
no vazio do universo.
Há momentos
em que somos,
unidos,
o cinzel de nossas almas,
a chaminé das idéias,
ou o cinturão,
desusado,
da ternura.
Há momentos
em que não me vejo
em mim
e nem em ti.
(Extrínsecas almas
flutuantes no nada
sem sermos nada.)
Há momentos
em que me vejo
em mim
e em ti:
é quando os sapatos
desamarrados,
jogados na areia,
esperam nossos pés
que se perderam,
em busca de nós mesmos
Messejana, 23.12.70
417
Eunice Arruda
Hora Poética
Para esquecer esta
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
1 022
Emílio Burlamaqui
De Nietzsche a Dante, com Amor
Se vais à mulher, não esqueças o chicote
Para fustigares o perigo do amor.
Carrega a lança, pois és sempre um D. Quixote,
Mas leva o lenço para a inexorável dor.
O amor não é mais forte que a espuma
(espuma do mar: Venus, amor... tormento)
E muito menos que a neblina, que a bruma
Que se desfazem com o sol ou com o vento.
O amor é instável, sutil, evanescente.
Não há prazo para tempo tão fugaz,
Sua essência é ser assim inconsistente,
Não há norma, não há tino, não há paz.
Porta o chicote, leva o corpo, deixa a alma,
Guarda receio se a mulher tua mão alcança,
Conduz teu lenço, teu escudo, tua calma,
Se vais ao amor, deixa atrás toda esperança.
Para fustigares o perigo do amor.
Carrega a lança, pois és sempre um D. Quixote,
Mas leva o lenço para a inexorável dor.
O amor não é mais forte que a espuma
(espuma do mar: Venus, amor... tormento)
E muito menos que a neblina, que a bruma
Que se desfazem com o sol ou com o vento.
O amor é instável, sutil, evanescente.
Não há prazo para tempo tão fugaz,
Sua essência é ser assim inconsistente,
Não há norma, não há tino, não há paz.
Porta o chicote, leva o corpo, deixa a alma,
Guarda receio se a mulher tua mão alcança,
Conduz teu lenço, teu escudo, tua calma,
Se vais ao amor, deixa atrás toda esperança.
974
Eleonora Marsiaj
Haicai
agitação da mente
Na água turva
movimento incessante
Limpidez enfim
primavera
Pingos cantantes
Tapete azulado
Flor d’ipê-roxo
Na água turva
movimento incessante
Limpidez enfim
primavera
Pingos cantantes
Tapete azulado
Flor d’ipê-roxo
1 173
Elielson Rodrigues
Pobre Infeliz
As estrelas me espionam,
eu, reclusivo, grito!
quebro os preceitos que em atrito,
pream minhalma e me decepcionam.
A Noite é meu manto,
dentre a bruma secreto meu desejo,
meu sofrer me martiriza um santo,
mas como haríolo,não prevejo.
Mortos ressuscitam,
a lua ilumina, eles fitam...
Correm e bradam por vida,
e sua dor aumenta a ferida.
A Morte é imprevisível,
é petulante,
invisível,
corante, dos mares vis,
que ceifa a vida
do pobre infeliz.
eu, reclusivo, grito!
quebro os preceitos que em atrito,
pream minhalma e me decepcionam.
A Noite é meu manto,
dentre a bruma secreto meu desejo,
meu sofrer me martiriza um santo,
mas como haríolo,não prevejo.
Mortos ressuscitam,
a lua ilumina, eles fitam...
Correm e bradam por vida,
e sua dor aumenta a ferida.
A Morte é imprevisível,
é petulante,
invisível,
corante, dos mares vis,
que ceifa a vida
do pobre infeliz.
844
Daniel Orlandi Mattos Edmundson
Para os Amigos
Se eu pudese dizer o que sinto,
E, eu juro que não minto,
Não teria mais amigos
E não estaria mais vivo
Longe daqui,
Me poria a olhar, a observar
E quando a saudade intensa chegar,
Me poria a chorar.
Por isso prefiro não ver,
Ver que não tenho amigos.
Graças a Deus; que me deu o dom,
O dom de não ver.
E, eu juro que não minto,
Não teria mais amigos
E não estaria mais vivo
Longe daqui,
Me poria a olhar, a observar
E quando a saudade intensa chegar,
Me poria a chorar.
Por isso prefiro não ver,
Ver que não tenho amigos.
Graças a Deus; que me deu o dom,
O dom de não ver.
953
Edmundo de Bettencourt
Ondulação
O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
1 085