Poemas neste tema
Morte e Luto
António Ramos Rosa
A Transparência
a Maria da Glória Padrão
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
1 214
António Ramos Rosa
A Metamorfose Branca
Por toda a parte
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
1 045
António Ramos Rosa
Oscilação No Branco
A oscilação quase, quase pressentida, de um vocábulo ou de uma lâmpada branca. Mas o que oscila, invisível (quase?) não é palavra nem objecto. Poderá ser para um efeito poético uma nuvem ou uma sombra. Não é nada. Nem sequer oscila. Quem escreve sente a matéria gráfica e o branco da superfície da página. O que se passa? Alguém expira. O silêncio é feito da sufocação de uma impossível agonia. Ao sol. Na plenitude do sol. Na plenitude do branco. O que, talvez, oscile será o sentido absoluto de que livro, de que estranha estranheza e ilegível livro? Nenhuma frase pode corresponder à agonia dos que já não podem morrer e sucumbem infindavelmente na sua impossível morte. Nenhuma frase, nenhuma palavra… mas a brancura do sentido que a um tempo corrói e exalta os vocábulos, não é para a definitiva nudez que aponta sem que no entanto a possa alguma vez dizer?
1 121
António Ramos Rosa
Para Unir o Ar Ao Ar
Para unir o ar ao ar nos cimos cintilantes…
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
1 067
António Ramos Rosa
Dói-Me Uma Noite de Terra Sobre a Fronte
Dói-me uma noite de terra sobre a fronte
mínimo coral nocturno suspensão presente
— promontório
sem a memória das imagens
no círculo
dos derradeiros insectos
mínimo coral nocturno suspensão presente
— promontório
sem a memória das imagens
no círculo
dos derradeiros insectos
1 001
António Ramos Rosa
Com a Terra de Amanhã
Com a terra de amanhã
sem o corpo da terra
deslizando
na brancura do branco
sem o corpo da terra
deslizando
na brancura do branco
1 110
António Ramos Rosa
Um Mar Furtivo Entre Dois Ventos
Um mar furtivo entre dois ventos
no limite
das árvores as vagas
no papel áridas asas
uma cabeça oca branca entre algas dedos
transparência da luz alta
sobre as pálpebras
ávida morte nua lápide da sombra
no limite
das árvores as vagas
no papel áridas asas
uma cabeça oca branca entre algas dedos
transparência da luz alta
sobre as pálpebras
ávida morte nua lápide da sombra
1 059
António Ramos Rosa
88. Como Dizê-Lo: Ei-Lo, Aqui
88
Como dizê-lo: ei-lo, aqui
não imagem, não aspecto da figura
mas o incêndio de todas as imagens.
Como dizer a referência absoluta
irreal da folhagem no cavalo
da fuga absoluta, pedra e não pedra
água e não água, terra absoluta.
Como dizer-te, tu que não és tu nem nada
que és a figura desfeita na terra putrefacta
este resto impuro onde se afunda a boca.
Março-Maio de 1978
Como dizê-lo: ei-lo, aqui
não imagem, não aspecto da figura
mas o incêndio de todas as imagens.
Como dizer a referência absoluta
irreal da folhagem no cavalo
da fuga absoluta, pedra e não pedra
água e não água, terra absoluta.
Como dizer-te, tu que não és tu nem nada
que és a figura desfeita na terra putrefacta
este resto impuro onde se afunda a boca.
Março-Maio de 1978
997
António Ramos Rosa
17. Purificada Pela Paz Dos Olhos Lindos
17
Purificada pela paz dos olhos lindos
sob o arbusto frio
ilimitada a pobreza a amêndoa incorruptível.
Filha de quem dormindo sob
a ameaça da sílaba sinistra
filha de nada e da noite da árvore.
Por quem a sílaba formada
por quem ou pela nuvem enublada
armada pela mão da morte armada.
Purificada pela paz dos olhos lindos
sob o arbusto frio
ilimitada a pobreza a amêndoa incorruptível.
Filha de quem dormindo sob
a ameaça da sílaba sinistra
filha de nada e da noite da árvore.
Por quem a sílaba formada
por quem ou pela nuvem enublada
armada pela mão da morte armada.
1 100
António Ramos Rosa
20. de Amor — Na Pedra E Cinza Verde
20
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
915
António Ramos Rosa
21. Não Ao Espelho Em Que Ela Se Retira
21
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
1 087
António Ramos Rosa
À Memória de Vítor Matos E Sá
Não te encontrarei antes da noite
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
976
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
636
António Ramos Rosa
O Corpo Sob As Palavras
à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
1 065
António Ramos Rosa
2. o Círculo de Cal
Lugar último indecifrável noite e mar
com que principio um não à morte no verão das veias
algo se rasga ventre e boca contra o vento
assalto às vértebras no nevoeiro do promontório
língua ou boca que abro ao vasto círculo
âmbito do silêncio branco lugar mortal oceano
um grito me percorre e rasga os olhos
a espuma verde o suor na boca a voragem do silêncio
Nenhum lugar para a boca rosto sufocado
palavra regelada brancura escura
como romper o círculo de cal
como fundar o lugar do fogo silencioso?
Seriam lábios, ombros, púbis e o rosto
no desejo liberto, mas
como libertar a mão
e figurar o rosto
rosto sem lábios máscara do mar
ventre dos dentes putrefacção da pedra
inércia de ombros obstáculo informe
Apelo ao espaço às ervas do silêncio ao ar
As omoplatas cerram-se cerra-se o horizonte
É preciso que sulque a areia que uma sílaba trema
que se dilacere o espaço um corpo um ventre
Que aqui não é o lugar
aqui não é aqui ou é a extrema cerração
Onde o verde nesta aridez do sempre?
Mas escrevo
abro um buraco na terra
afundo-me como um osso no silêncio dos ossos
Supérflua pobre escrita inútil
precisava de garras ou de outra luta escrita
uma outra mão a outra mão que desescreve
que desespera e pulveriza e liberta o sentido
Libertarei a água desta pedra ou deste ventre
Gritarei gritarei sobre as formigas verdes
espalharei no vento nomes subversos
Consagrarei uma alta pedra a um silêncio novo
Abrirei um olho na pedra um olho lúcido liberto
Inventarei outra escrita entre os muros
Anularei a magia branca da esperança vã
Ó pedra verde ou porque não a vagina viva
a voracidade audaz de uma ruptura nova
Onde os companheiros desta extrema terra?
Eu direi o ângulo do ângulo a assimetria das cores
a chama dos seios abertos dos corpos vivos
eu direi a vida do instante no instante livre
abrirei a clareira onde o rosto ama o silêncio
onde o silêncio se ama e a terra se consagra
E tu estarás aqui contra a morte
e contra a morte da linguagem morta
ouro novo do humor das árvores
cinema dos membros revoltados livres
cimo do chão repleto de amorosos corpos
subversiva ternura contra os aparelhos sinistros
e jovens jovens jovens com as armas do amor
com que principio um não à morte no verão das veias
algo se rasga ventre e boca contra o vento
assalto às vértebras no nevoeiro do promontório
língua ou boca que abro ao vasto círculo
âmbito do silêncio branco lugar mortal oceano
um grito me percorre e rasga os olhos
a espuma verde o suor na boca a voragem do silêncio
Nenhum lugar para a boca rosto sufocado
palavra regelada brancura escura
como romper o círculo de cal
como fundar o lugar do fogo silencioso?
Seriam lábios, ombros, púbis e o rosto
no desejo liberto, mas
como libertar a mão
e figurar o rosto
rosto sem lábios máscara do mar
ventre dos dentes putrefacção da pedra
inércia de ombros obstáculo informe
Apelo ao espaço às ervas do silêncio ao ar
As omoplatas cerram-se cerra-se o horizonte
É preciso que sulque a areia que uma sílaba trema
que se dilacere o espaço um corpo um ventre
Que aqui não é o lugar
aqui não é aqui ou é a extrema cerração
Onde o verde nesta aridez do sempre?
Mas escrevo
abro um buraco na terra
afundo-me como um osso no silêncio dos ossos
Supérflua pobre escrita inútil
precisava de garras ou de outra luta escrita
uma outra mão a outra mão que desescreve
que desespera e pulveriza e liberta o sentido
Libertarei a água desta pedra ou deste ventre
Gritarei gritarei sobre as formigas verdes
espalharei no vento nomes subversos
Consagrarei uma alta pedra a um silêncio novo
Abrirei um olho na pedra um olho lúcido liberto
Inventarei outra escrita entre os muros
Anularei a magia branca da esperança vã
Ó pedra verde ou porque não a vagina viva
a voracidade audaz de uma ruptura nova
Onde os companheiros desta extrema terra?
Eu direi o ângulo do ângulo a assimetria das cores
a chama dos seios abertos dos corpos vivos
eu direi a vida do instante no instante livre
abrirei a clareira onde o rosto ama o silêncio
onde o silêncio se ama e a terra se consagra
E tu estarás aqui contra a morte
e contra a morte da linguagem morta
ouro novo do humor das árvores
cinema dos membros revoltados livres
cimo do chão repleto de amorosos corpos
subversiva ternura contra os aparelhos sinistros
e jovens jovens jovens com as armas do amor
1 098
António Ramos Rosa
Campo do Silêncio
Enfim o laço do começo e a conjuntura
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
1 082
António Ramos Rosa
Dia de Inverno
A boca fria sobre as árvores
Um dia não iluminado
Um tronco inerte
A mão ensaia a carícia no espaço
nas árvores
nos cabelos da terra
a força regelada
o homem
desceu
a rua solitária
rente ao muro
a claridade pálida
da lâmpada
A terra cheira a terra pobre
os insectos percorrem
um a um
o pulso apagado
Um dia não iluminado
Um tronco inerte
A mão ensaia a carícia no espaço
nas árvores
nos cabelos da terra
a força regelada
o homem
desceu
a rua solitária
rente ao muro
a claridade pálida
da lâmpada
A terra cheira a terra pobre
os insectos percorrem
um a um
o pulso apagado
1 118
António Ramos Rosa
Para Dizerem Sede Outrora a Estrela
Para dizerem sede outrora a estrela
era o guia azul na lentidão da praia
Hoje a aridez resume
dedo a dedo
a palavra árida
da sede
As linhas não flutuam
quebram escadas
as esquinas desdobram-se sobre os corpos
as letras interrogam as palavras
as sombras caem sobre as sombras
Para não te dizer o fogo desse luto
de um dia tão final que o branco ascenda
à cegueira das pálpebras de areia
era o guia azul na lentidão da praia
Hoje a aridez resume
dedo a dedo
a palavra árida
da sede
As linhas não flutuam
quebram escadas
as esquinas desdobram-se sobre os corpos
as letras interrogam as palavras
as sombras caem sobre as sombras
Para não te dizer o fogo desse luto
de um dia tão final que o branco ascenda
à cegueira das pálpebras de areia
993
António Ramos Rosa
A Mão Ainda Resiste
à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro
Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo
Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio ou talvez um ininteligível
grito?
O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal Tropeço
em membros de palavras um jogo
quase de acaso e pura perda
Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase um negro violento
um ruído branco áspero surdo
As árvores são de sombra Não cantam pássaros
nas sombras
As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta
A mão escreve sangue e o sangue é branco
ou negro e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio
Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes
Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre
Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos
mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse
A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma
Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro
Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo
Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio ou talvez um ininteligível
grito?
O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal Tropeço
em membros de palavras um jogo
quase de acaso e pura perda
Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase um negro violento
um ruído branco áspero surdo
As árvores são de sombra Não cantam pássaros
nas sombras
As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta
A mão escreve sangue e o sangue é branco
ou negro e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio
Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes
Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre
Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos
mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse
A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma
Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
990
António Ramos Rosa
Tem o Poder Das Águas, a Negra Mãe Fatal
Tem o poder das águas, a negra mãe fatal
que eu saúdo no sono das palavras mais duras,
tem as garras da vida, tem as unhas mortais,
a pele que ela me arranca deixa-me ao vivo
morto. Mas a água cura-me as feridas de esfolado
e novamente avanço para o centro da terra
na noite do meu sono de escrever sem saber
solto na ignorância, na liberdade incerta.
Este cavalo da vida monumento e animal
onde está ele agora? Preciso desse alento
quero criar o mundo com o seu esperma
verde. Quero fabricar contra a morte
o alento, a paz, o sono límpido
de outras palavras vitais, e de outra paz.
que eu saúdo no sono das palavras mais duras,
tem as garras da vida, tem as unhas mortais,
a pele que ela me arranca deixa-me ao vivo
morto. Mas a água cura-me as feridas de esfolado
e novamente avanço para o centro da terra
na noite do meu sono de escrever sem saber
solto na ignorância, na liberdade incerta.
Este cavalo da vida monumento e animal
onde está ele agora? Preciso desse alento
quero criar o mundo com o seu esperma
verde. Quero fabricar contra a morte
o alento, a paz, o sono límpido
de outras palavras vitais, e de outra paz.
1 072
António Ramos Rosa
Eis Uma Parede o Nome E a Sombra do Cavalo
Eis uma parede o nome e a sombra do cavalo
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
1 114
António Ramos Rosa
Os Anjos Que Conheço São de Erva E de Silêncio
Os anjos que conheço são de erva e de silêncio
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros.
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz.
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros.
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz.
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?
1 086
António Ramos Rosa
Despenhou-Se a Lâmpada Neste Papel Tão Frio!
Despenhou-se a lâmpada neste papel tão frio!
Membros dilacerados, martelos da vontade
percutem este chão de aromas acres onde
lateja a nova lâmpada dilacerada e pobre.
Lateja sob os cascos uma nova lâmpada branca
para sentar na terra das mãos o chão das árvores,
para marcar o desejo de habitar esta terra,
para viver dos elementos do círculo material.
Não descanses, cavalo, esfacela os muros da treva,
rasga-te, mas inteiro, nas raízes do mundo,
liga esta ponte viva entre a morte e a vida.
Peço aqui o silêncio de uma plácida mancha
para que o óleo alimente o olhar do cavalo
e que a terra prossiga sua vitória rasa.
Membros dilacerados, martelos da vontade
percutem este chão de aromas acres onde
lateja a nova lâmpada dilacerada e pobre.
Lateja sob os cascos uma nova lâmpada branca
para sentar na terra das mãos o chão das árvores,
para marcar o desejo de habitar esta terra,
para viver dos elementos do círculo material.
Não descanses, cavalo, esfacela os muros da treva,
rasga-te, mas inteiro, nas raízes do mundo,
liga esta ponte viva entre a morte e a vida.
Peço aqui o silêncio de uma plácida mancha
para que o óleo alimente o olhar do cavalo
e que a terra prossiga sua vitória rasa.
1 044
António Ramos Rosa
À Luz Crua
Sob as palavras
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca
unha de silêncio
pedra morte e sol.
De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,
rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?
Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso
e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua
virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca
unha de silêncio
pedra morte e sol.
De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,
rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?
Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso
e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua
virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
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