Poemas neste tema
Dor e Desespero
Fernando Pessoa
Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!
Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!
Acorda, olha o mistério ao pé de ti!
E assim pensando rio amargamente
Dentro em mim rio como se chorasse.
Acorda, olha o mistério ao pé de ti!
E assim pensando rio amargamente
Dentro em mim rio como se chorasse.
1 476
Fernando Pessoa
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
1 266
Fernando Pessoa
Mundo confranges-me por existir.
Mundo confranges-me por existir.
Tenho-te horror porque te sinto ser
E compreendo que te sinto ser
Até às fezes da compreensão.
Bebi a taça (...) do pensamento
Até ao fim; reconheci-a pois
Vazia e achei horror. Mas eu bebi-a.
Raciocinei até achar verdade,
Achei-a e não a entendo. Já se esvai
Neste desejo de compreensão
Inatendido inalteravelmente,
Neste lidar com seres e absolutos
O que em mim por sentir me liga à vida
E pelo pensamento me faz homem.
Já não penso como antes, nem que existo
Nem que existisse. E neste orgulho certo
Fechado mais ainda e alheado
Me vou do limitado e relativo
Mundo em que arrasto a cruz do meu pensar.
Com dolorosas incompreensões
E com compreensões mais dolorosas
Tenho-te horror porque te sinto ser
E compreendo que te sinto ser
Até às fezes da compreensão.
Bebi a taça (...) do pensamento
Até ao fim; reconheci-a pois
Vazia e achei horror. Mas eu bebi-a.
Raciocinei até achar verdade,
Achei-a e não a entendo. Já se esvai
Neste desejo de compreensão
Inatendido inalteravelmente,
Neste lidar com seres e absolutos
O que em mim por sentir me liga à vida
E pelo pensamento me faz homem.
Já não penso como antes, nem que existo
Nem que existisse. E neste orgulho certo
Fechado mais ainda e alheado
Me vou do limitado e relativo
Mundo em que arrasto a cruz do meu pensar.
Com dolorosas incompreensões
E com compreensões mais dolorosas
1 477
Fernando Pessoa
EPIGRAM - Ah, foolish girl with a many fancy fraught,
Ah, foolish girl with many a fancy fraught,
Seek not the dreary path of solemn thought.
The man who thinks is he that suffers worst,
By Nature blest, by everything accurst.
Thought is but madness to one thing confined,
A pleasing illness, woeful, undefined;
Pleasing as is the fury of the storm
That swings above its dangerous force enorm;
Pleasing as genius to which one must know
Death will not spare the dreadful, sudden blow;
Of body, soul and happiness the waster,
Thought's a good servant but a tyrannous master.
Leave then to madmen thought and pass thy life
Away from doubt and ceaseless mental strife;
Seek but to please and cherish but to scorn,
Love not with faith or thou must learn to mourn;
Be thy delight in silks and baubles gay,
Treat tears as feints and think life but a play;
Think with thy heart, reserve thy mind to scheme;
Let thine eyes practise an (unreal) dream:
Thy form to attract, thy voice not to repel;
The art of slander see than learn full well;
Try to please women as thou pleasest men...
Thou may'st succeed... and may I live till then.
Seek not the dreary path of solemn thought.
The man who thinks is he that suffers worst,
By Nature blest, by everything accurst.
Thought is but madness to one thing confined,
A pleasing illness, woeful, undefined;
Pleasing as is the fury of the storm
That swings above its dangerous force enorm;
Pleasing as genius to which one must know
Death will not spare the dreadful, sudden blow;
Of body, soul and happiness the waster,
Thought's a good servant but a tyrannous master.
Leave then to madmen thought and pass thy life
Away from doubt and ceaseless mental strife;
Seek but to please and cherish but to scorn,
Love not with faith or thou must learn to mourn;
Be thy delight in silks and baubles gay,
Treat tears as feints and think life but a play;
Think with thy heart, reserve thy mind to scheme;
Let thine eyes practise an (unreal) dream:
Thy form to attract, thy voice not to repel;
The art of slander see than learn full well;
Try to please women as thou pleasest men...
Thou may'st succeed... and may I live till then.
1 426
Fernando Pessoa
Algum pronto a morrer pelo terror
Algum pronto a morrer pelo terror
Da tempestade, que se encontra só
Numa planície vasta, ou vasto oceano,
E onde ele, sem abrigo ou falso abrigo,
Logra, sem se iludir, qu'rer iludir-se
Em terror, rugem (...) e desabam
Os terrores em luz, e som e abismo
Da tempestade e que, mais do que trémulo,
Mais que convulso no terror extremo,
Pensa já perto da loucura, quanto
(...)
Fugir mais do que em si, desaparecer,
Sumir-se, dessentir-se (...)
(...)
Mais do que não viver por não sentir;
E todo o horror das convulsões que os céus,
O nosso todo, (...) ruge e estala
E todo o corpo dele é um sentido
Para sentir pavor, e cada poro
É sentiente e consciente e agudo
Em ter uma atenção de terror cheia;
E o aflito e convulso nunca logra,
Como na dor e na tristeza, ter
Uma apatia e uma (...)
Mas cada grito e laivo da tormenta
Mais, mais e mais o faz viver e ser
Para o medo, na estrada sem limites
Que só o medo trilha; consciente
Ah, horrorosamente consciente
E pávido e convulso, nem dorido
Nem (...) de mágoa ou de desejo
Mas quer choraudo, ou (...) ou estorcendo-se,
Unicamente do terror escravo
E sempre mais o escravo do terror (
Assim eu sou. Assim meu pensamento
É confrangido e apavorado além
De tudo que sou, assim
Cada poro da alma se me torna
Um sentido para pensar, um alvo
Ao terror, uma alma para ser
Apavorada do mistério e (...)
Mas não é sempre a tempestade, e em mim
O mistério está sempre; e (...) torna
Para a planície tão desabrigada
Que só a tempestade nos encima.
Não para mim no horror do pensamento
Não só a toda a hora me confrange
Mas não lhe fujo, não lhe fujo, horror!
E ao terror do (...) ao menos quem morre
No desespero e auge do pavor,
Sabe que foge, mas a morte a mim
(Oh supremo tormento que há no medo)
Aproxima-me disso que me esmaga
De apavorado. Quer em vida ou morte,
O terror sob a forma do infinito
Está comigo, desmedidamente
Presente.
Mas a tempestade
Acabará, e há outro lugar onde
Não há a tempestade. Mas a este
Não lhe posso fugir nem conceber
Que ele se acabe ou que se abata ou seja
Outra coisa que não da alma minha
No que de universal e permanente
Tem.
Da tempestade, que se encontra só
Numa planície vasta, ou vasto oceano,
E onde ele, sem abrigo ou falso abrigo,
Logra, sem se iludir, qu'rer iludir-se
Em terror, rugem (...) e desabam
Os terrores em luz, e som e abismo
Da tempestade e que, mais do que trémulo,
Mais que convulso no terror extremo,
Pensa já perto da loucura, quanto
(...)
Fugir mais do que em si, desaparecer,
Sumir-se, dessentir-se (...)
(...)
Mais do que não viver por não sentir;
E todo o horror das convulsões que os céus,
O nosso todo, (...) ruge e estala
E todo o corpo dele é um sentido
Para sentir pavor, e cada poro
É sentiente e consciente e agudo
Em ter uma atenção de terror cheia;
E o aflito e convulso nunca logra,
Como na dor e na tristeza, ter
Uma apatia e uma (...)
Mas cada grito e laivo da tormenta
Mais, mais e mais o faz viver e ser
Para o medo, na estrada sem limites
Que só o medo trilha; consciente
Ah, horrorosamente consciente
E pávido e convulso, nem dorido
Nem (...) de mágoa ou de desejo
Mas quer choraudo, ou (...) ou estorcendo-se,
Unicamente do terror escravo
E sempre mais o escravo do terror (
Assim eu sou. Assim meu pensamento
É confrangido e apavorado além
De tudo que sou, assim
Cada poro da alma se me torna
Um sentido para pensar, um alvo
Ao terror, uma alma para ser
Apavorada do mistério e (...)
Mas não é sempre a tempestade, e em mim
O mistério está sempre; e (...) torna
Para a planície tão desabrigada
Que só a tempestade nos encima.
Não para mim no horror do pensamento
Não só a toda a hora me confrange
Mas não lhe fujo, não lhe fujo, horror!
E ao terror do (...) ao menos quem morre
No desespero e auge do pavor,
Sabe que foge, mas a morte a mim
(Oh supremo tormento que há no medo)
Aproxima-me disso que me esmaga
De apavorado. Quer em vida ou morte,
O terror sob a forma do infinito
Está comigo, desmedidamente
Presente.
Mas a tempestade
Acabará, e há outro lugar onde
Não há a tempestade. Mas a este
Não lhe posso fugir nem conceber
Que ele se acabe ou que se abata ou seja
Outra coisa que não da alma minha
No que de universal e permanente
Tem.
1 574
Fernando Pessoa
É o maior horror da alma
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
1 518
Fernando Pessoa
Ah, bate levemente, mais levemente!
Ah, bate leve, mais levemente!
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
1 542
Florbela Espanca
As Quadras D’Ele
Em noites calmas, serenas
Quando passeia o luar,
Para sempre á tua porta
E encosta-se a chorar...
E eu que passo também
Na minha dor a cismar,
Paro ao pé dele e ficamos
Abraçados a chorar!
Quando passeia o luar,
Para sempre á tua porta
E encosta-se a chorar...
E eu que passo também
Na minha dor a cismar,
Paro ao pé dele e ficamos
Abraçados a chorar!
1 824
Florbela Espanca
Amei um dia
Amei um dia... uni dia... eu já nem sei
Há quanto tempo foi que assim amei...
E esse amor foi rir!...
Tinha talvez quinze anos, quinze apenas...
Alvorada de lírios e açucenas...
E esse amor foi rir!...
Tive então outro amor ainda aos vinte anos,
Amor de sonhos bons, amor d’enganos,
E já sorri apenas!...
Foi como quem rezasse a um altar,
Numa prece cantante a murmurar...
E já sorri apenas!...
Amo-te agora a ti, e com que amor —!
Soluço triste em turbilhões de dor!
É só chorar, chorar...
Mas afinal também os corações
não vivem só de risos e canções!
Eu antes quer’ chorar!
Há quanto tempo foi que assim amei...
E esse amor foi rir!...
Tinha talvez quinze anos, quinze apenas...
Alvorada de lírios e açucenas...
E esse amor foi rir!...
Tive então outro amor ainda aos vinte anos,
Amor de sonhos bons, amor d’enganos,
E já sorri apenas!...
Foi como quem rezasse a um altar,
Numa prece cantante a murmurar...
E já sorri apenas!...
Amo-te agora a ti, e com que amor —!
Soluço triste em turbilhões de dor!
É só chorar, chorar...
Mas afinal também os corações
não vivem só de risos e canções!
Eu antes quer’ chorar!
1 774
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 311
Florbela Espanca
Às Mães de Portugal
Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
3 981
Florbela Espanca
Noite Trágica
O Pavor e a Angústia andam dançando...
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
1 714
Florbela Espanca
Hora Que Passa
Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!
Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida, escura,
Minh’alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!
Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!
Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho d’água triste... a vida corre...
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!
Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida, escura,
Minh’alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!
Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!
Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho d’água triste... a vida corre...
2 696
Florbela Espanca
V
Dize-me, Amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.
Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!
Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,
Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, Amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.
Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!
Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,
Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, Amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!
1 822
Florbela Espanca
Ix
Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
– Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
– Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...
2 116
Florbela Espanca
Versos
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...
2 571
Florbela Espanca
Deixai Entrar a Morte
Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portas par em par
Com asas a bater em revoada.
Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!
Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste
Dentro de ti? Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portas par em par
Com asas a bater em revoada.
Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!
Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste
Dentro de ti? Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...
2 929
Florbela Espanca
A Um Livro
No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste!
Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!
Leio-o e folheio, assim, toda a minh’alma.
O livro que me deste é meu e salma
As orações que choro e rio e canto!...
Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!...
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste!
Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!
Leio-o e folheio, assim, toda a minh’alma.
O livro que me deste é meu e salma
As orações que choro e rio e canto!...
Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!...
2 417
Florbela Espanca
Castelã
Altiva e couraçada de desdém
Vivo sozinha em meu castelo, a Dor...
Debruço-me às ameias ao sol-pôr
E ponho-me a cismar não sei em quem!
Castelã da Tristeza vês alguém?!...
– E o meu olhar é interrogador...
E rio e choro! É sempre o mesmo horror
E nunca, nunca vi passar ninguém!
– Castelã da Tristeza por que choras,
Lendo toda de branco um livro d’horas
A sombra rendilhada dos vitrais?...
Castelã da Tristeza, é bem verdade,
Que a tragédia infinita é a Saudade!
Que a tragédia infinita é Nunca Mais!!
Vivo sozinha em meu castelo, a Dor...
Debruço-me às ameias ao sol-pôr
E ponho-me a cismar não sei em quem!
Castelã da Tristeza vês alguém?!...
– E o meu olhar é interrogador...
E rio e choro! É sempre o mesmo horror
E nunca, nunca vi passar ninguém!
– Castelã da Tristeza por que choras,
Lendo toda de branco um livro d’horas
A sombra rendilhada dos vitrais?...
Castelã da Tristeza, é bem verdade,
Que a tragédia infinita é a Saudade!
Que a tragédia infinita é Nunca Mais!!
2 298
Yu Xuanji
Compartilhando um luto
Lembro a elegância como um jade, a pele em pêssego
salgueiros tímidos ao vento, as sobrancelhas
Encerra a gruta do dragão aquela pérola
À base em fênix, só, na alcova resta o espelho
a repetir o sonho à noite, em chuva e névoa
não mais que a dor insuportável, sem parelho
A leste e oeste, agudas, fecham-se montanhas
ao sol, à lua: nunca mais uma esperança
salgueiros tímidos ao vento, as sobrancelhas
Encerra a gruta do dragão aquela pérola
À base em fênix, só, na alcova resta o espelho
a repetir o sonho à noite, em chuva e névoa
não mais que a dor insuportável, sem parelho
A leste e oeste, agudas, fecham-se montanhas
ao sol, à lua: nunca mais uma esperança
1 053
Aires Teles
De pungentes estimulos ferido
De pungentes estimulos ferido
O Regedor dos ceos e humilde terra,
Sôbre ti manda, desastrada Lysia,
Effeitos da sua íra.
A peste armada destruir teu povo
A um seu leve aceno vôa logo:
Estraga, fere, mata sanguinosa,
Despiedada e crua.
Despenhada no abysmo da ruina,
Fugir pretendes aos accesos raios,
Qual horrida phantasma, porém logo
Desfallecida cahes.
O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia,
Mas inda muito mais os teus errores
Que provocar fizerão contra ti
Contagião mortal.
Dos Ceos apagar cuida a justa sanha
Da penitencia com as bastas ágoas,
Ja que revel e surda te mostraste
A seus mudos avisos.
Então verás ornada a nobre frente,
Como nos priscos tempos que passárão,
De esclarecidos louros, sinal certo
De teus almos triumphos.
O Regedor dos ceos e humilde terra,
Sôbre ti manda, desastrada Lysia,
Effeitos da sua íra.
A peste armada destruir teu povo
A um seu leve aceno vôa logo:
Estraga, fere, mata sanguinosa,
Despiedada e crua.
Despenhada no abysmo da ruina,
Fugir pretendes aos accesos raios,
Qual horrida phantasma, porém logo
Desfallecida cahes.
O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia,
Mas inda muito mais os teus errores
Que provocar fizerão contra ti
Contagião mortal.
Dos Ceos apagar cuida a justa sanha
Da penitencia com as bastas ágoas,
Ja que revel e surda te mostraste
A seus mudos avisos.
Então verás ornada a nobre frente,
Como nos priscos tempos que passárão,
De esclarecidos louros, sinal certo
De teus almos triumphos.
1 112
Dantas Motta
Noturno paulistano n° 1
No Madrugada's Bar ou no Bar Madrugada.
Entre a noite que veio e ela que não vem
E esta lua negra, de papelão, à parede,
As garrafas, sobre a mesa,
Formam um campo de petróleo.
A triste mulher da vida — Nilda —
Esculacha, bem em frente a mim,
O tango argentino intitulado A media luz.
As considerações, cada vez mais sábias,
E sombrias, à medida que a bebida
Vai aumentando o poder de certas dores,
Secretas e violáveis, contudo impublicáveis,
Provam apenas que o mundo continua,
E que as desgraças, como as despesas,
Inevitáveis, são sempre inúteis e iguais.
Entre a noite que veio e ela que não vem
E esta lua negra, de papelão, à parede,
As garrafas, sobre a mesa,
Formam um campo de petróleo.
A triste mulher da vida — Nilda —
Esculacha, bem em frente a mim,
O tango argentino intitulado A media luz.
As considerações, cada vez mais sábias,
E sombrias, à medida que a bebida
Vai aumentando o poder de certas dores,
Secretas e violáveis, contudo impublicáveis,
Provam apenas que o mundo continua,
E que as desgraças, como as despesas,
Inevitáveis, são sempre inúteis e iguais.
806