Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
Eis a Mão, o Vento, a Língua Sem Razão.
Eis a mão, o vento, a língua sem razão.
Que inscreve ela na árvore? Um nome de árvore,
a razão do efémero, a morte desse nome.
Só um cavalo salva o seu nome na árvore.
Árvore, cavalo errante, que dizem? Rasgam
a casca, o pêlo, as inscrições resistem,
a mão desta tarde de Abril não se eterniza
com um número ou um nome. Os nomes não se perdem.
Árvore, razão incessante, cavalo, razão errante,
simbiose de amor e obscuro furor estático,
a minha mão demora-se na árvore e no cavalo.
Um vento já soletra as palavras da árvore.
E o cavalo caminha inscrito no poema.
E tudo é sem razão por uma razão diferente.
Que inscreve ela na árvore? Um nome de árvore,
a razão do efémero, a morte desse nome.
Só um cavalo salva o seu nome na árvore.
Árvore, cavalo errante, que dizem? Rasgam
a casca, o pêlo, as inscrições resistem,
a mão desta tarde de Abril não se eterniza
com um número ou um nome. Os nomes não se perdem.
Árvore, razão incessante, cavalo, razão errante,
simbiose de amor e obscuro furor estático,
a minha mão demora-se na árvore e no cavalo.
Um vento já soletra as palavras da árvore.
E o cavalo caminha inscrito no poema.
E tudo é sem razão por uma razão diferente.
1 129
António Ramos Rosa
Sem Eu As Pressentir
Sem eu as pressentir,
mas já na febre e no desejo,
sinuosos sinais, frechas intermitentes,
interrompem a sombra, negam o meu silêncio.
Afluem, mas são lâminas e traços
que a mão inscreve. Não o liso
curso que amanhece. Um intervalo
na luz. Em sucessivos
arranques, os membros se reúnem
ou dispersam.
Mas se noite e luz reúnem
ferindo de surpresa
negam o muro que erguem
o próprio muro que são
e que atravessam.
Nada se dilui, pois tudo recomeça.
mas já na febre e no desejo,
sinuosos sinais, frechas intermitentes,
interrompem a sombra, negam o meu silêncio.
Afluem, mas são lâminas e traços
que a mão inscreve. Não o liso
curso que amanhece. Um intervalo
na luz. Em sucessivos
arranques, os membros se reúnem
ou dispersam.
Mas se noite e luz reúnem
ferindo de surpresa
negam o muro que erguem
o próprio muro que são
e que atravessam.
Nada se dilui, pois tudo recomeça.
1 049
António Ramos Rosa
Não É Uma Imagem
Não é uma imagem, mas o fogo.
O fogo inteiro, chama do ventre.
Não é uma imagem, eu respiro
com todo o peito desta árvore
e me detenho neste nó.
Eu sou mais cego nesta luz
do que a madeira silenciosa.
Não é uma imagem, é o ar
e a luz que inunda o corpo inteiro.
Não é uma imagem, eu respiro
pelo pulso e pelo ouvido,
e a minha língua lambe o surdo
metal seco desta tarde.
Não é uma imagem, é uma crespa
e nua ramagem sobre o rosto.
Sou trespassado e vulnerado
pelo ar da luz, pela luz do ar.
O fogo inteiro, chama do ventre.
Não é uma imagem, eu respiro
com todo o peito desta árvore
e me detenho neste nó.
Eu sou mais cego nesta luz
do que a madeira silenciosa.
Não é uma imagem, é o ar
e a luz que inunda o corpo inteiro.
Não é uma imagem, eu respiro
pelo pulso e pelo ouvido,
e a minha língua lambe o surdo
metal seco desta tarde.
Não é uma imagem, é uma crespa
e nua ramagem sobre o rosto.
Sou trespassado e vulnerado
pelo ar da luz, pela luz do ar.
961
António Ramos Rosa
Entre o Silêncio E o Espaço
Talvez hesite, ou não, ao desenhar-se
uma confusa cor,
corola ou folha.
A casa suspendeu-se:
abrindo o espaço,
aboliu a sombra,
o tremor da mão.
Na harmonia do deserto
o corpo se recorta
num cone luminoso
entre o silêncio e o espaço.
*
Talvez hesite — ou não se abre
ou perpassa entre os sinais ao vento —,
só o risco igual
de um mastro errante
no branco sem estrelas.
Ou elástico, sem a pressão
rígida,
as suas espáduas cedem
sem vertigem
até ao espaço exacto
de uma casa
ou folha aberta: e logo
existe.
*
É já a árvore, a mão
que o diz. Seria
o pulso contra a boca,
o poço.
Ou o soluço.
De súbito fez-se palma
no espaço do silêncio.
E suas veias lêem-se
expandindo
a mão feliz
que a escreve.
uma confusa cor,
corola ou folha.
A casa suspendeu-se:
abrindo o espaço,
aboliu a sombra,
o tremor da mão.
Na harmonia do deserto
o corpo se recorta
num cone luminoso
entre o silêncio e o espaço.
*
Talvez hesite — ou não se abre
ou perpassa entre os sinais ao vento —,
só o risco igual
de um mastro errante
no branco sem estrelas.
Ou elástico, sem a pressão
rígida,
as suas espáduas cedem
sem vertigem
até ao espaço exacto
de uma casa
ou folha aberta: e logo
existe.
*
É já a árvore, a mão
que o diz. Seria
o pulso contra a boca,
o poço.
Ou o soluço.
De súbito fez-se palma
no espaço do silêncio.
E suas veias lêem-se
expandindo
a mão feliz
que a escreve.
612
António Ramos Rosa
O Vigor do Cavalo, o Rigor da Palavra
O vigor do cavalo, o rigor da palavra
nua. Pátria do meu corpo.
Sopra nuvens brancas, cavalga o continente
com a terra toda vibrante e luminosa.
Vejo que a pedra é pedra, a terra terra,
mas negando a pedra, negando a terra,
de novo encontro a pedra, de novo encontro a terra
numa primeira vez de compacta lucidez.
Cavalo que me reúnes sobre escombros e cinzas
a uma textura carnal, aos ossos inseridos,
a uma fecunda cave, às raízes da voz.
Escrevo o chão consolidando a terra
por amor do teu garbo, tua dura estrada,
teu lento amadurecer, tua lição de andar.
nua. Pátria do meu corpo.
Sopra nuvens brancas, cavalga o continente
com a terra toda vibrante e luminosa.
Vejo que a pedra é pedra, a terra terra,
mas negando a pedra, negando a terra,
de novo encontro a pedra, de novo encontro a terra
numa primeira vez de compacta lucidez.
Cavalo que me reúnes sobre escombros e cinzas
a uma textura carnal, aos ossos inseridos,
a uma fecunda cave, às raízes da voz.
Escrevo o chão consolidando a terra
por amor do teu garbo, tua dura estrada,
teu lento amadurecer, tua lição de andar.
1 185
António Ramos Rosa
A Paixão do Ar
Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
569
António Ramos Rosa
Primavera Material
É a noite em pleno dia. Uma luva que avança, esteira invisível. A mão que não vê o sulco, a planta do pé que assenta sobre a delgada película.
É a terra vazia, a língua que se enrola, o olhar inerte. O corpo que procura a palavra. A palavra do corpo que entra no espaço ilimitado. Todas as árvores se dispersam. As pálpebras tropeçam nas ramagens de uma floresta deserta. A fome de uma claridade nua. Um objecto que centre o espaço — promontório que avança na bruma e se submerge. Terra, nova terra, novo espaço — eu vi os troncos, os arbustos em chamas, as clareiras do verde. A primavera aqui é negra, mas eu vi a primavera das cores, respirei-lhe o hálito delicado, vi uma árvore extática coberta de lâmpadas finíssimas. Aqui é negro ou é branco e eu vou formando o sopro obscuro, o tapete que enfuno com a minha respiração entrecortada. Quero retratar-te a terra abrasada, dar-te o espelho do instante luminoso, prolongá-lo nas sequências do teu amplo olhar. É toda a terra viva que eu quero despertar na tua língua e nos teus músculos. Tropeço em membros duros e ásperos, em materiais macios e falsos, em espelhos que me aprisionam. Quero abrir-te a vasta clareira onde os objectos brilham com as suas massas sólidas e as suas nítidas e fascinantes presenças, quero rasgar-te as avenidas do espaço, o grande canto do olhar oferecido ao mundo, a áspera e triunfante materialidade da primavera verdadeira.
É a terra vazia, a língua que se enrola, o olhar inerte. O corpo que procura a palavra. A palavra do corpo que entra no espaço ilimitado. Todas as árvores se dispersam. As pálpebras tropeçam nas ramagens de uma floresta deserta. A fome de uma claridade nua. Um objecto que centre o espaço — promontório que avança na bruma e se submerge. Terra, nova terra, novo espaço — eu vi os troncos, os arbustos em chamas, as clareiras do verde. A primavera aqui é negra, mas eu vi a primavera das cores, respirei-lhe o hálito delicado, vi uma árvore extática coberta de lâmpadas finíssimas. Aqui é negro ou é branco e eu vou formando o sopro obscuro, o tapete que enfuno com a minha respiração entrecortada. Quero retratar-te a terra abrasada, dar-te o espelho do instante luminoso, prolongá-lo nas sequências do teu amplo olhar. É toda a terra viva que eu quero despertar na tua língua e nos teus músculos. Tropeço em membros duros e ásperos, em materiais macios e falsos, em espelhos que me aprisionam. Quero abrir-te a vasta clareira onde os objectos brilham com as suas massas sólidas e as suas nítidas e fascinantes presenças, quero rasgar-te as avenidas do espaço, o grande canto do olhar oferecido ao mundo, a áspera e triunfante materialidade da primavera verdadeira.
1 189
António Ramos Rosa
Oh, Porque Sim
E fa di clarità l’aer tremare.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
1 107
António Ramos Rosa
Entre As Raízes
Dedos articulados através das folhas,
folhas sobre folhas, num espaço verde, aberto
ao corpo que solta o olho à língua,
branda flecha perfurando frestas,
bichos lentos, fetos de ar, linhas fluidas,
palpo cabeça rente ao chão, caminho, inscrevo,
com a saliva, as finas raízes perceptíveis,
troncos visíveis nas fronteiras de água.
Avanço, caracol, a longa cama salivando,
raspando ervas, calcando o solo, na terra árida
com seus canteiros de treva e de silêncio, onde não há
nem rosto nem figura, caminho só de insectos,
longa cabeça suspensa sobre o ovo do silêncio.
A mão deitada escuta, um joelho num sulco,
longamente imóvel — eis o dorso da terra.
É o barco de ervas, a rotação lentíssima
que a tua mão recebe da terra e à terra imprime,
é o horizonte aberto que o teu rosto absorve,
é a página que o teu corpo sulca com o rumor da pedra sobre o sulco,
é o corpo que soluça sobre o solo, desliza solto,
deliciada duna adunando-se à terra,
um barco, um caracol saindo das raízes.
folhas sobre folhas, num espaço verde, aberto
ao corpo que solta o olho à língua,
branda flecha perfurando frestas,
bichos lentos, fetos de ar, linhas fluidas,
palpo cabeça rente ao chão, caminho, inscrevo,
com a saliva, as finas raízes perceptíveis,
troncos visíveis nas fronteiras de água.
Avanço, caracol, a longa cama salivando,
raspando ervas, calcando o solo, na terra árida
com seus canteiros de treva e de silêncio, onde não há
nem rosto nem figura, caminho só de insectos,
longa cabeça suspensa sobre o ovo do silêncio.
A mão deitada escuta, um joelho num sulco,
longamente imóvel — eis o dorso da terra.
É o barco de ervas, a rotação lentíssima
que a tua mão recebe da terra e à terra imprime,
é o horizonte aberto que o teu rosto absorve,
é a página que o teu corpo sulca com o rumor da pedra sobre o sulco,
é o corpo que soluça sobre o solo, desliza solto,
deliciada duna adunando-se à terra,
um barco, um caracol saindo das raízes.
1 040
António Ramos Rosa
No Lugar da Árvore
No lugar da árvore. Longa e ampla.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
581
António Ramos Rosa
A Mão Que Principia Ao Alto
a Luiza Neto Jorge
A mão que principia ao alto
o traço. Rápido
antes de saber, surpresa e gosto.
Uma forma se diz, lábio primeiro,
experiência de nada, a língua alteia-se
sobre um fundo vago que desliza.
Um ombro se desenha, perfil do ar.
A força se forma, delicada,
juvenil seta que prolonga e curva,
alvo de um seio esboçado em branco aberto.
Crespa, como um nervo que entesa, aponta
ao círculo cheio que do corpo arroja,
o golfo elástico de uma anca ao braço
rasga entre vagas livres.
O tronco em chama calma, ascende, acende
a cabeça de suaves veias leves.
E a boca sóbria sem muros abre-se ao ar,
de um obscuro centro conjugados arcos
libertam-se em cadeia firme e alta,
sustidos por uma espádua onde se dobram,
e retensos se erguem nomes novos.
O muro interior soprado, toalha de ar,
dança à distância da mão regendo o corpo,
rede viva de veias sem limites
que altos dedos trémulos conduzem
à clara praia onde se lêem linhas.
A mão que principia ao alto
o traço. Rápido
antes de saber, surpresa e gosto.
Uma forma se diz, lábio primeiro,
experiência de nada, a língua alteia-se
sobre um fundo vago que desliza.
Um ombro se desenha, perfil do ar.
A força se forma, delicada,
juvenil seta que prolonga e curva,
alvo de um seio esboçado em branco aberto.
Crespa, como um nervo que entesa, aponta
ao círculo cheio que do corpo arroja,
o golfo elástico de uma anca ao braço
rasga entre vagas livres.
O tronco em chama calma, ascende, acende
a cabeça de suaves veias leves.
E a boca sóbria sem muros abre-se ao ar,
de um obscuro centro conjugados arcos
libertam-se em cadeia firme e alta,
sustidos por uma espádua onde se dobram,
e retensos se erguem nomes novos.
O muro interior soprado, toalha de ar,
dança à distância da mão regendo o corpo,
rede viva de veias sem limites
que altos dedos trémulos conduzem
à clara praia onde se lêem linhas.
808
António Ramos Rosa
Na Fronteira da Sede
Onde chegam na fronteira da sede,
onde perdem ou ganham lábios felizes, instantâneos,
onde chegam e se perdem, à altura
do chão que se ouve e vê,
espuma do meio-dia,
uma espádua desce longa pela mão,
à altura inteira chegam,
onde se erguem e caem em plena sede.
Queda branca
através de anéis rubros,
na saliva e no suor a estrela viva forma-se,
se desfaz e refaz,
matéria modelada corpo a corpo,
fugacíssima estrela presente,
peso de dança extrema,
a terra se coloca em seu centro de chão,
a estrela ganha lábios de barro em rodopio,
que da raiz dos braços e das virilhas nasce.
Onde chegam, onde chegam, e se consomem, no sumo,
lento, extremo círculo, ténue, pleno círculo
da luz em que se entregaram e beberam,
e soltos pousam livres membros que pesam doces,
cientes dessa água última que se estende e perdura,
doce água última em que se alongam
extensos, perdurando.
onde perdem ou ganham lábios felizes, instantâneos,
onde chegam e se perdem, à altura
do chão que se ouve e vê,
espuma do meio-dia,
uma espádua desce longa pela mão,
à altura inteira chegam,
onde se erguem e caem em plena sede.
Queda branca
através de anéis rubros,
na saliva e no suor a estrela viva forma-se,
se desfaz e refaz,
matéria modelada corpo a corpo,
fugacíssima estrela presente,
peso de dança extrema,
a terra se coloca em seu centro de chão,
a estrela ganha lábios de barro em rodopio,
que da raiz dos braços e das virilhas nasce.
Onde chegam, onde chegam, e se consomem, no sumo,
lento, extremo círculo, ténue, pleno círculo
da luz em que se entregaram e beberam,
e soltos pousam livres membros que pesam doces,
cientes dessa água última que se estende e perdura,
doce água última em que se alongam
extensos, perdurando.
1 088
António Ramos Rosa
Para Vir Aqui
Para vir aqui, de longe, a este sol da casa.
Para esta casa do corpo — tão de longe.
Chegar à casa onde estou,
olhos da face, ver à beira
da casa o sol da casa
tão perto e longo
o sol da face, o corpo
tão perto — e de tão longe.
Para esta casa do corpo — tão de longe.
Chegar à casa onde estou,
olhos da face, ver à beira
da casa o sol da casa
tão perto e longo
o sol da face, o corpo
tão perto — e de tão longe.
1 066
António Ramos Rosa
Dia de Verão
Contra a muralha de ar
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
1 018
António Ramos Rosa
O Arco, E Logo, a Folha Alta
O arco, e logo, a folha alta,
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
1 061
António Ramos Rosa
Ritmo do Ritmo
Era a mão que me conduzia por entre os troncos e as folhas.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
778
António Ramos Rosa
Terra Imponderável
Uma toalha de água e de ar,
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.
Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.
Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.
As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.
Ouso ser simples como o pão e a água.
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.
Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.
Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.
As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.
Ouso ser simples como o pão e a água.
1 185
António Ramos Rosa
A Face do Ar
O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
1 066
António Ramos Rosa
Na Solidão Renovada
Com os dentes.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
1 162
António Ramos Rosa
Campo E Corpo
Não houve antes nem haverá depois.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
1 159
António Ramos Rosa
O Mesmo E Outro Chão
Outra mão será
a mesma magra e húmida
que apertas sobre o chão.
Outro corpo será
que treme e se sustém
até ao chão de lâmina.
Outros olhos verás,
estes mesmos vorazes,
magros sobre o chão.
Outras mãos me darás,
tão duras, resistentes,
de um chão a que não chegas.
Estas mãos, outras mãos,
minhas mãos, tuas mãos,
tão duras e tão quentes.
Percorrem outro chão,
sobre o chão do teu corpo,
percorrem outro chão,
no mesmo chão dos corpos.
Estes olhos que ficam
são os olhos que voltam
do chão dos nossos corpos
e que ao chão já não voltam.
Outro chão acharás
do chão em que caíste
por outro subirás
até onde caíste.
Estes olhos que ficam
são os olhos que voltam,
por este chão agora
os teus olhos se voltam.
Oh, nenhum chão se ganha
que não seja o das mãos
que se desprendem, prendem
às mãos do chão que fogem.
a mesma magra e húmida
que apertas sobre o chão.
Outro corpo será
que treme e se sustém
até ao chão de lâmina.
Outros olhos verás,
estes mesmos vorazes,
magros sobre o chão.
Outras mãos me darás,
tão duras, resistentes,
de um chão a que não chegas.
Estas mãos, outras mãos,
minhas mãos, tuas mãos,
tão duras e tão quentes.
Percorrem outro chão,
sobre o chão do teu corpo,
percorrem outro chão,
no mesmo chão dos corpos.
Estes olhos que ficam
são os olhos que voltam
do chão dos nossos corpos
e que ao chão já não voltam.
Outro chão acharás
do chão em que caíste
por outro subirás
até onde caíste.
Estes olhos que ficam
são os olhos que voltam,
por este chão agora
os teus olhos se voltam.
Oh, nenhum chão se ganha
que não seja o das mãos
que se desprendem, prendem
às mãos do chão que fogem.
1 001
António Ramos Rosa
Da Grande Página Aberta do Teu Corpo
Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara
Pela janela vejo um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol
Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara
Pela janela vejo um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol
Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor
600
António Ramos Rosa
Irradiação
ventre cavo donde parte a primeira sílaba com a redonda força aspirante
palpitação de abóbada até ao arco da cabeça
ampliação surda que a boca ritma de hausto em hausto
— volante que principia a girar
tensão — atenção no limite extensível campo plasmável
volante em punho
conduzo o corpo para a fonte corporal
as mãos jorram dos braços
o rosto nasce entre as mãos
as tenazes da nuca libertam a cabeça
as espáduas são duas ondas livres
posso descer à terra aos grãos do solo vivo
com as plantas dos pés adiro à terra
formo o meu corpo ao ritmo de todos os contactos
acaricio a casca rugosa de uma árvore
balanço como a árvore visível forma de respiração
moldo-me ao silêncio que se alia à luz
implanto-me dilato-me centro-me disperso-me
o meu amplexo amplia-se de círculo em círculo
nas largas avenidas contenho a trepidação
estou no centro do meu corpo e da cidade
a partir das raízes com as fibras mais tensas
circulo
em toda a parte.
palpitação de abóbada até ao arco da cabeça
ampliação surda que a boca ritma de hausto em hausto
— volante que principia a girar
tensão — atenção no limite extensível campo plasmável
volante em punho
conduzo o corpo para a fonte corporal
as mãos jorram dos braços
o rosto nasce entre as mãos
as tenazes da nuca libertam a cabeça
as espáduas são duas ondas livres
posso descer à terra aos grãos do solo vivo
com as plantas dos pés adiro à terra
formo o meu corpo ao ritmo de todos os contactos
acaricio a casca rugosa de uma árvore
balanço como a árvore visível forma de respiração
moldo-me ao silêncio que se alia à luz
implanto-me dilato-me centro-me disperso-me
o meu amplexo amplia-se de círculo em círculo
nas largas avenidas contenho a trepidação
estou no centro do meu corpo e da cidade
a partir das raízes com as fibras mais tensas
circulo
em toda a parte.
1 141
António Ramos Rosa
As Tuas Armas São Lentas
As tuas armas são lentas
servas compreendem lúcidas reflectem
as tuas armas secretas e patentes
Sorves-te como um sopro em corpo e firmas-te
As tuas ancas desligam-se despenham-se
As tuas servas surpreendem
Nunca têm a febre alta
Caminham no silêncio das tuas pernas
As tuas armas são pequenas e longas
Tecem no espaço as linhas de uma águia
Desfazem um a um os mitos dos enlaces
A tua vista alcança o ponto cego da luz
A tua linguagem é o silêncio sem eco
Tornaste-te num muro alto que não vejo:
o espaço nu
servas compreendem lúcidas reflectem
as tuas armas secretas e patentes
Sorves-te como um sopro em corpo e firmas-te
As tuas ancas desligam-se despenham-se
As tuas servas surpreendem
Nunca têm a febre alta
Caminham no silêncio das tuas pernas
As tuas armas são pequenas e longas
Tecem no espaço as linhas de uma águia
Desfazem um a um os mitos dos enlaces
A tua vista alcança o ponto cego da luz
A tua linguagem é o silêncio sem eco
Tornaste-te num muro alto que não vejo:
o espaço nu
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