Poemas neste tema
Morte e Luto
Rita Barém de Melo
Vem!
Vem! Que t importa que maldiga o mundo
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.
Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.
Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!
Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.
Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.
Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.
Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -
Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...
"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!
Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!
"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"
(Rio Grande, julho de 1867)
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.
Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.
Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!
Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.
Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.
Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.
Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -
Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...
"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!
Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!
"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"
(Rio Grande, julho de 1867)
1 310
Gilka Machado
Odor dos manacás
De onde vem esta voz, este fundo lamento
com vagas vibrações de violino em surdina?
De onde vem esta voz que, nas asas, o vento
me traz, na hora violácea em que o dia declina?
Esta voz vegetal, que o meu olfato atento
ouve, certo é a expansão de uma mágoa ferina,
é o odor que os manacás soltam, num desalento,
sempre que a brisa os plange e as frondes lhes inclina.
Creio, aspirando-o, ouvir, numa metempsicose,
a alma errante e infeliz de uma extinta criatura
chamar ansiosamente outra alma que a despose...
Uma alma que viveu sozinha e incompreendida,
mas que, mesmo gozando uma vida mais pura,
inda chora a ilusão frustada noutra vida.
com vagas vibrações de violino em surdina?
De onde vem esta voz que, nas asas, o vento
me traz, na hora violácea em que o dia declina?
Esta voz vegetal, que o meu olfato atento
ouve, certo é a expansão de uma mágoa ferina,
é o odor que os manacás soltam, num desalento,
sempre que a brisa os plange e as frondes lhes inclina.
Creio, aspirando-o, ouvir, numa metempsicose,
a alma errante e infeliz de uma extinta criatura
chamar ansiosamente outra alma que a despose...
Uma alma que viveu sozinha e incompreendida,
mas que, mesmo gozando uma vida mais pura,
inda chora a ilusão frustada noutra vida.
1 659
Maria Azenha
Recordações
Nenhum vestígio
Nenhuma noite impura
Nenhum país de lume
Nenhuma serra ali.
A tua ausência é tão funda
Que não regressa a ti.
Nenhuma noite impura
Nenhum país de lume
Nenhuma serra ali.
A tua ausência é tão funda
Que não regressa a ti.
933
Myriam Fraga
Março
...e estes marços doendo
como pedras nos rins,
charadas que não invento
e nem sei de memória
se há memória
além de um domingo de março
azul, perfeito.
Todas as areias rolaram sobre
de todas as possíveis clepsidras
só o olho-farol, olho brilhante
antigo, a me guiar nas trevas
do regresso. não haverá,
não haverá, porto, viajante,
nenhuma ítaca te espera,
nenhuma Colchida, nem mesmo os arrecifes
no cais de tua infância.
Apenas a morte suave de olhos triste
tão rápida e indolor, tão limpa guilhotina.
... e estas tardes de março
viageias. Sei o peso da ausência. Sei a dor
das lembranças tatuadas
na carne, coladas e desfolhadas
como pele queimada que se arranca.
nenhuma presença é mais real
que a falta. Corpo de solidão
deslizando entre móveis, marfins,
folhas soltas de um livro,
marca da prata, desenhos no tapete,
cavalos, leão de pedra, lembranças
que se acendem em faróis iluminando
o outro lado do abismo,
o precipício, o vazio, onde tudo acaba.
como pedras nos rins,
charadas que não invento
e nem sei de memória
se há memória
além de um domingo de março
azul, perfeito.
Todas as areias rolaram sobre
de todas as possíveis clepsidras
só o olho-farol, olho brilhante
antigo, a me guiar nas trevas
do regresso. não haverá,
não haverá, porto, viajante,
nenhuma ítaca te espera,
nenhuma Colchida, nem mesmo os arrecifes
no cais de tua infância.
Apenas a morte suave de olhos triste
tão rápida e indolor, tão limpa guilhotina.
... e estas tardes de março
viageias. Sei o peso da ausência. Sei a dor
das lembranças tatuadas
na carne, coladas e desfolhadas
como pele queimada que se arranca.
nenhuma presença é mais real
que a falta. Corpo de solidão
deslizando entre móveis, marfins,
folhas soltas de um livro,
marca da prata, desenhos no tapete,
cavalos, leão de pedra, lembranças
que se acendem em faróis iluminando
o outro lado do abismo,
o precipício, o vazio, onde tudo acaba.
1 128
Hilda Hilst
Poesia XX
Teu nome é Nada.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem:
Diante do eterno, nada.
Morte , teu nome.
Um quase chegar peerto.
Um pouco masi (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto.
Um pouco mamis, tu O terias visto.
Teu nome é Nada.
Haste, pata. Sem ponta, sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem:
Diante do eterno, nada.
Morte , teu nome.
Um quase chegar peerto.
Um pouco masi (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto.
Um pouco mamis, tu O terias visto.
Teu nome é Nada.
Haste, pata. Sem ponta, sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.
1 336
Henriqueta Lisboa
Canção do berço vazio
Canção do berço vazio
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.
1 519
Eugénia Tabosa
Destino
No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
1 203
Angela Santos
O Apocalipse, é agora!
De Thanatos é a voz que ressoa
e irrompe no muro dos lamentos...
cada grito, cada estilhaço vivo
Abel e Caim, outra vez e outra
na voragem das entranhas
De ódio as pedras
de ódio os tanques
de ódio as mitras,
de ódio os homens
de morte cada
esquina que os abriga
O Amor que se fez lei
quem de entre vós
lembra ainda?
e irrompe no muro dos lamentos...
cada grito, cada estilhaço vivo
Abel e Caim, outra vez e outra
na voragem das entranhas
De ódio as pedras
de ódio os tanques
de ódio as mitras,
de ódio os homens
de morte cada
esquina que os abriga
O Amor que se fez lei
quem de entre vós
lembra ainda?
1 065
Angela Santos
Eu Não Sei
Dizer Adeus
Eu
não sei dizer adeus.
Adeus tem o som laminado de farpa
atravessando o ar
directa ao cerne da ferida
Nunca soube dizer adeus.
Abri rasgos nas veredas do sentir
para reconhecer nelas as marcas impressas
e Identificar meus sinais
Como dizer adeus?
Em alerta me quedo ao som de um adeus,
lembra-me viagem que não tem retorno
e por determinismo regresso às indeléveis marcas deixadas
ao jeito de revisitação
Não direi adeus, jamais....creio!
Quem sabe tão só
adeus por enquanto
se um adeus sem coragem
espreitar nos gestos quotidianos
se um esboço de adeus
inexpresso ou omisso
me acenar do outro lado
Eu não sei dizer adeus...
quiçá adeus por enquanto!
(28.12.99)
Eu
não sei dizer adeus.
Adeus tem o som laminado de farpa
atravessando o ar
directa ao cerne da ferida
Nunca soube dizer adeus.
Abri rasgos nas veredas do sentir
para reconhecer nelas as marcas impressas
e Identificar meus sinais
Como dizer adeus?
Em alerta me quedo ao som de um adeus,
lembra-me viagem que não tem retorno
e por determinismo regresso às indeléveis marcas deixadas
ao jeito de revisitação
Não direi adeus, jamais....creio!
Quem sabe tão só
adeus por enquanto
se um adeus sem coragem
espreitar nos gestos quotidianos
se um esboço de adeus
inexpresso ou omisso
me acenar do outro lado
Eu não sei dizer adeus...
quiçá adeus por enquanto!
(28.12.99)
1 295
Angela Santos
Nega-Entropia
O
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
1 515
Angela Santos
Eterno Retorno
Os pés fincados
na terra
de terra os pés
os pés da terra são...
As mãos suspensas
dos braços
as mãos dos braços são
dos braços suspensos
do tronco
O tronco onde
o pescoço assenta
e nele a cabeça
onde se senta
o pensamento
Cabeça
Tronco
membros
pensamento
e terra também
o Homem......
Um dia,
terra da terra
inteiro no ventre
da mãe.
na terra
de terra os pés
os pés da terra são...
As mãos suspensas
dos braços
as mãos dos braços são
dos braços suspensos
do tronco
O tronco onde
o pescoço assenta
e nele a cabeça
onde se senta
o pensamento
Cabeça
Tronco
membros
pensamento
e terra também
o Homem......
Um dia,
terra da terra
inteiro no ventre
da mãe.
1 149
Angela Santos
Presença
Danam-se
os ventos da alma
e tudo se agita e confunde
no seio do turbilhão
Ainda que eu não saiba
Vou
levada na tempestade
o que me leva não se diz
ou sabe
vou porque sim, sem perguntas
levada vou.
Grandes as presenças
da vida e da morte
abraçamos uma
rechaçamos a outra
sem nada saber…
Que outro olhar
ou dimensão do ver
pode acercar a infinita presença,
vida e morte
morte e vida
tão extremas tão unidas...
Pudesse a vida
ser só celebração, cores, aromas
terra, húmus , simples sentir
e a morte
essa dimensão maior
que aceitássemos não saber.
os ventos da alma
e tudo se agita e confunde
no seio do turbilhão
Ainda que eu não saiba
Vou
levada na tempestade
o que me leva não se diz
ou sabe
vou porque sim, sem perguntas
levada vou.
Grandes as presenças
da vida e da morte
abraçamos uma
rechaçamos a outra
sem nada saber…
Que outro olhar
ou dimensão do ver
pode acercar a infinita presença,
vida e morte
morte e vida
tão extremas tão unidas...
Pudesse a vida
ser só celebração, cores, aromas
terra, húmus , simples sentir
e a morte
essa dimensão maior
que aceitássemos não saber.
1 002
Angela Santos
No dia da morte
decretada de um Poeta
(18/10/85)
Hoje
é o dia decretado
para a morte
do poeta que não morre
corda, a mordaça da voz
sem sombra de silêncio.
Da terra que te abraça
sobe o grito renovado
terra irmã do teu corpo
na força e na cor
Cânticos de liberdade soam
na morte do poeta
que não morre…
E de negro se veste o espiritual
negras vozes o entoam
mas a vida fica perto
de quem morrendo não morre
por cantar liberdade.
(18/10/85)
Hoje
é o dia decretado
para a morte
do poeta que não morre
corda, a mordaça da voz
sem sombra de silêncio.
Da terra que te abraça
sobe o grito renovado
terra irmã do teu corpo
na força e na cor
Cânticos de liberdade soam
na morte do poeta
que não morre…
E de negro se veste o espiritual
negras vozes o entoam
mas a vida fica perto
de quem morrendo não morre
por cantar liberdade.
660
Pedro Tierra
Carandiru: Pavilhão 111
Minha matéria
são os diários.
Nada mais verdadeiro. Objetivo.
E nada mais falso.
Nada mais verdadeiro
na sua falsidade.
Nada mais falso
na sua verdade perecível,
Vendida na banca,
O que me reserva
a verdade do dia seguinte?
A verdade dos aços?
do fogo
cuspido cela adentro?
Ou a verdade da carne
mastigada, sem fuga possível?
A alva verdade dos dentes
dos cães?
Ou a verdade da marcha
dos homens de cinza,
escopeta no gancho do braço,
metralhadoras?
Ou a verdade dos nus?
A verdade da batalha
narrada pelos gatilhos,
ou a desamparada verdade
dos corpos
empilhados
pelos que vão morrer
com tiros na nuca?
Que verdade afinal me apazigua?
autoriza-me a seguir reproduzindo
impotente, os minuciosos gestos diários
- essa forma imperceptível de morte -,
a presumir que apesar de toda ruína
permanecemos todos
inalteradamente humanos?
são os diários.
Nada mais verdadeiro. Objetivo.
E nada mais falso.
Nada mais verdadeiro
na sua falsidade.
Nada mais falso
na sua verdade perecível,
Vendida na banca,
O que me reserva
a verdade do dia seguinte?
A verdade dos aços?
do fogo
cuspido cela adentro?
Ou a verdade da carne
mastigada, sem fuga possível?
A alva verdade dos dentes
dos cães?
Ou a verdade da marcha
dos homens de cinza,
escopeta no gancho do braço,
metralhadoras?
Ou a verdade dos nus?
A verdade da batalha
narrada pelos gatilhos,
ou a desamparada verdade
dos corpos
empilhados
pelos que vão morrer
com tiros na nuca?
Que verdade afinal me apazigua?
autoriza-me a seguir reproduzindo
impotente, os minuciosos gestos diários
- essa forma imperceptível de morte -,
a presumir que apesar de toda ruína
permanecemos todos
inalteradamente humanos?
2 019
Odylo Costa Filho
A Meu Filho
Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.
Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.
Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.
Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.
Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
1 227
Angela Santos
Existencialismo
Cerra
os ouvidos
às palavras dos profetas
segura nos olhos o horizonte
o tempo renova-se
e tu és senhor de ti
Esquece a promessa
nosso sonho perdido
a vida é irmã da morte
da angústia e desta sede
sem nome…
E contaram tantas lendas
pra amainar o desespero,
gritaram aos sete ventos
espalharam pelas cinco partidas
o milenar sonho perdido,
sonhado ser infinito..
Simples sopro é a vida…
e pode deixar de o ser!
os ouvidos
às palavras dos profetas
segura nos olhos o horizonte
o tempo renova-se
e tu és senhor de ti
Esquece a promessa
nosso sonho perdido
a vida é irmã da morte
da angústia e desta sede
sem nome…
E contaram tantas lendas
pra amainar o desespero,
gritaram aos sete ventos
espalharam pelas cinco partidas
o milenar sonho perdido,
sonhado ser infinito..
Simples sopro é a vida…
e pode deixar de o ser!
1 048
Angela Santos
Denúncia
Ecos
de fome
um rosto acusa
existência e agonia
mórbida simbiose,
o não à vida
Ecos de humilhação
corpo ressequido
fatalmente anónimo .. longínquo
a limpeza gélida do número,
a inócua visão da morte…
colorida.
O horror
não age no descanso
de mentes anestesiadas,
a morte compromete
mas é de longe que vem…
distancia, entorpecimento da culpa,
da nossa culpa…sem defesa!
de fome
um rosto acusa
existência e agonia
mórbida simbiose,
o não à vida
Ecos de humilhação
corpo ressequido
fatalmente anónimo .. longínquo
a limpeza gélida do número,
a inócua visão da morte…
colorida.
O horror
não age no descanso
de mentes anestesiadas,
a morte compromete
mas é de longe que vem…
distancia, entorpecimento da culpa,
da nossa culpa…sem defesa!
1 134
Nauro Machado
Cosa Mentale
Pode-se
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!
Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.
Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!
Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.
Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.
1 341
Angela Santos
À Margem
Expiro
numa praia longínqua
dentro de mim
Expiro
à margem de mim
onda desfeita no movimento
incessante
Expiro
aspirando à luz
que não alcanço.
numa praia longínqua
dentro de mim
Expiro
à margem de mim
onda desfeita no movimento
incessante
Expiro
aspirando à luz
que não alcanço.
1 152
Angela Santos
A um Suicída
(11/12/85)
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
1 108
Hilda Hilst
Cantares do Sem Nome e de Partida
Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões
Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões
Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
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Miriam Paglia Costa
O Anjo Vingador
- gosto
de matar pelas costas
é tão bonito!
o menino fala assim ao psicólogo
que conta ao repórter
que conta ao leitor
que todos se horrorizem
o tiro joga o corpo á frente
abertos braços
o quase morto, o morto
cai
súbito vôo em curto abismo
a morte é bela ?
a fala espanta o estudioso
belo é o poder?
a morte assombra
fútil, nas mãos do fútil assassino
mas
entre mitos mais que antigos existe outra moral:
num livro grosso , o livro dos destinos
estaria inscrito eternamente
o encontro do morto e seu carrasco
segundo o rito do fado e da tragédia
a mão que ceifa está sagrada
é outra a ira que executa, grave e dura
relâmpago divino
aqui, no palco das vilezas
horror é fala de meninos.
de matar pelas costas
é tão bonito!
o menino fala assim ao psicólogo
que conta ao repórter
que conta ao leitor
que todos se horrorizem
o tiro joga o corpo á frente
abertos braços
o quase morto, o morto
cai
súbito vôo em curto abismo
a morte é bela ?
a fala espanta o estudioso
belo é o poder?
a morte assombra
fútil, nas mãos do fútil assassino
mas
entre mitos mais que antigos existe outra moral:
num livro grosso , o livro dos destinos
estaria inscrito eternamente
o encontro do morto e seu carrasco
segundo o rito do fado e da tragédia
a mão que ceifa está sagrada
é outra a ira que executa, grave e dura
relâmpago divino
aqui, no palco das vilezas
horror é fala de meninos.
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Carlos Nejar
Testamento
Testamento
não fiz.
E toda a consistência
De a tempo procedê-lo
É ser ou não feliz.
Testamento não fiz.
A minha amada
Saberá prosseguir.
Um documento
não tem bens de raiz
é como o vento.
A meus filhos deixo
uma espécie de tempo
capaz de transcorrer
sem passamento.
Estou lúcido, embora
não haja remos
no meu pensamento.
Testamento não fiz
mas minha competência
é estar na vida
mesmo não estando,
é ser por excelência
o muito que ela ensina
e o pouco que ela aceita.
Não deixo testamento.
favores desdenhei
nem fiz por merecê-los.
Os bens de uso vão-se;
um bocado conosco
e outro, com os herdeiros.
O passado, o presente
é sempre o mesmo prêmio:
viver é ser constante.
Competência não tenho,
salvo a de transporte
dos meus e dos teus dotes.
Todos os passaportes
e cartas de viagem
passaram na embaixada.
Mas por ser estrangeiro
de corpo e de mar alto,
testamento não fiz
e nem posso fazê-lo.
não fiz.
E toda a consistência
De a tempo procedê-lo
É ser ou não feliz.
Testamento não fiz.
A minha amada
Saberá prosseguir.
Um documento
não tem bens de raiz
é como o vento.
A meus filhos deixo
uma espécie de tempo
capaz de transcorrer
sem passamento.
Estou lúcido, embora
não haja remos
no meu pensamento.
Testamento não fiz
mas minha competência
é estar na vida
mesmo não estando,
é ser por excelência
o muito que ela ensina
e o pouco que ela aceita.
Não deixo testamento.
favores desdenhei
nem fiz por merecê-los.
Os bens de uso vão-se;
um bocado conosco
e outro, com os herdeiros.
O passado, o presente
é sempre o mesmo prêmio:
viver é ser constante.
Competência não tenho,
salvo a de transporte
dos meus e dos teus dotes.
Todos os passaportes
e cartas de viagem
passaram na embaixada.
Mas por ser estrangeiro
de corpo e de mar alto,
testamento não fiz
e nem posso fazê-lo.
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