Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
António Ramos Rosa
Linhas E Cores
Klee
Por umas escadas toscas, infantis, leves, subo à janela do velho que espreita para a rua. Uma aranha tece a claridade do vento. A janela solta evapora-se. Leves, leves, as escadas apoiam-se numa parede de ar.
Klee
No silêncio da caixa de vidro, o silêncio do ar e da luz, o ponto que se desvanece, a imobilidade do pássaro. A linha caminha, macia, firme. O homem caminha na linha, no meio da luz e do silêncio. Ao fim da linha há o espaço da página branca. Não há ponte e o sorriso do homem tremula ao vento como um fio.
Bissière
Dos quadradinhos coloridos, de breves trémulos riscos — exalava-se o cheiro do pão de outrora, uma parede de moinho, uma roda imóvel, um beijo no sol, a terra e a mão do menino.
Por umas escadas toscas, infantis, leves, subo à janela do velho que espreita para a rua. Uma aranha tece a claridade do vento. A janela solta evapora-se. Leves, leves, as escadas apoiam-se numa parede de ar.
Klee
No silêncio da caixa de vidro, o silêncio do ar e da luz, o ponto que se desvanece, a imobilidade do pássaro. A linha caminha, macia, firme. O homem caminha na linha, no meio da luz e do silêncio. Ao fim da linha há o espaço da página branca. Não há ponte e o sorriso do homem tremula ao vento como um fio.
Bissière
Dos quadradinhos coloridos, de breves trémulos riscos — exalava-se o cheiro do pão de outrora, uma parede de moinho, uma roda imóvel, um beijo no sol, a terra e a mão do menino.
1 090
António Ramos Rosa
Diálogo Imóvel
No quarto lavado
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
1 049
António Ramos Rosa
Transcrição da Terra
Para um jardim sem flores
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
1 187
António Ramos Rosa
Para Respirar Um Pouco
Na tábua em que escrevo
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.
Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.
Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.
E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?
De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?
Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.
Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.
Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.
Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.
Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.
Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.
E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?
De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?
Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.
Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.
Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.
Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
1 191
António Ramos Rosa
Através da Memória
a Jorge de Sena
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*
Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.
A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.
Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.
Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.
Já
essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.
Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*
Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.
A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.
Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.
Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.
Já
essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.
Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
633
António Ramos Rosa
A Voz do Pulso
a Vergílio Ferreira
Se eu penso que é um crime
a luz clara nasce
deste não que suspendo
Não saber até onde
e claramente abrir
o começo tão certo
deste pulso que afirmo
*
A noite me confunde
e nela retempero
a flor que não distingo
de um destino sem olhos
*
Mas o dia de sol
a prumo
fere meus dedos
na página deserta
*
A música começa
no deserto do não
(no túmulo do quarto
as sílabas são mudas)
O delírio é só um
e a esperança é arriscar-se
nesta pedra de som
*
Eu me abro eu me levanto
à janela à mesa ao dia
Sou esse outro que anda
com um destino aos ventos
entre claras lâmpadas
O homem que aconteço
casualmente certo
e se afirma no dia
na igualdade pura
(Ó deserto tão simples)
*
Música alheia minha
Afirmação dos outros
Ao lado deles vou
Tenho um espelho no quarto
O dia é alto quando
na mesa nada espera
que não seja poesia
*
É verdade o que digo
Com a justa rapidez
Breve dureza
a luz
que abre o espaço tão certo
de cada um
a cada um
*
É uma rosa que surge
na mesa a contemplar
É uma forma onde
um mar pequeno sonha
onde recomeçar
a maravilha simples
*
A voz que subsiste
mas só nasce inesperada
A tua mão é larga
Limpa a tua vida
afirma-a sem nada
Se eu penso que é um crime
a luz clara nasce
deste não que suspendo
Não saber até onde
e claramente abrir
o começo tão certo
deste pulso que afirmo
*
A noite me confunde
e nela retempero
a flor que não distingo
de um destino sem olhos
*
Mas o dia de sol
a prumo
fere meus dedos
na página deserta
*
A música começa
no deserto do não
(no túmulo do quarto
as sílabas são mudas)
O delírio é só um
e a esperança é arriscar-se
nesta pedra de som
*
Eu me abro eu me levanto
à janela à mesa ao dia
Sou esse outro que anda
com um destino aos ventos
entre claras lâmpadas
O homem que aconteço
casualmente certo
e se afirma no dia
na igualdade pura
(Ó deserto tão simples)
*
Música alheia minha
Afirmação dos outros
Ao lado deles vou
Tenho um espelho no quarto
O dia é alto quando
na mesa nada espera
que não seja poesia
*
É verdade o que digo
Com a justa rapidez
Breve dureza
a luz
que abre o espaço tão certo
de cada um
a cada um
*
É uma rosa que surge
na mesa a contemplar
É uma forma onde
um mar pequeno sonha
onde recomeçar
a maravilha simples
*
A voz que subsiste
mas só nasce inesperada
A tua mão é larga
Limpa a tua vida
afirma-a sem nada
535
António Ramos Rosa
A Ciência Das Canções
a Alberto de Lacerda
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal
Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal
Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
1 151
João Cabral de Melo Neto
O que se diz ao editor a propósito de poemas
A José Olympio e Daniel
Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.
E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,
terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.
Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.
Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.
Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.
Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.
E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,
terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.
Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.
Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.
Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.
866
João Cabral de Melo Neto
A Augusto de Campos
Ao tentar passar a limpo,
refazer, dar mais decoro
ao gago em que falo em verso
e em que tanto me rechovo,
pensei que de toda a gente
que a nosso ofício ou esforço,
tão pra nada, dá-se tanto
que chega quase ao vicioso,
você, cuja vida sempre
foi fazer/catar o novo
talvez veja no defunto
coisas não mortas de todo.
Você aqui encontrará
as mesmas coisas e loisas
que me fazem escrever
tanto e de tão poucas coisas:
o pouco-verso de oito sílabas
(em linha vizinha à prosa)
que raro tem oito sílabas,
pois metrifica à sua volta;
a perdida rima toante
que apaga o verso e não soa,
que o faz andar pé no chão
pelos aceiros da prosa.
Nada daquilo que você
construiu durante a vida;
muito aquém do ponto extremo
é a poesia oferecida
a quem pode, como a sua,
lavar-se da que existia,
levá-la a essa pureza extrema
em que é perdida de vista;
ela que hoje da janela
vê que na rua desfila
banda de que não faz parte,
rindo de ser sem disciplina.
Por que é então que este livro
tão longamente é enviado
a quem faz uma poesia
de distinta liga de aço?
Envio-o ao leitor contra,
envio-o ao leitor malgrado
e intolerante, o que Pound
diz de todos o mais grato;
àquele que me sabendo
não poder ser de seu lado,
soube ler com acuidade
poetas revolucionados.
refazer, dar mais decoro
ao gago em que falo em verso
e em que tanto me rechovo,
pensei que de toda a gente
que a nosso ofício ou esforço,
tão pra nada, dá-se tanto
que chega quase ao vicioso,
você, cuja vida sempre
foi fazer/catar o novo
talvez veja no defunto
coisas não mortas de todo.
Você aqui encontrará
as mesmas coisas e loisas
que me fazem escrever
tanto e de tão poucas coisas:
o pouco-verso de oito sílabas
(em linha vizinha à prosa)
que raro tem oito sílabas,
pois metrifica à sua volta;
a perdida rima toante
que apaga o verso e não soa,
que o faz andar pé no chão
pelos aceiros da prosa.
Nada daquilo que você
construiu durante a vida;
muito aquém do ponto extremo
é a poesia oferecida
a quem pode, como a sua,
lavar-se da que existia,
levá-la a essa pureza extrema
em que é perdida de vista;
ela que hoje da janela
vê que na rua desfila
banda de que não faz parte,
rindo de ser sem disciplina.
Por que é então que este livro
tão longamente é enviado
a quem faz uma poesia
de distinta liga de aço?
Envio-o ao leitor contra,
envio-o ao leitor malgrado
e intolerante, o que Pound
diz de todos o mais grato;
àquele que me sabendo
não poder ser de seu lado,
soube ler com acuidade
poetas revolucionados.
1 090
Edmir Domingues
soneto XXIX - Olhos de espantalho
E então fez-se de trunfo um sonho falho
gerado sob os ventos das bonanças,
mas foi tema das novas contradanças
toda a idéia de morno e de agasalho.
De nada então valeram neve e orvalho
em peso sobre as velhas esperanças,
quando toda a ternura das crianças
dançava em nossos olhos de espantalho.
E anjos verdes, e arcanjos amarelos,
foram buscar o canto em violoncelos
e atabaques até de mitos mestos.
E assim foram milagre as nossas túnicas
feitas de palha e luz, tornadas únicas
por nossas invenções e nossos gestos.
gerado sob os ventos das bonanças,
mas foi tema das novas contradanças
toda a idéia de morno e de agasalho.
De nada então valeram neve e orvalho
em peso sobre as velhas esperanças,
quando toda a ternura das crianças
dançava em nossos olhos de espantalho.
E anjos verdes, e arcanjos amarelos,
foram buscar o canto em violoncelos
e atabaques até de mitos mestos.
E assim foram milagre as nossas túnicas
feitas de palha e luz, tornadas únicas
por nossas invenções e nossos gestos.
515
Nuno Júdice
Regresso do baile
Falo de poesia pura, como se de pura
abstracção estivessem a tratar as mãos
que despem este corpo. E quando passo de um verso
a outro, sabendo que a imagem vai nascendo
deste movimento em que as palavras
dançam na página, limito-me a seguir
os dedos que abrem botão após
botão, e desfazem laço
após laço, até descobrirem o que
sabíamos que existia, sem nunca o ter visto:
o belo, na sua exacta proporção.
No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio.
Por isso, espero que o trabalho
chegue ao fim, para que a mulher se volte,
e dê à dança o argumento
da sua nudez.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 98 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
abstracção estivessem a tratar as mãos
que despem este corpo. E quando passo de um verso
a outro, sabendo que a imagem vai nascendo
deste movimento em que as palavras
dançam na página, limito-me a seguir
os dedos que abrem botão após
botão, e desfazem laço
após laço, até descobrirem o que
sabíamos que existia, sem nunca o ter visto:
o belo, na sua exacta proporção.
No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio.
Por isso, espero que o trabalho
chegue ao fim, para que a mulher se volte,
e dê à dança o argumento
da sua nudez.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 98 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
959
Nuno Júdice
Campo
Imagino paisagens como quem
sonha. Um quadro em que vou pondo outras
coisas: casas, terrenos vagos, uma ou outra
árvore, o sol da tarde. Até agora, uma
natureza morta. Na mesa da imaginação, o tampo
enche-se com estas imagens que vêm dos espaços
diversos em que a vida se passa. Por baixo
da mesa, então: para onde nenhuma imagem nos
perturbe, e aí ficaremos sós, no espaço em branco
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
sonha. Um quadro em que vou pondo outras
coisas: casas, terrenos vagos, uma ou outra
árvore, o sol da tarde. Até agora, uma
natureza morta. Na mesa da imaginação, o tampo
enche-se com estas imagens que vêm dos espaços
diversos em que a vida se passa. Por baixo
da mesa, então: para onde nenhuma imagem nos
perturbe, e aí ficaremos sós, no espaço em branco
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 039
Nuno Júdice
Filosofia
Construo o pensamento aos pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa é uma parte do
que penso; e, ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 42 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
ideia que ponho em cima da mesa é uma parte do
que penso; e, ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 42 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 554
Ruy Belo
Os fingimentos da poesia
Lendo há dias algumas passagens de uns discursos sobre a maneira de compor o romance e a tragédia, publicados por j. garibaldi no ano de 1554, chamou-me a atenção o longo processo que leonardo da vinci seguiu até pintar a cabeça de judas no seu quadro de a ceia. Depois de, mediante um aturado estudo dos evangelhos, ter reconstituído o ambiente e cada uma das personagens que tencionava representar, depois de ter pintado todo o quadro, só lhe faltava a cabeça. Todos os dias ia à procura dela ao borghetto, o bairro de milão onde naquele tempo se reunia a ralé. Até que finalmente a descobriu. Pegou nela, levou-a consigo e meteu-a no quadro.
Semelhante descrição parece-me ilustrar um dos caminhos do poeta. Arranca esse senhor à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar um poema. Como é que lá chega? Pegando naquilo que vê, pensa ou sente e sacrificando-o ao fio da sua meditação. Despreza aquele conjunto de circunstâncias que rodeavam a palavra e dá nova arrumação à palavra liberta. Tanto faz que se fale de desumanização, como de falsidade, como de fingimento.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 183 e 184 | Editorial Presença Lda., 1984
Semelhante descrição parece-me ilustrar um dos caminhos do poeta. Arranca esse senhor à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar um poema. Como é que lá chega? Pegando naquilo que vê, pensa ou sente e sacrificando-o ao fio da sua meditação. Despreza aquele conjunto de circunstâncias que rodeavam a palavra e dá nova arrumação à palavra liberta. Tanto faz que se fale de desumanização, como de falsidade, como de fingimento.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 183 e 184 | Editorial Presença Lda., 1984
732
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dedicatória da Segunda Edição do «Cristo Cigano» a João Cabral de Melo Neto
I
João Cabral de Melo Neto
Essa história me contou
Venho agora recontá-la
Tentando representar
Não apenas o contado
E sua grande estranheza
Mas tentando ver melhor
A peculiar disciplina
De rente e justa agudeza
Que a arte deste poeta
Verdadeira mestra ensina
II
Pois é poeta que traz
À tona o que era latente
Poeta que desoculta
A voz do poema imanente
Nunca erra a direcção
De sua exacta insistência
Não diz senão o que quer
Não se inebria em fluência
Mas sua arte não é só
Olhar certo e oficina
E nele como em Cesário
Algo às vezes se alucina
Pois há nessa tão exacta
Fidelidade à imanência
Secretas luas ferozes
Quebrando sóis de evidência
João Cabral de Melo Neto
Essa história me contou
Venho agora recontá-la
Tentando representar
Não apenas o contado
E sua grande estranheza
Mas tentando ver melhor
A peculiar disciplina
De rente e justa agudeza
Que a arte deste poeta
Verdadeira mestra ensina
II
Pois é poeta que traz
À tona o que era latente
Poeta que desoculta
A voz do poema imanente
Nunca erra a direcção
De sua exacta insistência
Não diz senão o que quer
Não se inebria em fluência
Mas sua arte não é só
Olhar certo e oficina
E nele como em Cesário
Algo às vezes se alucina
Pois há nessa tão exacta
Fidelidade à imanência
Secretas luas ferozes
Quebrando sóis de evidência
1 774
Sophia de Mello Breyner Andresen
Landgrave Ou Maria Helena Vieira da Silva
Lugar de convocação como um poema muito antigo.
Lugar de aparição. Diálogo do visual e da visão. Onde do visível emerge a aparição. Assim no verso de Pascoaes vemos «O que há de aparição no seio da aparência».
Um rebrilhar de teatro. Multiplicando a luz imaginária da noite.
A luz inventada da noite.
As paredes, o chão, o tecto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce.
É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.
As cores estão acesas como as luzes de um teatro à hora da representação. O mundo é «re-presentado», tornado mais uma vez presente. O ar está queimado pelas luzes como o ar de um palco. Todas as cores se reflectem umas nas outras. Há um difuso tremular luminoso como o das escamas de um peixe. Os múltiplos espelhos formam uma rede de escamas: amarelas, cor de barro, cinzentas, rosadas, negras, cor de nácar, cor de pedra. Um pouco atrás as musas da penumbra tocam suas finas flautas. É o rigor da música que estrutura a ordem das formas, as variações, o retomar dos temas, o contraponto da repetição.
Reconhecemos o tão atento olhar. Os olhos muito abertos como os olhos que estão pintados à proa dos barcos. O olhar que busca o aparecer do mundo, o surgir do mundo, o emergir do visível e da visão. Reconhecemos a viagem, a longa navegação, a memória acumulada. A atenção da Sibila, da bússola, do sismógrafo, da antena.
Fevereiro de 1988
Lugar de aparição. Diálogo do visual e da visão. Onde do visível emerge a aparição. Assim no verso de Pascoaes vemos «O que há de aparição no seio da aparência».
Um rebrilhar de teatro. Multiplicando a luz imaginária da noite.
A luz inventada da noite.
As paredes, o chão, o tecto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce.
É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.
As cores estão acesas como as luzes de um teatro à hora da representação. O mundo é «re-presentado», tornado mais uma vez presente. O ar está queimado pelas luzes como o ar de um palco. Todas as cores se reflectem umas nas outras. Há um difuso tremular luminoso como o das escamas de um peixe. Os múltiplos espelhos formam uma rede de escamas: amarelas, cor de barro, cinzentas, rosadas, negras, cor de nácar, cor de pedra. Um pouco atrás as musas da penumbra tocam suas finas flautas. É o rigor da música que estrutura a ordem das formas, as variações, o retomar dos temas, o contraponto da repetição.
Reconhecemos o tão atento olhar. Os olhos muito abertos como os olhos que estão pintados à proa dos barcos. O olhar que busca o aparecer do mundo, o surgir do mundo, o emergir do visível e da visão. Reconhecemos a viagem, a longa navegação, a memória acumulada. A atenção da Sibila, da bússola, do sismógrafo, da antena.
Fevereiro de 1988
2 008
Sophia de Mello Breyner Andresen
Para Arpad Szenes
Assim a luz ao madrugar liberta
E una se multiplica
Para inventar o espanto o alvoroço a festa
Do reino revelado
Oásis e palmar — distância justa
Atenta invenção do que foi dado
O pintor pinta no tempo respirado
Reconhece o mundo como um rosto amado
Pinta as longas extensões as longas lisas linhas
O caminhar comprido da terra e suas crinas
Pinta o quadro dentro do qual o quadro
Se tece malha a malha como em tear a teia
O outro quadro do quadro convocador convocado
Pinta o bicho egípcio os dedos da palmeira
Assim a luz ao madrugar liberta
A ternura funda nossa aliança com as coisas
Eis o mito solar a fina mão do trigo o bicho grego
O amor que move o sol e os outros astros
— Como o Dante Alighieri disse
Move e situa o quarto o dia o quadro
E una se multiplica
Para inventar o espanto o alvoroço a festa
Do reino revelado
Oásis e palmar — distância justa
Atenta invenção do que foi dado
O pintor pinta no tempo respirado
Reconhece o mundo como um rosto amado
Pinta as longas extensões as longas lisas linhas
O caminhar comprido da terra e suas crinas
Pinta o quadro dentro do qual o quadro
Se tece malha a malha como em tear a teia
O outro quadro do quadro convocador convocado
Pinta o bicho egípcio os dedos da palmeira
Assim a luz ao madrugar liberta
A ternura funda nossa aliança com as coisas
Eis o mito solar a fina mão do trigo o bicho grego
O amor que move o sol e os outros astros
— Como o Dante Alighieri disse
Move e situa o quarto o dia o quadro
1 320
Sophia de Mello Breyner Andresen
L’Âge D’Airain
(Rodin)
Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai — perdida dos seus dedos.
Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai — perdida dos seus dedos.
1 879
Sophia de Mello Breyner Andresen
Medeia
(adaptado de Ovídio)
Três vezes roda, três vezes inunda
Na água da fonte os seus cabelos leves,
Três vezes grita, três vezes se curva
E diz: «Noite fiel aos meus segredos,
Lua e astros que após o dia claro
Iluminais a sombra silenciosa,
Tripla Hecate que sempre me socorres
Guiando atenta o fio dos meus gestos,
Deuses dos bosques, deuses infernais
Que em mim penetre a vossa força, pois
Ajudada por vós posso fazer
Que os rios entre as margens espantadas
Voltem correndo até às suas fontes.
Posso espalhar a calma sobre os mares
Ou enchê-los de espuma e fundas ondas,
Posso chamar a mim os ventos, posso
Largá-los cavalgando nos espaços.
As palavras que digo e cada gesto
Que em redor do seu som no ar disponho
Torcem longínquas árvores e os homens
Despedaçam-se e morrem no seu eco.
Posso encher de tormento os animais,
Fazer que a terra cante, que as montanhas
Tremam e que floresçam os penedos.»
Três vezes roda, três vezes inunda
Na água da fonte os seus cabelos leves,
Três vezes grita, três vezes se curva
E diz: «Noite fiel aos meus segredos,
Lua e astros que após o dia claro
Iluminais a sombra silenciosa,
Tripla Hecate que sempre me socorres
Guiando atenta o fio dos meus gestos,
Deuses dos bosques, deuses infernais
Que em mim penetre a vossa força, pois
Ajudada por vós posso fazer
Que os rios entre as margens espantadas
Voltem correndo até às suas fontes.
Posso espalhar a calma sobre os mares
Ou enchê-los de espuma e fundas ondas,
Posso chamar a mim os ventos, posso
Largá-los cavalgando nos espaços.
As palavras que digo e cada gesto
Que em redor do seu som no ar disponho
Torcem longínquas árvores e os homens
Despedaçam-se e morrem no seu eco.
Posso encher de tormento os animais,
Fazer que a terra cante, que as montanhas
Tremam e que floresçam os penedos.»
3 151
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Escrita
No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho
Lord Byron usava as grandes salas
Para ver a solidão espelho por espelho
E a beleza das portas quando ninguém passava
Escutava os rumores marinhos do silêncio
E o eco perdido de passos num corredor longínquo
Amava o liso brilhar do chão polido
E os tectos altos onde se enrolam as sombras
E embora se sentasse numa só cadeira
Gostava de olhar vazias as cadeiras
Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital
Mas a escrita exige solidões e desertos
E coisas que se vêem como quem vê outra coisa
Podemos imaginá-lo sentado à sua mesa
Imaginar o alto pescoço espesso
A camisa aberta e branca
O branco do papel as aranhas da escrita
E a luz da vela — como em certos quadros —
Tornando tudo atento
Lord Byron usava as grandes salas
Para ver a solidão espelho por espelho
E a beleza das portas quando ninguém passava
Escutava os rumores marinhos do silêncio
E o eco perdido de passos num corredor longínquo
Amava o liso brilhar do chão polido
E os tectos altos onde se enrolam as sombras
E embora se sentasse numa só cadeira
Gostava de olhar vazias as cadeiras
Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital
Mas a escrita exige solidões e desertos
E coisas que se vêem como quem vê outra coisa
Podemos imaginá-lo sentado à sua mesa
Imaginar o alto pescoço espesso
A camisa aberta e branca
O branco do papel as aranhas da escrita
E a luz da vela — como em certos quadros —
Tornando tudo atento
2 586
Sophia de Mello Breyner Andresen
Musa
Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido
Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto
Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra
Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava
(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que me atravessava)
Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco
Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no copo
E como os rodeava
Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva
Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
Para prender o brilho
Dessa manhã polida
Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca
Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido
Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto
Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra
Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava
(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que me atravessava)
Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco
Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no copo
E como os rodeava
Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva
Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
Para prender o brilho
Dessa manhã polida
Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca
Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta
2 252
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um Poeta Clássico
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo:
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo
Una e múltipla
Cada encontro a recomeça:
Agudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda
Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos
Fará da ausência uma parte do seu jogo:
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo
Una e múltipla
Cada encontro a recomeça:
Agudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda
Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos
2 534
Nuno Júdice
Extractos
Uma distracção que prolonga o alfabeto
- tal é o sentido actual das minhas palavras.
Voo sobre as linhas semelhantes, as outras asas;
elas dissipam a turbulência dos meus gestos, prevendo
que vou cair. Já não é possível a exploração interior de
[um espírito calcinado.
De cada vez que me impeço de ser preciso
vomito água pelas orelhas. Surgirá um barco?
O monótono enjoo do mar,
a inteligente mecânica do fumo.
Compreenda-se a minha atitude.
Para que é que sirvo durante um tremor de alma?
Para que é que me fecho num canto?
Senti que a obstinação do ritmo romperia algo na vida.
Voei sem asas, sem a vertigem da altitude, sem sentimento para
[o Azul.
Como se a literatura se ficasse pelo chão...
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 78 | Quetzal Editores, 1991
- tal é o sentido actual das minhas palavras.
Voo sobre as linhas semelhantes, as outras asas;
elas dissipam a turbulência dos meus gestos, prevendo
que vou cair. Já não é possível a exploração interior de
[um espírito calcinado.
De cada vez que me impeço de ser preciso
vomito água pelas orelhas. Surgirá um barco?
O monótono enjoo do mar,
a inteligente mecânica do fumo.
Compreenda-se a minha atitude.
Para que é que sirvo durante um tremor de alma?
Para que é que me fecho num canto?
Senti que a obstinação do ritmo romperia algo na vida.
Voei sem asas, sem a vertigem da altitude, sem sentimento para
[o Azul.
Como se a literatura se ficasse pelo chão...
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 78 | Quetzal Editores, 1991
1 133
Nuno Júdice
A arte do poema
Eu pensava que escrever era uma escolha rigorosa de temas
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
1 072