Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Zito Batista
Meu Coração
Meu coração é um lúgubre convento:
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...
E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
— Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...
No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...
Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...
E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
— Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...
No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...
Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!
988
Reinaldo Ferreira
Os Profetas
Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.
1 881
Reinaldo Ferreira
Menino só
Assim que o Anjo descer,
Hei-de sentar-me na estrada
Ao pé da hora marcada
Para o menino nascer.
E quando venha - sem mais
Porque o não quero também
Maculado -
Hei-de fitá-Lo e sorrir
Pensando no que podia
Mas não lhe quero ensinar:
Nem a ler,
Nem a contar,
Nem que requinte a mentir.
Depois - mas depressa,
Não lhe desponte um vislumbre
De lucidez na cabeça -
.......................
Hei-de sentar-me na estrada
Ao pé da hora marcada
Para o menino nascer.
E quando venha - sem mais
Porque o não quero também
Maculado -
Hei-de fitá-Lo e sorrir
Pensando no que podia
Mas não lhe quero ensinar:
Nem a ler,
Nem a contar,
Nem que requinte a mentir.
Depois - mas depressa,
Não lhe desponte um vislumbre
De lucidez na cabeça -
.......................
2 205
Reinaldo Ferreira
Canção do pastor perdido
Ia eu pra Belém
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
1 872
Reinaldo Ferreira
Stabat Mater
Tu, mãe de Deus,
Nesta hora e sempre
Mãe dEle e nossa mãe,
Pare-o com dor humana
E renovada
E consagrada,
A Ele, que nós buscamos
Com outros e afinal equivalentes credos,
A quem chamamos nos desolados medos,
Talvez com outro nome
Porque é diversa a língua
E não a fome
Que lhe temos.
Nesta hora e sempre
Mãe dEle e nossa mãe,
Pare-o com dor humana
E renovada
E consagrada,
A Ele, que nós buscamos
Com outros e afinal equivalentes credos,
A quem chamamos nos desolados medos,
Talvez com outro nome
Porque é diversa a língua
E não a fome
Que lhe temos.
1 421
Reinaldo Ferreira
Quanto mistério na semente
Quanto mistério na semente
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!
1 742
Reinaldo Ferreira
Apocalipse
João, iracundo João,
Tu, que sabias dos tempos que haviam de vir
Senão que eras judeu e perseguido?
João, iracundo João!
Possas agora
(Que o reino temporal do Messias falhou
E os demónios governam sem freio o mundo)
Olhar, do único reino possível,
O planeta onde somos à espera
Do final dos tempos
Possas João! E vejas
Como a tua cenografia patética
Empalideceu ante o drama real
Que tu, João,
Iracundo João!
Perseguido e judeu,
Não podias prever
No largo mar olhaste
E, fanático, não viste
mais do que o ódio e o caos,
A vingança e o extremínio.
Tu, que sabias dos tempos que haviam de vir
Senão que eras judeu e perseguido?
João, iracundo João!
Possas agora
(Que o reino temporal do Messias falhou
E os demónios governam sem freio o mundo)
Olhar, do único reino possível,
O planeta onde somos à espera
Do final dos tempos
Possas João! E vejas
Como a tua cenografia patética
Empalideceu ante o drama real
Que tu, João,
Iracundo João!
Perseguido e judeu,
Não podias prever
No largo mar olhaste
E, fanático, não viste
mais do que o ódio e o caos,
A vingança e o extremínio.
1 682
Reinaldo Ferreira
Domina-me um terror incoerente
Domina-me um terror incoerente
Do Nada, da final insensação
Por isso creio em Deus com Fé demente,
Por medo, por defesa, com paixão.
Se busco todavia uma razão
Que fortaleça a Fé de que sou crente,
Tortura-me o saber que tudo é vão,
Que tudo se aniquila finalmente,
Que tudo se transmuta e se transforma
E que perdura apenas noutra forma
Aquilo que no mundo é material.
Concebo que tudo isto tenha um fim.
Só não concebo o que será de mim,
Cumprido o meu degredo terreal.
Do Nada, da final insensação
Por isso creio em Deus com Fé demente,
Por medo, por defesa, com paixão.
Se busco todavia uma razão
Que fortaleça a Fé de que sou crente,
Tortura-me o saber que tudo é vão,
Que tudo se aniquila finalmente,
Que tudo se transmuta e se transforma
E que perdura apenas noutra forma
Aquilo que no mundo é material.
Concebo que tudo isto tenha um fim.
Só não concebo o que será de mim,
Cumprido o meu degredo terreal.
1 833
Raul Machado
Céu do Brasil
Praz-me ver este céu que em palpitante messe
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
1 096
Rosalina Coelho Lisboa
S Luís
Na caravela real, que o mar verde balança,
Entre adeuses febris da multidão em terra,
E êneos choques casuais de petrechos de guerra,
Embarca a fina flor da nobreza de França.
O velame se enfuna a um vento de bonança,
E essa legião de heróis, que o destino desterra,
Na ambição de lutar e de vencer, encerra
Em páreas e troféus a guerreira esperança.
Na fé, que lhe enche o olhar e lhe ilumina o aspeito,
Um homem sobressai de soberano porte;
Traz da cruz, na loriga, o símbolo perfeito:
— É el-rei S. Luís, que vai, abroquelado e forte,
O orgulho à fronte, o gládio à mão, o escudo ao peito,
Cavaleiro de Deus, à conquista da morte!
Entre adeuses febris da multidão em terra,
E êneos choques casuais de petrechos de guerra,
Embarca a fina flor da nobreza de França.
O velame se enfuna a um vento de bonança,
E essa legião de heróis, que o destino desterra,
Na ambição de lutar e de vencer, encerra
Em páreas e troféus a guerreira esperança.
Na fé, que lhe enche o olhar e lhe ilumina o aspeito,
Um homem sobressai de soberano porte;
Traz da cruz, na loriga, o símbolo perfeito:
— É el-rei S. Luís, que vai, abroquelado e forte,
O orgulho à fronte, o gládio à mão, o escudo ao peito,
Cavaleiro de Deus, à conquista da morte!
474
Renato Castelo Branco
O Instante
É um instante
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
1 143
Rosemberg Cariry
Tambor de Criola
São Luiz. Luzir da lua.
Entre ruínas — fogueiras.
Os olhinhos de São Benedito
abençoando seus filhos,
tão pobrezinhos, tão simples,
que de dia até se matam
de trabalhar, de rezar,
mas de noite... deixa está!
São anjos belos, orixás,
são músculos e rebeldia,
batucando os tambores
que reacendem nos deuses
as luxúrias adormecidas
A lua bem que espia
e levanta a sua saia,
tecendo rendas nas águas
que se derramam na areia.
Sem vergonha, espia...
Os homens mais do que homens
são ritmo, fôlego, tesão,
entre as pernas o tambor,
nervo duro e inquieto,
descomunal em tamanho,
que se anuncia em batuque
virando pelo avesso
a face da outra face
do que é religião.
Matracas desesperadas
quebram os selos do pudor
para que os corpos se liberem
e urrem feito uma onça
nas cachoeiras do cio.
Entre ruínas — fogueiras.
Os olhinhos de São Benedito
abençoando seus filhos,
tão pobrezinhos, tão simples,
que de dia até se matam
de trabalhar, de rezar,
mas de noite... deixa está!
São anjos belos, orixás,
são músculos e rebeldia,
batucando os tambores
que reacendem nos deuses
as luxúrias adormecidas
A lua bem que espia
e levanta a sua saia,
tecendo rendas nas águas
que se derramam na areia.
Sem vergonha, espia...
Os homens mais do que homens
são ritmo, fôlego, tesão,
entre as pernas o tambor,
nervo duro e inquieto,
descomunal em tamanho,
que se anuncia em batuque
virando pelo avesso
a face da outra face
do que é religião.
Matracas desesperadas
quebram os selos do pudor
para que os corpos se liberem
e urrem feito uma onça
nas cachoeiras do cio.
1 330
Taumaturgo Vaz
Minha Madrinha
Aqui na terra, desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
1 417
Tobias Pinheiro
A Consciência
BASTA! A dor já se impõe no mundo inteiro,
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
836
Quintino Cunha
Comunhão da Serra
Ontem, à noite, eu vi a minha Serra,
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.
Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.
Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!
o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!
Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.
E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.
Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.
Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!
o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!
Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.
E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!
1 666
Rogério Bessa
Poema do Bom Pastor
cruzeiro luminoso não feito de acrílico
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje
o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade
Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios
Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas
Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça
Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje
o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade
Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios
Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas
Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça
Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.
1 830
Flexa Ribeiro
Crucificação
Forrado de cristal quero nosso aposento.
Abertas num perfume, orquídeas solitárias.
Subindo em espiral, como o meu Sentimento,
duma caçoila estranha, as essências mais várias...
Quatro esfinges a olhar, vagas e funerárias...
Um Cristo de marfim, visionário e sangrento.
Quase apagado o som de aveludadas árias,
através dos cristais, trazidas pelo vento...
E de tons de violeta uma luz o ilumina:
ambiente sensual, espiritualizado
à emoção virginal que me prende e domina...
Sobre lâmina de ouro — em formato de lira —
se estende o Corpo em flor, macio e perfumado,
em que todo o meu ser se alucina e delira!
Abertas num perfume, orquídeas solitárias.
Subindo em espiral, como o meu Sentimento,
duma caçoila estranha, as essências mais várias...
Quatro esfinges a olhar, vagas e funerárias...
Um Cristo de marfim, visionário e sangrento.
Quase apagado o som de aveludadas árias,
através dos cristais, trazidas pelo vento...
E de tons de violeta uma luz o ilumina:
ambiente sensual, espiritualizado
à emoção virginal que me prende e domina...
Sobre lâmina de ouro — em formato de lira —
se estende o Corpo em flor, macio e perfumado,
em que todo o meu ser se alucina e delira!
724
Gilberto Gil
Procissão
Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar
1 694
Gonçalo Jácome
Flores Noturnas
Na eterna paz das noites silenciosas
E por onde estrelas glaciais florescem,
Pelas excelsas aras luminosas
Dos céus azuis, brancas neblinas descem.
Cristalinas hosanas langorosas
Na boca dos arcanjos desfalecem.
E num concerto de harpas misteriosas
Lótus de amor pela amplidão fenecem.
Todo o paul da terra se perfuma
E desabrocha no éter e na bruma
A gestação das flores imortais.
E, do mar das angústias e das ânsias,
As nossas almas bóiam nas distâncias
Das remotas paragens siderais.
E por onde estrelas glaciais florescem,
Pelas excelsas aras luminosas
Dos céus azuis, brancas neblinas descem.
Cristalinas hosanas langorosas
Na boca dos arcanjos desfalecem.
E num concerto de harpas misteriosas
Lótus de amor pela amplidão fenecem.
Todo o paul da terra se perfuma
E desabrocha no éter e na bruma
A gestação das flores imortais.
E, do mar das angústias e das ânsias,
As nossas almas bóiam nas distâncias
Das remotas paragens siderais.
1 002
Guerra-Duval
Soneto do Olhar
(Para os teus olhos, para os teus olhares
o Soneto bordado de saudade
e a lisonja das sílabas de seda.)
Pelo céu, pela noite, pelos mares,
— Via-láctea de amor e claridade —
o teu olhar é plácida alameda,
onde a minhalma, anêmica e doente,
anda bebendo o ar da vida nova,
nesse quebranto do convalescente
que fugiu ao mistério duma cova.
(já estive à morte, sendo assim tão moço...)
— Tarde de calma e de melancolia
é o teu olhar; e, quando me olhas, ouço
tocar dentro de mim Ave-Maria.
o Soneto bordado de saudade
e a lisonja das sílabas de seda.)
Pelo céu, pela noite, pelos mares,
— Via-láctea de amor e claridade —
o teu olhar é plácida alameda,
onde a minhalma, anêmica e doente,
anda bebendo o ar da vida nova,
nesse quebranto do convalescente
que fugiu ao mistério duma cova.
(já estive à morte, sendo assim tão moço...)
— Tarde de calma e de melancolia
é o teu olhar; e, quando me olhas, ouço
tocar dentro de mim Ave-Maria.
950
Gonçalo Jácome
Predestinação
Não deplores viver sob o anátema triste
De um sofrer infinito, estranho visionário,
Pois a glória de um deus neste mundo consiste
Em ser como Jesus e subir ao Calvário.
Poeta! às altas regiões os teus vôos desferiste.
Teu espírito foi à terra refratário.
Contra os maus, com teu gládio, um dia te insurgiste,
Resigna-te afinal e cumpre o teu fadário.
Teu nobre coração será exposto às lanças,
Às perfídias brutais, às míseras vinganças,
E hás de errante morrer sem pouso e sem carinhos...
Mas por ti luzirão as noites estreladas,
Mas por ti vibrarão as almas delicadas,
Mas por ti clamarão as pedras dos caminhos.
De um sofrer infinito, estranho visionário,
Pois a glória de um deus neste mundo consiste
Em ser como Jesus e subir ao Calvário.
Poeta! às altas regiões os teus vôos desferiste.
Teu espírito foi à terra refratário.
Contra os maus, com teu gládio, um dia te insurgiste,
Resigna-te afinal e cumpre o teu fadário.
Teu nobre coração será exposto às lanças,
Às perfídias brutais, às míseras vinganças,
E hás de errante morrer sem pouso e sem carinhos...
Mas por ti luzirão as noites estreladas,
Mas por ti vibrarão as almas delicadas,
Mas por ti clamarão as pedras dos caminhos.
911
Fontoura Xavier
Flor da Decadência
Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!
Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!
Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
1 186
João Luiz Pacheco Mendes
Travelling
Jejum de coca
maratona de yoga
serenata de Mantra
noite adentro, mundo afora
nas profundezas de Atlântida
sobre as cinzas de Tróia,
criatura sua
eu procurei o criador.
Será que ousei pouca aventura?
Empunhei armaduras
saqueei as sagradas escrituras
entrei em cruzadas homéricas
esotéricas, telúricas,
bebi do Daime, Graal,
Mahabharata, Alcorão
etc. e tal.
Mas fui condenado
à lei do eterno retorno.
Eis-me aqui de novo
com a mesma questão:
de onde vim, pra onde vôo?
Guiai-me Platão.
No fim do túnel há uma luz rude
que ofusca os sentidos da gente.
Tanta peregrinação
dava até um road-movie
(com direito a happy-end?)
Help Thelma & Louise,
please,
não me largue nesta crise.
maratona de yoga
serenata de Mantra
noite adentro, mundo afora
nas profundezas de Atlântida
sobre as cinzas de Tróia,
criatura sua
eu procurei o criador.
Será que ousei pouca aventura?
Empunhei armaduras
saqueei as sagradas escrituras
entrei em cruzadas homéricas
esotéricas, telúricas,
bebi do Daime, Graal,
Mahabharata, Alcorão
etc. e tal.
Mas fui condenado
à lei do eterno retorno.
Eis-me aqui de novo
com a mesma questão:
de onde vim, pra onde vôo?
Guiai-me Platão.
No fim do túnel há uma luz rude
que ofusca os sentidos da gente.
Tanta peregrinação
dava até um road-movie
(com direito a happy-end?)
Help Thelma & Louise,
please,
não me largue nesta crise.
916
José Lannes
Confissão
Vou caminhando para ti, Senhor!
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
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