Lista de Poemas

Canto do Outubro

Que ficou de teu mundo?
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.

Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.

Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.

Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.

quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.

Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.

Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.

E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.

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O Poeta de Hoje

O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.

À dor dos séculos os mortos despertaram.
Incendeiam-se mares, florestas e montanhas,
e marcha pela madrugada o exército dos sem rostos.

O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.
Traz no peito a angústia das máquinas.
Travam-lhe a garganta baionetas sem lua.

Rompe nas suas mãos um sol feito de sangue
e os cavalos da fome puxam o carro da aurora.

O poeta hoje não cantará nem símbolos.

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Identificação e contexto básico

Manuel Cardozo Moreno de Araújo Bandeira, mais conhecido como Manuel Bandeira, foi um dos maiores poetas brasileiros. Nasceu em 19 de abril de 1886, em Recife, Pernambuco, e faleceu em 13 de outubro de 1968, no Rio de Janeiro. Filho de um funcionário público, cresceu em um ambiente de classe média. Era brasileiro e escrevia em português. Viveu durante um período de intensas transformações no Brasil, desde o fim do Império até o regime militar, passando pelas diferentes fases do Modernismo.

Infância e formação

A infância de Bandeira foi marcada pela doença – a tuberculose, diagnosticada precocemente. Essa condição o acompanharia por toda a vida, influenciando profundamente sua obra. Ele estudou em Recife e, posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar Engenharia, mas sua paixão pela literatura o levou a abandonar o curso e a dedicar-se à escrita e ao magistério. Foi um autodidata voraz, lendo extensivamente e absorvendo diversas influências literárias e culturais.

Percurso literário

O início de sua trajetória literária se deu com a publicação de "A Cinza das Horas" (1917), ainda com ressonâncias parnasianas. No entanto, sua participação na Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, o consolidou como um dos expoentes do Modernismo brasileiro, embora ele próprio estivesse ausente do evento físico devido à saúde. Sua obra evoluiu de uma estética mais formal para o verso livre, característico da segunda fase modernista. Publicou poemas em diversas revistas e jornais, e sua atividade como professor e crítico literário também foi relevante.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Manuel Bandeira incluem "Carnaval" (1919), "Ritmo Dissoluto" (1928), "Estrela da Manhã" (1936), "Lira dos Cinquent'Anos" (1940), "Estrela da Tarde" (1960). Seus temas centrais são a efemeridade da vida, a morte, a solidão, a infância perdida, a saudade, o cotidiano, a religiosidade e a busca pela transcendência. Seu estilo é marcado pela simplicidade aparente, a coloquialidade da linguagem, o lirismo pungente e a musicalidade do verso. Ele soube extrair poesia do banal, do trivial, de objetos e cenas do dia a dia. Utilizou o verso livre com maestria, libertando a poesia das amarras formais. Sua voz poética é frequentemente confessional, íntima, mas com alcance universal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bandeira vivenciou e participou ativamente do Modernismo brasileiro, um movimento que buscava renovar a arte e a cultura nacionais, rompendo com o academicismo e buscando uma identidade brasileira autêntica. Ele se relacionou com os principais nomes do movimento, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade, embora sua poesia tenha desenvolvido um caminho particular, mais introspectivo e lírico. Sua obra reflete o contexto social e cultural do Brasil da primeira metade do século XX, com suas tensões e transformações.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A tuberculose foi uma constante em sua vida, ditando muitos dos seus ritmos e gerando uma profunda consciência da finitude. Sua vida pessoal foi marcada por uma certa reclusão e por uma profunda ligação com a família e a infância. Mantinha amizades importantes no meio literário, mas era conhecido por sua discrição e timidez. Sua fé e sua espiritualidade, embora não dogmáticas, eram elementos presentes em sua reflexão.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Manuel Bandeira é amplamente reconhecido como um dos pilares da poesia brasileira moderna. Recebeu diversos prêmios e homenagens ao longo de sua vida. Sua obra é objeto de estudo constante em escolas e universidades, e sua popularidade se mantém entre leitores de diferentes gerações, o que atesta sua relevância e a universalidade de sua mensagem.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bandeira foi influenciado por poetas como Verlaine, Baudelaire e Camões, além da poesia popular brasileira. Seu legado é imenso: ele abriu caminhos para a poesia em língua portuguesa através da adoção do verso livre e da exploração de temas do cotidiano com profundidade lírica. Influenciou gerações posteriores de poetas pela sua autenticidade e pela capacidade de humanizar a experiência poética. Sua obra faz parte inegavelmente do cânone literário brasileiro e lusófono.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bandeira é frequentemente analisada sob a ótica da condição humana, da fragilidade da existência e da beleza encontrada na simplicidade. Seus poemas sobre a morte e a doença são particularmente pungentes, mas sempre permeados por uma esperança sutil ou pela aceitação serena do destino. A relação entre a vida e a arte, a experiência pessoal e a universalidade são temas recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é sua paixão por música popular, especialmente o samba, que por vezes aparece em seus poemas. Sua timidez era notória, contrastando com a força expressiva de sua poesia. A casa onde viveu em Vila Madalena, São Paulo, tornou-se um memorial, preservando sua memória e seu universo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Manuel Bandeira faleceu em 1968, no Rio de Janeiro, após uma vida marcada pela luta contra a tuberculose. Sua morte foi lamentada em todo o país. Sua obra continua viva e presente, sendo constantemente reeditada e estudada, garantindo sua imortalidade na literatura brasileira.