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Poemas neste tema

Morte e Luto

Castro Alves

Castro Alves

Pesadelo

(POEMETO)

I

O RENDEZ-VOUS

ERA UMA NOITE perfumada e lânguida.
Contava a brisa amores à folhagem.
Da lua num olhar voluptuoso
Envolvia-se cândida paisagem.
Quais lágrimas do céu, brancos orvalhos
Trementes penduravam-se dos galhos.

E as flores suspiravam molemente
Da brisa ao receber os doces beijos.
E o mar batia túmido nas praias
Qual seio de donzela a arfar desejos.
E nuvens lá no céu brancas passavam,
Como garças formosas que adejavam.

Quebrando a solidão longínquo canto
Trouxe a brisa de terno bandolim,
Voluptuoso, ardente e delicado,
Como dharpa de etéreo serafim.
E o canto — todo amores — todo gozo —
Ia ecoando belo e languoroso.

Era Joseph — o trovador ardente,
Que o silêncio da noite perturbava.
Era o bardo formoso, apaixonado
Que a Andaluza fogosa fascinava.
Pálido o rosto, negro o seu cabelo,
Olhar cheio de luz... Ele era belo.

Depois calou-se a voz... Como essas fadas
Que à noite, quando voa a fantasia,
Vemos, sentimos belas, vaporosas,
— Anjos que o ideal somente cria; —
Tal ou mais linda, abrindo uma janela,
Surge uma virgem fascinante e bela.

Era um rosto formoso de madona,
Voava-lhe a madeixa destrançada.
E o seio que tremia, — pelas rendas
A lua olhava louca, apaixonada.
Tinha um pé que invejara uma criança.
Bem feliz quem ao peito lhe descansa!...

Depois uns lábios férvidos se uniram
Entre beijos dois nomes se escutaram...
Dois nomes e mil beijos amorosos
Nos lábios as palavras encerraram...
Dois nomes em que a vida toda sia...
Dois poemas de santa poesia...

E a porta após rodou por sobre os quícios,
E a murmurar deixou passar o amante...
Somente um temo e lânguido suspiro
Ouvi trazer a brisa sussurrante...
E a lua então num lânguido desmaio
Ciumenta lançou o último raio...

II

O ASSASSINO

Uma noite era negro firmamento,
Monótona caía fria chuva,
E a terra envolta em véu de densas trevas
Parecia chorosa uma viúva;
Só as aves da noite regeladas
Gritando se escondiam nas moradas.

Trazia o vento o silvo da rajada
Que lúgubre zunia nos pinheiros,
Trazia gritos pávidos, medrosos,
Talvez dalguns perdidos caminheiros,
E no embate co’a branca penedia,
O mar sinistro e tétrico rugia.

De um lampião à luz incerta e vaga
Um vulto negro e triste senxergava;
Coberto do capote e do sombrero,
O rosto macilento só mostrava...
Mas dalgum raio ao brilho repentino
Conhecereis — Jorge — o libertino —

Que fazes, Jorge, a estas horas mortas?
A noite está tristonha e friorenta;
Vai aquecer da prostituta ao colo
De libertino a fronte macilenta.
Vai escaldar esta alma morta e fria
Aos beijos do cognac quincendia.

Vai... Quando a alma senjoa deste mundo
Sempre descrente, acerbo dironia,
O cognac nos dá formosos mundos,
Castelos encantados de poesia.
E entre um gol de cognac e uma fumaça
Em ditoso delírio a vida passa.

Mas Jorge está mais lúgubre e sombrio
Que o mármore dum túmlo mais calado,
Parece o seu olhar mais turvo e frio,
O sulco do sobrolho mais cavado...
Ai! Jorge... Vais unir ao libertino
A covardia infame do assassino...

E ele pouco esperou. Saudoso canto,
Que suspirava ao longe, aproximou-se,
E o canto era mais terno e mais sentido
Quo último som do cisne que finou-se;
Era um canto em que atroz pressentimento
Segredava ao mancebo o passamento.

Um momento depois um grito agudo
Triste uniu-se da noite à voz sombria...
Foi um grito somente e após ouviu-se
O convulso estertor de umagonia...
A noite se estendeu como um sudário
Do cantor sobre o leito funerário.

Somente após à fulva luz de um raio
Veríeis uma virgem linda e nua...
Tremia de terror, ouvira o grito...
Stava pálida e branca como a lua,
E quando viu o amante — de amargura
Tornou-se a estátua pasma da loucura.

III

A LOUCA

Laura, onde vais? Sozinha a tais desoras
O vento há de gelar-te a branca pele.
Como tremes convulsa, e que sorriso!
Que chamas teu olhar ardente expele!
Laura, onde vais! Os pés nus, delicados,
Não maltrates nos seixos orvalhados.

Mulher, a quem procuras a estas horas?
Donzela, porque sais tão alta noite?
Não vês como aparecem mil fantasmas?
Não sentes da geada o frio açoite?
E das aves da noite o triste pio
Não faz por ti correr um calafrio? ...

E ela seguia muda e taciturna,
Nas rochas machucando o pé divino.
Parecia sonâmbula perdida,
Autômato a seguir o seu destino.
Arfava o peito em ânsias ofegante,
Seu olhar era fixo e fascinante.

E seguia... e seguia... e nem ao menos
Parava um só momento no caminho;
Não sentia rasgarem-se-lhe as vestes
De incultos ervaçais no duro espinho.
O gênio da vingança é que a impelia...
Como o Judeu errante ela seguia...

............................................

IV

A ENTREVISTA NO TÚMULO

Era um triste lugar. Entre ciprestes,
Que a custo balançavam a ramagem,
Onde só pra gemer tristes endechas
Passava regelada e fria a aragem,
Num esquife entreaberto está deitado
Um cadáver de moço abandonado.

E entregue às intempéries... sem amigos
Sem ter quem vá ali chorar um pranto.
Tu, que cantaste os sentimentos puros,
Quencontraste no mundo um doce encanto,
Tu dormes, sonhador, já macilento,
Entregue aos vermes vis, posto ao relento.

E esta fronte onde o gênio se inflamava,
Donde brotava ardente a poesia,
E os lábios que disseram sons cadentes,
Que ensinava-te alegre a fantasia,
São hoje como a lâmpada sem lume, —
Harpa sem cordas, — flores sem perfume.

Ninguém vem te chorar. Não, dentre as sombras
Uma sombra passou branca e ligeira,
Os ramos do arvoredo estremeceram,
Espantada voou a ave agoureira...
Quem perturba esta lúgubre morada?
Uma mulher... É Laura, a apaixonada.

E ela chegou-se rindo e soluçando
Cum rir entre medonho e entre formoso,
Seus lábios tressuavam de ironia
Ao mesmo tempo de inocente gozo.
Junto ao verde cadáver ajoelhou
E com os lábios ardentes o beijou.

Depois sentou-se triste junto ao esquife
E as passadas cantigas recordando,
Nos dedos frios, trêmulos, nervosos,
Cos cabelos do amante ia brincando;
Coa outra mão sobre o morto regelado
Pôs um longo punhal ensangüentado.

"Durmamos, disse ela, é meu amante!
Não vês? Eu tenho as mãos ensangüentadas.
Este sangue é de Jorge, é do assassino,
Durmamos: tuas cinzas stão vingadas".
... Então beijou-o louca em devaneio
E recostou-lhe a fronte no seu seio...

............................................

V

OS DOIS CADÁVERES

E depois quando a aurora ergueu-se linda,
Viu a louca a embalar no seio o amante,
Cantando mil cantigas e o beijando
Sempre amorosa, triste e delirante...
Mas a lua coos raios desmaiados
Viu dois mortos unidos, abraçados ...

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Castro Alves

Castro Alves

Diálogo dos Ecos

E chegou-se pra a vivenda
Risonho, calmo, feliz...
Escutou... mas só ao longe
Cantavam as juritis...
Murmurou: "Vou surpr’endê-la!"
E a porta ao toque cedeu...
"Talvez agora sonhando
Diz meu nome o lábio seu,
Que a dormir nada prevê..."

E o eco responde: — Vê! ...

"Como a casa está tão triste!
Que aperto no coração! ...
Maria!... Ninguém responde!
Maria, não ouves, não?...
Aqui vejo uma saudade
Nos braços de sua cruz...
Que querem dizer tais prantos,
Que rolam tantos, tantos,
Sobre as faces da saudade
Sobre os braços de Jesus?...
Oh! quem me empresta uma luz?...
Quem me arranca a ansiedade,
Que no meu peito nasceu?
Quem deste negro mistério
Me rasga o sombrio véu?...

E o eco responde: — Eu! ...

E chegou-se para o leito
Da casta flor do sertão...
Apertou coa mão convulsa
O punhal e o coração! ...
Stava inda tépido o ninho
Cheio de aromas suaves...
E — como a pena, que as aves
Deixam no musgo ao voar, —
Um anel de seus cabelos
Jazia cortado a esmo
Como relíquia no altar! ...
Talvez prendendo nos elos
Mil suspiros, mil anelos,
Mil soluços, mil desvelos,
Que ela deu-lhes pra guardar!...
E o pranto em baga a rolar ...

"Onde a pomba foi perder-se?
Que céu minha estrela encerra?
Maria, pobre criança,
Que fazes tu sobre a terra?"

E o eco responde: — Erra!

"Partiste! Nem te lembraste
Deste martírio sem fim!...
Não! perdoa... tu choraste
E os prantos, que derramaste
Foram vertidos por mim...
Houve pois um braço estranho
Robusto, feroz, tamanho,
Que pôde esmagar-te assim?...

E o eco responde: — Sim!

E rugiu: "Vingança! guerra!
Pela flor, que me deixaste,
Pela cruz em que rezaste,
E que teus prantos encerra!
Eu juro guerra de morte
A quem feriu desta sorte
O anjo puro da terra...
Vê como este braço é forte!
Vê como é rijo este ferro !
Meu golpe é certo... não erro.
Onde há sangue, sangue escorre!...
Vilão! Deste ferro e braço,
Nem a terra, nem o espaço,
Nem mesmo Deus te socorre !!..."

E o eco responde: — Corre !
Como o cão ele em tomo o ar aspira,
Depois se orientou.
Fareja as ervas... descobriu a pista
E rápido marchou.

....................................

No entanto sobre as águas, que cintilam,
Como o dorso de enorme crocodilo,
Já manso e manso escoa-se a canoa;
Parecia assim vista — ao sol poente —
Esses ninhos, que o vento lança às águas,
E que na enchente vão boiando à toa! ...

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Castro Alves

Castro Alves

Mudo e Quedo

E Calado Ficou... De pranto as bagas
Pelo moreno rosto deslizaram,
qual da braúna, que o machado fere,
Lágrimas saltam de um sabor amargo
Mudos, quedos os dois neste momento
Mergulhavam no dédalo dangústia,
No labirinto escuro que desgraça...
Labirinto sem luz, sem ar, sem fio ...

Que dor, que drama torvo de agonias
Não vai naquelas almas! ... Dor sombria
De ver quebrado aquele amor tão santo,
De lembrar que o passado está passado...
Que a esperança morreu, que surge a morte! ...
Tanta ilusão! ... tanta carícia meiga!...
Tanto castelo de ventura feito
À beira do riacho, ou na campanha!...
Tanto êxtase inocente de amorosos!...
Tanto beijo na porta da choupana,
Quando a lua invejosa no infinito
Com uma bênção de luz sagrava os noivos!...

Não mais! não mais! O raio, quando esgalha
O ipê secular, atira ao longe
Flores, que há pouco se beijavam nhástea,
Que unidas nascem, juntas viver pensam,
E que jamais na terra hão de encontrar-se?

Passou-se muito tempo... Rio abaixo
A canoa corria ao tom das vagas.

De repente ele ergueu-se hirto, severo,
— O olhar em fogo, o riso convulsivo —
Em golfadas lançando a voz do peito! ...

"Maria! — diz-me tudo... Fala! fala
Enquanto eu posso ouvir... Criança, escuta!
Não vês o rio?... é negro!... é um leito fundo...

A correnteza, estrepitando, arrasta
Uma palmeira, quanto mais um homem! ...
Pois bem! Do seio túrgido do abismo
Há de romper a maldição do morto;
Depois o meu cadáver negro, lívido,
Irá seguindo a esteira da canoa
Pedir-te inda que fales, desgraçada,
Que ao morto digas o que ao vivo ocultas!...

Era tremenda aquela dor selvagem,
Que rebentava enfim, partindo os diques
Na fúria desmedida!...
Em meio às ondas
Ia Lucas rolar
Um grito fraco,
Uma trêmula mão susteve o escravo...
E a pálida criança, desvairada.
Aos pés caiu-lhe a desfazer-se em pranto.
Ela encostou-se ao peito do selvagem
— Como a violeta, as faces escondendo
Sob a chuva noturna dos cabelos —!
Lenta e sombria após contou destarte
A treda história desse tredo crime! ...

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Castro Alves

Castro Alves

UMA PÁGINA DE ESCOLA REALISTA

drama cômico em quatro palavras

A tragédia me faz rir, a comédia me faz chorar,
E o drama? Nem rir, nem chorar...
(Pensamento de CARNIOLI)

CENÁRIO

A alcova é fria e pequena
Abrindo sobre um jardim.
A tarde frouxa e serena
Já desmaia para o fim.
No centro um leito fechado
Deixa o longo cortinado
Sobre o tapete rolar...
Há, nas jarras deslumbrantes,
Camélias frias, brilhantes,
Lembrando a neve polar.

Livros esparsos por terra,
Uma harpa caída além;
E essa tristeza, que encerra
O asilo, onde sofre alguém.
Fitas, máscaras e flores
Não sei que vagos odores
Falam de amor e prazer.
Além da frouxa penumbra
Um vulto incerto ressumbra
— O vulto de uma mulher.

Vous, qui volez là-bas, légères hirondelles
Dites-moi, dites-moi, porquoi vais-je mourir!
MUSSET

MÁRIO (no leito)

É tarde! É tarde! Abri-me estas cortinas
Deixai que a luz me acaricie a fronte!...
Ó sol, ó noivo das regiões divinas,
Suspende um pouco a luz neste horizonte!

SILVIA (abrindo a janela)

Da noite o frio vento te regela
o mórbido suor...

MÁRIO

Oh! que me importa?
A tarde doura-me o suor da fronte...
— Último louro desta vida morta!

Crepusclo! mocidade! natureza!
Inundai de fulgor meu dia extremo...
Quero banhar-me em vagas de harmonia,
Como no lago se mergulha o remo!

E que amores que sonham as esferas!
A brisa é de volúpia um calafrio.
A estrela sai das folhas do infinito,
Sai dos musgos o verme luzidio ...

Tudo que vive, que palpita e sente
Chama o par amoroso para a sombra.
O pombo arrula — preparando o ninho,
A abelha zumbe — preparando a alfombra.

As trevas rolam como as tranças negras,
Que a Andaluza desmancha em mago enleio:
E entre rendas sutis surge medrosa
A lua plena, qual moreno seio.

Abre-se o ninho... o cálice... o regaço...
Anfitrite, corando, aguarda o noivo...

(Longa pausa)

E tu também esperas teu esposo,
Ó morte! ó moça, que engrinalda o goivo!

SÍLVIA (a meia voz, acompanhando-se na guitarra)

Dizem as moças galantes
Que as rolas são tão constantes ...
Pois será?
Que morrendo-lhe os amantes,
Morrem de fome, arquejantes,
Quem dirá?

Dizem sábios arrogantes
Que nestas terras distantes,
Não por cá,
Sobre piras fumegantes
Morrem viúvas constantes,
Pois será?

Não creio nos navegantes
Nem nas histórias galantes,
Que há por lá.
Fome e fogueiras brilhantes
Cá não há...
Mas inda morrem amantes
De saudades lacerantes
Quem dirá?

(Aos últimos arpejos cai-lhe uma lágrima.)

MÁRIO (vendo-a chorar)

Sílvia! Deixa rolar sobre a guitarra,
Da lágrima a harmonia peregrina!
Sílvia! cantando — és a mulher formosa!
Silvia! chorando — és a mulher divina!

Oh! lágrimas e pérolas! - aljofares
Que rebentais no interno cataclismo,
Do oceano — este dédalo insondável!
Do coração — este profundo abismo!

Sílvia! dá-me a beber a gota dágua,
Nessa pálpebra roxa como o lírio...
Como lambe a gazela o brando orvalho
Nas largas folhas do deserto assírio.

E quando estalma desdobrando as asas
Entrar do céu na região serena,
Como uma estrela eu levarei nos dedos
Teu pranto sideral, ó Madalena! ...

Sílvia (tem-se ajoelhado aos pés do leito)

Meus prantos sirvam apenas
Pra umedecer teus cabelos,
Como da corça nos velos
Fresco orvalho a resvalar!
Pra molhar a flor, que aspires,
Rolem prantos de meus olhos,
Pra atravessar os escolhos
Meus prantos manda rolar!...

Meus prantos sirvam apenas
Pra a terra, em que tu pisares,
Pra a sede, em que te abrasares,
Terás meu sangue, Senhor!
Meus prantos são óleo humilde
Que eu derramo a tuas plantas...

(Mário estende-lhe os braços)

Mas se acaso me levantas
Meus prantos dizem-te amor!...

Mário (tendo-a contra o seio)

Sentir que a vida vai fugindo aos poucos
Como a luz, que desmaia no ocidente...
E boiar sobre as ondas do sepulcro,
Como Ofélia nas águas da corrente...

Sentir o sangue espanadar do peito
— Licor de morte — sobre a boca fria,
E meu lábio enxugar nos teus cabelos,
Como Rolla nas tranças de Maria.

De teus braços fazer o diadema
De minha vida, que desmaia insana,
Esquecer o passado em teu regaço,
Como Byron aos pés da Italiana;

Em teu lábio molhado e perfumoso
O licor entornar de minha vida...
Escutar-te nas vascas da agonia,
Como Fausto as canções de Margarida!

Eis como eu quero — na embriaguez da morte...
Do banquete no chão pender a fronte...
Inda a taça empunhando de teus beijos
Sob as rosas gentis de Anacreonte!...

(A noite tem descido pouco a pouco, o luar penetrando pela alcova alumia o grupo dos amantes)

SÍLVIA

Que palidez, meu poeta,
Se estende na face tua!...

MÁRIO

São os raios descorados,
Os alvos raios da lua!

SÍLVIA

Mas um suor de agonia
Teu peito ardente tressua ...

MÁRIO

São os orvalhos, que descem
Ao frio clarão da lua.

SÍLVIA

Que mancha é esta sangrenta,
Que no teu lábio flutua?

MÁRIO

São as sombras de uma nuvem
Que tolda a face da lua!

SÍLVIA

Como teus dedos esfriam
Sobre minha espádua nua! ...

MÁRIO (distraído)

Não vês um anjo, que desce,
No frouxo clarão da lua?

SÍLVIA

Mário? Não vês quem te chama?...
Tua amante... Sílvia... a tua...

MÁRIO (desmaiando)

É a morte que me leva
Num frio raio da lua! ...

(O poeta cai semimorto sobre o leito. No espasmo sua
mão contraída prende uma trança da moça.)

SÍLVIA

Teus brancos dedos fecharam
De meu cabelo a madeixa,
Tua amante não se queixa...
Bem vês... cativa ficou.
Mas não se prende o desejo
Que nalma acaso se aninha!...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou?

(Ouve-se um relógio dar horas.)

Já! tão tarde! E embalde tento
Abrir-te os dedos fechados...
Como frios cadeados,
Que o teu amor me lançou.
Porém se aqui me cativas
Minhalma foge-te asinha...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou!

(Debruça-se a escrever numa carteira.)

"Paulo! Vem à meia-noite...
Mário morre! Mário expira!
Vem que minha alma delira
E embalde cativa estou. . . "

MÁRIO (que tem lido por cima de seu ombro)

Sílvia! a morte abre-me os dedos,
És livre, Sílvia... caminha!
(morrendo)
Minhalma é como a andorinha,
Que alegre o fio quebrou.

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Castro Alves

Castro Alves

OITAVAS A NAPOLEÃO

(Tradução do espanhol, de LOZANO)

Águia das solidões!... Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flamígero cometa suspendido
Sobre o céu infinito das idades.
Tu que, no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas régias claridades...
Deus caído do trono dos mais deuses
Quem recebeu teus últimos adeuses?

Não foram as Pirâmides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as águas do Nilo, que te viram,
E coas ondas teu nome murmuraram...
Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... te aclararam...
Quem foi? Silêncio!.. trêmulo de medo
Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo...

A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram pra tua planta de gigante,
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, flutuante
Como diadema — os sóis... E como leito
O antártico pólo de diamante...
Teu féretro qual foi?... Titão do Sena,
O penhasco fatal de Santa Helena...

Assassina do Encélado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora...
Por quê? Porque um pedaço aí de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! Lá sencerra
Tua lenda mais hórrida... Traidora!
Lá seu espectro envolto, na mortalha
Aos quatro céus a maldição espalha...

Ao leão, que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor ele ferido
Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...

Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes — soerguida!?...
E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...
Enquanto ao longe do colosso a vida,
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.

2 033
Alexei Bueno

Alexei Bueno

Ode IX

Só superando encontramos alguma alegria,
Escravos dialéticos de um delírio de opostos,
Só esmagando, só conquistando, nunca por nós mesmos repletos,
Só penetrando nos muros. E quantas cidades tomadas,
Mesmo portão gargalhando e estirando uma língua de fogo,
Gritam vermelhas e ardem nas nossa íris exaustas.

Só pisando subimos,
Só derrotando vencemos,
Só conformando o outro a nós o amor nos alcança,
E tudo isso com sermos, seguramente sermos o outro
Até que nada nos reste de escapatória ou abrigo.

Não somos, não seremos nunca
Como Dionisos, ébrio conquistando a Índia
Entre tambores e tirsos, aclamado das ninfas, dos sátiros,
Um ramo de vinha é o seu chicote, um nariz vermelho a sua espada,
E os conquistados o aplaudem e beijam e vêm engrossar o triunfo
Que Pã conduz na vanguarda, tocando na flauta.

...Mas onde estará ele agora, em que escarpa, em que umbrosa
Solidão de enluarados galhos, rirá ainda o pai da alegria?
Nenhum devoto liba em suas aras, os ecos somente
Veneram-no ainda. De que rirá, que verá que nós nunca veremos,
O desterrado senhor de um plácido pacto entre os homens,
Enquanto nós por aqui, às seis horas da tarde,
Em meio às latas de lixo, descemos em bando às entranhas da terra?

Fulminante é qualquer nossa glória, pisando os caídos,
Que outra alegria além desta e da arte, da prece e do amor nos foi dada?

( — Ouçam, nenhum navio aparecerá.
Que ficará de nós? E no entanto matamos,
Sem pena, sem pranto, por sermos por último a festa dos peixes.)

Pois vejam como ele caminha,
Vejam como ele avança,
O filho de Filipe, o descendente de Hércules, deiforme e invicto,
Vejam como ele marcha
Sobre Darios vencidos e humilhadíssimas púrpuras,
E abraça as muralhas, e salta os desertos, e aplaina as montanhas,
Novo Aquiles sem flecha de Páris que o acerte, humanismo deus
Musculoso e potente em beleza triunfante.

Se nos fosse dado ser isso,
Um Alexandre cada um, varrendo a Terra,
Plena nos seria a vida. Mas a bonança é a nossa inimiga,
A calmaria, não a tempestade, é que nos espera ao varar o oceano,
Nos desfiladeiros minúsculos, com o único perigo do nada,
é que nós marcharemos,
Ainda que borbulhe em nós o canto do deus, e Amor Vencedor,
Durante ou após nosso olhar, pisoteie a disputa dos vermes.

( — E mesmo que venha o navio
Que seremos além de uma sombra na história dos astros?)

E ele continua
Até a Bactriana, a Índia novamente
Sem tirsos, sem vinha, dançando despido, tomado
Da ígnea plenitude de um deus,
Como nós nunca fomos, até que um mosquito,
Invulnerável, divino, o aferroe e destrua
na corrupta cidade de inúmeras portas.

(O esquecimento é a nossa lepra, e assim, no dia final
Um dos quinze falou, um navio passara sem vê-los:
— Gravemos numa tábua nossos nomes, tudo o que sofremos,
E a preguemos no mastro. Assim talvez os homens conheçam
O que nós passamos, nós, os da Medusa. —
Todos os conheceram. Mas um pintor tosquiado,
Unicamente, o soube.)

Não, não é esta a vitória,
Antes com Roxane na beira do rio
Qual Dionisos sábio consolando Ariadne
Na vermelha Naxos.

Não é essa a vitória. Não escutes, bêbado
Com a miragem cósmica, o conselho de Krishna
Ao indeciso Arjuna,
Pois se tudo é guerra,
E o tempo a guerra é infindável, sejamos o vento
Que sussurra entre as armas, sejamos a terra
Que os sequiosos exércitos sonham e que é de ninguém,
E o silêncio imóvel
Entre dois estampidos, que a ambos devora!

Sejamos
No fragor de estandartes, a ave que os roça,
Na orgia do fogo,
A chuva infantil que inesperada desce,
No borbulhar das almas o sono viscoso
Dos caracóis no lodo,
No estampado em pânico das pegadas fugindo
Do chão que as convida
A relva que o cobre.

Pois nosso é o poder e a glória, e do que lacerarmos
No nosso corpo, o que existe, cairá nosso sangue na terra.

1 324
Castro Alves

Castro Alves

A Órfã na Sepultura

Minha mãe, a noite é fria,
Desce a neblina sombria,
Geme o riacho no val
E a bananeira farfalha,
Como o som de uma mortalha
Que rasga o gênio do mal.

Não vês que noite cerrada?
Ouviste essa gargalhada
Na mata escura? ai de mim!
Mãe, ó mãe, tremo de medo.
Oh! quando enfim teu segredo,
Teu segredo terá fim?

Foi ontem que à Ave-Maria
O sino da freguesia,
Me fez tanto soluçar.
Foi ontem que te calaste...
Dormiste . . os olhos fechaste...
Nem me fizeste rezar! ...

Sentei-me junto ao teu leito,
Stava tão frio o teu peito,
Que eu fui o fogo atiçar.
Parece que então me viste
Porque dormindo sorriste
Como uma santa no altar.

Depois o fogo apagou-se,
Tudo no quarto calou-se,
E eu também calei-me então.
Somente acesa uma vela
Triste, de cera amarela,
Tremia na escuridão.

Apenas nascera o dia,
À voz do maridedia
Saltei contente de pé.
Cantavam os passarinhos
Que fabricavam seus ninhos
No telhado de sapé.

Porém tu, por que dormias,
Por que já não me dizias
"Filha do meu coração?"
Stavas aflita comigo?
Mãe, abracei-me contigo,
Pedi-te embalde perdão...

Chorei muito! ai triste vida!
Chorei muito, arrependida
Do que talvez f iz a ti.
Depois rezei ajoelhada
A reza da madrugada
Que tantas vezes te ouvi:

"Senhor Deus, que após a noite
"Mandas a luz do arrebol,
"Que vestes a esfarrapada
"Com o manto rico do sol,

"Tu que dás à flor o orvalho,
"Às aves o céu e o ar,
"Que dás as frutas ao galho,
"Ao desgraçado o chorar;

"Que desfias diamantes
"Em cada raio de luz,
"Que espalhas flores de estrelas
"Do céu nos campos azuis;

"Senhor Deus, tu que perdoas
"A toda alma que chorou,
"Como a clícia das lagoas,
"Que a água da chuva lavou;

"Faze da alma da inocente
"O ninho do teu amor,
"Verte o orvalho da virtude
"Na minha pequena flor.

"Que minha filha algum dia
"Eu veja livre e feliz! ...
"Ó Santa Virgem Maria,
"Sê mãe da pobre infeliz."

Inda lembras-te! dizias,
Sempre que a reza me ouvias
Em prantos de a sufocar:
"Ai! têm orvalhos as flores,
"Tu, filha dos meus amores,
"Tens o orvalho do chorar".

Mas hoje sempre sisuda
Me ouviste... ficaste muda,
Sorrindo não sei pra quem.
Quase então que eu tive medo...
Parecia que um segredo
Dizias baixinho a alguém.

Depois... depois... me arrastaram...
Depois... sim... te carregaram
Pra vir te esconder aqui.
Eu sozinha lá na sala...
Stava tão triste a senzala...
Mãe, para ver-te eu fugi...

E agora, ó Deus!... se te chamo
Não me respondes!... se clamo,
Respondem-me os ventos suis...
No leito onde a rosa medra
Tu tens por lençol a pedra,
Por travesseiro uma cruz.

É muito estreito esse leito?
Que importa? abre-me teu peito
— Ninho infinito de amor.
— Palmeira — quero-te a sombra.
— Terra — dá-me a tua alfombra.
— Santo fogo — o teu calor.

Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta
Minha mãe... meu céu... meu Deus...

3 008
Castro Alves

Castro Alves

Virgem dos Últimos Amores

CENA ÚNICA

É noite. A cena representa uma
floresta americana. Longe dos fogos
sangrentos da tribo. Perto os guerreiros
que rodam ao clarão do luar. O prisioneiro
espera a noiva

POR DETRÁS daquele outeiro
A morte espera a manhã!
É a morte do guerreiro,
Do bravo que não recua!...
Geme ao longe a mãe-da-lua,
Responde perto a cauã...

Nas sombras passa uma sombra!...
Balançaram nos cipós!...
Pé de moça pisa a alfombra...
Da cova enfeitam-lhe as flores...
Flor dos últimos amores!
Traz o beijo dos heróis!

Da lua a teia amarela
Estende as malhas de luz...
Na riba o caboclo vela
Ao rubro fogo da taba...
Aqui a murta desaba
Mulher! nos teus peitos nus!

A lagoa se debruça
Pra cair no ribeirão...
É minha mie quem soluça?
Não sabes filha estrangeira,
Tens a trança da palmeira...
Palmeira do coração!

Foi de jasmins amarelos
Que trançaste o canitar!
Criança, eu morro de anelos,
Dá-me beijo sobre beijo...
Tenho um séclo — por desejo!
E uma noite — por amar!

Amanhã todo este fogo
A morte vai apagar,
Arranca-me est’alma logo...
— Amai! — a noite nos clama —
— Enquanto houver uma flama! —
Um grito! um sopro! um olhar!

Teu sangue ardente galopa
Na fronte morna a bater;
Teu lábio meu lábio ensopa...
Moça! que mel nestes lábios...
São das abelhas ressábios?
São ressábios do morrer?

Pois eu já vi mil gentias
Chorar nestes braços meus,
Aquelas frutas bravias
Não São frutas que embriagam,
Teus dedos quando me afagam
Parecem dedos dos céus...

Existe uma flor na mata
Que aparece à noite só:
Abre as pétalas de prata,
Se espaneja, se colora...
Mas, aos fulgores da aurora
Murcha, expira, faz-se em pó.

Chama-se... o nome qu’mporta?
Lembro agora um sonho meu:
... Uma águia tombava morta
Das nuvens... na correnteza...
Nas garras tinha uma presa
Rolando viva... Era eu!

Por que derrubas as gotas
Do cacho do ouricuri?
São tuas miçangas rotas

Que rolam na minha frente?
Teu colar estava quente...
As contas quentes senti!

Bem sabes! Se o filho expira,
A mãe, que triste o perdeu,
Na selva o berço lhe estira
Entre a flor, a brisa, a palma...
Quando eu morrer, prende estalma
Aqui, no cabelo teus

Minha noiva derradeira,
És bela e triste ao luar!
Eu fui a garça altaneira
Cruzando as tardes vermelhas...
Dos arcos das sobrancelhas
Por que frechaste um olhar?

Caí! Caí nos teus braços,
Dela filha de Tupá!
São serpentes teus abraços,
Mas são serpentes que beijam!...
São lianas que festejam
Os galhos de piquiá.

Já, mais fria a serenada
Resvala pelos bambus...
Os ventos da madrugada
Vêm da picha, vêm do norte...
Não ouves, falando em morte?
... Eu amo os teus ombros nus!...

Teus ombros... Mas ficas branca
Vendo o céu enbranquecer!?
É a alvorada que espanca
Os mochos e dentre as flores,
Aos pombos arruladores
Manda cantar... Vou morrer!

Vem! Os astros emurchecem...
Só resta um deles nos céus.
Seus raios grandes parecem
As pétalas da magnólia...
É a estrela que se esfolha
Quando a noite diz adeus.

Fita os olhos nela... um beijo...
Um beijo... antes do arrebol!...
Inda brilha... inda um desejo...
Eia! Ao raio derradeiro!...

..................................

Adeus! noiva do guerreiro!
Salve, ó morte! Salve, ó sol!!!

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