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Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Cunha Santos Filho

Cunha Santos Filho

Cirrose Azul

São os testículos de Deus que agora arranco
na marcha em que não marcho pois sou manco
na mesa em que me esfumo no vinho do mal
rolo-me por mim, que sou barranco
choro de beber, choro e me tranco
que nem o olho aceita o choro do chacal

Porque quis eu dar outro murro em Cristo
com toda alma danada de um Buda misto
e ser punido, hoje, por não ter pais
se nem sequer é minha roupa e eu nem visto
quero ser homem — sou apenas quisto
quero ser carne — sou só cicatriz

Não tive a vez do azul quando do gozo
a mim foi dada a queda, nunca o pouso
e outros retesaram-me no chão
assim, ó vil cantiga que eu nem ouso
nesta cama de gato é que eu repouso
ferreado da violenta compulsão

Não irei longe. É certo, me esfarinho
o séquito do demo é o eu sozinho
o eu, ou 10, milhões mamando a paz
— por tantas vezes destruí meu ninho
sou como inseto que alagado em vinho
afoga, arqueja, sofre e bebe mais

Tridente, fogo, rastro de cometa
o mundo onde estou é uma maleta
trancada aos ais das mães e aos ais dos pais
vivo de espirros — gripe de escopeta
entregador de horror, eu estafeta
que desde que se foi, não foi jamais

Bebo meu sangue seco na tigela — e frio —
tantos se juntam pra eu ser vazio
tantos se aninham pra me reverter
eu, que de um só, após, me fiz um trio
durmo em mim mesmo e choro enquanto rio
de ver meu próprio riso apodrecer
..................................................................
Mas há um cão distante que poreja
há uma lombriga douro que me beija
e alguém que ri falido de tormento
há uma carne sem sal, que de sal seja
que eu me mudei pra um balde de cerveja
e fiz de um copo meu apartamento.

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Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

O Marruêro

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O canto alegre dos galo
no sertão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracura cantava!...

Cantando passava um bando
das verde maracanã!
Fermosa, cumo a cabôca,
Vinha rompendo a minhã!

O vento manso da serra,
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...

Lá, no fundo duma gróta,
adonde um córgo gimia,
gragaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia.

Uma araponga, atrepada
num braço de mato, im frô,
gritava, como se fosse
os grito da minha dó!!

E a sabiá, lá nos gaio
da larangêra, serena,
cantava, cumo si fosse
uma viola de pena!

Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
satisfeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!

Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
num véio tronco de ipê.

Dênde essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!
Vou vivê com os marruá!

Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
eu fui mordido três vez!...

Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta pontada, sá dona,
munta chifrada eu levei.

Prá riba de mim, Deus pode
mandá o que ele quizé!

O mundo é grande, sá dona!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!

Grande é o pudê de Maria,
isposa de São josé!...
O Diabo, também, sá dona,
foi grande!... Cumo inda é!!!

Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma cornada dos chifre
dos óio duma muié...

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Sub Tegmine Fagi

Sub Tegmine Fagi

A Melo Morais

Dieu parle dans Ia calme plus haut que dans Ia tempête.
Mickiewicz
Deus nobis haec otia fecit.
Vergilio
Amigo! O campo é o ninho do poeta...
Deus fala, quando a turba está quieta,

As campinas em flor.
— Noivo — Ele espera que os convivas saiam...

E nalcova onde lâmpadas desmaiam

Então murmura — amor —

Vem comigo cismar risonho e grave. . .

A poesia — é uma luz ... e a alma — uma ave...

Querem — trevas e ar.

A andorinha, que é a alma — pede o campo,

Pra voar... pra brilhar.

A poesia quer sombra — é o pirilampo.

Meu Deus! Quanta beleza nessas trilhas...

Que perfume nas doces maravilhas,

Onde o vento gemeu!...

Que flores douro pelas veigas belas!

... Foi um anjo coa mão cheia de estrelas

Que na terra as perdeu.

Aqui o éter puro se adelgaça...

Não sobe esta blasfêmia de fumaça

Das cidades pra o céu.

E a Terra é como o inseto friorento

Dentro da flor azul do firmamento,

Cujo cálix pendeu!.

Qual no fluxo e refluxo, o mar em vagas

Leva a concha dourada... e traz das plagas

Corais em turbilhão,

A mente leva a prece a Deus — por pérolas

E traz, volvendo após das praias cérulas,

— Um brilhante — o perdão!

A alma fica melhor no descampado...

O pensamento indômito, arrojado

Galopa no sertão,

Qual nos estepes o corcel fogoso

Relincha e parte turbulento, estoso,

Solta a crina ao tufão.

Vem! Nós iremos na floresta densa,

Onde na arcada gótica e suspensa

Reza o vento feral.

Enorme sombra cai de enorme rama...

É o Pagode fantástico de Brama

Ou velha catedral.

Irei contigo pelos ermos — lento —

Cismando, ao pôr do sol, num pensamento

Do nosso velho Hugo.
— Mestre do mundo! Sol da eternidade!...

Para ter por planta a humanidade,

Deus num cerro o fixou.

Ao longe, na quebrada da colina,

Enlaça a trepadeira purpurina

O negro mangueiral!...

Como no Dante a pálida Francesca,

Mostra o sorriso rubro e a face fresca

Na estrofe sepulcral.

O povo das formosas amarilis

Embala-se nas balsas, como as Wíllis

Que o Norte imaginou.

O antro — fala... o ninho sestremece...

A dríade entre as folhas aparece...

Pan na flauta soprou! ...

Mundo estranho e bizarro da quimera

A fantasia desvairada gera

Um paganismo aqui.

Melhor eu compreendo então Vergílio...

E vendo os faunos lhe dançar no idílio,

Murmuro crente: - eu vi!

Quando penetro na floresta triste,

Qual pela ogiva gótica o antiste,

Que procura o Senhor,

Como bebem as aves peregrinas

Nas ânforas de orvalho das boninas,

Eu bebo crença e amor!. . .

E à tarde, quando o sol - condor sangrento

No ocidente se aninha sonolento,

Como a abelha na flor...

E a luz da estrela trêmula se irmana

Coa fogueira noturna da cabana,

Que acendera o pastor,

A lua - traz um raio para os mares...

A abelha - traz o mel... um trenó aos lares

Traz a rola a carpir...

Também deixa o poeta a selva escura

E traz alguma estrofe, que fulgura,

Pra legar ao porvir!...

Vem! Do mundo leremos o problema

Nas folhas da florestaou do poema,

Nas trevas ou na luz...

Não vês?... Do céu a cúpula azulada,

Como uma traça sobre nós voltada,

Lança poesia a flux!...

Boa-Vista — 1867

Castro Alves

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