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Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Londres

Na alta noite, Londres,
apenas entrevista,
olhos inumeráveis,
dura secreta sombra,
tendas cheias de cadeiras,
cadeiras e cadeiras, cadeiras.
O céu negro
sentado sobre Londres,
sobre sua névoa negra,
sapatos e sapatos,
rio e rio,
ruas desmoronadas pelos dentes
da miséria cor de ferro,
e sob a imundície
o poeta Eliot
com seu velho fraque
lendo aos vermes.
Perguntaram-me quando
nasci, por que vinha
perturbar o Império.
Tudo era polícia
com livros e matracas.
Perguntaram-me
pelo meu avô e meus tios,
pelos meus pessoalíssimos assuntos.
Eram frias
as jovens facas
sobre as quais
senta-se
senta
senta
a matrona Inglaterra,
sempre sentada
sobre milhões de rasgões,
sobre pobres nações andrajosas,
sentada
sobre seu oceano
de reservado uso pessoal,
oceano
de suor, sangue e lágrimas
de outros povos.
Ali sentada
com suas velhas rendas
tomando chá e ouvindo
os mesmos relatos tontos
de princesas,
coroações
e duques conjugais.
Tudo acontece entre fadas.
Enquanto isso
ronda a morte com chapéu
vitoriano
e esqueleto listrado
pelas enegrecidas bicheiras
dos negros subúrbios.
Enquanto isso
a polícia te interroga:
é a palavra paz a que lhes crava
como uma baioneta.
Esta palavra paz
eles quiseram
enterrá-la,
porém
não podem por ora.
Deitam-lhe sombra em cima,
névoa
de polícia,
amarram-na e a encerram,
a golpeiam,
a salpicam de sangue e martírio,
a interrogam,
deitam-na ao mar profundo
com uma pedra em cada
sílaba,
a queimam com um ferro,
com um sabre
a cortam,
atiram-lhe vinagre, fel, mentira,
a empacotam, enchem-na de cinza, a precipitam.
Mas então
voa
de novo
a pomba:
é a palavra paz com plumas novas,
é o jasmim do mundo
que avança com suas pétalas,
é a estrela do sonho e do trabalho,
a ave branca
de voo imaculado,
a rosa que navega,
o pão de todas as vidas,
a estrela de todos os homens.
 
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Cidade Ferida

Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.

E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.

Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - Terceiro Canto de Amor a Stalingrado

Stalingrado com as asas tórridas
do verão, as brancas
mansões elevando-se:
uma cidade qualquer.
As pessoas apressadas
em seu trabalho.
Um cão cruza
o dia poeirento.
Uma moça corre
com um papel na mão.
Não passa nada,
exceto o Volga
de águas escuras.
Uma a uma as casas
se levantaram
lá do peito do homem,
e voltaram os selos do correio,
os buracos das caixas postais,
as árvores,
voltaram os meninos,
as escolas,
voltou o amor,
as mães
pariram,
voltaram as cerejas
aos ramos,
o vento
ao céu,
e então?

Sim, é a mesma,
não cabe dúvida.
Aqui esteve a linha,
a rua,
a esquina,
o metro e o centímetro
ali onde nossa vida e a razão
de todas nossas vidas
foi ganha
com sangue.
Aqui se cortou o nó
que apertou a garganta
da História.
Aqui foi. Se parece mentira
que possamos
pisar a rua e ver
a moça e o cão,
escrever uma carta,
mandar um telegrama,
mas talvez
para isto,
para este dia igual
a cada dia,
para este sol simples
na paz dos homens
foi a vitória,
aqui, nesta cinza
da terra sagrada.

Pão de hoje, livro de hoje, pinheiro recente
plantado esta manhã,
luminosa avenida
recém-chegada do papel
ali onde o engenheiro
a traçou sob o vento da guerra,
menina que passas, cão
que atravessas o dia poento,
oh milagres,
milagres do sangue,
milagres do aço e do Partido,
milagres de nosso novo mundo.

Ramo de acácia com espinhos e flores,
ali onde, ali onde
terás maior perfume
que neste lugar em que todo perfume foi apagado,
em que tudo caiu
menos o homem,
e homem destes dias,
o soldado soviético?

Oh, ramo perfumado,
cheiras
aqui
mais que uma reunida primavera!

Aqui cheiras a homem e a esperança,
aqui, ramo de acácia,
não pôde queimar-te o fogo
nem sepultar-te o vento da morte.
Aqui ressuscitaste cada dia
sem ter morrido nunca,
e hoje em teu aroma o infinito humano
de ontem e de amanhã,
de passado amanhã,
nos volta para dar sua eternidade florida.
És como a usina de tratores:
hoje florescem de novo
grandes flores metálicas
que penetrarão na terra
para que a semente
seja multiplicada.
Também a usina
foi cinza,
ferro retorcido, espuma
sangrenta da guerra,
mas seu coração não se deteve,
foi aprendendo a morrer e a renascer.
Stalingrado ensinou ao mundo
a suprema lição da vida:
nascer, nascer, nascer,
e nascia
morrendo,
disparava
nascendo,
ia de bruços e se levantava
com um raio na mão.
Toda a noite ia sangrando
e já na aurora
podia ceder sangue
a todas as cidades da terra.
Empalidecia com a neve negra
e toda a morte caindo
e quando olhavas
para vê-la tombar, quando chorávamos
seu final de fortaleza,
ela nos sorria,
Stalingrado
nos sorria.

E agora
a morte se foi:
só algumas paredes,
alguma contorção de ferro
bombardeado e retorcido,
só algum rastro
como uma cicatriz de orgulho,
hoje tudo é claridade, lua e espaço,
decisão e brancura,
e no alto
um ramo de acácia,
folhas, flores, espinhos defensores,
a imensa primavera
de Stalingrado,
o invencível aroma
de Stalingrado!
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Dedos Queimados

Romênia antiga, Bucareste dourada,
como te assemelhavas
às nossas infernais e celestes
repúblicas
da América.
 
Pastoril eras e sombria.
Espinhos e asperezas resguardavam
tua miséria terrível,
enquanto Mme. Charmante
divagava em francês pelos salões.
O látego caía
sobre as cicatrizes de teu povo,
enquanto os elegantes literários
em sua revista Sur (seguramente)
estudavam Lawrence, o espião,
ou Heidegger ou a “notre petit Drieu”.
“Tout allait bien a Bucarest.”
O petróleo
deixava queimaduras nos dedos
e enegrecia rostos
de romenos sem nome,
mas se fazia coro
de libras esterlinas
em Nova York e em Londres.
Por isso
era tão elegante Bucareste,
tão suaves as senhoras.
“Ah quel charme, monsieur.”
Enquanto a fome
rondava levantando
seu possuidor vazio
pelos subúrbios negros
e o campo infortunado.
Ah, sim senhores, era
exatamente como Buenos Aires,
como Santiago ou Lima,
Bogotá e São Paulo.
Dançavam uns poucos na sala
permutando suspiros,
o Clube e as revistas literárias
eram muito europeus,
a fome era romena,
o frio era romeno,
o pranto dos pobres
no comum ossário era romeno,
e assim andava a vida
de flor em flor como no meu continente
com as prisões repletas
e a valsa nos jardins.
 
Oui, Madame, que mundo
se foi, que irreparável
perda para toda
a gente distinta!
Bucareste já não existe.
Esse gosto, essa linha,
essa primorosa mescla
de podridão e de “pâtisserie”!
Terrível me parece.
Contam-me
que até a cor local,
os pinturescos trajes esfarrapados,
os mendigos retorcidos como pobres raízes,
as meninas que tremendo
esperavam a noite
às portas do baile,
tudo isso, horror, desapareceu.
 
Que faremos, chère Madame?
Em outra parte faremos
uma revista Sur de fazendeiros
profundamente preocupados
com a “métaphisique”.
 
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

A rua

Também te amo, rua repleta de rostos que arrastam sapatos, sapatos
que riscam a roda do orbe insultando armazéns,
e vivo no leito de um rio infinito de mercadorias,
retiro as mãos da devorante cinza que cai,
que envolvem a roupa que sai do cinema,
colo-me aos vidros olhando com fome chapéus que comeria
ou alfaias que querem matar-me com olhos de cólera verde
ou sabonetes tão suaves que se fizeram com suco de lua
ou livros de pele incitante que me ensinariam talvez a morrer
ou máquinas óticas que fotografam até tua tristeza
ou divãs dispostos às seduções mais inoxidáveis
ou o claro alumínio das caçarolas especializadas em ovos e aspargos
ou os trajes de bispo que a miúdo levam bolsos do Diabo
ou ferrarias amadas pela exatidão da minha alma
ou farmácias pálidas que ocultam, como as serpentes, sob o algodão
presas de arsênico, dentes de estricnina e unguentos letais,
ou tapetes vinílicos, estocolmos, brocados, milanos8
terylén, canhamaço, borlón9 e colchões de todo sossego
ou relógios que vão medir-nos e por fim tragar-nos
ou cadeiras de praia dobráveis adaptáveis a todo traseiro
ou teares com ratier, 1,36 Diederich, complicados e abstratos,
ou baixelas completas ou sofás floreados com capa
ou implacáveis espelhos que esperam demonstrar a
vingança da água
ou escopetas de repetição tão suavíssimas como um
focinho de lebre
ou adegas que se atulharam de cimento; e eu fecho os olhos:
são os ovos de Deus estes sacos terríveis que continuam parindo este mundo.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

I. Conversação Marítima

Encontrei Rubén Darío nas ruas de Valparaíso,
esmirrado aduaneiro, singular rouxinol que nascia:
era ele uma sombra nas gretas do porto, na fumaça marinha,
um delgado estudante de inverno desprendido do fogo de seu natalício.

Sob o amplo gabão tiritava seu longo esqueleto
e leva bolsos repletos de espelhos e cisnes:
até havia chegado a jogar com a fome nas águas do Chile,
e em abandonadas adegas ou invencíveis depósitos de mercadorias,
através de armazéns imensos que só custodiam o frio
o pobre poeta passeava com sua Nicarágua fragrante, como se levasse no peito
um limão de mamilos azuis ou a lembrança em redoma amarela.
Companheiro, disse-lhe, a nave volveu ao fragoroso estupor do oceano,
e tu, desterrado de mãos de ouro, contemplas este amargo edifício:
aqui começou o universo do vento
e chegam do Polo os grandes navios carregados de névoa mortuária.
Não deixes que o frio atormente teus cisnes, nem rompa teu espelho sagrado,
a chuva de junho ameaça teu suave chapéu,
a noite de antárticos olhos navega cobrindo a costa com seu matrimônio de espinhos,
e tu, que propicias a rosa que enlaça o aroma e a neve,
e tu, que originas em teu coração de açafrão a borbulha e o canto claríssimo,
reclama um caminho que corta o granito das cordilheiras
ou some nas vestimentas da fumaça e da chuva de Valparaíso.

Afugenta as névoas do Sul de tua América amarga
e ainda que Balmaceda sustenha suas luvas de prata em tuas mãos,
escapa montando na rajada de tua serpentina quimera!
E corre a cantar com teu rio de mármore a ilustre sonata
que se desenvolve em teu peito desde tua Nicarágua natal!

Arisca era a fumaça dos arsenais, e cheirava o inverno
a desenfreadas violetas que se descoloriam manchando o murcho crepúsculo:
tinha o inverno o cheiro de uma alfombra molhada por anos de chuva
e quando o apito de um rouco navio cruzou como um condor cansando o recinto dos molhes,
senti que meu pai poeta tremia, e um imperceptível lamento
ou melhor vibração de sino que no alto prepara o tangido
ou talvez comoção mineral da música envolta na sombra,
algo vi ou escutei porque o homem olhou-me sem
olhar-me nem ouvir-me.

E senti que subiu até sua torre o relâmpago de um calafrio.

Creio que ali constelado ficou, atravessado por raios de luz inaudita
e era tanto o fulgor que levava debaixo de sua vestimenta puída
que com suas duas mãos escuras tentava cobrir sua linhagem.
E não vi silêncio no mundo como o daquele homem adormecido,
adormecido e andando e cantando sem voz pelas ruas de Valparaíso.
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