Poemas neste tema
Alma
Dílson Catarino
Confissões
Quero sentir no teu rosto
um sinal de minha ausência.
Quero lamber tuas lágrimas
Aplacar teu sofrimento.
Quero fixar-me em teu corpo
pra transcender-me em delírio
pra sentir as mesmas dores
Tratar das mesmas feridas.
Isso é pra ter na memória
teu cheiro embriagador
É pra ter mais que certeza
que o sonho não acabou
É pra ver ainda forte
tudo o que nos juntou
-o-
um sinal de minha ausência.
Quero lamber tuas lágrimas
Aplacar teu sofrimento.
Quero fixar-me em teu corpo
pra transcender-me em delírio
pra sentir as mesmas dores
Tratar das mesmas feridas.
Isso é pra ter na memória
teu cheiro embriagador
É pra ter mais que certeza
que o sonho não acabou
É pra ver ainda forte
tudo o que nos juntou
-o-
884
José Castello
Histórias de poesia e pobreza
Amais inquietante história relatada por Paul Auster em A Arte da Fome, coletânea de prefácios, entrevistas e ensaios que acaba de ser traduzida pela José Olympio, não fala de fantasmas, ou de meninos que voam, como os que aparecem em sua Trilogia de Nova York, mas ainda assim é de dar arrepios. Auster, que foi um poeta mediano antes de se transformar em grande ficcionista, a conta em uma entrevista, concedida 11 anos depois da experiência que rememora e agora reproduzida no livro.
Dominado pelo sonho de escrever narrativas de ficção, mas obrigado pelos fatos da vida a se satisfazer com o espaço mais restrito (e, para ele, menos perigoso) da poesia, Auster já tinha se decidido, no fim dos anos 70, a abandonar de vez as fantasias literárias para se dedicar, apenas, a ganhar dinheiro. "Houve momentos em que eu pensei que tivesse chegado ao fim, que eu jamais escreveria outra palavra", rememora. Em dezembro de 1978, porém, um amigo coreógrafo o leva, sem nenhuma intenção particular, ao ensaio aberto de um balé. Auster, deprimido, se deixa arrastar. Sem qualquer expectativa especial em relação ao espetáculo, o escritor é, aos poucos, inundado pelo que vê. Dá-se uma revelação, um desses eventos inexplicáveis em que o acaso se mescla à sensibilidade e, no rasto desse vazamento, o invisível se torna visível.
Ao voltar para casa, ele se tranca no escritório e começa a escrever Espaços Brancos, obra sem gênero preciso onde, por fim, a vocação para a prosa se impõe. Escreve, compulsivamente, até as três da madrugada quando cai, exaurido, em sono profundo. Às oito da manhã, o telefone toca: alguém lhe comunica a morte repentina de seu pai, vítima de um ataque cardíaco. Semanas depois, Auster recebe uma herança que lhe dá, pela primeira vez na vida, a liberdade de escrever o que bem entende, sem se preocupar com as urgências do tempo e as contas do fim do mês.
"Não consigo me sentar e escrever sem pensar nisso", diz. "Afinal, que terrível equação! Pensar que a morte de meu pai salvou minha vida." Não é preciso aqui rastejar até a lama dos clichês edipianos, ou buscar a muleta das interpretações esotéricas. O horror está nos fatos. Auster teria permanecido um poeta medíocre se o acaso, esse deus sinuoso e complicado, não tivesse agido simultaneamente contra ele e a favor dele.
Essa história não me abandona no momento em que vejo Orides Fontela, a autora de Teia, a professora aposentada que vive na miséria, a poeta que a mídia transformou em "caso clínico", inteiramente asfixiada pela manipulação pública de sua pobreza. Não que Orides tenha que, ela também, ser bafejada por um golpe ambíguo da sorte para abandonar a poesia e se dedicar a outro gênero. Os versos são, mesmo, seu destino. Mas, diante da pobreza, todo discurso elevado - e o mais elevado de todos é o cínico - se torna uma malversação. E nem a piedade, nem o cinismo, produzem poesia.
Penso em Orides porque é impossível não dar valor à sua raiva, à sua decepção à sua sede aturdida de respeito que a mídia, cruel, transforma em curiosidade, como se ela fosse uma poeta de cera em um museu de horrores. Nela, também - como em Auster - a necessidade tinha tudo para matar o desejo insensato e se impor como um destino. Paul Auster teve a visita da sorte num momento de azar; Orides Fontela tem o azar de ser sozinha, ser aposentada e ser poeta, atributos que não parecem combinar com os modelos de sucesso em vigor, mas tem a sorte infinita de ser teimosa. E isso a salva. Em Teia, ela sintetiza: "A vida é que nos tem: nada mais temos".
Auster relata em seu livro uma segunda história que, pensando bem, dá uma resposta ríspida à primeira. Já no fim dos anos 80, passando uma temporada em uma velha mansão de Vermont, o escritor consegue, certa tarde, colocar o ponto final no romance A Música do Acaso. Orgulhoso, pleno, ele sai para fumar um charuto no jardim e desfilar seu sentimento de vencedor. Depara, dois passos adiante, com sua filha de dois anos, Sophie, totalmente nua, agachada sobre algumas pedras, concentrada em fazer cocô. A menina o vê e, sem interromper o ritual, grita: "Olha, papai! Olha o que estou fazendo!". Auster é obrigado, ali, a abandonar suas divagações de sucesso e glória para cuidar do asseio da filha. "Não sei se Sophie estava me oferecendo uma forma nada agradável de crítica literária ou se estava simplesmente fazendo uma observação filosófica sobre a igualdade de todos os atos criativos", diz.
Todo o esforço de Auster para ser livre se iguala, em um breve instante, à liberdade gratuita da pequena Sophie. Sou obrigado a pensar, novamente, em Orides Fontela, que não precisa de nossa piedade, nem de nossa repugnância, nem de nossa aprovação, nem de nossos louvores para ser uma poeta feroz. Nós a manipulamos para lá e para cá, enquanto ela, indiferente, continua a escrever.
("in" O Estado de S. Paulo, Caderno 2)
Dominado pelo sonho de escrever narrativas de ficção, mas obrigado pelos fatos da vida a se satisfazer com o espaço mais restrito (e, para ele, menos perigoso) da poesia, Auster já tinha se decidido, no fim dos anos 70, a abandonar de vez as fantasias literárias para se dedicar, apenas, a ganhar dinheiro. "Houve momentos em que eu pensei que tivesse chegado ao fim, que eu jamais escreveria outra palavra", rememora. Em dezembro de 1978, porém, um amigo coreógrafo o leva, sem nenhuma intenção particular, ao ensaio aberto de um balé. Auster, deprimido, se deixa arrastar. Sem qualquer expectativa especial em relação ao espetáculo, o escritor é, aos poucos, inundado pelo que vê. Dá-se uma revelação, um desses eventos inexplicáveis em que o acaso se mescla à sensibilidade e, no rasto desse vazamento, o invisível se torna visível.
Ao voltar para casa, ele se tranca no escritório e começa a escrever Espaços Brancos, obra sem gênero preciso onde, por fim, a vocação para a prosa se impõe. Escreve, compulsivamente, até as três da madrugada quando cai, exaurido, em sono profundo. Às oito da manhã, o telefone toca: alguém lhe comunica a morte repentina de seu pai, vítima de um ataque cardíaco. Semanas depois, Auster recebe uma herança que lhe dá, pela primeira vez na vida, a liberdade de escrever o que bem entende, sem se preocupar com as urgências do tempo e as contas do fim do mês.
"Não consigo me sentar e escrever sem pensar nisso", diz. "Afinal, que terrível equação! Pensar que a morte de meu pai salvou minha vida." Não é preciso aqui rastejar até a lama dos clichês edipianos, ou buscar a muleta das interpretações esotéricas. O horror está nos fatos. Auster teria permanecido um poeta medíocre se o acaso, esse deus sinuoso e complicado, não tivesse agido simultaneamente contra ele e a favor dele.
Essa história não me abandona no momento em que vejo Orides Fontela, a autora de Teia, a professora aposentada que vive na miséria, a poeta que a mídia transformou em "caso clínico", inteiramente asfixiada pela manipulação pública de sua pobreza. Não que Orides tenha que, ela também, ser bafejada por um golpe ambíguo da sorte para abandonar a poesia e se dedicar a outro gênero. Os versos são, mesmo, seu destino. Mas, diante da pobreza, todo discurso elevado - e o mais elevado de todos é o cínico - se torna uma malversação. E nem a piedade, nem o cinismo, produzem poesia.
Penso em Orides porque é impossível não dar valor à sua raiva, à sua decepção à sua sede aturdida de respeito que a mídia, cruel, transforma em curiosidade, como se ela fosse uma poeta de cera em um museu de horrores. Nela, também - como em Auster - a necessidade tinha tudo para matar o desejo insensato e se impor como um destino. Paul Auster teve a visita da sorte num momento de azar; Orides Fontela tem o azar de ser sozinha, ser aposentada e ser poeta, atributos que não parecem combinar com os modelos de sucesso em vigor, mas tem a sorte infinita de ser teimosa. E isso a salva. Em Teia, ela sintetiza: "A vida é que nos tem: nada mais temos".
Auster relata em seu livro uma segunda história que, pensando bem, dá uma resposta ríspida à primeira. Já no fim dos anos 80, passando uma temporada em uma velha mansão de Vermont, o escritor consegue, certa tarde, colocar o ponto final no romance A Música do Acaso. Orgulhoso, pleno, ele sai para fumar um charuto no jardim e desfilar seu sentimento de vencedor. Depara, dois passos adiante, com sua filha de dois anos, Sophie, totalmente nua, agachada sobre algumas pedras, concentrada em fazer cocô. A menina o vê e, sem interromper o ritual, grita: "Olha, papai! Olha o que estou fazendo!". Auster é obrigado, ali, a abandonar suas divagações de sucesso e glória para cuidar do asseio da filha. "Não sei se Sophie estava me oferecendo uma forma nada agradável de crítica literária ou se estava simplesmente fazendo uma observação filosófica sobre a igualdade de todos os atos criativos", diz.
Todo o esforço de Auster para ser livre se iguala, em um breve instante, à liberdade gratuita da pequena Sophie. Sou obrigado a pensar, novamente, em Orides Fontela, que não precisa de nossa piedade, nem de nossa repugnância, nem de nossa aprovação, nem de nossos louvores para ser uma poeta feroz. Nós a manipulamos para lá e para cá, enquanto ela, indiferente, continua a escrever.
("in" O Estado de S. Paulo, Caderno 2)
970
Chacal
Na porta lá de casa
Na porta lá de casa
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.
4 648
Olympia Mahu
Mamãe
Viver é uma luta constatnte
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
891
Dílson Catarino
Poema do Final do Mundo
Toda alma humana anda perdida
desnorteada, sem achar vida
O fim do século provoca angústia
Dúvida atroz, desesperança.
Tormento vil, tal sofrimento
nunca existiu, nem por momentos
O ser humano é o responsável
por esta sina irreversível.
A morte certa, a guerra atômica
O fim de tudo, nosso destino
A carne podre se decompondo
Pó nuclear tudo infestando.
Bolhas na pele, câncer no corpo
Terras estéreis, o verde morto.
Não há mais ar, não há mais mundo
Não há mais nada, nem mesmo Deus.
desnorteada, sem achar vida
O fim do século provoca angústia
Dúvida atroz, desesperança.
Tormento vil, tal sofrimento
nunca existiu, nem por momentos
O ser humano é o responsável
por esta sina irreversível.
A morte certa, a guerra atômica
O fim de tudo, nosso destino
A carne podre se decompondo
Pó nuclear tudo infestando.
Bolhas na pele, câncer no corpo
Terras estéreis, o verde morto.
Não há mais ar, não há mais mundo
Não há mais nada, nem mesmo Deus.
961
Carla Bianca
Alheio
Sofro,
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.
958
Carlos Nóbrega
O Banco da Gare
tu que estás morto
sentado num banco da gare
esperando
- vieste pegar o trem?
não não
vim esperar o trem passar:
- vim pegar o tempo.
mas para tu que estás morto
- o tempo não já
passou?
sim sim
o tempo já passou
- Mas eu vim pega-lo.
sentado num banco da gare
esperando
- vieste pegar o trem?
não não
vim esperar o trem passar:
- vim pegar o tempo.
mas para tu que estás morto
- o tempo não já
passou?
sim sim
o tempo já passou
- Mas eu vim pega-lo.
1 013
Dílson Catarino
Passado Quebrado
Não há muros intransponíveis
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo
É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.
Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.
Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?
Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer
Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.
Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.
Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo
É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.
Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.
Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?
Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer
Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.
Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.
Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.
758
Olympia Mahu
Espera
A porta se abrirá...
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.
Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.
Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...
Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...
Olimpya Mahu, nov/91
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.
Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.
Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...
Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...
Olimpya Mahu, nov/91
928
Carla Bianca
Lembrança
Guardo a saudade no fundo da goela. Lá coloco sentimentos como se fossem drágeas a serem engolidas. Procuro um copo d’água para desentalar a saudade.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
959
Dílson Catarino
Poemas Menores
Meus óculos quebrados
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
955
Carlos Nóbrega
Os Olhos Idos
oh por que
o olho morre antes da vida
como se o pássaro
antes do vôo
e o homem antes do sonho
como se tudo fosse apenas
uma grande lua
sem haver noite
o olho morre antes da vida
como se o pássaro
antes do vôo
e o homem antes do sonho
como se tudo fosse apenas
uma grande lua
sem haver noite
609
Carlos Nóbrega
O Vento
Já tão velhinho
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
843
Dílson Catarino
Sombra Calada
Por que ser eu, se posso ser o silêncio
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
807
Carlinhos Brown
Frases Ventias
Teu beijo
Cata-vento
Que assobia
Frases ventias
Pra ti sem mim
Pelo portão que escorre a calmaria
Nos utensílios
Que a vi servir
Saladas em lavouras de agonia
Com ar de amor
Que mal dormia
Yá,yá
Como porção de arroz
Na água escura
Na desventura de ver o dia
Toda canção de amor
agora é tua
Põe o tecido
Que tu tecia
Arranca esse ardor
Que a moda surta
Carrega meu amor
Com pés de frutas
Cata-vento
Que assobia
Frases ventias
Pra ti sem mim
Pelo portão que escorre a calmaria
Nos utensílios
Que a vi servir
Saladas em lavouras de agonia
Com ar de amor
Que mal dormia
Yá,yá
Como porção de arroz
Na água escura
Na desventura de ver o dia
Toda canção de amor
agora é tua
Põe o tecido
Que tu tecia
Arranca esse ardor
Que a moda surta
Carrega meu amor
Com pés de frutas
1 878
Carlos Nóbrega
Bichinho
Desmontei
as 11 peças
de um siri.
Sua alminha
toda branca
saiu de banda
por aí.
as 11 peças
de um siri.
Sua alminha
toda branca
saiu de banda
por aí.
651
Caetano de Brito e Figueiredo
Soneto
Se adormecida, ó Clícia, te parece
que amor neste letargo se minora,
é engano, que tanto mais adora
quanto entregue ao pesar mais se adormece:
à Luz do Sol o seu Amor floresce,
restaura alentos, quando sai a Aurora;
o meu da Lua a vista sente e chora
e quando se retira, desfalece.
O Sono, não descanso, mas tormento
com impulso cruel, com rigor forte
faz que este amor se julgue esquecimento.
Tu no Sol tens o objeto, o alívio, a Sorte:
eu sem sentido entregue ao sentimento,
sou vítima de amor, morro sem Morte.
que amor neste letargo se minora,
é engano, que tanto mais adora
quanto entregue ao pesar mais se adormece:
à Luz do Sol o seu Amor floresce,
restaura alentos, quando sai a Aurora;
o meu da Lua a vista sente e chora
e quando se retira, desfalece.
O Sono, não descanso, mas tormento
com impulso cruel, com rigor forte
faz que este amor se julgue esquecimento.
Tu no Sol tens o objeto, o alívio, a Sorte:
eu sem sentido entregue ao sentimento,
sou vítima de amor, morro sem Morte.
757
Carla Bianca
Ventos Vulcânicos
Contemplo imagem do espelho, reflexo tão belo como há muito não vislumbrava. Vulto luminoso emoldurado por negros cabelos e morenas faces. Dentes mais brancos, boca rosada e delatora, dançando teu nome sem escorrer um único som.
Imagem confiante que resplandece, bafejada por ventos vulcânicos, advindos da grande erupção da tua presença.
Imagem confiante que resplandece, bafejada por ventos vulcânicos, advindos da grande erupção da tua presença.
974
Castro Alves
Horas de Saudade
TUDO VEM me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase quinda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
DAvc-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo nalma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minhalma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...
E teu rastro de amor guarda minhalma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase quinda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
DAvc-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo nalma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minhalma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...
E teu rastro de amor guarda minhalma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...
2 633
Castro Alves
Um Raio de Luar
ALTA NOITE ele ergueu-se. Hirto, solene.
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...
Que fundo olhar!
Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,
No largo mar.
Tomou-a no regaço... assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,
Tenra a dormir.
Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
Pálida e fria... Era talvez a morte...
Mas a sorrir.
Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe
O ressonar.
E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio
A titilar.
Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente
— Riso fatal.
Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite
Hirta, glacial!
Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro
Mais sinclinou...
Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança
À flux boiou!
Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras
Morde o escarcéu;
Um calafrio percorreu-lhe os músculos...
O vulto recuou!... A noite em meio
Ia no céu!
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...
Que fundo olhar!
Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,
No largo mar.
Tomou-a no regaço... assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,
Tenra a dormir.
Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
Pálida e fria... Era talvez a morte...
Mas a sorrir.
Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe
O ressonar.
E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio
A titilar.
Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente
— Riso fatal.
Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite
Hirta, glacial!
Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro
Mais sinclinou...
Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança
À flux boiou!
Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras
Morde o escarcéu;
Um calafrio percorreu-lhe os músculos...
O vulto recuou!... A noite em meio
Ia no céu!
2 075
Castro Alves
Loucura Divina
—"SABES que voz é esta?"
Ela cismava!...
— "Sabes, Maria?
— "É uma canção de amores.
Que além gemeu!"
— "É o abismo, criança!..."
A moça rindo
Enlaçou-lhe o pescoço:
— "Oh! não! não mintas!
Bem sei que é o céu!"
—"Doida! Doida! É a voragem que nos chama!..."
—"Eu ouço a Liberdade!"
— "É a morte, infante!
— "Erraste. É a salvação!"
—Negro fantasma é quem me embala o esquife!"
—"Loucura! É tua Mãe ... O esquife é um berço,
Que bóia namplidão!..."
— "Não vês os panos dágua como alvejam
Nos penedos? Que gélido sudário
O rio nos talhou!"
— "Veste-me o cetim branco do noivado...
Roupas alvas de prata... albentes dobras...
Veste-me!... Eu aqui estou."
—JÁ na proa espadana, salta a espuma... "
—São as flores gentis da laranjeira
Que o pego vem nos dar...
Oh! névoa! Eu amo teu sendal de gaze!...
Abram-se as ondas como virgens louras,
Para a Esposa passar!...
"As estrelas palpitam! — São as tochas!
Os rochedos murmuram!... São os monges!
Reza um órgão nos céus!
Que incenso! — Os rolos que do abismo voam!
Que turíbulo enorme — Paulo Afonso!
Que sacerdote! — Deus..."
Ela cismava!...
— "Sabes, Maria?
— "É uma canção de amores.
Que além gemeu!"
— "É o abismo, criança!..."
A moça rindo
Enlaçou-lhe o pescoço:
— "Oh! não! não mintas!
Bem sei que é o céu!"
—"Doida! Doida! É a voragem que nos chama!..."
—"Eu ouço a Liberdade!"
— "É a morte, infante!
— "Erraste. É a salvação!"
—Negro fantasma é quem me embala o esquife!"
—"Loucura! É tua Mãe ... O esquife é um berço,
Que bóia namplidão!..."
— "Não vês os panos dágua como alvejam
Nos penedos? Que gélido sudário
O rio nos talhou!"
— "Veste-me o cetim branco do noivado...
Roupas alvas de prata... albentes dobras...
Veste-me!... Eu aqui estou."
—JÁ na proa espadana, salta a espuma... "
—São as flores gentis da laranjeira
Que o pego vem nos dar...
Oh! névoa! Eu amo teu sendal de gaze!...
Abram-se as ondas como virgens louras,
Para a Esposa passar!...
"As estrelas palpitam! — São as tochas!
Os rochedos murmuram!... São os monges!
Reza um órgão nos céus!
Que incenso! — Os rolos que do abismo voam!
Que turíbulo enorme — Paulo Afonso!
Que sacerdote! — Deus..."
1 989
Castro Alves
Fatalidade
DAMA NEGRA
Que fatalidade, meu pai!
ÁLVARES DE AZEVEDO
ADEUS! ADEUS! ó meu extremo abrigo!
Adeus! eu digo-te a chorar de dor!
É o derradeiro suspirar das crenças,
Que se despedem das visões do amor...
Pálido e triste atravessei a vida
Sempre orgulhoso, concentrado e só...
É que eu sentia que um fadário estranho
Meus sonhos todos reduzia a pó.
Mas tu vieste... E acreditei na vida...
Abri os braços... caminhei pra luz...
E a borboleta da fatal crisálida
Soltou as asas pelos céus azuis.
O tronco morto — refloriu de novo
Ergue-se vivo, perfumado, em flor,
Abençoando a primavera amiga...
Ai! primavera de meu santo amor!
Porém que importa, se há fadários negros. .
Frontes — voltadas do sepulcro ao chão...
Pedras coladas de um abismo à beira...
Astros sem norte, de um cruel clarão!
Quem mostra o trilho ao viajor das sombras?
Quem ergue o morto que esfriou o pó?
Quem diz à pedra que não desça ao pego?
Quem segue a estrela desgraçada e só?
Ninguém!... Na terra tudo vai... gravita
Lá para o ponto que lhe marca Deus.
Os raios tombam — as estrelas sobem!...
Lutar coa sorte — é combater os céus!
"Vai! pois, é rosa, que em meu seio, outrora
Acalentava a suspirar e a rir...
Deixas minha alma como um chão deserto,
Vai! flor virente! mais além florir ...
"Vai! flor virente! no rumor das festas,
Entre esplendores, como o sol, viver
Enquanto eu subo tropeçando incerto
Pelo patiblo — que se diz sofrer! ...
............................................
Que resta ao triste, sem amor, sem crenças?
— Seguir a sina... se ocultar no chão ...
... Mas, quando, estrela! pelo céu voares,
Banha-me a lousa de feral clarão!...
Que fatalidade, meu pai!
ÁLVARES DE AZEVEDO
ADEUS! ADEUS! ó meu extremo abrigo!
Adeus! eu digo-te a chorar de dor!
É o derradeiro suspirar das crenças,
Que se despedem das visões do amor...
Pálido e triste atravessei a vida
Sempre orgulhoso, concentrado e só...
É que eu sentia que um fadário estranho
Meus sonhos todos reduzia a pó.
Mas tu vieste... E acreditei na vida...
Abri os braços... caminhei pra luz...
E a borboleta da fatal crisálida
Soltou as asas pelos céus azuis.
O tronco morto — refloriu de novo
Ergue-se vivo, perfumado, em flor,
Abençoando a primavera amiga...
Ai! primavera de meu santo amor!
Porém que importa, se há fadários negros. .
Frontes — voltadas do sepulcro ao chão...
Pedras coladas de um abismo à beira...
Astros sem norte, de um cruel clarão!
Quem mostra o trilho ao viajor das sombras?
Quem ergue o morto que esfriou o pó?
Quem diz à pedra que não desça ao pego?
Quem segue a estrela desgraçada e só?
Ninguém!... Na terra tudo vai... gravita
Lá para o ponto que lhe marca Deus.
Os raios tombam — as estrelas sobem!...
Lutar coa sorte — é combater os céus!
"Vai! pois, é rosa, que em meu seio, outrora
Acalentava a suspirar e a rir...
Deixas minha alma como um chão deserto,
Vai! flor virente! mais além florir ...
"Vai! flor virente! no rumor das festas,
Entre esplendores, como o sol, viver
Enquanto eu subo tropeçando incerto
Pelo patiblo — que se diz sofrer! ...
............................................
Que resta ao triste, sem amor, sem crenças?
— Seguir a sina... se ocultar no chão ...
... Mas, quando, estrela! pelo céu voares,
Banha-me a lousa de feral clarão!...
2 315
Castro Alves
No Fonte
I
"ERA HOJE ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.
II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como ua moça a brincar.
III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.
IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!
V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no baleeiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi? ! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.
VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro dágua cair.
VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só! ...
VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"
"ERA HOJE ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.
II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como ua moça a brincar.
III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.
IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!
V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no baleeiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi? ! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.
VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro dágua cair.
VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só! ...
VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"
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