Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Manuel J. Reis
Poema de um náufrago à beira do entendimento
O mar repousa em meus braços, querida!
O mar das coisas que fizemos,
das coisas claras que tantas vezes fomos
e por tão pouco,
das coisas intocáveis,
das coisas líquidas e fatigadas,
e que, no entanto, vivem
no mar que eu e tu fizemos
dos escombros da minha e da tua
memória naufragada.
O mar das coisas que fizemos,
das coisas claras que tantas vezes fomos
e por tão pouco,
das coisas intocáveis,
das coisas líquidas e fatigadas,
e que, no entanto, vivem
no mar que eu e tu fizemos
dos escombros da minha e da tua
memória naufragada.
821
Micheliny Verunschk
Segredo de Camarinha
Cora,
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.
Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.
Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.
Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.
(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)
Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.
Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.
Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.
Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.
(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)
Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.
1 306
Maria de Lourdes Hortas
Estações
Poderia afogar-me
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.
1 022
Micheliny Verunschk
Isaura
Isaura
Sentia nos dedos
Das mãos
Os rios,
As epifanias,
Os cheiros
Dos cabelos de José.
Seus dedos brincavam
E sentiam
Os cheiros
( O cheiro de mato
De campina,
De homem
Dos cabelos de José )
Isaura sentia.
Gostaria de morrer
Se assim não fosse.
Juraria numa cruz
Por São Carlinhos,
Por São Ascenso,
Por São Austraclínio,
Os santos
De sua inventada devoção.
Na cadeira de balanço
Sobre o colo
Molhado
Do xalé verde-água
Dormiam
Os cabelos macios,
Os cabelos cheirosos,
Os cabelos que sempre
Cantaram saudades:
Os cabelos de José.
Dormia José,
Deitado em seu colo.
...
( Amaro e Tobias e João
Desconpreendiam
Todos os dias
O mistério de Isaura,
Na varanda do solar,
Desperdiçar os sóis
E os anis
A ninar um chapéu.
Não sabiam eles
Que José dormia ).
Sentia nos dedos
Das mãos
Os rios,
As epifanias,
Os cheiros
Dos cabelos de José.
Seus dedos brincavam
E sentiam
Os cheiros
( O cheiro de mato
De campina,
De homem
Dos cabelos de José )
Isaura sentia.
Gostaria de morrer
Se assim não fosse.
Juraria numa cruz
Por São Carlinhos,
Por São Ascenso,
Por São Austraclínio,
Os santos
De sua inventada devoção.
Na cadeira de balanço
Sobre o colo
Molhado
Do xalé verde-água
Dormiam
Os cabelos macios,
Os cabelos cheirosos,
Os cabelos que sempre
Cantaram saudades:
Os cabelos de José.
Dormia José,
Deitado em seu colo.
...
( Amaro e Tobias e João
Desconpreendiam
Todos os dias
O mistério de Isaura,
Na varanda do solar,
Desperdiçar os sóis
E os anis
A ninar um chapéu.
Não sabiam eles
Que José dormia ).
1 080
Micheliny Verunschk
Grindley
Os meninos
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
1 116
Micheliny Verunschk
Do Meu Amor Para a Tua Infância
O menino de porcelana
Brincava dentro da fotografia
Alheio
Ao meu fogo que o via de longe.
Ele, que não sabia da porcelana,
Cavalgava a árvore,
Seu cavalinho de pau
( As árvores são dois meninos
Há tempos imemoriais ).
Ele, que não sabia da porcelana,
Só conhecia a heráldica das arranhaduras
( Doloridos dragões de línguas rubras ).
...
Do lado de cá,
Santo anjo do Senhor,
En garde
Que meu incêndio
O observa!
Brincava dentro da fotografia
Alheio
Ao meu fogo que o via de longe.
Ele, que não sabia da porcelana,
Cavalgava a árvore,
Seu cavalinho de pau
( As árvores são dois meninos
Há tempos imemoriais ).
Ele, que não sabia da porcelana,
Só conhecia a heráldica das arranhaduras
( Doloridos dragões de línguas rubras ).
...
Do lado de cá,
Santo anjo do Senhor,
En garde
Que meu incêndio
O observa!
946
Micheliny Verunschk
Da Morte pela Manhã
A manhã seguinte
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)
1 013
Maria de Lourdes Hortas
Página de Diário
Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
1 025
Carlos Anísio Melhor
Soneto
Fica-te aí parada na memória.
Reveste com o outono a luz da Face
ou sempre adormecida que a vitória
do amor é conservar consigo a Face.
E assim vencer o tempo na memória
e atingir o eterno do traspasse
fatal, trazendo adiante na memória
a visão emblemática da Face.
Na ilha de agosto faze tua morada,
e em setembro haverás ressuscitada,
Se trouxeres adiante na memória
que nunca apareceste na jornada,
houveras sido, existirás amada
se ficares presente na memória.
Reveste com o outono a luz da Face
ou sempre adormecida que a vitória
do amor é conservar consigo a Face.
E assim vencer o tempo na memória
e atingir o eterno do traspasse
fatal, trazendo adiante na memória
a visão emblemática da Face.
Na ilha de agosto faze tua morada,
e em setembro haverás ressuscitada,
Se trouxeres adiante na memória
que nunca apareceste na jornada,
houveras sido, existirás amada
se ficares presente na memória.
1 046
Mário Donizete Massari
Sinos
Os sinos batem
e bate em meu peito
uma dor profunda
Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo
Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda
a dor de perder,
parte do meu mundo.
e bate em meu peito
uma dor profunda
Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo
Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda
a dor de perder,
parte do meu mundo.
946
Manoel Carlos de Almeida
Soneto
Demoro-me na escassa infância
em buscamentos de poesia
Que um severo milagre se proponha
e se abasteça a noite de seu dia.
Guardar-me não será melhor que unir-me
à memória dos olhos e do ouvido.
Existe a solidão de um tempo atado
ao que ouvi sem ter sentido.
Sem proeza ofertei amor exíguo.
Não perguntei às formas exauridas
onde encontrar estojo para o verso.
Conquisto para mim palavras minhas
em que o medo engendrou um grave espanto:
fonte de hermética paisagem.
em buscamentos de poesia
Que um severo milagre se proponha
e se abasteça a noite de seu dia.
Guardar-me não será melhor que unir-me
à memória dos olhos e do ouvido.
Existe a solidão de um tempo atado
ao que ouvi sem ter sentido.
Sem proeza ofertei amor exíguo.
Não perguntei às formas exauridas
onde encontrar estojo para o verso.
Conquisto para mim palavras minhas
em que o medo engendrou um grave espanto:
fonte de hermética paisagem.
471
Moniz Bandeira
Canto do Outubro
Que ficou de teu mundo?
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.
Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.
Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.
Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.
quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.
Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.
Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.
E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.
Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.
Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.
Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.
quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.
Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.
Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.
E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.
990
Maurício Batarce
Desventuras
Ao longe meus olhos encerram,
Na língua do martírio,
Um sorriso novo ao longo
Do mundo que giro...
Nas vozes loucas,
Em meio à vida,
Recebo um sonho
De despedidas...
Nunca senti a voz da tortura.
Nem uma turva idéia errante.
Sempre busquei nas amarguras,
As faces de minha vida infante...
Música se ouve
E o amor me vem.
Estou só comigo mesmo,
Mas ainda assim tenho alguém...
Na língua do martírio,
Um sorriso novo ao longo
Do mundo que giro...
Nas vozes loucas,
Em meio à vida,
Recebo um sonho
De despedidas...
Nunca senti a voz da tortura.
Nem uma turva idéia errante.
Sempre busquei nas amarguras,
As faces de minha vida infante...
Música se ouve
E o amor me vem.
Estou só comigo mesmo,
Mas ainda assim tenho alguém...
835
Maria Braga Horta
Infância
Pelos caminhos da minha infância
sigo os teus passos na manhã
do teu ofício e meus deveres.
Ora encurtas teus passos, me esperando,
ora apresso os meus passos e te alcanço.
O importante é que se combinem como o corpo
e a sombra, e não importa qual dos dois
tem que ceder para acertar o compasso.
No percurso me ensinas uma flor
pousada como um pássaro num ramo
ou me explicas os pássaros no vôo
e me respondes o porquê das coisas.
Por quê? — vou sempre perguntando.
E descubro que atrás de cada mistério
há outro mistério e outro mistério.
Mistérios que nenhum de nós jamais desvendará.
Ninguém.
O homem poderá descobrir o universo,
voar entre as estrelas,
mas jamais descobrirá o que deseja descobrir.
Mas tudo se aclara, enfim, quando chegamos.
Esquecidos os mistérios,
enfrentamos a nossa lúcida rotina:
a tua — a de ensinar,
a minha — esta miscelânea de pequenos deveres
e grandes interesses,
esta vontade de descobrir o mundo
e inventar o céu.
Salpico o chão da escola com a água
de uma garrafa de rolha recortada;
varro, espano, encho de água a grande talha de barro
vermelho.
Enquanto isso, lá fora, as crianças em fila cantam.
II
Desço correndo
o morro-do-meio:
o sol me ofusca e o sangue do nariz salpica
o meu vestido branco.
Só consigo parar ao pé da ponte.
Lá vem seu Totonho-benzedor rodeado de gente
e seu Totonho e a gente que o rodeia
me rodeia.
Um lenço branco se tinge de vermelho
sob meu nariz.
Seu Totonho benze e diz:
"Mais vale o poder de Deus
do que o poder deste mal."
Uma prima me leva e empresta outro vestido.
Saio de azul da casa
e entro na venda de seu Roldão:
— Mamãe mandou buscar uma réstia de cebolas.
Havia poesia no sol, no morro, na ponte,
naquele deslumbramento de liberdade
na descida do morro,
no sentimento de importância de ver o povo
aglomerado em volta da menina
que veio voando com asas brancas
salpicadas de sangue.
De volta, passo a passo, subo o morro.
Ninguém mais nas janelas ou na rua.
Trago a réstia de cebolas como uma coroa de louros
conquistada no escuro.
sigo os teus passos na manhã
do teu ofício e meus deveres.
Ora encurtas teus passos, me esperando,
ora apresso os meus passos e te alcanço.
O importante é que se combinem como o corpo
e a sombra, e não importa qual dos dois
tem que ceder para acertar o compasso.
No percurso me ensinas uma flor
pousada como um pássaro num ramo
ou me explicas os pássaros no vôo
e me respondes o porquê das coisas.
Por quê? — vou sempre perguntando.
E descubro que atrás de cada mistério
há outro mistério e outro mistério.
Mistérios que nenhum de nós jamais desvendará.
Ninguém.
O homem poderá descobrir o universo,
voar entre as estrelas,
mas jamais descobrirá o que deseja descobrir.
Mas tudo se aclara, enfim, quando chegamos.
Esquecidos os mistérios,
enfrentamos a nossa lúcida rotina:
a tua — a de ensinar,
a minha — esta miscelânea de pequenos deveres
e grandes interesses,
esta vontade de descobrir o mundo
e inventar o céu.
Salpico o chão da escola com a água
de uma garrafa de rolha recortada;
varro, espano, encho de água a grande talha de barro
vermelho.
Enquanto isso, lá fora, as crianças em fila cantam.
II
Desço correndo
o morro-do-meio:
o sol me ofusca e o sangue do nariz salpica
o meu vestido branco.
Só consigo parar ao pé da ponte.
Lá vem seu Totonho-benzedor rodeado de gente
e seu Totonho e a gente que o rodeia
me rodeia.
Um lenço branco se tinge de vermelho
sob meu nariz.
Seu Totonho benze e diz:
"Mais vale o poder de Deus
do que o poder deste mal."
Uma prima me leva e empresta outro vestido.
Saio de azul da casa
e entro na venda de seu Roldão:
— Mamãe mandou buscar uma réstia de cebolas.
Havia poesia no sol, no morro, na ponte,
naquele deslumbramento de liberdade
na descida do morro,
no sentimento de importância de ver o povo
aglomerado em volta da menina
que veio voando com asas brancas
salpicadas de sangue.
De volta, passo a passo, subo o morro.
Ninguém mais nas janelas ou na rua.
Trago a réstia de cebolas como uma coroa de louros
conquistada no escuro.
1 016
Mário Donizete Massari
Memórias
(a meu pai)
Enquanto eu corria descalço
pisando em estrelas
meu pai numa labuta infinda
enfrentava o sol
Às noites com seu violão
que nunca chegou a dedilhar
espalhava sua poesia no ar
Velho poeta, ninguém como você
soube cantar o amor e a dor dos
seus dias
É pena que o mundo conheça apenas
os escritores feitos
e desconheça a poesia de um lavrador
Os anos foram tantos
os sonhos de menino
perderam-se no barquinho
que num dia de chuva
naveguei
Meu pai hoje velho
resistiu a tudo
e por detrás do muro
vejo o seu vulto
Pensando no menino que se fez homem.
Enquanto eu corria descalço
pisando em estrelas
meu pai numa labuta infinda
enfrentava o sol
Às noites com seu violão
que nunca chegou a dedilhar
espalhava sua poesia no ar
Velho poeta, ninguém como você
soube cantar o amor e a dor dos
seus dias
É pena que o mundo conheça apenas
os escritores feitos
e desconheça a poesia de um lavrador
Os anos foram tantos
os sonhos de menino
perderam-se no barquinho
que num dia de chuva
naveguei
Meu pai hoje velho
resistiu a tudo
e por detrás do muro
vejo o seu vulto
Pensando no menino que se fez homem.
816
Maurício B. Moisés
Fotografia
A natureza sendo uma fotografia viva
Torna a fotografia uma natureza morta.
Mesmo assim ambas são belas,
Pois uma é a nossa vida,
E a outra a lembrança dela.
Torna a fotografia uma natureza morta.
Mesmo assim ambas são belas,
Pois uma é a nossa vida,
E a outra a lembrança dela.
571
Maurício Batarce
Gotas de Sentimeto
Quantos ventos soprarão agora?
De onde surgirão meus passos?
Nunca busquei olhares para mim
E agora as imagens me ardem.
Me lembro do que fui
E me revivo a todo momento que sou.
A vida me surge como cruel verdade
E o chão que surge me some.
Escrevo de acordo com a música
E busco o fim através da fuga.
Resumo o que vejo e sinto
Em simples palavras de acalanto...
O tempo passa e não percebo,
Minha perspicácia parece falir...
Escrevo sem pensar,
Através de sonhos que vão e voltam
A me acordar.
Não me reconheço em meus passos
E procuro novos contatos.
Descubro a verdade do que sou
E em meus olhos encontro revelações
De quem um dia me amou...
De onde surgirão meus passos?
Nunca busquei olhares para mim
E agora as imagens me ardem.
Me lembro do que fui
E me revivo a todo momento que sou.
A vida me surge como cruel verdade
E o chão que surge me some.
Escrevo de acordo com a música
E busco o fim através da fuga.
Resumo o que vejo e sinto
Em simples palavras de acalanto...
O tempo passa e não percebo,
Minha perspicácia parece falir...
Escrevo sem pensar,
Através de sonhos que vão e voltam
A me acordar.
Não me reconheço em meus passos
E procuro novos contatos.
Descubro a verdade do que sou
E em meus olhos encontro revelações
De quem um dia me amou...
1 027
Marta Gonçalves
Morreram as Videiras na Quinta
I
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
924
Marta Gonçalves
Noite
Tenho nos olhos suas mãos
olhando açucenas na jarra.
O tempo vai multiplicar a noite.
olhando açucenas na jarra.
O tempo vai multiplicar a noite.
1 018
Marta Gonçalves
O Coração se Redime
Maurício chegou nas nuvens
andava entre velhos eucaliptos.
Trazia na pele a quentura do mês
de janeiro. Me olhava manso. O chapéu
longo escondia a cor dos olhos. Era
longa a viagem de Maurício. Suas
mãos buscavam o sol. Sempre o sol.
Na tarde morna Maurício desenhou
um leque, depois outro, dezenas.
Neste desenhar ficou longe a sombra
do rosto.
A ferida nas mãos fechou nas asas dos pássaros.
Os leques ficaram esquecidos. Uma ternura passava
na alma. A dor morreu na pele. Maurício andava no mundo
com um velho violino. Crescia meu corpo. Nas manhãs de chuva
o coração se redime. A lucidez volta nos olhos e vejo Maurício
nas nuvens.
andava entre velhos eucaliptos.
Trazia na pele a quentura do mês
de janeiro. Me olhava manso. O chapéu
longo escondia a cor dos olhos. Era
longa a viagem de Maurício. Suas
mãos buscavam o sol. Sempre o sol.
Na tarde morna Maurício desenhou
um leque, depois outro, dezenas.
Neste desenhar ficou longe a sombra
do rosto.
A ferida nas mãos fechou nas asas dos pássaros.
Os leques ficaram esquecidos. Uma ternura passava
na alma. A dor morreu na pele. Maurício andava no mundo
com um velho violino. Crescia meu corpo. Nas manhãs de chuva
o coração se redime. A lucidez volta nos olhos e vejo Maurício
nas nuvens.
1 047
Marta Gonçalves
O canário da Menina
Menina na calçada olhava os passarinhos
Seu Lolô, de gravata borboleta, descia a rua:
Vou trazer um canário pra menina.
Na avenida, o bonde passava, a enxurrada passava.
Tempo de manga, tempo de goiaba, tempo de papagaios.
Menina na calçada, seu Lolô descendo a rua.
No amor, a menina bateu asas.
Voou nos rostos. Beijou faces.
Sonhou com o mar. Descobriu o infinito vôo
da gaivota.
Tanto passarinho tantos vôos tanta saudade.
Seu Lolô, de gravata borboleta, descia a rua:
Vou trazer um canário pra menina.
Na avenida, o bonde passava, a enxurrada passava.
Tempo de manga, tempo de goiaba, tempo de papagaios.
Menina na calçada, seu Lolô descendo a rua.
No amor, a menina bateu asas.
Voou nos rostos. Beijou faces.
Sonhou com o mar. Descobriu o infinito vôo
da gaivota.
Tanto passarinho tantos vôos tanta saudade.
1 109
Marta Gonçalves
O Vento no Rosto
Descalços, andávamos no campo,
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
1 061
Marta Gonçalves
O Retrato de Biel
(Em memória do Poeta e Professor
Gabriel Archanjo de Mendonça)
Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.
Gabriel Archanjo de Mendonça)
Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.
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