Temas
Poemas neste tema

Corpo

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Fogo E Pedra

Neste campo — qual campo?
não me entrego,
rompo.
Avanço a fogo e pedra
e terra.
*
O triângulo da fronte
pulsa com o ventre
magramente
ao vento.
Arde nuamente
arde alto
com o ventre
ao vento.
*
Por detrás da sombra
da pedra
por baixo da sombra
da pedra
por baixo por detrás
do silêncio
da pedra
o silêncio da pedra
*
Meu país de palavras. País de pedra. Que atravesso, país que treme, hesita, rompe. Nu. Vivo. Pobre.
*
Digo para dizer — esta parede
que não vês,
este ar que não respiras.
Entre a palavra e a figura
treme o nada
a boca branca
*
Nada, ou ainda a pedra, ou ainda a terra, ou ainda o fogo. Nada. A fronte nua interior, boca de ar e morte. E uma pequena rua longa e branca, a rua nua, a rua de um corpo para a via láctea do dia. As árvores brancas. Caminho sem cessar. Não sou vosso habitante de comércio entre portas. Rebento as minhas barricas de ar.
*
Adiro
à minha boca
de terra
ó carne da carne
tumor
de silêncio
vermelho
*
No lugar da árvore. No lugar do ouvido. No lugar do chão. Unidade crepitante no silêncio aberto no trânsito. Tronco, calma bomba indeflagrável, dádiva da identidade.
*
A breve lâmina que nos separa, ou muro ou chama. Contra a esquina, arde. Contra o céu, arde. Na terra, ondula e chama, chama. A breve lâmina, ou rasga ou chama.
*
Neste chão
onde passam as palavras
se brilham
— de quem são?
*
Demasiado alto para
o sono
e o amor.
Contra a vertigem
sonâmbula
esta barragem de pedra
*
Por um país mais lento, filho do ócio
armado ao ombro do ócio,
no ócio da alegria
do ócio.

Ervas de ócio, folhas de ócio,
inimaginável figura do ócio
descabelada, branca e nua
caindo lenta
lenta
lenta,
imponderável, lenta,
interminável.
*
Minhas armas quotidianas para rir, para quebrar, para desarmar.
*
Penso numa linguagem desconcertantemente simples, falsamente transparente, um pouco tosca. Térrea e pétrea. E aí brilha uma lâmpada, uma pedra, o ar. Uma linguagem de restituição.
*
Algo se soltou no corpo
algo se abriu
e a boca.
O corpo abriu-se.
A boca em uníssono com o corpo.
Pela primeira vez
pela primeira vez
a boca foi a boca do corpo.
1 161
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Esplendor Calcinado

Calcando o solo, colado ao vento,
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.

Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.

Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.

Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.

Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.

Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.

Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.

Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?

Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!

Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.

Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.

Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
1 141
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Parede Inseparável

A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço

Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas     Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte

é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas

respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira

e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos

silêncio

respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço         livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores

livre espaço

o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo     fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço

estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora

posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança

Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra

Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
1 008