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Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Adélia Prado

Adélia Prado

Viação São Cristóvão

Não quero morrer nunca,
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
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Adélia Prado

Adélia Prado

O Falsete

As autoridades têm olheiras
e estudada voz para os comunicados:
garantiremos a melhor solução entre as partes.
Quais partes? as pudendas?
Destas Deus já cuidou recobrindo de pelos.
Meu filho era bonzinho.
Nunca ia suicidar conforme disse o polícia.
Pus a mão na cabeça dele, estava toda quebrada,
mataram de pancada o meu filhinho.
As testemunhas sumiram,
perderam os dentes, a língua,
perderam a memória.
Eu perdi o menino.
“...Ele acolhia as turbas, falando-lhes do Reino,
e aos necessitados de cura devolvia a saúde.”
Palavras duras só para os mentirosos, os legistas
que atrelavam aos outros pesados fardos
que eles mesmos nem sequer tocavam...
Ó grito grande que eu queria gritar,
silvo que me esvaísse.
Certos tons, aves domésticas,
casa amarela com portão e flores me excitam,
mas não posso gozar. Tenho que pregar o Reino.
Quero um sítio, uma chacarazinha de nada,
o cristianismo não deixa,
o marxismo não deixa.
Ó grito grande, na frente dos palácios
episcopais e não:
O POVO UNIDO
JAMAIS SERÁ VENCIDO!
Minha piscina não é de lazer, disse o papa.
Não pretendo ser profeta, disse o bispo.
Que grosso cordão, que balde cheio,
que feixe grosso de coisas más.
Que vida incoerente a minha vida,
que areia suja.
Sou uma velha com quem Deus brinca.
De parelha com iras e vergonhas
meu apetite segue imperturbável,
carnes gordas, farinhas,
prelibo os legumes como a encontros carnais
e tenho medo da morte
e penso nela diuturnamente
como se eu fosse respeitável, séria,
comedida e frugal dama-filósofa.
Se alguém me acompanhar fundo um partido.
Derrubarei o governo, o papado,
dizimarei as casas paroquiais
e fundarei meu sonho:
num cerrado, inúmeros
desciam os frades com seus capuzes,
como aves marrons, pacificamente, procuravam um lugar.
Eu os acompanhei até que viram uma casa grande.
Tinha um grande fogão, uma grande mesa,
e todos foram entrando e acomodavam-se,
espalhando-se pela casa
como verdadeiros irmãos.
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