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Poemas neste tema

Morte e Luto

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Limite da Noite, Princípio do Corpo

Escolho o lugar do vento, o sopro
da lâmina.
Um sulco rasga o corpo. Não há nomes.
Quero os ombros mais rápidos na frescura.
Há uma entrada no chão? Há uma trave.
Esta é a proa de uma ave estilhaçada.
Quem resiste? E onde? Esta pedra é uma ilha.
Caminho acaso ou divago entre sombras?

Eu não sei se caminho, se destruo o lugar.
Cego avanço numa paisagem branca.
Entre ossos e cinza procuro a luz de um templo.
De vértebras estilhaçadas, avanço no interminável
átrio.

As palavras sonham talvez aqui, excessivas, ofegantes
na sua nulidade. Ouve-se acaso
o rumor do sangue? Eu digo e não vejo,
digo este deserto esta sede este sopro nulo.

Quem habita o caminho que se apaga,
procuro o sossego de um silêncio habitável,
o princípio do corpo.

Quem espera ainda um nome? Eu escolhi o lugar
do vento. Para dormir no alto
da folha. Estar com o céu estrelado e as cigarras
no frágil tumulto do silêncio do lugar.
E a nudez do mar, a nudez do corpo vivo.
Estilhaçado vivo ainda, vivo ou morro?
Quem escreve é uma sombra, quem respira é uma sombra?
O corpo não respira. Ardem apenas sílabas
no vento.

Estou vivo na pedra. Entro na página
e sob a cinza atinjo uma palavra nua.
Há um sinal de insecto e uma obscura estrela
no cimo do vagar.
Alguém se detém na noite vertical
e diz: é aqui,
o templo está vivo na poeira.
E eu morro na margem inacessível, escrevo
para as órbitas vazias
para o abismo da morte.

Abjectas sombras ou amorosas sombras.
Luz em excesso, luz da palavra autoritária,
frígida.

Quem pode esperar ou caminhar ou respirar
se tudo em torno apodrece no círculo?
Escrevo no meio do esterco e da cinza.
Que ninguém me responda.
Quem pode erguer o corpo?
Caem amorosas sombras, amorosas, vivas.

O sopro da lâmina para quem perdeu a terra.
O lugar do vento. O lugar da claridade
móvel. Reúne
aqui a fugaz eternidade. Mais
rápidos os ombros na frescura.
E a noite do corpo, a vermelha noite
do corpo
no limiar da terra.
No meio de destroços, de sílabas perdidas,
canto cego e nu.
Quem povoa este deserto, quem partilha o crime
de escrever à margem sem o corpo,
quem ama o templo do instante renascido
da poeira, o silêncio
habitável,
a nudez luminosa além dos ossos e das cinzas?

A voz obscura a voz que cega este caminho branco
enuncia o horror
da violência permanente e do desastre.
Eu digo aqui o amontoado mudo dos sinais
a paragem da roda sinistra
o oco de umas sílabas sem sombra.

Que luz ainda se ergueria que arco de espuma
por que veredas matinais por que colinas
onde as raparigas adormecem com o sol
que nostalgia de palavras ébrias
que trabalho feliz junto das árvores
que coincidência com o movimento da terra
que relação tão vasta e tão serena
não mais que uma passagem tranquila
em que o espaço se dilata espaço lúcido.

Que seria se eu avançasse sem sinais?
Um sinal ainda. No centro, ao lado.
Um animal submerso, uma rapariga nua?
Esquece ou não esqueças. Espera
o imprevisível. Trabalha no obscuro.
Respira com o fogo, respira com a sombra.
Caminha ao encontro das raízes do espaço.
Nada mais que uma relação, uma passagem.
Múltipla de olhos diversos repousada
no centro vazio do movimento
a língua azul e que anéis de claridade
que bálsamo no ventre que primavera de sombra
que segredos que noite tranquila em pleno dia!
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Transparência

a Maria da Glória Padrão
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão Ainda Resiste

à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro

Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo

Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio                    ou talvez um ininteligível
grito?

O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal                 Tropeço
em membros de palavras         um jogo
quase de acaso e pura perda

Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase                um negro violento
um ruído branco     áspero     surdo

As árvores são de sombra     Não cantam pássaros
nas sombras

As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta

A mão escreve sangue            e o sangue é branco
ou negro                             e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio

Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes

Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre

Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos

mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse

A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma

Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

2. o Círculo de Cal

Lugar último indecifrável     noite e mar
com que principio um não à morte no verão das veias
algo se rasga ventre e boca contra o vento
assalto às vértebras no nevoeiro do promontório
língua ou boca que abro ao vasto círculo
âmbito do silêncio branco    lugar mortal    oceano
um grito me percorre e rasga os olhos
a espuma verde o suor na boca a voragem do silêncio

Nenhum lugar para a boca     rosto sufocado
palavra regelada     brancura escura
como romper o círculo de cal
como fundar o lugar do fogo silencioso?

Seriam lábios, ombros, púbis e o rosto
no desejo liberto, mas
como libertar a mão
e figurar o rosto
rosto sem lábios máscara do mar
ventre dos dentes putrefacção da pedra
inércia de ombros     obstáculo informe

Apelo ao espaço às ervas do silêncio ao ar
As omoplatas cerram-se cerra-se o horizonte
É preciso que sulque a areia que uma sílaba trema
que se dilacere o espaço um corpo um ventre

Que aqui não é o lugar
aqui não é aqui ou é a extrema cerração
Onde o verde nesta aridez do sempre?
Mas escrevo
abro um buraco na terra
afundo-me como um osso no silêncio dos ossos

Supérflua pobre escrita inútil
precisava de garras ou de outra luta escrita
uma outra mão a outra mão que desescreve
que desespera e pulveriza e liberta o sentido

Libertarei a água desta pedra ou deste ventre
Gritarei gritarei sobre as formigas verdes
espalharei no vento nomes subversos
Consagrarei uma alta pedra a um silêncio novo
Abrirei um olho na pedra um olho lúcido liberto

Inventarei outra escrita entre os muros
Anularei a magia branca da esperança vã
Ó pedra verde ou porque não a vagina viva
a voracidade audaz de uma ruptura nova

Onde os companheiros desta extrema terra?
Eu direi o ângulo do ângulo a assimetria das cores
a chama dos seios abertos dos corpos vivos
eu direi a vida do instante no instante livre
abrirei a clareira onde o rosto ama o silêncio
onde o silêncio se ama e a terra se consagra

E tu estarás aqui contra a morte
e contra a morte da linguagem morta
ouro novo do humor das árvores
cinema dos membros revoltados livres
cimo do chão repleto de amorosos corpos
subversiva ternura contra os aparelhos sinistros
e jovens jovens jovens com as armas do amor
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Sob As Palavras

à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore

Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra

Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha     Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa

Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia

Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho

Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio

O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha

Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra     azul

Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?

Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio

Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.

O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?

Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?

O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva

Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido

Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra

Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra

As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio

Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca

Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda

Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez

Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono

Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra

e fria

O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca

Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra

O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca

Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas

E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)

Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
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