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Poemas neste tema

Corpo

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Antes do Sol

Mão, não te apresses para os desenhos da luz.
O sol ainda não chegou.
Desta doçura matinal e indecisa
colho uma haste débil, quero moldá-la
no espaço: a clara espiga do dia.
Aí vem o sol: aquece o dorso e o quarto,
mas não encontrei ainda a linha viva
das palavras no branco,
alento puro.
Manchas de luz na página e na mão;
vou descer as persianas, desço-as; ondulam listas
de luz e sombra no papel.
Um galo canta, e o chilrear dos pássaros.
Mas não basta este silêncio de casulo cálido.
Uma pressa obscura e ansiosa
— para quê? Abrir na folha
o caminho em que respiro o ar do dia.
Atento em vão (de novo canta o galo)
— quem acorda a terra onde as palavras vibram?
Um frémito de inatenção, uma falha
que se abre — e eu vou dizer a clara
árvore ou espiga luminosa, ainda indecisa
e já aguda na água a luz incide.
Como igualar esta igualdade pura?
Eis a distância fatal que nos separa e onde caio.
Recomeço, recomeçar... Oh a urgência viva
do sopro no espaço verdadeiro, na folha alta!
Mas não te precipites... Pondera a própria água
que em ti pulsa... lança-te só quando se ergue a onda
— mas não és tu mesmo que a levantas, se te ergues?
Assim, tentas e pesas. Caminhas para uma praia,
caminhas numa praia onde a água aviva as pedras,
onde o esplendor igual te aniquila e te salva.
És um corpo aberto, móveis hastes respiram
e no espaço se unem, num obscuro tremor.
Uma espiga de luz condensa grão a grão
as palavras do dia, quando o sol já vai alto.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Intervalo

É aqui que a terra cede,
a mão soçobra na entranha húmida,
e todo o visco se escreve como um gosto visto.
Seio invertido em que estremece a pena
para o espaço extenso a ser folha na folha.

A falha em que penetro, ó feliz falha,
para que não há nome nem grito,
não peço o teu não, escorro a tinta
que te não diz, e digo-te feliz na folha.
Assim eu falho e sou feliz.

A falha em que prossigo (a folha é lisa)
não diverte, mas desvia, e eu quero que anule
e seja a direcção nula da folha
igual à folha que fale, e que eu falhe feliz.

Aqui seria a forma de um jardim,
a forma, as formas: a presença do corpo.
Sem corpo, um só olhar em torno.

Mas sem tronco, em que apoiar-me?
O gosto já esquecido, tive-o. Não.
As folhas só aqui seriam folhas.
Vi-as. Em vão aqui as lembro. O espaço
só aqui é espaço e as suas folhas
aqui são as iguais, as únicas felizes.

Não nego o que vi, mas aqui é nulo.
Aqui é a sombra e esta sombra seria
feliz sombra vermelha. Na memória
anulada e ressurgida, ó sombra tu serias
minha sombra vermelha.

Que nulo seja ou morra,
no surdo brilho intervalo em que
o movimento me aniquila e escrevo: sim.
A lâmpada de folhas enche a mão.
Amo as fendas, e as pequenas teias
são o enleio do instante.

Que morra ou surja.

Neste campo
o corpo não escolho nem reduzo,
é ampla a folhagem em que me embrenho.
Que morra ou surja, ó espaçosa
cabeleira e o quarto que preenches com teus raios.

Não sou mais do que uma pequena sombra com olhos
para os seus insectos lúcidos.
São nomes sobre o sangue. Nomes vãos
mas que propagam, apagando-se. E
se num ímpeto leve os apreendo,
direi que são azuis ou verdes. E que brilham.
Sou apenas uma sombra com olhos neste instante.
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