Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Pablo Neruda
O Porto Cor de Céu
Quando tu desembarcas
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os telhados,
as janelas
salpicadas do ouro limoeiro,
do azul ultramar dos navios.
Quando desembarcas
não conheces,
não sabes que detrás das janelas
escutam,
rondam
carcereiros de luto,
retóricos, corretos,
arreiando presos às ilhas,
condenando ao silêncio,
pululando
como esquadras de sombras
sob janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia
sob as outonais cornucopias
buscando portugueses,
rasgando o solo,
destinando os homens à sombra.
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os telhados,
as janelas
salpicadas do ouro limoeiro,
do azul ultramar dos navios.
Quando desembarcas
não conheces,
não sabes que detrás das janelas
escutam,
rondam
carcereiros de luto,
retóricos, corretos,
arreiando presos às ilhas,
condenando ao silêncio,
pululando
como esquadras de sombras
sob janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia
sob as outonais cornucopias
buscando portugueses,
rasgando o solo,
destinando os homens à sombra.
1 038
Pablo Neruda
Iii - a Cidade Ferida
Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.
E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.
Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.
E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.
Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
977
Pablo Neruda
I - Em Berlim a Manhã
Despertei. Era Berlim. Pela janela
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
1 100
Pablo Neruda
Preguiça
Não trabalhei em Domingo,
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
1 405
Pablo Neruda
Mais Outro
Eu voltei do fundo do mar
odiando as coisas molhadas:
me sacudi como os cachorros
das ondas que me queriam
e de repente me senti
contente de meu desembarque
e unicamente terrestre.
Os jornalistas dirigiram
sua maquinaria extravagante
contra meus olhos e meu umbigo
para que lhes contasse coisas
como se eu estivesse morto,
como se eu fosse um vulgar
cadáver especializado,
sem levar em conta meu ser
que me exigia caminhar
antes de que eu regressasse
a meus costumes espantosos:
estive a ponto de voltar
a submergir na maré.
Porque minha história se duplica
quando em minha infância descobri
meu depravado coração
que me fez cair no mar
e acostumar-me a ser submarino.
Ali estudei para pintor,
ali tive casa e peixe,
sob as ondas me casei,
já não me lembro quais foram
minhas noivas das profundezas
e o certo é que tudo aquilo
era uma incólume rotina:
me aborrecia com os peixes
sem incidências nem batalhas
e eles pensaram que talvez
eu era um monótono cetáceo.
Quando por imaginação
pisei a areia de Ilha Negra
e vivi como todo o mundo,
me tocam tanto a sineta
e perguntam coisas idiotas
sobre os aspectos remotos
de uma vida tão comum
não sei que fazer para espantar
estes estranhos bisbilhoteiros.
Peço a um sábio que me diga
onde posso viver tranquilo.
odiando as coisas molhadas:
me sacudi como os cachorros
das ondas que me queriam
e de repente me senti
contente de meu desembarque
e unicamente terrestre.
Os jornalistas dirigiram
sua maquinaria extravagante
contra meus olhos e meu umbigo
para que lhes contasse coisas
como se eu estivesse morto,
como se eu fosse um vulgar
cadáver especializado,
sem levar em conta meu ser
que me exigia caminhar
antes de que eu regressasse
a meus costumes espantosos:
estive a ponto de voltar
a submergir na maré.
Porque minha história se duplica
quando em minha infância descobri
meu depravado coração
que me fez cair no mar
e acostumar-me a ser submarino.
Ali estudei para pintor,
ali tive casa e peixe,
sob as ondas me casei,
já não me lembro quais foram
minhas noivas das profundezas
e o certo é que tudo aquilo
era uma incólume rotina:
me aborrecia com os peixes
sem incidências nem batalhas
e eles pensaram que talvez
eu era um monótono cetáceo.
Quando por imaginação
pisei a areia de Ilha Negra
e vivi como todo o mundo,
me tocam tanto a sineta
e perguntam coisas idiotas
sobre os aspectos remotos
de uma vida tão comum
não sei que fazer para espantar
estes estranhos bisbilhoteiros.
Peço a um sábio que me diga
onde posso viver tranquilo.
1 208
Pablo Neruda
Dedos Queimados
Romênia antiga, Bucareste dourada,
como te assemelhavas
às nossas infernais e celestes
repúblicas
da América.
Pastoril eras e sombria.
Espinhos e asperezas resguardavam
tua miséria terrível,
enquanto Mme. Charmante
divagava em francês pelos salões.
O látego caía
sobre as cicatrizes de teu povo,
enquanto os elegantes literários
em sua revista Sur (seguramente)
estudavam Lawrence, o espião,
ou Heidegger ou a “notre petit Drieu”.
“Tout allait bien a Bucarest.”
O petróleo
deixava queimaduras nos dedos
e enegrecia rostos
de romenos sem nome,
mas se fazia coro
de libras esterlinas
em Nova York e em Londres.
Por isso
era tão elegante Bucareste,
tão suaves as senhoras.
“Ah quel charme, monsieur.”
Enquanto a fome
rondava levantando
seu possuidor vazio
pelos subúrbios negros
e o campo infortunado.
Ah, sim senhores, era
exatamente como Buenos Aires,
como Santiago ou Lima,
Bogotá e São Paulo.
Dançavam uns poucos na sala
permutando suspiros,
o Clube e as revistas literárias
eram muito europeus,
a fome era romena,
o frio era romeno,
o pranto dos pobres
no comum ossário era romeno,
e assim andava a vida
de flor em flor como no meu continente
com as prisões repletas
e a valsa nos jardins.
Oui, Madame, que mundo
se foi, que irreparável
perda para toda
a gente distinta!
Bucareste já não existe.
Esse gosto, essa linha,
essa primorosa mescla
de podridão e de “pâtisserie”!
Terrível me parece.
Contam-me
que até a cor local,
os pinturescos trajes esfarrapados,
os mendigos retorcidos como pobres raízes,
as meninas que tremendo
esperavam a noite
às portas do baile,
tudo isso, horror, desapareceu.
Que faremos, chère Madame?
Em outra parte faremos
uma revista Sur de fazendeiros
profundamente preocupados
com a “métaphisique”.
como te assemelhavas
às nossas infernais e celestes
repúblicas
da América.
Pastoril eras e sombria.
Espinhos e asperezas resguardavam
tua miséria terrível,
enquanto Mme. Charmante
divagava em francês pelos salões.
O látego caía
sobre as cicatrizes de teu povo,
enquanto os elegantes literários
em sua revista Sur (seguramente)
estudavam Lawrence, o espião,
ou Heidegger ou a “notre petit Drieu”.
“Tout allait bien a Bucarest.”
O petróleo
deixava queimaduras nos dedos
e enegrecia rostos
de romenos sem nome,
mas se fazia coro
de libras esterlinas
em Nova York e em Londres.
Por isso
era tão elegante Bucareste,
tão suaves as senhoras.
“Ah quel charme, monsieur.”
Enquanto a fome
rondava levantando
seu possuidor vazio
pelos subúrbios negros
e o campo infortunado.
Ah, sim senhores, era
exatamente como Buenos Aires,
como Santiago ou Lima,
Bogotá e São Paulo.
Dançavam uns poucos na sala
permutando suspiros,
o Clube e as revistas literárias
eram muito europeus,
a fome era romena,
o frio era romeno,
o pranto dos pobres
no comum ossário era romeno,
e assim andava a vida
de flor em flor como no meu continente
com as prisões repletas
e a valsa nos jardins.
Oui, Madame, que mundo
se foi, que irreparável
perda para toda
a gente distinta!
Bucareste já não existe.
Esse gosto, essa linha,
essa primorosa mescla
de podridão e de “pâtisserie”!
Terrível me parece.
Contam-me
que até a cor local,
os pinturescos trajes esfarrapados,
os mendigos retorcidos como pobres raízes,
as meninas que tremendo
esperavam a noite
às portas do baile,
tudo isso, horror, desapareceu.
Que faremos, chère Madame?
Em outra parte faremos
uma revista Sur de fazendeiros
profundamente preocupados
com a “métaphisique”.
1 224
Pablo Neruda
Canto IX - Que acorde o lenhador
I
Que acorde o lenhador
A oeste do Colorado River
há um lugar que amo.
Acorro ali com tudo o que palpitando
transcorre em mim, com tudo
o que fui, o que sou, o que mantenho.
Há umas altas pedras vermelhas, o ar
selvagem de mil mãos
as fez edificar estruturas:
o escarlate cego subiu do abismo
e nelas se fez cobre, fogo e força.
América estendida como a pele do búfalo,
aérea e clara noite do galope,
lá para as alturas estreladas,
bebo a tua taça de verde orvalho.
Sim, por acre Arizona e Wisconsin nodoso,
até Milwaukee levantada contra o vento e a neve
ou nos excitados pântanos de West Palm,
perto dos pinheirais de Tacoma, no espesso
odor de aço de teus bosques,
andei pisando terra mãe,
folhas azuis, pedras de cachoeira
, furacões que tremiam como toda música,
rios que rezavam como os monastérios,
marrecos e maçãs, terras e águas,
infinita quietude para que o trigo nasça.
Ali pude, em minha pedra central, estender ao ar
olhos, ouvidos, mãos, até ouvir
livros, locomotivas, neve, lutas,
fábricas, tumbas, vegetais, passos,
e de Manhattan a lua no navio,
o canto da máquina que fia,
a colher de ferro que come terra,
a perfuratriz com seu golpe de condor
e tudo o que corta, oprime, corre cose:
seres e rodas repetindo e nascendo.
Amo o pequeno lar do farmer. Recentes mães dormem
aromadas como o xarope do tamarindo, os panos
recém-passados. Arde
o fogo em mil lares rodeados de cebolas
. (Os homens quando cantam perto do rio têm
uma voz rouca como as pedras do fundo:
o tabaco saiu de suas largas folhas
e como um duende do fogo chegou a estes lares.)
Vinde para dentro de Missouri, olhai o queijo e a farinha,
as tábuas olorosas, rubras como violinos,
o homem navegando a cevada,
o potro azul recém-montado cheira
o aroma do pão e da alfafa:
sinos, papoulas, ferrarias,
e nos destrambelhados cinemas silvestres
o amor abre a sua dentadura
no sonho nascido da terra.
É tua paz que amamos, não a tua máscara.
Não é formoso o teu rosto guerreiro.
És formosa e vasta, América do Norte.
Vens de humilde berço como uma lavadeira,
junto de teus rios, branca.
Edificada no desconhecido,
em tua paz de colmeia o doce teu.
Amamos o teu homem com as mãos vermelhas
do barro de Oregon, teu menino negro
que te trouxe a música nascida
em sua comarca de marfim: amamos
tua cidade, tua substância,
tua luz, teus mecanismos, a energia
do oeste, o pacífico
mel, de colmeal e aldeia,
o gigante jovem no trator,
a aveia que herdaste
de Jefferson, a roda rumorosa
que mede a tua terrestre oceania,
o fumo de uma fábrica e o beijo
número mil de uma colônia nova:
teu sangue lavrador é o que amamos:
a tua mão popular cheia de azeite.
Sob a noite dos prados já faz tempo
repousam sobre a pele do búfalo em grave
silêncio as sílabas, o canto
do que fui antes de ser, do que fomos.
Melville é um abeto marinho, de seus ramos
nasce uma curva de carena, um braço
de madeira e navio. Whitman inumerável
como os cereais, Poe em sua matemática
treva, Dreiser, Wolfe,
frescas feridas de nossa própria ausência,
Lockridge recente, atados à profundidade,
quantos outros, atados à sombra:
sobre eles a mesma aurora do hemisfério arde
e deles está feito o que somos,
Poderosos infantes, capitães cegos,
entre acontecimentos e folhagens às vezes amedrontados,
interrompidos pela alegria e pela dor,
sob os prados cruzados de tráfico,
quantos mortos nas planícies antes não visitadas:
inocentes atormentados profetas recém-impressos,
sobre a pele do búfalo dos prados.
Da França, de Okinawa, das coralinas
de Leyte (Norman Mailer o deixou escrito),
do ar enfurecido e das ondas,
retornaram quase todos os rapazes
. Quase todos ... Foi verde e amarga a história
de lama e suor: não ouviram
bastante o canto dos arrecifes
nem tocaram talvez a não ser para morrer nas ilhas, as coroas
de fulgor e fragrância:
sangue e esterco
os perseguiram, a imundície e as ratazanas,
e um cansado e desolado coração que lutava.
Mas já voltaram,
os recebestes
no vasto espaço das terras estendidas
e se fecharam (os que voltaram) como uma corola
de inumeráveis pétalas anônimas
para renascer e olvidar.
II
Mas além disso encontraram
um hóspede em casa,
ou trouxeram novos olhos (ou foram cegos antes)
ou a hirsuta ramaria lhes rompeu as pálpebras
ou novas coisas há nas terras da América.
Aqueles negros que combateram contigo, os
duros e sorridentes, olhai:
puseram uma cruz ardendo
diante de seus casarios,
enforcaram e queimaram o teu irmão de sangue:
fizeram-no combatente, hoje lhe negam
palavra e decisão: juntam-se
à noite os verdugos
encapuzados, com a cruz e o chicote.
(Outra coisa
se ouvia em além-mar combatendo.)
Um hóspede imprevisto
como um velho octópode roído,
imenso, circundante,
instalou-se em tua casa, soldadinho:
a imprensa destila o antigo veneno, cultivado em Berlim .
Os jornais (Times, Newsweek, etc.) converteram-se
em amarelas folhas de delação: Hearst,
que cantou o canto de amor aos nazistas, sorri
e afia as unhas para que partais de novo
para os arrecifes ou para as estepes
a combater por este hóspede que ocupa a tua casa.
Não te dão trégua: querem continuar vendendo
aço e balas, preparam uma nova pólvora
e é preciso vendê-la logo, antes que lhe passe à frente
a fresca pólvora e caia em novas mãos.
Por todas as partes os amos instalados
em tua mansão aumentam suas falanges,
amam a Espanha negra e uma taça de sangue te oferecem
(um fuzilado, cem): o coquetel Marshall.
Escolhei sangue jovem: camponeses
da China, prisioneiros
da Espanha,
sangue e suor de Cuba açucareira,
lágrimas de mulheres,
das minas de cobre e do carvão no Chile,
logo batei com energia
como um golpe de garrote
não esquecendo pedacinhos de gelo e algumas gotas
do canto Defendemos a cultura cristã.
É amarga esta mistura?
Já te acostumarás, soldadinho, a bebe-la.
Em qualquer lugar do mundo, à luz da lua,
ou pela manhã, no hotel de luxo,
pede esta bebida que dá vigor e refresca
e paga-a com uma boa nota
com a imagem de Washington.
Descobriste também que Charlie Chaplin, o último
pai da ternura no mundo,
deve fugir, e que os escritores (Howard Fast, etc.),
os sábios e os artistas
em tua terra
devem sentar-se para ser julgados por “un-american” pensamentos
diante dum tribunal de mercadores enriquecidos pela guerra.
Até os últimos confins do mundo chega o medo.
Minha tia lê essas notícias assustada,
e todos os olhos da terra olham
para esses tribunais de vergonha e vingança.
São os estrados dos Babbits sangrentos, `
dos escravagistas, dos assassinos de Lincoln,
são as novas inquisições levantadas agora
não pela cruz (e então era horrível e inexplicável)
mas pelo ouro redondo que bate
nas mesas dos prostíbulos e nos bancos
e que não tem, o direito de julgar.
Em Bogotá uniram-se Moríñigo, Trujillo,
González Videla, Somoza, Dutra, e aplaudiram.
Tu, jovem americano, não os conheces: são
os vampiros sombrios de nosso céu, amarga
é a sombra de suas asas:
prisões,
martírio, morte, ódio: as terras
do sul com petróleo e nitrato
conceberam monstros.
À noite no Chile, em Lota,
na humilde e molhada casa dos mineiros,
chega a ordem do verdugo. Os filhos
acordam chorando.
Milhares deles
encarcerados, pensam.
No Paraguai
a densa sombra florestal esconde
os ossos do patriota assassinado, um tiro
soa
na fosforescência do verão.
Morreu
ali a verdade.
Por que não intervêm
em São Domingos para defender o Ocidente Mr. Vandenberg,
Mr. Armour, Mr. Marshall, Mr. Hearst?
Por que na Nicarágua o senhor presidente,
despertado à noite, atormentado, teve
de fugir para morrer no desterro?
(Ali há bananas a defender e não liberdades,
e para isso basta Somoza.)
As grandes
vitoriosas idéias estão na Grécia
e na China para auxílio
de governos manchados como alfombras imundas.
Ai, soldadinho!
III
Também eu mais além de tuas terras, América,
ando e faço minha casa errante, vôo, passo,
canto e converso através dos dias.
Na Ásia, na URSS, nos Uraís me detenho
e estendo minha alma empapada de soledades e resina.
Amo o quanto nos espaços
a golpes de amor e luta o homem criou.
Ainda rodeia a minha casa nos Urais
a antiga noite dos pinheiros
e o silêncio como uma alta coluna.
Trigo e aço aqui nasceram
da mão do homem, de seu peito.
E um canto de martelos alegra o bosque antigo
como um novo fenômeno azul.
Daqui olho extensas zonas do homem,
geografia de meninos e mulheres, amor,
fábricas e canções, escolas
que brilham como goivos na selva
onde morou até ontem a raposa selvagem.
Daquele ponto abarca a minha mão no mapa
o verde dos prados, o fumo
de mil oficinas, os aromas
têxteis, o assombro
da energia dominada.
Volto nas tardes
pelos novos caminhos recém-traçados
e entro nas cozinhas
onde ferve o repolho e de onde sai
um novo manancial para o mundo.
Também aqui regressaram os rapazes,
mas muitos milhões ficaram atrás,
enganchados, pendurados nas forcas,
queimados em fornos especiais,
destruídos até não ficar deles
mais que o nome na lembrança.
Também foram assassinadas suas povoações:
a terra soviética foi assassinada:
milhões de vidros e ossos se confundiram,
vacas e fábricas, até a primavera
desapareceu tragada pela guerra.
Voltaram os rapazes, no entanto,
e o amor pela pátria construída
se havia mesclado neles com tanto sangue
que Pátria dizem com as veias,
União Soviética cantam com o sangue.
Foi alta a voz dos conquistadores
da Prússia e de Berlim quando voltaram
para que renascessem as cidades,
os animais e a primavera.
Walt Whitman, ergue a tua barba de relva,
olha comigo do bosque,
destas magnitudes perfumadas.
Que vês aí, Walt Whitman?
Vejo, me diz meu irmão profundo,
vejo como trabalham as usinas,
nas cidades que os mortos recordam,
na capital pura,
na resplandecente Stalingrado.
Vejo da planície combatida
do padecimento e do incêndio
nascer na umidade da manhã
um trator rechinante na direção das planuras.
Dá-me a tua voz e peso de teu peito enterrado,
Walt Whitman, e as graves
raízes de teu rosto
para cantar estas reconstruções!
Cantemos juntos o que se levanta
de todas as dores, o que surge
do grande silêncio, da grave
vitória:
Stalingrado, surge a tua voz de aço,
renasce andar por andar a esperança
como uma habitação coletiva,
e há um tremor de novo em marcha
ensinando,
cantando
e construindo.
Do sangue surge Stalingrado
como uma orquestra de água, pedra e ferro
e o pão renasce nas padarias,
a primavera nas escolas,
sobe novos andaimes, novas árvores,
enquanto o velho e férreo Volga palpita.
Estes livros,
em frescas caixas de pinho e cedro,
estão reunidos sobre o túmulo
dos verdugos mortos:
estes teatros feitos nas ruínas
cobrem martírio e resistência:
livros claros como monumentos:
um livro sobre cada herói,
sobre cada milímetro de morte,
sobre cada pétala desta glória imutável.
União Soviética, se juntássemos
todo o sangue derramado em tua luta,
todo o que deste como mãe ao. mundo
para que a liberdade agonizante vivesse,
teríamos um novo oceano,
grande como nenhum outro,
profundo como nenhum outro,
vivente como todos os rios,
ativo como o fogo dos vulcões araucanos.
Neste mar mergulha a tua mão,
homem de todas as terras,
e levanta-a depois para afogar nele
aquele que esqueceu, que ultrajou,
o que mentiu e o que manchou,
o que se uniu com cem pequenos cachorros
da lixeira do Ocidente
para insultar o teu sangue, Mãe dos livres!
Do fragrante odor dos pinheiros urais
olho a biblioteca que nasce
no coração da Rússia,
o laboratório no qual o silêncio
trabalha, olho os trens que levam
madeira e canções a novas cidades,
e nesta paz balsâmica cresce um latejar
como em novo peito:
à estepe moças e pombas
regressam agitando a brancura,
os laranjais se povoam de ouro:
o mercado tem hoje
a cada amanhecer
um novo aroma,
um novo aroma que chega das altas terras
nas quais o martírio foi maior:
os engenheiros fazem tremular o mapa
das planícies com os seus números
e as tubulações se envolvem como longas serpentes
nas terras do novo inverno vaporoso.
Em três aposentos do velho Kremlin
vive um homem chamado José Stálin.
Tarde se apaga a luz de seu quarto.
O mundo e sua pátria não lhe dão repouso.
Outros heróis deram à luz uma pátria,
ele além disso ajudou a conceber a sua,
a edificá-la,
a defendê-la.
Sua imensa pátria é, pois, parte dele mesmo
e não pode descansar porque ela não descansa.
Em outro tempo a neve e a pólvora
o encontraram diante dos velhos bandidos
que quiseram (como agora mais uma vez) reviver
o knut, e a miséria, a angústia dos escravos,
a dor adormecida de milhões de pobres.
Ele esteve contra os que como Wrangel e Denikin
foram enviados do Ocidente para “defender a cultura”.
Lá deixaram o couro aqueles defensores
dos verdugos, e no vasto terreno
da URSS, Stálin trabalhou noite e dia.
Porém mais tarde chegaram numa onda de chumbo
os alemães cevados por Chamberlain.
Stálin os enfrentou em todas as vastas fronteiras,
em todas as retiradas, em todos os assaltos
e até Berlim os seus filhos como um furacão de povos
chegaram e levaram a paz vasta da Rússia.
Molotov e Vorochilov
lá estão, eu os vejo,
com os outros, os altos generais,
os indomáveis.
Firmes como nevadas azinheiras.
Nenhum deles tem palácios.
Nenhum deles tem regimentos de servos.
Nenhum deles se tornou rico na guerra
vendendo sangue.
Nenhum deles vai como um pavão real
ao Rio de Janeiro ou a Bogotá
comandar pequenos sátrapas manchados de tortura:
nenhum deles tem duzentos trajes:
nenhum deles tem ações em fábricas de armamentos,
e todos eles têm
ações
na alegria e na construção
do vasto país onde ressoa a aurora
erguida na noite da morte.
Eles disseram “camarada” ao mundo.
Eles fizeram rei o carpinteiro.
Por essa agulha não entrará um camelo.
Lavaram as aldeias.
Repartiram a terra.
Elevaram o servo.
Apagaram o mendigo.
Aniquilaram os cruéis.
Fizeram luz na espaçosa noite.
Por isso a ti, moça de Arkansas, ou, melhor ainda,
a ti, jovem dourado de West Point, ou, melhor,
a ti, mecânico de Detroit, ou, ainda,
a ti, carregador da velha Orleans, a todos
falo e digo: firma teu passo,
abre teu ouvido ao vasto mundo humano,
não são os elegantes do State Department
nem os ferozes donos do aço
os que te estão falando,
mas um poeta do extremo sul da América,
filho dum ferroviário da Patagônia,
americano como o ar andino,
hoje fugitivo duma pátria na qual
o cárcere, o tormento, a angústia imperam
enquanto o cobre e o petróleo lentamente
se convertem em ouro para reis alheios.
Tu não és
o ídolo que numa mão leva o ouro
e na outra a bomba.
Tu és
o que sou, o que fui, o que devemos
amparar, o fraternal subsolo
da América puríssima, os singelos
homens dos caminhos e das ruas.
Meu irmão Juan vende sapatos
como o teu irmão John,
minha irmã Juana descasca batatas,
como a tua prima Jane,
e meu sangue é mineiro e marinheiro
como o teu sangue, Peter.
Tu e eu vamos abrir as portas
para que passe a brisa dos Urais
através da cortina de tinta,
tu e eu vamos dizer ao furioso:
“My dear guy, daqui não passarás”,
daqui pra cá a terra nos pertence
para que não se ouça a rajada
da metralhadora, porém uma
canção, e outra canção, e outra canção.
IV
Porém se armas as tuas hostes, América do Norte,
para destruir essa fronteira pura
e levar o magarefe de Chicago
ao governo da música e da ordem
que amamos,
sairemos das pedras e do ar
para morder-te:
sairemos da última janela
para derramar-te fogo:
sairemos das ondas mais profundas
para cravar-te com espinhos:
sairemos do eito para que a semente
golpeie como um punho colombiano,
sairemos para negar-te pão e água,
sairemos para queimar-te no inferno.
Não ponhas então o pé, soldado,
na doce França, porque lá estaremos
para que as verdes vinhas dêem vinagre
e as moças pobres te mostrem o local
no qual está fresco o sangue alemão.
Não subas pelas secas serras da Espanha
porque cada pedra se converterá em fogo,
e lá mil anos combaterão os valentes:
não te percas entre os olivais porque
nunca tornarás a Oklahoma, mas não entres
na Grécia, que até o sangue que hoje estás derramando
se levantará da terra para deter-vos.
Não venhais pescar então em Tocopilla
porque o peixe-espada conhecerá vossos despojos
e o obscuro mineiro da Araucania
procurará as antigas flechas cruéis
que esperam enterradas novos conquistadores.
Não confieis no gaúcho cantando uma vidalita,
nem no operário dos frigoríficos. Eles
estarão em todas as partes com olhos e punhos,
como os venezuelanos que vos esperam nessa ocasião
com uma garrafa de petróleo e uma guitarra nas mãos.
Não entres, não entres tampouco na Nicarágua.
Sandino dorme na selva até tal dia,
seu fuzil se encheu de cipós e de chuva,
seu rosto não tem pálpebras,
mas as feridas com que o matastes estão vivas
como as mãos de Porto Rico que esperam
as luzes das facas.
Será implacável o mundo para vós.
Não só as ilhas serão despovoadas, mas o ar
que já conhece as palavras que lhe são queridas.
Não chegues a pedir carne de homem
no alto Peru: na névoa roída dos monumentos
o doce antepassado de nosso sangue afia
contra ti as suas espadas de ametista,
e pelos vales o rouco caracol de batalha
congrega os guerreiros, os fundeiros
filhos de Amaru. Nem pelas cordilheiras mexicanas
busques homens para levá-los a combater a aurora;
os fuzis de Zapata não estão dormidos,
são azeitados e apontados para as terras do Texas.
não entres em Cuba, que do fulgor marinho
dos canaviais suarentos
há um único escuro olhar que te espera
e um único grito até matar ou morrer.
Não chegues
à terra de partisanos na rumorosa
Itália: não passes das filas dos soldados com jacquet
que manténs em Roma, não passes de São Pedro:
além os santos rústicos das aldeias,
os santos marinheiros do pescado
amam o grande país da estepe
no qual floresceu de novo o mundo.
Não toques
nas pontes da Bulgária, não te darão passagem,
os rios da Romênia, jogaremos neles sangue fervendo
para que queimem os invasores:
não cumprimentes o camponês que hoje conhece
os túmulos dos feudais, e vigia
com seu arado e seu rifle: não olhes para ele
porque te queimará como uma estrela.
Não desembarques
na China: já não existirá Chang, o Mercenário,
rodeado de sua apodrecida corte de mandarins:
haverá para esperar-vos uma selva
de foices labregas e um vulcão de pólvora.
Em outras guerras existiram fossos com água
e depois cercas de arame, com puas e garras,
mas este fosso é maior; estas águas mais fundas,
estes arames mais invencíveis que todos os metais.
São um átomo e outro do metal humano,
são um nó e mil nós de vidas e vidas:
são as velhas dores dos povos
de todos os remotos vales e reinos,
de todas as bandeiras e navios,
de todas as covas onde foram amontoados,
de todas as redes que saíram contra a tempestade,
de todas as ásperas rugas da terra,
de todos os infernos nas quentes caldeiras,
de todos os teares e das fundições,
de todas as locomotivas perdidas ou congregadas.
Este arame dá mil voltas no mundo:
parece dividido, desterrado,
e de repente se juntam seus ímãs
para encher a terra.
Porém ainda
mais longe, radiantes e determinados,
acerados, sorridentes,
para cantar ou combater
vos esperam
homens e mulheres da tundra e da taiga,
guerreiros do Volga que venceram a morte,
meninos de Stalingrado, gigantes da Ucrânia,
toda uma vasta e alta parede de pedra e sangue,
ferro e canções, coragem e esperança.
Se tocardes neste muro caireis
queimados como o carvão das usinas
, os sorrisos de Rochester se farão trevas
que logo a neve enterrará a brisa da estepe
e logo a neve enterrará para sempre.
Virão os que lutaram desde Pedro
Até os novos heróis que assombraram a terra
E farão de suas medalhas pequenas balas frias
Que silvarão sem trégua de toda
A vasta terra que hoje é alegria.
E do laboratório coberto de trepadeiras
Sairá também o átomo desencadeado
Na direção de vossas cidades orgulhosas.
V
Que nada disso aconteça.
Que desperte o Lenhador.
Que venha Abraham com seu machado
E com o seu prato de madeira
Para comer com os camponeses.
Que a sua cabeça de córtice,
Seus olhos vistos nas tábuas,
Nas rugas do carvalho,
Voltem a olhar o mundo
Subindo sobre as folhagens,
Mais altos que as sequóias.
Que entre para comprar nas farmácias,
Que tome um ônibus em Tampa,
Que morda uma maçã amarela,
Que entre num cinema, que converse
Com toda a gente simples.
Que desperte o Lenhador.
Que venha Abraham, que faça crescer
Seu velho fermento a terra
Dourada e verde de Illinois,
E levante o machado no meio do seu povo
Contra os novos escravagistas,
Contra o chicote do escravo,
contra o veneno da imprensa,
contra a mercadoria
sangrenta que querem vender.
Que marchem cantando e sorrindo
o jovem branco, o jovem negro,
contra as paredes de ouro,
contra o fabricante de ódio,
contra o mercador de sangue,
cantando, sorrindo e vencendo.
Que desperte o Lenhador.
VI
Paz para os crepúsculos que chegam,
paz para a ponte, paz para o vinho,
paz para as letras que me procuram
e que em meu sangue sobem enredando
v velho canto com terra e amores,
paz para a cidade na manhã
quando desperta o pão, paz para o rio
Mississípi, rio das raízes:
paz para a camisa de meu irmão,
paz para o livro como um selo de aragem,
paz para o grande colcós de Kíev,
paz para as cinzas destes mortos
e destes outros mortos, paz para o ferro
negro de Brooklyn, paz para o carteiro
de casa em casa como o dia,
paz para o coreógrafo que grita
com um megafone, às campanhas,
paz para a minha mão direita,
que só quer escrever Rosario:
paz para o boliviano secreto
como uma pedra de estanho, paz
para que tu te cases, paz para todas
as serrarias de Bío-Bío,
paz para o coração dilacerado
da Espanha guerrilheira:
paz para o pequeno museu de Wyoming,
no qual o mais doce
é um travesseiro com um coração bordado,
paz para o padeiro e seus amores
e paz para a farinha: paz
para todo o trigo que deve nascer,
para todo o amor que buscará folhagem,
paz para todos os que vivem: paz
para todas as terras e todas as águas.
Aqui eu me despeço, volto
para casa, em meus sonhos,
volto para a Patagônia, onde
o vento bate nos estábulos
e respinga e gela o oceano.
Não sou mais que um poeta: amo todos vós,
ando errante pelo mundo que amo:
em minha pátria encarceram mineiros
e os soldados mandam nos juízes.
Porém eu amo até as raízes
de meu pequeno país frio.
Se tivesse que morrer mil vezes
lá quero morrer:
se tivesse de nascer mil vezes
lá quero nascer,
perto da araucária selvagem,
do vendaval do vento sul,
dos sinos recém-comprados.
Que ninguém pense em mim.
Pensemos na terra toda,
batendo com amor na mesa.
Não quero que volte o sangue
a empapar o pão, os feijões,
a música: quero que venha
comigo, o mineiro, a menina,
o advogado, o marinheiro,
o fabricante de bonecas,
que entremos no cinema e saiamos
para beber o vinho mais rubro.
Não venho para resolver nada.
Vim aqui para cantar
e para que cantes comigo.
Que acorde o lenhador
A oeste do Colorado River
há um lugar que amo.
Acorro ali com tudo o que palpitando
transcorre em mim, com tudo
o que fui, o que sou, o que mantenho.
Há umas altas pedras vermelhas, o ar
selvagem de mil mãos
as fez edificar estruturas:
o escarlate cego subiu do abismo
e nelas se fez cobre, fogo e força.
América estendida como a pele do búfalo,
aérea e clara noite do galope,
lá para as alturas estreladas,
bebo a tua taça de verde orvalho.
Sim, por acre Arizona e Wisconsin nodoso,
até Milwaukee levantada contra o vento e a neve
ou nos excitados pântanos de West Palm,
perto dos pinheirais de Tacoma, no espesso
odor de aço de teus bosques,
andei pisando terra mãe,
folhas azuis, pedras de cachoeira
, furacões que tremiam como toda música,
rios que rezavam como os monastérios,
marrecos e maçãs, terras e águas,
infinita quietude para que o trigo nasça.
Ali pude, em minha pedra central, estender ao ar
olhos, ouvidos, mãos, até ouvir
livros, locomotivas, neve, lutas,
fábricas, tumbas, vegetais, passos,
e de Manhattan a lua no navio,
o canto da máquina que fia,
a colher de ferro que come terra,
a perfuratriz com seu golpe de condor
e tudo o que corta, oprime, corre cose:
seres e rodas repetindo e nascendo.
Amo o pequeno lar do farmer. Recentes mães dormem
aromadas como o xarope do tamarindo, os panos
recém-passados. Arde
o fogo em mil lares rodeados de cebolas
. (Os homens quando cantam perto do rio têm
uma voz rouca como as pedras do fundo:
o tabaco saiu de suas largas folhas
e como um duende do fogo chegou a estes lares.)
Vinde para dentro de Missouri, olhai o queijo e a farinha,
as tábuas olorosas, rubras como violinos,
o homem navegando a cevada,
o potro azul recém-montado cheira
o aroma do pão e da alfafa:
sinos, papoulas, ferrarias,
e nos destrambelhados cinemas silvestres
o amor abre a sua dentadura
no sonho nascido da terra.
É tua paz que amamos, não a tua máscara.
Não é formoso o teu rosto guerreiro.
És formosa e vasta, América do Norte.
Vens de humilde berço como uma lavadeira,
junto de teus rios, branca.
Edificada no desconhecido,
em tua paz de colmeia o doce teu.
Amamos o teu homem com as mãos vermelhas
do barro de Oregon, teu menino negro
que te trouxe a música nascida
em sua comarca de marfim: amamos
tua cidade, tua substância,
tua luz, teus mecanismos, a energia
do oeste, o pacífico
mel, de colmeal e aldeia,
o gigante jovem no trator,
a aveia que herdaste
de Jefferson, a roda rumorosa
que mede a tua terrestre oceania,
o fumo de uma fábrica e o beijo
número mil de uma colônia nova:
teu sangue lavrador é o que amamos:
a tua mão popular cheia de azeite.
Sob a noite dos prados já faz tempo
repousam sobre a pele do búfalo em grave
silêncio as sílabas, o canto
do que fui antes de ser, do que fomos.
Melville é um abeto marinho, de seus ramos
nasce uma curva de carena, um braço
de madeira e navio. Whitman inumerável
como os cereais, Poe em sua matemática
treva, Dreiser, Wolfe,
frescas feridas de nossa própria ausência,
Lockridge recente, atados à profundidade,
quantos outros, atados à sombra:
sobre eles a mesma aurora do hemisfério arde
e deles está feito o que somos,
Poderosos infantes, capitães cegos,
entre acontecimentos e folhagens às vezes amedrontados,
interrompidos pela alegria e pela dor,
sob os prados cruzados de tráfico,
quantos mortos nas planícies antes não visitadas:
inocentes atormentados profetas recém-impressos,
sobre a pele do búfalo dos prados.
Da França, de Okinawa, das coralinas
de Leyte (Norman Mailer o deixou escrito),
do ar enfurecido e das ondas,
retornaram quase todos os rapazes
. Quase todos ... Foi verde e amarga a história
de lama e suor: não ouviram
bastante o canto dos arrecifes
nem tocaram talvez a não ser para morrer nas ilhas, as coroas
de fulgor e fragrância:
sangue e esterco
os perseguiram, a imundície e as ratazanas,
e um cansado e desolado coração que lutava.
Mas já voltaram,
os recebestes
no vasto espaço das terras estendidas
e se fecharam (os que voltaram) como uma corola
de inumeráveis pétalas anônimas
para renascer e olvidar.
II
Mas além disso encontraram
um hóspede em casa,
ou trouxeram novos olhos (ou foram cegos antes)
ou a hirsuta ramaria lhes rompeu as pálpebras
ou novas coisas há nas terras da América.
Aqueles negros que combateram contigo, os
duros e sorridentes, olhai:
puseram uma cruz ardendo
diante de seus casarios,
enforcaram e queimaram o teu irmão de sangue:
fizeram-no combatente, hoje lhe negam
palavra e decisão: juntam-se
à noite os verdugos
encapuzados, com a cruz e o chicote.
(Outra coisa
se ouvia em além-mar combatendo.)
Um hóspede imprevisto
como um velho octópode roído,
imenso, circundante,
instalou-se em tua casa, soldadinho:
a imprensa destila o antigo veneno, cultivado em Berlim .
Os jornais (Times, Newsweek, etc.) converteram-se
em amarelas folhas de delação: Hearst,
que cantou o canto de amor aos nazistas, sorri
e afia as unhas para que partais de novo
para os arrecifes ou para as estepes
a combater por este hóspede que ocupa a tua casa.
Não te dão trégua: querem continuar vendendo
aço e balas, preparam uma nova pólvora
e é preciso vendê-la logo, antes que lhe passe à frente
a fresca pólvora e caia em novas mãos.
Por todas as partes os amos instalados
em tua mansão aumentam suas falanges,
amam a Espanha negra e uma taça de sangue te oferecem
(um fuzilado, cem): o coquetel Marshall.
Escolhei sangue jovem: camponeses
da China, prisioneiros
da Espanha,
sangue e suor de Cuba açucareira,
lágrimas de mulheres,
das minas de cobre e do carvão no Chile,
logo batei com energia
como um golpe de garrote
não esquecendo pedacinhos de gelo e algumas gotas
do canto Defendemos a cultura cristã.
É amarga esta mistura?
Já te acostumarás, soldadinho, a bebe-la.
Em qualquer lugar do mundo, à luz da lua,
ou pela manhã, no hotel de luxo,
pede esta bebida que dá vigor e refresca
e paga-a com uma boa nota
com a imagem de Washington.
Descobriste também que Charlie Chaplin, o último
pai da ternura no mundo,
deve fugir, e que os escritores (Howard Fast, etc.),
os sábios e os artistas
em tua terra
devem sentar-se para ser julgados por “un-american” pensamentos
diante dum tribunal de mercadores enriquecidos pela guerra.
Até os últimos confins do mundo chega o medo.
Minha tia lê essas notícias assustada,
e todos os olhos da terra olham
para esses tribunais de vergonha e vingança.
São os estrados dos Babbits sangrentos, `
dos escravagistas, dos assassinos de Lincoln,
são as novas inquisições levantadas agora
não pela cruz (e então era horrível e inexplicável)
mas pelo ouro redondo que bate
nas mesas dos prostíbulos e nos bancos
e que não tem, o direito de julgar.
Em Bogotá uniram-se Moríñigo, Trujillo,
González Videla, Somoza, Dutra, e aplaudiram.
Tu, jovem americano, não os conheces: são
os vampiros sombrios de nosso céu, amarga
é a sombra de suas asas:
prisões,
martírio, morte, ódio: as terras
do sul com petróleo e nitrato
conceberam monstros.
À noite no Chile, em Lota,
na humilde e molhada casa dos mineiros,
chega a ordem do verdugo. Os filhos
acordam chorando.
Milhares deles
encarcerados, pensam.
No Paraguai
a densa sombra florestal esconde
os ossos do patriota assassinado, um tiro
soa
na fosforescência do verão.
Morreu
ali a verdade.
Por que não intervêm
em São Domingos para defender o Ocidente Mr. Vandenberg,
Mr. Armour, Mr. Marshall, Mr. Hearst?
Por que na Nicarágua o senhor presidente,
despertado à noite, atormentado, teve
de fugir para morrer no desterro?
(Ali há bananas a defender e não liberdades,
e para isso basta Somoza.)
As grandes
vitoriosas idéias estão na Grécia
e na China para auxílio
de governos manchados como alfombras imundas.
Ai, soldadinho!
III
Também eu mais além de tuas terras, América,
ando e faço minha casa errante, vôo, passo,
canto e converso através dos dias.
Na Ásia, na URSS, nos Uraís me detenho
e estendo minha alma empapada de soledades e resina.
Amo o quanto nos espaços
a golpes de amor e luta o homem criou.
Ainda rodeia a minha casa nos Urais
a antiga noite dos pinheiros
e o silêncio como uma alta coluna.
Trigo e aço aqui nasceram
da mão do homem, de seu peito.
E um canto de martelos alegra o bosque antigo
como um novo fenômeno azul.
Daqui olho extensas zonas do homem,
geografia de meninos e mulheres, amor,
fábricas e canções, escolas
que brilham como goivos na selva
onde morou até ontem a raposa selvagem.
Daquele ponto abarca a minha mão no mapa
o verde dos prados, o fumo
de mil oficinas, os aromas
têxteis, o assombro
da energia dominada.
Volto nas tardes
pelos novos caminhos recém-traçados
e entro nas cozinhas
onde ferve o repolho e de onde sai
um novo manancial para o mundo.
Também aqui regressaram os rapazes,
mas muitos milhões ficaram atrás,
enganchados, pendurados nas forcas,
queimados em fornos especiais,
destruídos até não ficar deles
mais que o nome na lembrança.
Também foram assassinadas suas povoações:
a terra soviética foi assassinada:
milhões de vidros e ossos se confundiram,
vacas e fábricas, até a primavera
desapareceu tragada pela guerra.
Voltaram os rapazes, no entanto,
e o amor pela pátria construída
se havia mesclado neles com tanto sangue
que Pátria dizem com as veias,
União Soviética cantam com o sangue.
Foi alta a voz dos conquistadores
da Prússia e de Berlim quando voltaram
para que renascessem as cidades,
os animais e a primavera.
Walt Whitman, ergue a tua barba de relva,
olha comigo do bosque,
destas magnitudes perfumadas.
Que vês aí, Walt Whitman?
Vejo, me diz meu irmão profundo,
vejo como trabalham as usinas,
nas cidades que os mortos recordam,
na capital pura,
na resplandecente Stalingrado.
Vejo da planície combatida
do padecimento e do incêndio
nascer na umidade da manhã
um trator rechinante na direção das planuras.
Dá-me a tua voz e peso de teu peito enterrado,
Walt Whitman, e as graves
raízes de teu rosto
para cantar estas reconstruções!
Cantemos juntos o que se levanta
de todas as dores, o que surge
do grande silêncio, da grave
vitória:
Stalingrado, surge a tua voz de aço,
renasce andar por andar a esperança
como uma habitação coletiva,
e há um tremor de novo em marcha
ensinando,
cantando
e construindo.
Do sangue surge Stalingrado
como uma orquestra de água, pedra e ferro
e o pão renasce nas padarias,
a primavera nas escolas,
sobe novos andaimes, novas árvores,
enquanto o velho e férreo Volga palpita.
Estes livros,
em frescas caixas de pinho e cedro,
estão reunidos sobre o túmulo
dos verdugos mortos:
estes teatros feitos nas ruínas
cobrem martírio e resistência:
livros claros como monumentos:
um livro sobre cada herói,
sobre cada milímetro de morte,
sobre cada pétala desta glória imutável.
União Soviética, se juntássemos
todo o sangue derramado em tua luta,
todo o que deste como mãe ao. mundo
para que a liberdade agonizante vivesse,
teríamos um novo oceano,
grande como nenhum outro,
profundo como nenhum outro,
vivente como todos os rios,
ativo como o fogo dos vulcões araucanos.
Neste mar mergulha a tua mão,
homem de todas as terras,
e levanta-a depois para afogar nele
aquele que esqueceu, que ultrajou,
o que mentiu e o que manchou,
o que se uniu com cem pequenos cachorros
da lixeira do Ocidente
para insultar o teu sangue, Mãe dos livres!
Do fragrante odor dos pinheiros urais
olho a biblioteca que nasce
no coração da Rússia,
o laboratório no qual o silêncio
trabalha, olho os trens que levam
madeira e canções a novas cidades,
e nesta paz balsâmica cresce um latejar
como em novo peito:
à estepe moças e pombas
regressam agitando a brancura,
os laranjais se povoam de ouro:
o mercado tem hoje
a cada amanhecer
um novo aroma,
um novo aroma que chega das altas terras
nas quais o martírio foi maior:
os engenheiros fazem tremular o mapa
das planícies com os seus números
e as tubulações se envolvem como longas serpentes
nas terras do novo inverno vaporoso.
Em três aposentos do velho Kremlin
vive um homem chamado José Stálin.
Tarde se apaga a luz de seu quarto.
O mundo e sua pátria não lhe dão repouso.
Outros heróis deram à luz uma pátria,
ele além disso ajudou a conceber a sua,
a edificá-la,
a defendê-la.
Sua imensa pátria é, pois, parte dele mesmo
e não pode descansar porque ela não descansa.
Em outro tempo a neve e a pólvora
o encontraram diante dos velhos bandidos
que quiseram (como agora mais uma vez) reviver
o knut, e a miséria, a angústia dos escravos,
a dor adormecida de milhões de pobres.
Ele esteve contra os que como Wrangel e Denikin
foram enviados do Ocidente para “defender a cultura”.
Lá deixaram o couro aqueles defensores
dos verdugos, e no vasto terreno
da URSS, Stálin trabalhou noite e dia.
Porém mais tarde chegaram numa onda de chumbo
os alemães cevados por Chamberlain.
Stálin os enfrentou em todas as vastas fronteiras,
em todas as retiradas, em todos os assaltos
e até Berlim os seus filhos como um furacão de povos
chegaram e levaram a paz vasta da Rússia.
Molotov e Vorochilov
lá estão, eu os vejo,
com os outros, os altos generais,
os indomáveis.
Firmes como nevadas azinheiras.
Nenhum deles tem palácios.
Nenhum deles tem regimentos de servos.
Nenhum deles se tornou rico na guerra
vendendo sangue.
Nenhum deles vai como um pavão real
ao Rio de Janeiro ou a Bogotá
comandar pequenos sátrapas manchados de tortura:
nenhum deles tem duzentos trajes:
nenhum deles tem ações em fábricas de armamentos,
e todos eles têm
ações
na alegria e na construção
do vasto país onde ressoa a aurora
erguida na noite da morte.
Eles disseram “camarada” ao mundo.
Eles fizeram rei o carpinteiro.
Por essa agulha não entrará um camelo.
Lavaram as aldeias.
Repartiram a terra.
Elevaram o servo.
Apagaram o mendigo.
Aniquilaram os cruéis.
Fizeram luz na espaçosa noite.
Por isso a ti, moça de Arkansas, ou, melhor ainda,
a ti, jovem dourado de West Point, ou, melhor,
a ti, mecânico de Detroit, ou, ainda,
a ti, carregador da velha Orleans, a todos
falo e digo: firma teu passo,
abre teu ouvido ao vasto mundo humano,
não são os elegantes do State Department
nem os ferozes donos do aço
os que te estão falando,
mas um poeta do extremo sul da América,
filho dum ferroviário da Patagônia,
americano como o ar andino,
hoje fugitivo duma pátria na qual
o cárcere, o tormento, a angústia imperam
enquanto o cobre e o petróleo lentamente
se convertem em ouro para reis alheios.
Tu não és
o ídolo que numa mão leva o ouro
e na outra a bomba.
Tu és
o que sou, o que fui, o que devemos
amparar, o fraternal subsolo
da América puríssima, os singelos
homens dos caminhos e das ruas.
Meu irmão Juan vende sapatos
como o teu irmão John,
minha irmã Juana descasca batatas,
como a tua prima Jane,
e meu sangue é mineiro e marinheiro
como o teu sangue, Peter.
Tu e eu vamos abrir as portas
para que passe a brisa dos Urais
através da cortina de tinta,
tu e eu vamos dizer ao furioso:
“My dear guy, daqui não passarás”,
daqui pra cá a terra nos pertence
para que não se ouça a rajada
da metralhadora, porém uma
canção, e outra canção, e outra canção.
IV
Porém se armas as tuas hostes, América do Norte,
para destruir essa fronteira pura
e levar o magarefe de Chicago
ao governo da música e da ordem
que amamos,
sairemos das pedras e do ar
para morder-te:
sairemos da última janela
para derramar-te fogo:
sairemos das ondas mais profundas
para cravar-te com espinhos:
sairemos do eito para que a semente
golpeie como um punho colombiano,
sairemos para negar-te pão e água,
sairemos para queimar-te no inferno.
Não ponhas então o pé, soldado,
na doce França, porque lá estaremos
para que as verdes vinhas dêem vinagre
e as moças pobres te mostrem o local
no qual está fresco o sangue alemão.
Não subas pelas secas serras da Espanha
porque cada pedra se converterá em fogo,
e lá mil anos combaterão os valentes:
não te percas entre os olivais porque
nunca tornarás a Oklahoma, mas não entres
na Grécia, que até o sangue que hoje estás derramando
se levantará da terra para deter-vos.
Não venhais pescar então em Tocopilla
porque o peixe-espada conhecerá vossos despojos
e o obscuro mineiro da Araucania
procurará as antigas flechas cruéis
que esperam enterradas novos conquistadores.
Não confieis no gaúcho cantando uma vidalita,
nem no operário dos frigoríficos. Eles
estarão em todas as partes com olhos e punhos,
como os venezuelanos que vos esperam nessa ocasião
com uma garrafa de petróleo e uma guitarra nas mãos.
Não entres, não entres tampouco na Nicarágua.
Sandino dorme na selva até tal dia,
seu fuzil se encheu de cipós e de chuva,
seu rosto não tem pálpebras,
mas as feridas com que o matastes estão vivas
como as mãos de Porto Rico que esperam
as luzes das facas.
Será implacável o mundo para vós.
Não só as ilhas serão despovoadas, mas o ar
que já conhece as palavras que lhe são queridas.
Não chegues a pedir carne de homem
no alto Peru: na névoa roída dos monumentos
o doce antepassado de nosso sangue afia
contra ti as suas espadas de ametista,
e pelos vales o rouco caracol de batalha
congrega os guerreiros, os fundeiros
filhos de Amaru. Nem pelas cordilheiras mexicanas
busques homens para levá-los a combater a aurora;
os fuzis de Zapata não estão dormidos,
são azeitados e apontados para as terras do Texas.
não entres em Cuba, que do fulgor marinho
dos canaviais suarentos
há um único escuro olhar que te espera
e um único grito até matar ou morrer.
Não chegues
à terra de partisanos na rumorosa
Itália: não passes das filas dos soldados com jacquet
que manténs em Roma, não passes de São Pedro:
além os santos rústicos das aldeias,
os santos marinheiros do pescado
amam o grande país da estepe
no qual floresceu de novo o mundo.
Não toques
nas pontes da Bulgária, não te darão passagem,
os rios da Romênia, jogaremos neles sangue fervendo
para que queimem os invasores:
não cumprimentes o camponês que hoje conhece
os túmulos dos feudais, e vigia
com seu arado e seu rifle: não olhes para ele
porque te queimará como uma estrela.
Não desembarques
na China: já não existirá Chang, o Mercenário,
rodeado de sua apodrecida corte de mandarins:
haverá para esperar-vos uma selva
de foices labregas e um vulcão de pólvora.
Em outras guerras existiram fossos com água
e depois cercas de arame, com puas e garras,
mas este fosso é maior; estas águas mais fundas,
estes arames mais invencíveis que todos os metais.
São um átomo e outro do metal humano,
são um nó e mil nós de vidas e vidas:
são as velhas dores dos povos
de todos os remotos vales e reinos,
de todas as bandeiras e navios,
de todas as covas onde foram amontoados,
de todas as redes que saíram contra a tempestade,
de todas as ásperas rugas da terra,
de todos os infernos nas quentes caldeiras,
de todos os teares e das fundições,
de todas as locomotivas perdidas ou congregadas.
Este arame dá mil voltas no mundo:
parece dividido, desterrado,
e de repente se juntam seus ímãs
para encher a terra.
Porém ainda
mais longe, radiantes e determinados,
acerados, sorridentes,
para cantar ou combater
vos esperam
homens e mulheres da tundra e da taiga,
guerreiros do Volga que venceram a morte,
meninos de Stalingrado, gigantes da Ucrânia,
toda uma vasta e alta parede de pedra e sangue,
ferro e canções, coragem e esperança.
Se tocardes neste muro caireis
queimados como o carvão das usinas
, os sorrisos de Rochester se farão trevas
que logo a neve enterrará a brisa da estepe
e logo a neve enterrará para sempre.
Virão os que lutaram desde Pedro
Até os novos heróis que assombraram a terra
E farão de suas medalhas pequenas balas frias
Que silvarão sem trégua de toda
A vasta terra que hoje é alegria.
E do laboratório coberto de trepadeiras
Sairá também o átomo desencadeado
Na direção de vossas cidades orgulhosas.
V
Que nada disso aconteça.
Que desperte o Lenhador.
Que venha Abraham com seu machado
E com o seu prato de madeira
Para comer com os camponeses.
Que a sua cabeça de córtice,
Seus olhos vistos nas tábuas,
Nas rugas do carvalho,
Voltem a olhar o mundo
Subindo sobre as folhagens,
Mais altos que as sequóias.
Que entre para comprar nas farmácias,
Que tome um ônibus em Tampa,
Que morda uma maçã amarela,
Que entre num cinema, que converse
Com toda a gente simples.
Que desperte o Lenhador.
Que venha Abraham, que faça crescer
Seu velho fermento a terra
Dourada e verde de Illinois,
E levante o machado no meio do seu povo
Contra os novos escravagistas,
Contra o chicote do escravo,
contra o veneno da imprensa,
contra a mercadoria
sangrenta que querem vender.
Que marchem cantando e sorrindo
o jovem branco, o jovem negro,
contra as paredes de ouro,
contra o fabricante de ódio,
contra o mercador de sangue,
cantando, sorrindo e vencendo.
Que desperte o Lenhador.
VI
Paz para os crepúsculos que chegam,
paz para a ponte, paz para o vinho,
paz para as letras que me procuram
e que em meu sangue sobem enredando
v velho canto com terra e amores,
paz para a cidade na manhã
quando desperta o pão, paz para o rio
Mississípi, rio das raízes:
paz para a camisa de meu irmão,
paz para o livro como um selo de aragem,
paz para o grande colcós de Kíev,
paz para as cinzas destes mortos
e destes outros mortos, paz para o ferro
negro de Brooklyn, paz para o carteiro
de casa em casa como o dia,
paz para o coreógrafo que grita
com um megafone, às campanhas,
paz para a minha mão direita,
que só quer escrever Rosario:
paz para o boliviano secreto
como uma pedra de estanho, paz
para que tu te cases, paz para todas
as serrarias de Bío-Bío,
paz para o coração dilacerado
da Espanha guerrilheira:
paz para o pequeno museu de Wyoming,
no qual o mais doce
é um travesseiro com um coração bordado,
paz para o padeiro e seus amores
e paz para a farinha: paz
para todo o trigo que deve nascer,
para todo o amor que buscará folhagem,
paz para todos os que vivem: paz
para todas as terras e todas as águas.
Aqui eu me despeço, volto
para casa, em meus sonhos,
volto para a Patagônia, onde
o vento bate nos estábulos
e respinga e gela o oceano.
Não sou mais que um poeta: amo todos vós,
ando errante pelo mundo que amo:
em minha pátria encarceram mineiros
e os soldados mandam nos juízes.
Porém eu amo até as raízes
de meu pequeno país frio.
Se tivesse que morrer mil vezes
lá quero morrer:
se tivesse de nascer mil vezes
lá quero nascer,
perto da araucária selvagem,
do vendaval do vento sul,
dos sinos recém-comprados.
Que ninguém pense em mim.
Pensemos na terra toda,
batendo com amor na mesa.
Não quero que volte o sangue
a empapar o pão, os feijões,
a música: quero que venha
comigo, o mineiro, a menina,
o advogado, o marinheiro,
o fabricante de bonecas,
que entremos no cinema e saiamos
para beber o vinho mais rubro.
Não venho para resolver nada.
Vim aqui para cantar
e para que cantes comigo.
1 677
Pablo Neruda
XIX - Os homens
Voltamos apressados a esperar nomeações,
exasperantes publicações, discussões amargas,
fermentos, guerras, enfermidades, música
que nos ataca e nos golpeia sem trégua,
entramos novamente em nossos batalhões,
ainda que todos se unissem para declarar-nos mortos,
aqui estamos outra vez com nosso falso sorriso,
falamos, exasperados ante o possível olvido,
enquanto lá na ilha sem palmeiras,
lá onde se recortam os narizes de pedra
como triângulos traçados em pleno céu e sal,
ali, no minúsculo umbigo dos mares,
deixamos esquecida a última pureza,
o espaço, o assombro daquelas companhias
que levantam sua pedra desnuda, sua verdade,
sem que ninguém se atreva a amá-las, a conviver com elas,
e essa é minha covardia, aqui dou o testemunho:
não me senti capaz senão de transitórios
edifícios, e nesta capital sem paredes
feita de luz, de sal, de pedra e pensamento,
como todos olhei e abandonei assustado
a límpida claridade da mitologia,
as estátuas rodeadas pelo silêncio azul.
exasperantes publicações, discussões amargas,
fermentos, guerras, enfermidades, música
que nos ataca e nos golpeia sem trégua,
entramos novamente em nossos batalhões,
ainda que todos se unissem para declarar-nos mortos,
aqui estamos outra vez com nosso falso sorriso,
falamos, exasperados ante o possível olvido,
enquanto lá na ilha sem palmeiras,
lá onde se recortam os narizes de pedra
como triângulos traçados em pleno céu e sal,
ali, no minúsculo umbigo dos mares,
deixamos esquecida a última pureza,
o espaço, o assombro daquelas companhias
que levantam sua pedra desnuda, sua verdade,
sem que ninguém se atreva a amá-las, a conviver com elas,
e essa é minha covardia, aqui dou o testemunho:
não me senti capaz senão de transitórios
edifícios, e nesta capital sem paredes
feita de luz, de sal, de pedra e pensamento,
como todos olhei e abandonei assustado
a límpida claridade da mitologia,
as estátuas rodeadas pelo silêncio azul.
552
Pablo Neruda
Cidade
Subúrbios de cidade com dentes negros
e paredes famintas
saciadas com farrapos de papel
— o lixo esparramado,
um homem morto
entre as moscas do inverno
e a imundície —
Santiago,
cabeça de minha pátria
pegada à grande cordilheira,
às naves de neve,
triste herança
de um século de senhoras elegantes
e cavalheiros de barbicha branca,
suaves bengalas, chapéus de prata,
luvas que protegiam unhas de águia.
Santiago, a herdada,
suja, sangrenta, cuspida,
triste e assassinada
a herdamos
dos senhores e seu senhorio.
Como lavar teu rosto,
cidade, nosso coração,
filha maldita,
como,
devolver-te a pele, a primavera,
a fragrância,
viver contigo viva,
acender-te acesa,
fechar os olhos e varrer tua morte
até ressuscitar-te e florescer-te
e dar-te novas ;mãos e novos olhos,
casas humanas, flores na luz!
e paredes famintas
saciadas com farrapos de papel
— o lixo esparramado,
um homem morto
entre as moscas do inverno
e a imundície —
Santiago,
cabeça de minha pátria
pegada à grande cordilheira,
às naves de neve,
triste herança
de um século de senhoras elegantes
e cavalheiros de barbicha branca,
suaves bengalas, chapéus de prata,
luvas que protegiam unhas de águia.
Santiago, a herdada,
suja, sangrenta, cuspida,
triste e assassinada
a herdamos
dos senhores e seu senhorio.
Como lavar teu rosto,
cidade, nosso coração,
filha maldita,
como,
devolver-te a pele, a primavera,
a fragrância,
viver contigo viva,
acender-te acesa,
fechar os olhos e varrer tua morte
até ressuscitar-te e florescer-te
e dar-te novas ;mãos e novos olhos,
casas humanas, flores na luz!
1 256
Pablo Neruda
Contarei
Contarei que na cidade vivi
em certa rua com nome de capitão,
e essa rua tinha multidão,
sapateiros, venda de licores,
armazéns repletos de rubis.
Não se podia ir ou vir,
havia tanta gente
Comendo ou cuspindo ou respirando,
comprando e vendendo trajes.
Tudo mc pareceu brilhante,
ludo estava aceso
e tudo era sonoro
como para cegar ou ensurdecer.
Esta rua já faz tanto tempo,
já faz tempo que não escuto nada,
mudei de estilo, vivo entre as pedras
e o movimento da água.
Aquela rua talvez morreu
de morte natural.
em certa rua com nome de capitão,
e essa rua tinha multidão,
sapateiros, venda de licores,
armazéns repletos de rubis.
Não se podia ir ou vir,
havia tanta gente
Comendo ou cuspindo ou respirando,
comprando e vendendo trajes.
Tudo mc pareceu brilhante,
ludo estava aceso
e tudo era sonoro
como para cegar ou ensurdecer.
Esta rua já faz tanto tempo,
já faz tempo que não escuto nada,
mudei de estilo, vivo entre as pedras
e o movimento da água.
Aquela rua talvez morreu
de morte natural.
1 142
Pablo Neruda
Buscar
Do ditirambo à raiz do mar
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
1 120
Pablo Neruda
O Herói
Em uma rua de Santiago
tem vivido um homem desnudo
por tantos longos anos, sim,
sem calçar-se, não, sem vestir-se
e com chapéu, no entretanto.
Sem mais roupagem que seus pêlos
este varão filosofante
mostrou-se no balcão às vezes
e viu-o a cidadania
como um nudista solitário
inimigo das camisas,
da calça e da casaca.
Assim passavam as modas,
desapareciam os coletes
e voltavam certas lapelas,
certas bengalas em desuso:
tudo era ressurreição
e eram enterros na roupa,
tudo, menos aquele mortal
tão nu quanto veio ao mundo,
desdenhoso como os deuses
dedicados à ginástica.
(Os testemunhos e as testemunhas
do habitante singular
dão detalhes que me estremecem
ao mostrar a transformação
do homem e sua fisiologia.)
Depois daquela nudez
com quarenta anos de nu
da cabeça até os pés
se cobriu com escamas negras
e os cabelos lhe cobriram
de tal maneira os olhos
que nunca mais pôde ler,
nem do dia os jornais.
Assim ficou seu pensamento
fixo em um ponto do passado
como o antigo editorial
de um jornal desaparecido.
(Curioso caso o daquele varão
que morreu quando perseguia
seu canário no terraço.)
Fica provado nesta história
que a boa fé não resiste
às investidas do inverno.
tem vivido um homem desnudo
por tantos longos anos, sim,
sem calçar-se, não, sem vestir-se
e com chapéu, no entretanto.
Sem mais roupagem que seus pêlos
este varão filosofante
mostrou-se no balcão às vezes
e viu-o a cidadania
como um nudista solitário
inimigo das camisas,
da calça e da casaca.
Assim passavam as modas,
desapareciam os coletes
e voltavam certas lapelas,
certas bengalas em desuso:
tudo era ressurreição
e eram enterros na roupa,
tudo, menos aquele mortal
tão nu quanto veio ao mundo,
desdenhoso como os deuses
dedicados à ginástica.
(Os testemunhos e as testemunhas
do habitante singular
dão detalhes que me estremecem
ao mostrar a transformação
do homem e sua fisiologia.)
Depois daquela nudez
com quarenta anos de nu
da cabeça até os pés
se cobriu com escamas negras
e os cabelos lhe cobriram
de tal maneira os olhos
que nunca mais pôde ler,
nem do dia os jornais.
Assim ficou seu pensamento
fixo em um ponto do passado
como o antigo editorial
de um jornal desaparecido.
(Curioso caso o daquele varão
que morreu quando perseguia
seu canário no terraço.)
Fica provado nesta história
que a boa fé não resiste
às investidas do inverno.
664
Pablo Neruda
Nomes
Ai, Eduvigis, que nome tão belo tens,
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.
Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.
Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.
Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.
Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
1 173
Pablo Neruda
Pedro É o Quando
Pedro é o quando e o como,
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
1 184
Pablo Neruda
Uma Estátua No Silêncio
Tanto ocorre no vozerio,
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.
Quando despenca uma ameixa,
quando uma onda desmaia,
quando rodam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.
O ar está mudo ainda,
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.
As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como os cisnes,
como as nuvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.
Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.
Quando despenca uma ameixa,
quando uma onda desmaia,
quando rodam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.
O ar está mudo ainda,
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.
As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como os cisnes,
como as nuvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.
Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.
697
Pablo Neruda
Não Há Muito Que Contar
Não há muito que contar,
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
1 115
Pablo Neruda
Vi - Os Homens
Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
1 017
Pablo Neruda
Paródia do Guerreiro
E que fazem lá embaixo?
Parece que andam todos ocupados
fervendo em seus negócios.
La embaixo, lá embaixo
lá longe,
andam talvez estrepitosamente
daqui não se vê muito,
não lhes vejo as bocas,
não lhes vejo
detalhes, sorrisos
ou sapatos derrotados.
Mas, por que não vêm?
Onde vão se meter?
Aqui estou, aqui estou,
sou o campeão mental de esqui, de boxe,
de corrida de fundo,
de asas negras,
sou o verdugo,
sou o sacerdote,
sou o maior general das batalhas,
não me deixem,
não, por nenhum motivo,
não se vão,
aqui tenho um relógio,
tenho uma bala,
tenho um projeto de guerrilha bancária,
sou capaz de tudo,
sou pai de todos vocês,
filhos malditos,
que acontece,
me esqueceram?
Daqui de cima eu os vejo:
que lentos são sem meus pés,
sem meus conselhos,
como mal se movem no pavimento,
não sabem nada do sol,
não conhecem a pólvora,
têm que aprender a ser crianças,
a comer, a invadir,
a subir as montanhas,
a organizar os cadernos,
a matar as pulgas,
a decifrar o território,
a descobrir as ilhas.
Tudo se acabou.
Foram por suas ruas para suas guerras,
suas indiferenças, suas camas.
Eu permaneci agarrado
entre os dentes da solidão
como um pedaço de carne mascada
como o osso anterior
de um animal extinto.
Não há direito! Reclamo
meu endereço zonal, minhas oficinas,
o posto que atingi no regimento,
no campo dos peloteiros,
e não me resigno à sombra.
Tenho sede, apetite da luz,
e só trago sombra.
Parece que andam todos ocupados
fervendo em seus negócios.
La embaixo, lá embaixo
lá longe,
andam talvez estrepitosamente
daqui não se vê muito,
não lhes vejo as bocas,
não lhes vejo
detalhes, sorrisos
ou sapatos derrotados.
Mas, por que não vêm?
Onde vão se meter?
Aqui estou, aqui estou,
sou o campeão mental de esqui, de boxe,
de corrida de fundo,
de asas negras,
sou o verdugo,
sou o sacerdote,
sou o maior general das batalhas,
não me deixem,
não, por nenhum motivo,
não se vão,
aqui tenho um relógio,
tenho uma bala,
tenho um projeto de guerrilha bancária,
sou capaz de tudo,
sou pai de todos vocês,
filhos malditos,
que acontece,
me esqueceram?
Daqui de cima eu os vejo:
que lentos são sem meus pés,
sem meus conselhos,
como mal se movem no pavimento,
não sabem nada do sol,
não conhecem a pólvora,
têm que aprender a ser crianças,
a comer, a invadir,
a subir as montanhas,
a organizar os cadernos,
a matar as pulgas,
a decifrar o território,
a descobrir as ilhas.
Tudo se acabou.
Foram por suas ruas para suas guerras,
suas indiferenças, suas camas.
Eu permaneci agarrado
entre os dentes da solidão
como um pedaço de carne mascada
como o osso anterior
de um animal extinto.
Não há direito! Reclamo
meu endereço zonal, minhas oficinas,
o posto que atingi no regimento,
no campo dos peloteiros,
e não me resigno à sombra.
Tenho sede, apetite da luz,
e só trago sombra.
1 152
Pablo Neruda
Manhã - XXXI
Com loureiros do Sul e orégão de Lota
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.
És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.
Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,
teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.
És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.
Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,
teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
1 222
Pablo Neruda
IV - Os Homens
Somos torpes os transeuntes, nos atropelamos de cotovelos,
de pés, de calças, de maletas,
descemos do trem, do jato, do navio, descemos
com roupas amassadas e chapéus funestos.
Somos culpáveis, somos pecadores,
chegamos de hotéis estagnados ou da paz industrial,
esta é talvez a última camisa limpa,
perdemos a gravata,
mas ainda assim, deslocados, solenes,
filhos da puta considerados nos melhores ambientes,
ou simples taciturnos que não devemos nada a ninguém,
somos os mesmos e o mesmo diante do tempo,
diante da solidão: os pobres homens
que ganharam a vida e a morte trabalhando
de maneira normal ou burotrágica,
sentados ou amontoados nas estações do metrô,
nos barcos, nas minas, nos centros de estudo, nos cárceres,
nas universidades, nas fábricas de cerveja
(debaixo da roupa a mesma pele sedenta
e o cabelo, o mesmo cabelo, repartido em cores).
de pés, de calças, de maletas,
descemos do trem, do jato, do navio, descemos
com roupas amassadas e chapéus funestos.
Somos culpáveis, somos pecadores,
chegamos de hotéis estagnados ou da paz industrial,
esta é talvez a última camisa limpa,
perdemos a gravata,
mas ainda assim, deslocados, solenes,
filhos da puta considerados nos melhores ambientes,
ou simples taciturnos que não devemos nada a ninguém,
somos os mesmos e o mesmo diante do tempo,
diante da solidão: os pobres homens
que ganharam a vida e a morte trabalhando
de maneira normal ou burotrágica,
sentados ou amontoados nas estações do metrô,
nos barcos, nas minas, nos centros de estudo, nos cárceres,
nas universidades, nas fábricas de cerveja
(debaixo da roupa a mesma pele sedenta
e o cabelo, o mesmo cabelo, repartido em cores).
1 195
Pablo Neruda
O Grande Urinador
O grande urinador era amarelo
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
Quem era, onde estava?
Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.
Nada se divisava.
Onde estava o perigo?
Que ia acontecer no mundo?
O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.
Que quer dizer isto?
Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
Quem era, onde estava?
Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.
Nada se divisava.
Onde estava o perigo?
Que ia acontecer no mundo?
O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.
Que quer dizer isto?
Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.
984
Pablo Neruda
Vii - Os Outros Homens
Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
987
Pablo Neruda
Ilha
Amor meu, na Ilha Saint-Louis escondeu-se o outono
como um urso de circo, sonâmbulo, coroado pelos guizos
que caem do plátano, em cima do rio, chorando:
cruzou o crepúsculo a Ponte do Arcebispado,
pé ante pé, detrás da Igreja que mostra suas graves costelas,
e tu e eu regressamos de um dia que não teve nada
a não ser esta dor e este amor disperso nas ruas,
o amor de Paris ataviado como uma estação cinzenta,
a dor de Paris com sua faixa de pranto enrolada à sua insigne cintura
e esta noite, fechando os olhos, guardaremos um dia como uma moeda
que já não se aceita na loja, que brilhou e consumou seu tesouro:
estendidos, caídos no sono, seguindo o imóvel caminho,
com um dia a mais ou a menos que agregou a teu vestuário
um fulgor de ouro inútil que, sem dúvida, ou talvez, é a vida.
como um urso de circo, sonâmbulo, coroado pelos guizos
que caem do plátano, em cima do rio, chorando:
cruzou o crepúsculo a Ponte do Arcebispado,
pé ante pé, detrás da Igreja que mostra suas graves costelas,
e tu e eu regressamos de um dia que não teve nada
a não ser esta dor e este amor disperso nas ruas,
o amor de Paris ataviado como uma estação cinzenta,
a dor de Paris com sua faixa de pranto enrolada à sua insigne cintura
e esta noite, fechando os olhos, guardaremos um dia como uma moeda
que já não se aceita na loja, que brilhou e consumou seu tesouro:
estendidos, caídos no sono, seguindo o imóvel caminho,
com um dia a mais ou a menos que agregou a teu vestuário
um fulgor de ouro inútil que, sem dúvida, ou talvez, é a vida.
516
Pablo Neruda
Regresso
Ardente é voltar à espuma que acossa minha casa, ao vazio
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
999