Poemas neste tema
Corpo
Marina Colasanti
De Guido Reni
Com a mesma elegância
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
659
Marina Colasanti
Aberta frincha
Há tempos não abraço meu amado
com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.
com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.
1 143
Marina Colasanti
Pela janela aberta
Se deitada de costas
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
1 188
Marina Colasanti
A LARGURA DE UM HOMEM
A largura de um homem
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.
A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.
Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.
A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.
Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.
1 079
Marina Colasanti
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 211
Marina Colasanti
QUASE UM ÂMBAR
O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
999
Marina Colasanti
TARDE E CASA VAZIA
O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
998
Marina Colasanti
SALOMÉ DO EDIFÍCIO PÚBLICO
A saia comprida até o meio da perna
os altos saltos das sandálias pretas
o bater sobre o mármore que brilha.
No hall vazio - só eco e tetos baixos -
avança a funcionária de longos cabelos
e bandeja na mão.
Nem prata
nem Batista.
Um copo d'água
a xícara
a mancha de café.
Rumo à sala do chefe
abre-se ao passo a longa fenda
da saia
e a panturrilha escapa
musculosa.
Rija carne de atleta
trai a Salomé do edificio público
e devolve ao relógio de ponto
os seus pálidos seios.
os altos saltos das sandálias pretas
o bater sobre o mármore que brilha.
No hall vazio - só eco e tetos baixos -
avança a funcionária de longos cabelos
e bandeja na mão.
Nem prata
nem Batista.
Um copo d'água
a xícara
a mancha de café.
Rumo à sala do chefe
abre-se ao passo a longa fenda
da saia
e a panturrilha escapa
musculosa.
Rija carne de atleta
trai a Salomé do edificio público
e devolve ao relógio de ponto
os seus pálidos seios.
1 074
Marina Colasanti
Razão tem Ghirlandaio
Giovanna Tornabuoni não tem frente
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
1 031
Marina Colasanti
SIM, PODE-SE
Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
1 054
Marina Colasanti
Pietá
Foi com os dedos
com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo.
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.
Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.
com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo.
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.
Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.
1 111
Marina Colasanti
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
1 196
Marina Colasanti
PARA FOTO DE ANDRÉS SERRANO
O corpo do morto não sangra
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
1 094
Marina Colasanti
AO REDOR
Ao redor, a pele.
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.
Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas
Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.
A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?
Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.
Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.
É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga
como o areal
abriga a concha?
A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.
Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas
Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.
A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?
Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.
Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.
É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga
como o areal
abriga a concha?
A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?
1 165
Marina Colasanti
PROTESI
Tante invasioni
ho avute
nella bocca
di ferri gomma tubi
e lingue altrui.
Ora una placca
mi incollano sui denti
e mi rassegno.
Fra mesi
ci saró abituata
e scorderó
che con quell' oro
in bocca
non sono nata.
ho avute
nella bocca
di ferri gomma tubi
e lingue altrui.
Ora una placca
mi incollano sui denti
e mi rassegno.
Fra mesi
ci saró abituata
e scorderó
che con quell' oro
in bocca
non sono nata.
1 096
Marina Colasanti
INSTRUMENTO SEM SOM
Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
1 270
Marina Colasanti
Como é Gentil
Os pelos da tua mão
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia
1 418
Allen Ginsberg
O retorno de Kral Majales
Nestas bodas de prata muito cabelo se foi da minha cabeça e eu sou o Rei de Maio
E entretanto eu sou o Rei de Maio meus uivos e proclamações atualmente estão expostos pelo FCC
nas ondas elétricas do ar da América das 6 da manhã à meia-noite
Então Rei de Maio eu retorno pelo do Céu voando para reclamar minha coroa de papel
E eu sou o Rei de Maio com alta pressão sangüínea, diabete, gota, paralisia facial, pedra nos rins e calmos óculos de grau
E visto a coroa pirada da não ignorância da não sabedoria e mais ainda do não medo da não
esperança na gravata capitalista picada e nos macacões comunistas
Sem rir da perda do planeta nos próximo cem anos
E eu sou o Rei de Maio que voltou com um diamante tão grande quanto o universo uma mente vazia
E eu sou o Rei de Maio carente de afeto bouzerant na primavera com uma débil prática de meditação
E eu sou Rei de Maio Professor de Inglês Com Boa Distinção do Brooklyn cantando
Tudo se foi tudo se foi tudo se foi demais tudo se foi céu-alto agora velha mente então Ah!
25 Abril de 1990
E entretanto eu sou o Rei de Maio meus uivos e proclamações atualmente estão expostos pelo FCC
nas ondas elétricas do ar da América das 6 da manhã à meia-noite
Então Rei de Maio eu retorno pelo do Céu voando para reclamar minha coroa de papel
E eu sou o Rei de Maio com alta pressão sangüínea, diabete, gota, paralisia facial, pedra nos rins e calmos óculos de grau
E visto a coroa pirada da não ignorância da não sabedoria e mais ainda do não medo da não
esperança na gravata capitalista picada e nos macacões comunistas
Sem rir da perda do planeta nos próximo cem anos
E eu sou o Rei de Maio que voltou com um diamante tão grande quanto o universo uma mente vazia
E eu sou o Rei de Maio carente de afeto bouzerant na primavera com uma débil prática de meditação
E eu sou Rei de Maio Professor de Inglês Com Boa Distinção do Brooklyn cantando
Tudo se foi tudo se foi tudo se foi demais tudo se foi céu-alto agora velha mente então Ah!
25 Abril de 1990
1 264
Marina Colasanti
A mão de quem
Se tua boca, Holoferne
essa tua boca aberta pelo espanto
ou pelo último grito
pudesse falar
talvez me dissessem quem
te cortou a cabeça
se Judite
ou Caravaggio.
Foi ela mesma que empunhou a espada
abrindo passo ao sangue
rijo jato
sobre o branco lençol
ou foi o pincel que a fez surgir das sombras
para seu próprio horror
com a mão armada?
Os dedos de Judite seguram teus cabelos
leves como um afago
e não terão força, não
não terão
para amparar o peso da cabeça.
Pobre Judite, pálida assassina
a quem morte repugna.
afasta o rosto e quase se surpreende
ao ver que a espada a leva
no seu corte
Tomba ao fundo
entre os dois
um rubro pano
que Caravaggio quis
talhado em carne.
Na orelha de Judite
pende a pérola em gota
o leve laço.
E Merisi olha a cena
pelos olhos da aia
à espera de que o desejado se cumpra
e lhe caiba
sem culpa
a colheita do crime.
essa tua boca aberta pelo espanto
ou pelo último grito
pudesse falar
talvez me dissessem quem
te cortou a cabeça
se Judite
ou Caravaggio.
Foi ela mesma que empunhou a espada
abrindo passo ao sangue
rijo jato
sobre o branco lençol
ou foi o pincel que a fez surgir das sombras
para seu próprio horror
com a mão armada?
Os dedos de Judite seguram teus cabelos
leves como um afago
e não terão força, não
não terão
para amparar o peso da cabeça.
Pobre Judite, pálida assassina
a quem morte repugna.
afasta o rosto e quase se surpreende
ao ver que a espada a leva
no seu corte
Tomba ao fundo
entre os dois
um rubro pano
que Caravaggio quis
talhado em carne.
Na orelha de Judite
pende a pérola em gota
o leve laço.
E Merisi olha a cena
pelos olhos da aia
à espera de que o desejado se cumpra
e lhe caiba
sem culpa
a colheita do crime.
920
Allen Ginsberg
Porque Deus é amor, Jack?
Porque eu me deito
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.
Nova York, 1963
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.
Nova York, 1963
735
Marina Colasanti
POR UMA LUZ
O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
1 093
Allen Ginsberg
Transcrição de música de órgão
A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
1 294
Allen Ginsberg
Canção
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
1 053