Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Marina Colasanti
Ainda há
Deus
era alguém que se encontrava a toda hora
ou mandava emissários
no tempo em que
o arado afundava na terra
o leite esguichava da teta
e a peste abocanhava na garganta.
Multiplicaram-se as gentes
e os deuses não mais deram
atendimento personalizado.
Agora
vou sozinha pela vida
empurrando carrinhos de comida
e não encontro Deus no shopping center
não o vejo na fila do cinema
nem lhe peço licença no aeroporto.
Mas ainda há tardes de chuva e
luzes lentas no engarrafamento
em que a palheta chora contra o vidro
o ar se embaça
e Deus vai
em silêncio
no banco do carona.
era alguém que se encontrava a toda hora
ou mandava emissários
no tempo em que
o arado afundava na terra
o leite esguichava da teta
e a peste abocanhava na garganta.
Multiplicaram-se as gentes
e os deuses não mais deram
atendimento personalizado.
Agora
vou sozinha pela vida
empurrando carrinhos de comida
e não encontro Deus no shopping center
não o vejo na fila do cinema
nem lhe peço licença no aeroporto.
Mas ainda há tardes de chuva e
luzes lentas no engarrafamento
em que a palheta chora contra o vidro
o ar se embaça
e Deus vai
em silêncio
no banco do carona.
990
Manuel Bandeira
A Silhueta
Na sala obscura, onde branqueja
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
1 610
Manuel Bandeira
Escusa
Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade.
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar O gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade.
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar O gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.
1 395
Marina Colasanti
Por preço de
Estão sorteando frangos
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
569
Marina Colasanti
Todo dia, à caça
Na savana da tv
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
1 079
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
1 072
Marina Colasanti
Quando a fome
Como lobo esfaimado
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
662
Marina Colasanti
Sem vermelho, porém
Um jovem de Botticelli
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
935
Marina Colasanti
No dia prescrito
Entrei no escritório e a vi
vestida de gato,
malha preta e salto alto.
O computador ligado
ela atendendo o telefone
com séria presteza
- bom dia, quem deseja? -
de bigodes pintados
orelhas de pelúcia
e mancha preta na ponta do nariz.
Porque era o Dia das Bruxas
estava fantasiada sem estar,
cumprindo seu dever mais uma vez
ela
que nunca havia brincado no serviço.
Levantou-se para atender o chefe
e eficiente sempre
deu com o calcanhar um chute leve
evitando o perigo de tropeçar na cauda.
Não percebeu
que o laço vermelho do arremate
havia caído
ficando abandonado para trás.
Austin, Texas, 1998
vestida de gato,
malha preta e salto alto.
O computador ligado
ela atendendo o telefone
com séria presteza
- bom dia, quem deseja? -
de bigodes pintados
orelhas de pelúcia
e mancha preta na ponta do nariz.
Porque era o Dia das Bruxas
estava fantasiada sem estar,
cumprindo seu dever mais uma vez
ela
que nunca havia brincado no serviço.
Levantou-se para atender o chefe
e eficiente sempre
deu com o calcanhar um chute leve
evitando o perigo de tropeçar na cauda.
Não percebeu
que o laço vermelho do arremate
havia caído
ficando abandonado para trás.
Austin, Texas, 1998
1 020
Marina Colasanti
Tinnitus auricularis
Há muito
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
1 143
Marina Colasanti
Por instantes
Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 279
Marina Colasanti
Lua de mel em Veneza
Na mesa à minha esquerda
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
1 110
Marina Colasanti
Nenhum como aqueles
Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
1 278
Marina Colasanti
Sera d'estate a Roma
Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
1 313
Marina Colasanti
VERDE, PORÉM
Por que será que
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
caco cravado
que ao alto do muro
defende propriedades
e fere consciências?
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
caco cravado
que ao alto do muro
defende propriedades
e fere consciências?
928
Marina Colasanti
Dai de beber a quem
A água que tomo
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
1 195
Marina Colasanti
A ÚLTIMA ILHA
Neste mundo de pontes virtuais
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
1 020
Marina Colasanti
A todos igualmente
Aquele homem tinha um zoológico
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
1 143
Marina Colasanti
Perspectiva à noite
Na altura do quinto andar
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
1 132
Marina Colasanti
AINDA ASSIM
Cada vez que você
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
974
Marina Colasanti
EXPENSE ACCOUNT
Comendo spaghetti e frango
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.
Roma 1996
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.
Roma 1996
1 051
Marina Colasanti
Na esquina do mundo
Se Marco Polo descesse
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
993
Marina Colasanti
DEPOIS, A ATERRISSAGEM
À noite
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.
934
Marina Colasanti
E estremecem na aragem
Agora, nos subúrbios,
mais pra lá dos subúrbios,
na terra de ninguém que liga
um nome de cidade a outro
nome de cidade,
as pequenas casas de laje
- nem bem casas mas que
casas são e
são chamadas
porque únicas casas possíveis
para os que nelas moram -
exibem estranha coroa de
antenas coloridas.
São vergalhões que afloram
no cimento para que um dia
talvez
se venda a laje
ou se levante outro andar
quase luxo
para filhos e netos.
Em algum lugar
um animal pasta atado a uma corda
o calor se arrasta entre lama e mato.
Ao alto, garrafas pet invertidas
protegem os sonhos.
mais pra lá dos subúrbios,
na terra de ninguém que liga
um nome de cidade a outro
nome de cidade,
as pequenas casas de laje
- nem bem casas mas que
casas são e
são chamadas
porque únicas casas possíveis
para os que nelas moram -
exibem estranha coroa de
antenas coloridas.
São vergalhões que afloram
no cimento para que um dia
talvez
se venda a laje
ou se levante outro andar
quase luxo
para filhos e netos.
Em algum lugar
um animal pasta atado a uma corda
o calor se arrasta entre lama e mato.
Ao alto, garrafas pet invertidas
protegem os sonhos.
1 047