Poemas neste tema
Destino e Superação
Edmir Domingues
Sextina da face oculta
Penetrar no infinito pela porta
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.
É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.
Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.
É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.
Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.
O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.
(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.
É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.
Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.
É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.
Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.
O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.
(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
537
Edmir Domingues
O espelho retrovisor
Vejo o presente de há pouco
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
856
Edmir Domingues
Soneto do amor imperfeito
Mas houve no outro dia o amor ardente
em país de outras flores. No outro dia.
Esquecido o desastre, a clava fria,
a noite do insucesso ainda recente.
Por que não houve nada quando havia
o clima da atração mais que presente?
Mistério da surpresa e da agonia
do vendaval descido sobre a gente.
Há sempre um outro dia sem tropeço,
que desvira o que estava pelo avesso,
que nos conduz, do vale, a outra subida.
A vitória do sempre sobre o instante,
o retorno da força adormecida,
o vir do duplo orgasmo deslumbrante.
em país de outras flores. No outro dia.
Esquecido o desastre, a clava fria,
a noite do insucesso ainda recente.
Por que não houve nada quando havia
o clima da atração mais que presente?
Mistério da surpresa e da agonia
do vendaval descido sobre a gente.
Há sempre um outro dia sem tropeço,
que desvira o que estava pelo avesso,
que nos conduz, do vale, a outra subida.
A vitória do sempre sobre o instante,
o retorno da força adormecida,
o vir do duplo orgasmo deslumbrante.
785
Edmir Domingues
Sextina da vida breve
Em dia destes dias (muito breve)
partirei sem remorso desta vida.
Quem sentir minha falta seja forte.
Sei que a terra em meu peito será leve
se pesada me soube a dura lida
e quem viveu no bem não teme a morte.
O que vida será? Que será morte?
Que haverá que eu não saiba muito em breve?
A ciência dos homens, por mais lida,
não decifrou sentido nesta vida.
Toda a filosofia que se leve
do mundo vão, nada terá de forte.
Bandeiras coloridas nalgum forte
fremem sempre de vida. Mas a morte
há de vir mansamente, o passo leve,
lembrando o acidental da vida breve.
Pois só de brevidade vive a vida,
e de mágoa, de dor, de dura lida.
Quanto haverá de prêmio após a lida
a quem não se curvou, a quem foi forte?
Ou é pura ilusão o Mundo, a vida?
Ou é sono sem fim, nirvana, a morte?
Sonho a se esvanecer, fumaça breve
que o vento mais sutil num sopro leve?
Possa eu seguir no barco de alma leve
ganho o óbolo em suor, preço da lida.
(Não dure a travessia, seja breve).
Um copo cheio de bebida forte
ajudará a olhar de frente a Morte
como ajudou a olhar de frente a Vida.
Nunca houvesse rompido o ovo da vida
e não conheceria a dor. Mais leve
do que o ser é o não ser. A vida e a morte
são dois prismas iguais da humana lida.
Pois todo o que nasceu, ou fraco ou forte,
um só destino teve: a vida breve.
Tenha-se assim por leve a vida breve,
o espírito o mais forte em toda a lida,
e se viva na vida amando a morte.
abril, 1983.
partirei sem remorso desta vida.
Quem sentir minha falta seja forte.
Sei que a terra em meu peito será leve
se pesada me soube a dura lida
e quem viveu no bem não teme a morte.
O que vida será? Que será morte?
Que haverá que eu não saiba muito em breve?
A ciência dos homens, por mais lida,
não decifrou sentido nesta vida.
Toda a filosofia que se leve
do mundo vão, nada terá de forte.
Bandeiras coloridas nalgum forte
fremem sempre de vida. Mas a morte
há de vir mansamente, o passo leve,
lembrando o acidental da vida breve.
Pois só de brevidade vive a vida,
e de mágoa, de dor, de dura lida.
Quanto haverá de prêmio após a lida
a quem não se curvou, a quem foi forte?
Ou é pura ilusão o Mundo, a vida?
Ou é sono sem fim, nirvana, a morte?
Sonho a se esvanecer, fumaça breve
que o vento mais sutil num sopro leve?
Possa eu seguir no barco de alma leve
ganho o óbolo em suor, preço da lida.
(Não dure a travessia, seja breve).
Um copo cheio de bebida forte
ajudará a olhar de frente a Morte
como ajudou a olhar de frente a Vida.
Nunca houvesse rompido o ovo da vida
e não conheceria a dor. Mais leve
do que o ser é o não ser. A vida e a morte
são dois prismas iguais da humana lida.
Pois todo o que nasceu, ou fraco ou forte,
um só destino teve: a vida breve.
Tenha-se assim por leve a vida breve,
o espírito o mais forte em toda a lida,
e se viva na vida amando a morte.
abril, 1983.
947
Edmir Domingues
Coroa de sonetos - Com o estranho pulsar da estrela morta
I
Com o estranho pulsar da estrela morta
a Vida sobrevive, a vida escura,
quase nunca no odor da coisa pura,
quase sempre em feição de coisa torta.
O simples ter na vida não conforta
quando o importante é ser, À iluminura
nunca fala do esforço e da aventura
(ou ventura?) daquele que se importa
com sua essência viva, porque quando
a criou, concebeu, e a fez do nada,
e a resgatou do limbo, o fez vibrando.
Por infinitas noites, longos dias,
viveu o criador que a fez criada
numa parafernália de agonias.
II
Numa parafernália de agonias
cada hora morremos nova morte,
e já não há a mão que nos conforte
nas infinitas noites, longos dias.
Aqui, e nas antigas sesmarias
dos reinados antigos, cuja sorte
as cinzas não cobriram, e onde a coorte
chamada Legião, estrepolias
semeou, como sempre, a vida vive
o constante rosário dos azares
que sempre tu tiveste e eu sempre tive.
Tudo são sofrimentos, neste lado.
Penélope indecisa, em seus teares,
a Vida desenvolve o seu bordado.
III
A Vida desenvolve o seu bordado
no universo das cores, dos matizes,
narcejas, e faisões, e codornizes
estáticas na trama do brocado
enfeitam chãos, paredes, cortinado
com força dos mais fortes chamarizes,
perdição de calhandras e perdizes,
que a velhos susto e a novos dão cuidado.
É os mistérios da vida? Quem desvenda
os mistérios da vida? Quem tem tino
que separe a verdade da legenda?
Eu, pobre semideus, desarvorado,
aflito silencio. E o Destino
esse grande animal sempre a meu lado.
IV
Esse grande animal sempre a meu lado
já não é o Destino, mas a Mente.
Um reflexo no espelho à minha frente
o seu olhar é o meu, o olhar magoado
na rede de torturas torturado,
consequência de um mundo inconseqüente,
tocado da demência mais demente
e para todo o sempre condenado.
Sonoros atambores é atabaques
sonoros, percutidos lua a pino
ao pé dos fogos vivos dos bivaques,
são para nós os pães dos nossos dias
pois é a Mente o mais trágico destino,
egresso de noturnas bruxarias.
V
Egresso de noturnas bruxarias
trago os lábios dormentes da jurema
e da liamba, mas trago as mãos vazias,
e retomo, por isso, o antigo tema
dos fumos da adivinha, do dilema
de não poder chegar, por quaisquer vias,
ao sentido da vida, esse problema
das vigílias noturnas, e dos dias
de vigília também, daquela vaga
sensação de um lugar só de carícias
e de um tranqüilo amor, inconquistado
ou perdido, uma luz que o tempo apaga.
A perda dessa paz, dessas primícias,
conserva-me entre atônito e calado.
VI
Conserva-me entre atônito e calado
o não saber quem sou, o que é que tenho,
por quê carrego sempre o enorme lenho
para o topo do monte designado.
Sendo nada e ninguém na esfera, venho
sem ter para onde ir, em triste estado
de astenia, o cadáver adiado
que procura implodir, mas que contenho.
Quem sou? Que sou? Por quê? Quem me responde
aqui e agora? Quem? Ninguém riposta,
ninguém conhece tais filosofias.
O cálix não se afasta e não se esconde
sempre ofertado, a mesa sempre posta,
por noites infinitas, longos dias.
VII
Por noites infinitas, longos dias,
perguntei-me o que sou, o que conheço
pois não conheço nada. Nem começo
e nem fim, que não sei filosofias.
Olho os buracos negros e estremeço,
quasares e pulsares, correrias
do Cometa, no azul das noites frias,
vindo da nuvem de Oort, o adereço
que restou da explosão, (mas não se prova),
da órbita alongada a eterna presa,
coisa antiga que é sempre coisa nova.
Tudo que é cislunar são teorias
e a minha Religião é a da incerteza
sem consolo de antigas fantasias.
VIII
Sem consolo de antigas fantasias
hoje sei que não sei e eis que sou sábio.
Roteiros de sextante e de astrolábio
não são os meus caminhos, minhas vias.
E essa verdade é quase certa. Sabe-o
quem raciocina e lê, quem faz poesias,
quem frequenta mosteiros, livrarias,
quem guarda o gosto antigo do alfarrábio.
A certeza é a incerteza, com certeza.
No reinado dos quanta, na beleza
de saber-se a constância da inconstância.
O tapete invisível e ondulado,
eu nutrindo-me apenas da ignorância
e para todo o sempre condenado.
IX
E para todo o sempre condenado
é preciso ficar. Nada sabemos
desse olho que nos olha dos extremos
do universo. Um olhar que é do passado
de muitos anos-luz, e que é chegado
agora, e vem de longe, dos supremos
confins, para que um dia o decifremos
para tê-lo, por fim, por decifrado.
Aqui, do grão de areia, na tormenta,
a que o vento solar nutre e alimenta,
é que o bicho da terra mais se achata.
Falo de mim, que vivo ao desabrigo,
quero viver em paz e não consigo,
não consigo matar o que me mata.
X
Não consigo matar o que me mata.
A dúvida de tudo, a dolorosa,
que não sabe porque é que a rosa é a rosa,
que não sabe porque é que a angústia é inata.
Olhar o firmamento, há longa data,
ver M-trinta e um, maravilhosa,
depois para nós mesmos, na inditosa
visão da poeira humilde da alparcata.
Nosso sistema é pobre, e está num canto
do Universo, vivendo a curvatura
com que se encurva a linha curviforme.
Ao lodo a ciência. O céu é um simples manto,
e nada já nos sobra nesta altura
so restando morrer na noite enorme.
XI
So restando morrer na noite enorme
eis que então me questiono, novamente,
da Razão inicial e da presente,
do porquê da existência multiforme,
e desafio a Esfinge à nossa frente,
que nos devora sempre, que não dorme,
esse oráculo antigo e desconforme
na sua danação. Constantemente
a vida se renova em novas provas,
anãs brancas, e novas, supernovas,
número infindo de ergs libertando.
Se a dúvida é constante, sempre ingrata,
na solidão da noite sigo andando
banhado de um luar de pura prata.
XII
Banhado de um luar de pura prata
(o leite de Amaltéia?) enquanto vivo
é preciso seguir o imperativo
a imposição que vem de longa data,
desde quando, da carnação cativo,
o Mundo esmaga os ossos da omoplata,
o macro e o microcosmo, a serenata
do nada contorcido e negativo.
Que é que eu tenho de meu? A chuva, o vento,
a larga estrada real onde transito,
um raro ser feliz por um momento,
um pobre sonho vago, de uniforme
presença, que é cansaço e que é conflito,
porque já quase morto e já disforme.
XIII
Porque já quase morto e já disforme
morrer aos pés do Deus não desejado
que tudo nos negou, nos fez cansado
e cego e surdo e só, na noite enorme.
Pedir contas ao Deus, quando chamado
ao juízo final. Não se conforme
quem foi o Prisioneiro, em pluriforme
universo, o mais curvo e o mais fechado.
Pedir contas ao Deus, quem foi na vida
convicto de universo sem saída,
e que teve, por isso, a vida morta.
Desafio que é apenas asteísmo
porque mesmo que role o cataclismo
bate o meu coração, fechada porta.
XIV
Bate o meu coração, fechada porta,
a espera seja Nêmesis tornada,
nossa Estrela Assassina, a inculpada,
que tudo purifica e a vida corta.
Que tudo morra então. O que é que importa
quando a Vida não morre? Eternizada,
nascida novamente, e renovada
que numa nova vida se transporta?
Por não restar diversa alternativa,
ser feliz, assumindo a ignorância
e as Sementes da Morte, sempre viva.
Conformação que, é certo, já conforta
o coração que pulsa na inconstância
com o estranho pulsar da estrela morta.
XV COROA
Numa parafernália de agonias
a Vida desenvolve o seu bordado.
Esse grande animal, sempre a meu lado,
egresso de noturnas bruxarias,
conserva-me entre atônito e calado
por noites infinitas, longos dias,
sem consolo de antigas fantasias
e para todo o sempre condenado.
Não consigo matar o que me mata,
só restando morrer, na noite enorme,
banhado de um luar de pura prata.
Porque já quase morto e já disforme
bate o meu coração, fechada porta,
com o estranho pulsar da estrela morta.
Com o estranho pulsar da estrela morta
a Vida sobrevive, a vida escura,
quase nunca no odor da coisa pura,
quase sempre em feição de coisa torta.
O simples ter na vida não conforta
quando o importante é ser, À iluminura
nunca fala do esforço e da aventura
(ou ventura?) daquele que se importa
com sua essência viva, porque quando
a criou, concebeu, e a fez do nada,
e a resgatou do limbo, o fez vibrando.
Por infinitas noites, longos dias,
viveu o criador que a fez criada
numa parafernália de agonias.
II
Numa parafernália de agonias
cada hora morremos nova morte,
e já não há a mão que nos conforte
nas infinitas noites, longos dias.
Aqui, e nas antigas sesmarias
dos reinados antigos, cuja sorte
as cinzas não cobriram, e onde a coorte
chamada Legião, estrepolias
semeou, como sempre, a vida vive
o constante rosário dos azares
que sempre tu tiveste e eu sempre tive.
Tudo são sofrimentos, neste lado.
Penélope indecisa, em seus teares,
a Vida desenvolve o seu bordado.
III
A Vida desenvolve o seu bordado
no universo das cores, dos matizes,
narcejas, e faisões, e codornizes
estáticas na trama do brocado
enfeitam chãos, paredes, cortinado
com força dos mais fortes chamarizes,
perdição de calhandras e perdizes,
que a velhos susto e a novos dão cuidado.
É os mistérios da vida? Quem desvenda
os mistérios da vida? Quem tem tino
que separe a verdade da legenda?
Eu, pobre semideus, desarvorado,
aflito silencio. E o Destino
esse grande animal sempre a meu lado.
IV
Esse grande animal sempre a meu lado
já não é o Destino, mas a Mente.
Um reflexo no espelho à minha frente
o seu olhar é o meu, o olhar magoado
na rede de torturas torturado,
consequência de um mundo inconseqüente,
tocado da demência mais demente
e para todo o sempre condenado.
Sonoros atambores é atabaques
sonoros, percutidos lua a pino
ao pé dos fogos vivos dos bivaques,
são para nós os pães dos nossos dias
pois é a Mente o mais trágico destino,
egresso de noturnas bruxarias.
V
Egresso de noturnas bruxarias
trago os lábios dormentes da jurema
e da liamba, mas trago as mãos vazias,
e retomo, por isso, o antigo tema
dos fumos da adivinha, do dilema
de não poder chegar, por quaisquer vias,
ao sentido da vida, esse problema
das vigílias noturnas, e dos dias
de vigília também, daquela vaga
sensação de um lugar só de carícias
e de um tranqüilo amor, inconquistado
ou perdido, uma luz que o tempo apaga.
A perda dessa paz, dessas primícias,
conserva-me entre atônito e calado.
VI
Conserva-me entre atônito e calado
o não saber quem sou, o que é que tenho,
por quê carrego sempre o enorme lenho
para o topo do monte designado.
Sendo nada e ninguém na esfera, venho
sem ter para onde ir, em triste estado
de astenia, o cadáver adiado
que procura implodir, mas que contenho.
Quem sou? Que sou? Por quê? Quem me responde
aqui e agora? Quem? Ninguém riposta,
ninguém conhece tais filosofias.
O cálix não se afasta e não se esconde
sempre ofertado, a mesa sempre posta,
por noites infinitas, longos dias.
VII
Por noites infinitas, longos dias,
perguntei-me o que sou, o que conheço
pois não conheço nada. Nem começo
e nem fim, que não sei filosofias.
Olho os buracos negros e estremeço,
quasares e pulsares, correrias
do Cometa, no azul das noites frias,
vindo da nuvem de Oort, o adereço
que restou da explosão, (mas não se prova),
da órbita alongada a eterna presa,
coisa antiga que é sempre coisa nova.
Tudo que é cislunar são teorias
e a minha Religião é a da incerteza
sem consolo de antigas fantasias.
VIII
Sem consolo de antigas fantasias
hoje sei que não sei e eis que sou sábio.
Roteiros de sextante e de astrolábio
não são os meus caminhos, minhas vias.
E essa verdade é quase certa. Sabe-o
quem raciocina e lê, quem faz poesias,
quem frequenta mosteiros, livrarias,
quem guarda o gosto antigo do alfarrábio.
A certeza é a incerteza, com certeza.
No reinado dos quanta, na beleza
de saber-se a constância da inconstância.
O tapete invisível e ondulado,
eu nutrindo-me apenas da ignorância
e para todo o sempre condenado.
IX
E para todo o sempre condenado
é preciso ficar. Nada sabemos
desse olho que nos olha dos extremos
do universo. Um olhar que é do passado
de muitos anos-luz, e que é chegado
agora, e vem de longe, dos supremos
confins, para que um dia o decifremos
para tê-lo, por fim, por decifrado.
Aqui, do grão de areia, na tormenta,
a que o vento solar nutre e alimenta,
é que o bicho da terra mais se achata.
Falo de mim, que vivo ao desabrigo,
quero viver em paz e não consigo,
não consigo matar o que me mata.
X
Não consigo matar o que me mata.
A dúvida de tudo, a dolorosa,
que não sabe porque é que a rosa é a rosa,
que não sabe porque é que a angústia é inata.
Olhar o firmamento, há longa data,
ver M-trinta e um, maravilhosa,
depois para nós mesmos, na inditosa
visão da poeira humilde da alparcata.
Nosso sistema é pobre, e está num canto
do Universo, vivendo a curvatura
com que se encurva a linha curviforme.
Ao lodo a ciência. O céu é um simples manto,
e nada já nos sobra nesta altura
so restando morrer na noite enorme.
XI
So restando morrer na noite enorme
eis que então me questiono, novamente,
da Razão inicial e da presente,
do porquê da existência multiforme,
e desafio a Esfinge à nossa frente,
que nos devora sempre, que não dorme,
esse oráculo antigo e desconforme
na sua danação. Constantemente
a vida se renova em novas provas,
anãs brancas, e novas, supernovas,
número infindo de ergs libertando.
Se a dúvida é constante, sempre ingrata,
na solidão da noite sigo andando
banhado de um luar de pura prata.
XII
Banhado de um luar de pura prata
(o leite de Amaltéia?) enquanto vivo
é preciso seguir o imperativo
a imposição que vem de longa data,
desde quando, da carnação cativo,
o Mundo esmaga os ossos da omoplata,
o macro e o microcosmo, a serenata
do nada contorcido e negativo.
Que é que eu tenho de meu? A chuva, o vento,
a larga estrada real onde transito,
um raro ser feliz por um momento,
um pobre sonho vago, de uniforme
presença, que é cansaço e que é conflito,
porque já quase morto e já disforme.
XIII
Porque já quase morto e já disforme
morrer aos pés do Deus não desejado
que tudo nos negou, nos fez cansado
e cego e surdo e só, na noite enorme.
Pedir contas ao Deus, quando chamado
ao juízo final. Não se conforme
quem foi o Prisioneiro, em pluriforme
universo, o mais curvo e o mais fechado.
Pedir contas ao Deus, quem foi na vida
convicto de universo sem saída,
e que teve, por isso, a vida morta.
Desafio que é apenas asteísmo
porque mesmo que role o cataclismo
bate o meu coração, fechada porta.
XIV
Bate o meu coração, fechada porta,
a espera seja Nêmesis tornada,
nossa Estrela Assassina, a inculpada,
que tudo purifica e a vida corta.
Que tudo morra então. O que é que importa
quando a Vida não morre? Eternizada,
nascida novamente, e renovada
que numa nova vida se transporta?
Por não restar diversa alternativa,
ser feliz, assumindo a ignorância
e as Sementes da Morte, sempre viva.
Conformação que, é certo, já conforta
o coração que pulsa na inconstância
com o estranho pulsar da estrela morta.
XV COROA
Numa parafernália de agonias
a Vida desenvolve o seu bordado.
Esse grande animal, sempre a meu lado,
egresso de noturnas bruxarias,
conserva-me entre atônito e calado
por noites infinitas, longos dias,
sem consolo de antigas fantasias
e para todo o sempre condenado.
Não consigo matar o que me mata,
só restando morrer, na noite enorme,
banhado de um luar de pura prata.
Porque já quase morto e já disforme
bate o meu coração, fechada porta,
com o estranho pulsar da estrela morta.
1 117
Edmir Domingues
De Profundis I
Estou no umbral da Porta.
Se convidado, entro.
Rejeitado
descerei a encosta
e novamente
habitarei o Vale.
Se convidado, entro.
Rejeitado
descerei a encosta
e novamente
habitarei o Vale.
720
Edmir Domingues
Coroa de sete sonetos
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
331
Nuno Júdice
Interrogação
Para que serve a poesia?, perguntas. Uma das
respostas está na forma como o destino do humano
se projecta na necessidade de absoluto que surge
num rosto, para além das circunstâncias, quando
a palidez imprime o vazio do tempo. A dúvida
transforma-se na única certeza possível,
envolvendo os olhos marcados pela dor;
e o corpo que se abandona ao fim ganha
raízes no chão efémero de uma substância
de palavras, como se lhe pudéssemos oferecer
o sacrifício da alma que nenhum deus
aceitou. No entanto, esta árvore cresce;
e os seus ramos estéreis bebem o ar
da memória que alimenta uma seiva
de silêncio, entregando à noite
as suas flores de sombra.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 116 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
respostas está na forma como o destino do humano
se projecta na necessidade de absoluto que surge
num rosto, para além das circunstâncias, quando
a palidez imprime o vazio do tempo. A dúvida
transforma-se na única certeza possível,
envolvendo os olhos marcados pela dor;
e o corpo que se abandona ao fim ganha
raízes no chão efémero de uma substância
de palavras, como se lhe pudéssemos oferecer
o sacrifício da alma que nenhum deus
aceitou. No entanto, esta árvore cresce;
e os seus ramos estéreis bebem o ar
da memória que alimenta uma seiva
de silêncio, entregando à noite
as suas flores de sombra.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 116 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 215
Nuno Júdice
Cassandra
Sonhou ler o destino; e desejou nunca
o ter feito. Deixou de olhar para os homens,
quando adivinhou a sua morte; e desafiou
o céu, quando descobriu que nada existe
para além do azul. Percebo, pela
contracção da sua coxa, que esboça
o desejo de se erguer; mas os braços
caem para trás das costas,
como se não tivesse já para
onde ir. No entanto, o fogo
que arde no altar ilumina-lhe
o rosto, condenando-a a ver
tudo o que acontece: os incêndios
que devastam a terra, um massacre
de mulheres, a inutilidade
das súplicas. E entrega-se a todos
os que passam à sua frente,
pedindo-lhes que apaguem a chama
para que um manto de treva
lhe cubra o corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 71 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o ter feito. Deixou de olhar para os homens,
quando adivinhou a sua morte; e desafiou
o céu, quando descobriu que nada existe
para além do azul. Percebo, pela
contracção da sua coxa, que esboça
o desejo de se erguer; mas os braços
caem para trás das costas,
como se não tivesse já para
onde ir. No entanto, o fogo
que arde no altar ilumina-lhe
o rosto, condenando-a a ver
tudo o que acontece: os incêndios
que devastam a terra, um massacre
de mulheres, a inutilidade
das súplicas. E entrega-se a todos
os que passam à sua frente,
pedindo-lhes que apaguem a chama
para que um manto de treva
lhe cubra o corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 71 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 193
Nuno Júdice
A caminho da feira
Deito à sorte a sorte que se abre
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
936
Nuno Júdice
Arrufos
A rosa caída não respira, como um pássaro
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
991
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
874
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ifigénia
Ifigénia levada em sacrifício,
Entre os agudos gritos dos que a choram,
Serenamente caminha com a luz,
E o seu rosto voltado para o vento,
Como vitória à proa de um navio,
Intacto destrói todo o desastre.
Entre os agudos gritos dos que a choram,
Serenamente caminha com a luz,
E o seu rosto voltado para o vento,
Como vitória à proa de um navio,
Intacto destrói todo o desastre.
1 916
Sophia de Mello Breyner Andresen
Encruzilhada
Onde é que as Parcas Fúnebres estão?
— Eu vi-as na terceira encruzilhada
Com um pássaro de morte em cada mão.
— Eu vi-as na terceira encruzilhada
Com um pássaro de morte em cada mão.
2 203
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminhava Fito
Caminhava fito,
Sobre o seu ombro esquerdo
Um pássaro nocturno e verde não cantava.
Obscuras correntes,
Desconhecidas direcções do vento,
Secreto curso de estrelas invisíveis.
Sobre o seu ombro esquerdo
Um pássaro nocturno e verde não cantava.
Obscuras correntes,
Desconhecidas direcções do vento,
Secreto curso de estrelas invisíveis.
1 963
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Navegavam Sem o Mapa Que Faziam
Navegavam sem o mapa que faziam
(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)
Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável
Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços
Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente
1979
(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)
Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável
Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços
Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente
1979
3 175
Sophia de Mello Breyner Andresen
Epidauro
O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é:
trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz
Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a nossa alegria do mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real. Então dirá que é duplo. Que pode tornar-se pedra com a pedra alga com a alga. Que pode dobrar-se que pode desdobrar-se. Que os seus braços rodeiam. Que é circular. Mas de súbito verás que é um homem que traz em si próprio a violência do toiro.
Só poderás ser liberta aqui na manhã d’Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas — portadoras limpas da serenidade.
trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz
Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a nossa alegria do mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real. Então dirá que é duplo. Que pode tornar-se pedra com a pedra alga com a alga. Que pode dobrar-se que pode desdobrar-se. Que os seus braços rodeiam. Que é circular. Mas de súbito verás que é um homem que traz em si próprio a violência do toiro.
Só poderás ser liberta aqui na manhã d’Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas — portadoras limpas da serenidade.
2 500
Jorge Luis Borges
Susana Soca
Com lento amor fitava os dispersos
Coloridos da tarde. E se perdia
Com gosto na complexa melodia
Ou na curiosa existência dos versos.
Não o elementar vermelho mas
Os grises Fiaram seu destino delicado,
Apto a discernir e exercitado
Tanto na oscilação como em matizes.
Sem atrever-se a pisar este perplexo
Labirinto, observava, sorrateira,
As formas, o tumulto e a carreira,
Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que moram para além do rogo
A abandonaram a esse tigre, o Fogo.
"El hacedor", 1960
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 120 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Coloridos da tarde. E se perdia
Com gosto na complexa melodia
Ou na curiosa existência dos versos.
Não o elementar vermelho mas
Os grises Fiaram seu destino delicado,
Apto a discernir e exercitado
Tanto na oscilação como em matizes.
Sem atrever-se a pisar este perplexo
Labirinto, observava, sorrateira,
As formas, o tumulto e a carreira,
Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que moram para além do rogo
A abandonaram a esse tigre, o Fogo.
"El hacedor", 1960
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 120 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 000
Sophia de Mello Breyner Andresen
Círculo
Num círculo se move
Num círculo fechado
Sua morte o envolve
Como uma borboleta
Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro
Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta
Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem
A sua hora estava
— Como se diz — marcada
Pegador não houve
Nem pega de caras
E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
Num círculo fechado
Sua morte o envolve
Como uma borboleta
Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro
Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta
Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem
A sua hora estava
— Como se diz — marcada
Pegador não houve
Nem pega de caras
E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
2 435
Susana Thénon
Caos
O suposto caminho é a consagração
de seus passos,
não têm mais que avançar
- o retrocesso os surpreenderá um dia -,
não á outra alternativa além de seguir adiante.
Sua culpa não nasceu,
isto que vem e tocam e tem todo ele
sabor de coisa digerida em sonhos.
São sinais de nada,
mostram com sons quase envelhecidos já
o progresso do variante símio.
Vão sozinhos.
Um grande cansaço não ajuda,
não convida ao caos, preparado como uma festa.
de seus passos,
não têm mais que avançar
- o retrocesso os surpreenderá um dia -,
não á outra alternativa além de seguir adiante.
Sua culpa não nasceu,
isto que vem e tocam e tem todo ele
sabor de coisa digerida em sonhos.
São sinais de nada,
mostram com sons quase envelhecidos já
o progresso do variante símio.
Vão sozinhos.
Um grande cansaço não ajuda,
não convida ao caos, preparado como uma festa.
687
Nuno Júdice
O amor eterno
E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
úmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
úmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.
1 884
Fernando Pessoa
Sofro, Lídia, do medo do destino. [1]
Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.
1 484
Fernando Pessoa
Voam débeis e enganadas
Voam débeis e enganadas
As folhas que o vento toma.
Bem sei: deitamos os dados
Mas Deus é que deita a soma.
As folhas que o vento toma.
Bem sei: deitamos os dados
Mas Deus é que deita a soma.
1 349
Fernando Pessoa
Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
1 256