Poemas neste tema
Morte e Luto
Ruy Belo
Prince Caspian
Quantas vezes subimos para ele se porventura é ele como a raiz da terra sequiosa?
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?
As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados
Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.
Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural
Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde
E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.
Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar
Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis
Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim
Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?
As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados
Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.
Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural
Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde
E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.
Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar
Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis
Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim
Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 341
Ruy Belo
Laboratório (2)
Não foi aquela a cara a quem a morte
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-
dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?
Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista
esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-
dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?
Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista
esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 016
Ruy Belo
No tumulo de sardanapalo
Umas dezenas de anos boa idade
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar
Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia
Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar
Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar
Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia
Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar
Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 333
Nuno Júdice
Ouvindo Schumann
Na rua, com o calor, não se pode estar; e
dentro de casa o piano martela a cabeça, trazendo
à superfície os piores sentimentos. Porém, escolho
a melancolia: e vejo a alma magoada sair
do espelho da parede e sentar-se no meio
da sala, segurando a cabeça entre as mãos
para que a falta de certezas não a destrua.
E a música insiste: uma peça romântica,
onde é visível a noção de um sentido que desenha
todo o campo abstracto do sofrimento. E ao fechar
os olhos, quem a ouve imagina o gesto preciso
de cada um dos dedos sobre as teclas,
procurando chegar ao fim, mas sabendo que
esse fim não é mais do que o princípio.
«Sim, digo-te, vem comigo até ao campo,
e escolhe a árvore sem raízes - a que nos irá
abrigar, sob o silêncio dos seus ramos.» Devagar,
deitas a melancolia para o chão, e segues-me,
confundindo o som do piano com um ritmo
de passos que, por fim, a terra engolirá.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 109 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
dentro de casa o piano martela a cabeça, trazendo
à superfície os piores sentimentos. Porém, escolho
a melancolia: e vejo a alma magoada sair
do espelho da parede e sentar-se no meio
da sala, segurando a cabeça entre as mãos
para que a falta de certezas não a destrua.
E a música insiste: uma peça romântica,
onde é visível a noção de um sentido que desenha
todo o campo abstracto do sofrimento. E ao fechar
os olhos, quem a ouve imagina o gesto preciso
de cada um dos dedos sobre as teclas,
procurando chegar ao fim, mas sabendo que
esse fim não é mais do que o princípio.
«Sim, digo-te, vem comigo até ao campo,
e escolhe a árvore sem raízes - a que nos irá
abrigar, sob o silêncio dos seus ramos.» Devagar,
deitas a melancolia para o chão, e segues-me,
confundindo o som do piano com um ritmo
de passos que, por fim, a terra engolirá.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 109 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 105
Ruy Belo
Tempora nubila
Chove há muito no mundo sobre o homem
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos
Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos
Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)
E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu
Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos
Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos
Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)
E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu
Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 324
Nuno Júdice
Anatomia
Olho este rosto, com a surpresa
da sua imobilidade. Que suspiro suspendem
os seus lábios? Que imagem se esconde
sob as pálpebras fechadas? Digo-lhe:
«Amo-te». Como se a pudesse
despertar. São outras as palavras
que a poderiam trazer de volta,
dissipando-se em nuvem no céu
da sua cabeça. «Nenhuma vida passa
duas vezes
pelo mesmo lugar», digo-lhe. E ela
sorri, como se me tivesse
ouvido.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 89 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
da sua imobilidade. Que suspiro suspendem
os seus lábios? Que imagem se esconde
sob as pálpebras fechadas? Digo-lhe:
«Amo-te». Como se a pudesse
despertar. São outras as palavras
que a poderiam trazer de volta,
dissipando-se em nuvem no céu
da sua cabeça. «Nenhuma vida passa
duas vezes
pelo mesmo lugar», digo-lhe. E ela
sorri, como se me tivesse
ouvido.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 89 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 057
Ruy Belo
Jerusalém, Jerusalém... ou Alto da Serafina
Que importa que morramos se a tarde é de sol
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grade humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 54 | Editorial Presença Lda., 1984
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grade humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 54 | Editorial Presença Lda., 1984
690
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 3
A brevidade: por vezes, a mais longa das linhas
do tempo, cruzando-se com o desejo de permanência
que sustenta a sua ilusão. Logo, porém, a realidade nos
impõe a sua regra. O que é transforma-se no que foi,
com a melancolia que arrasta o sentimento da
passagem, como se o rio pudesse parar para sempre
no instante em que a felicidade parece suspender
o seu curso. Avançamos, então, contra essas sensações
que nos trazem um esplendor de rosa, aberta ao sol
do meio-dia, antes que a sombra da tarde a atinja
com a sua seta obscura. Uma ferida sangra entre pétalas
emurchecidas; e o ramo sugere a queda nocturna, onde
uma perseguição de prazer se confunde com a inquietação
da morte.
Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Conto
cada uma das olheiras construídas no trabalho
do amor, sabendo que um vórtice de esquecimento
as restituirá à insónia da madrugada. Nessa hora, quantas
palavras trocaram esses amantes que o passado
vestiu com o seu manto de memória... Como se a manhã
não chegasse, trazendo a separação que corrói
a pele da alma, e prende toda a esperança a uma ilusão
de saudade. Por que lhe resistes?, pergunto. Em que
vazio afogarás este amor que insiste em respirar, como
se não soubesses que nada o substitui? Não
te enganes, como não se engana esse des cego às concessões
do presente, voando para os espaços mais inacessíveis,
e levando no bater das asas o mais fundo
dos abraços.
Segue esse voo com o impulso antigo; e
não percas o sabor desse filtro que os nossos lábios
trocaram, no mais solitário dos instantes.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 51 e 52 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
do tempo, cruzando-se com o desejo de permanência
que sustenta a sua ilusão. Logo, porém, a realidade nos
impõe a sua regra. O que é transforma-se no que foi,
com a melancolia que arrasta o sentimento da
passagem, como se o rio pudesse parar para sempre
no instante em que a felicidade parece suspender
o seu curso. Avançamos, então, contra essas sensações
que nos trazem um esplendor de rosa, aberta ao sol
do meio-dia, antes que a sombra da tarde a atinja
com a sua seta obscura. Uma ferida sangra entre pétalas
emurchecidas; e o ramo sugere a queda nocturna, onde
uma perseguição de prazer se confunde com a inquietação
da morte.
Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Conto
cada uma das olheiras construídas no trabalho
do amor, sabendo que um vórtice de esquecimento
as restituirá à insónia da madrugada. Nessa hora, quantas
palavras trocaram esses amantes que o passado
vestiu com o seu manto de memória... Como se a manhã
não chegasse, trazendo a separação que corrói
a pele da alma, e prende toda a esperança a uma ilusão
de saudade. Por que lhe resistes?, pergunto. Em que
vazio afogarás este amor que insiste em respirar, como
se não soubesses que nada o substitui? Não
te enganes, como não se engana esse des cego às concessões
do presente, voando para os espaços mais inacessíveis,
e levando no bater das asas o mais fundo
dos abraços.
Segue esse voo com o impulso antigo; e
não percas o sabor desse filtro que os nossos lábios
trocaram, no mais solitário dos instantes.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 51 e 52 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
948
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 120 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 120 | Editorial Presença Lda., 1984
986
Nuno Júdice
Arrufos
A rosa caída não respira, como um pássaro
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
987
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 7
Iludia-me. A morte, que é o fim
do amor, corria à solta nos temporais
da alma. Eu podia ter uma consciência
da sua presença nalguns intervalos bruscos,
quando os teus passos me faltavam, e
só uma nova respiração, atrás de mim, me
restituía o ânimo da ascensão. Tu,
liberta dessa morte que te prendia os lábios,
dizias-me: não me deixes! Como se fosse
preciso dizê-lo! E não fosses tu a única
razão dessa viagem a que dei o nome
vida, sabendo que a sua única verdade é esse
amor. Porém, os nossos lábios não se
encontravam na certeza do tempo.
O futuro instalou a sua distância naquilo
que é o presente, com a sua duração inscrita
no destino dos que conheceram uma
coincidência de um e outro, o olhar uníssono
dos amantes, o brusco repouso de uma
ânsia de espaço. Aqui, a distância é o que não
separa; o medo da mudança dissipa-se;
e a recordação é o que está depois do que foi
vivido, como se fosse a memória a construir
o dia de amanhã.
Quis arrancar-te, assim, ao destino ― e
libertar-me, eu próprio, da sua sujeição. Quantos
rostos se fixaram no teu, para que em ti
eu visse cada uma das imagens por onde passei,
restituindo-lhes uma respiração humana. Procurei-te
enquanto imaginei que me procuravas ― e
cada passo que dava, na minha descida, afastava
tudo o que eu perdia enquanto descia. Nesse outro
mundo, em que nos reduzimos a nós, afastando
do que somos tudo o que nos opunha,
não dei por que um cansaço de ser me obrigava
ao regresso. Tê-lo-ei feito cedo demais? Por
que me voltei, então, como se soubesse que
as sombras não pedem que as olhemos,
e deixei que te prendessem com a sua
inquietação de fumo?
No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 58 e 59 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
do amor, corria à solta nos temporais
da alma. Eu podia ter uma consciência
da sua presença nalguns intervalos bruscos,
quando os teus passos me faltavam, e
só uma nova respiração, atrás de mim, me
restituía o ânimo da ascensão. Tu,
liberta dessa morte que te prendia os lábios,
dizias-me: não me deixes! Como se fosse
preciso dizê-lo! E não fosses tu a única
razão dessa viagem a que dei o nome
vida, sabendo que a sua única verdade é esse
amor. Porém, os nossos lábios não se
encontravam na certeza do tempo.
O futuro instalou a sua distância naquilo
que é o presente, com a sua duração inscrita
no destino dos que conheceram uma
coincidência de um e outro, o olhar uníssono
dos amantes, o brusco repouso de uma
ânsia de espaço. Aqui, a distância é o que não
separa; o medo da mudança dissipa-se;
e a recordação é o que está depois do que foi
vivido, como se fosse a memória a construir
o dia de amanhã.
Quis arrancar-te, assim, ao destino ― e
libertar-me, eu próprio, da sua sujeição. Quantos
rostos se fixaram no teu, para que em ti
eu visse cada uma das imagens por onde passei,
restituindo-lhes uma respiração humana. Procurei-te
enquanto imaginei que me procuravas ― e
cada passo que dava, na minha descida, afastava
tudo o que eu perdia enquanto descia. Nesse outro
mundo, em que nos reduzimos a nós, afastando
do que somos tudo o que nos opunha,
não dei por que um cansaço de ser me obrigava
ao regresso. Tê-lo-ei feito cedo demais? Por
que me voltei, então, como se soubesse que
as sombras não pedem que as olhemos,
e deixei que te prendessem com a sua
inquietação de fumo?
No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 58 e 59 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 207
Nuno Júdice
Cassandra
Sonhou ler o destino; e desejou nunca
o ter feito. Deixou de olhar para os homens,
quando adivinhou a sua morte; e desafiou
o céu, quando descobriu que nada existe
para além do azul. Percebo, pela
contracção da sua coxa, que esboça
o desejo de se erguer; mas os braços
caem para trás das costas,
como se não tivesse já para
onde ir. No entanto, o fogo
que arde no altar ilumina-lhe
o rosto, condenando-a a ver
tudo o que acontece: os incêndios
que devastam a terra, um massacre
de mulheres, a inutilidade
das súplicas. E entrega-se a todos
os que passam à sua frente,
pedindo-lhes que apaguem a chama
para que um manto de treva
lhe cubra o corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 71 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o ter feito. Deixou de olhar para os homens,
quando adivinhou a sua morte; e desafiou
o céu, quando descobriu que nada existe
para além do azul. Percebo, pela
contracção da sua coxa, que esboça
o desejo de se erguer; mas os braços
caem para trás das costas,
como se não tivesse já para
onde ir. No entanto, o fogo
que arde no altar ilumina-lhe
o rosto, condenando-a a ver
tudo o que acontece: os incêndios
que devastam a terra, um massacre
de mulheres, a inutilidade
das súplicas. E entrega-se a todos
os que passam à sua frente,
pedindo-lhes que apaguem a chama
para que um manto de treva
lhe cubra o corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 71 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 183
Ruy Belo
Inscrição
Na face dele havia risos vivos
que lhe escorriam da alma para a boca
Já cá não está já não pisa estes prados
nem sobre ele se desdobra rubro este céu
Não há para ele palavra possível
Ele é como a camélia que morreu
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
que lhe escorriam da alma para a boca
Já cá não está já não pisa estes prados
nem sobre ele se desdobra rubro este céu
Não há para ele palavra possível
Ele é como a camélia que morreu
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
1 031
Ruy Belo
Quirógrafo
É tão depressa dia e nada nos redime
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
1 183
Ruy Belo
Glauco e Diomenes
Assim como na noite o dia se contém
e o sol ao fim da trajectória em lua se resolve
assim emerge o homem dessa mesma terra mãe
que o há-de receber com mãos de quem o absolve
Assim de dia em dia assim de longe em longe vem,
como mar que onda a onda se dissolve
na praia do início, a dúvida que alguém
sobre si mesmo tem e todo se revolve
Assim a noite, assim o mar também
e se alguém nasce doutrem e se um filho
começa pela mãe, assim do filho a mãe
renasce, assim redondo sai o trilho
E por maior cadáver que na carne leve
a ave retransmite à ave tudo quanto vive
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 107 | Editorial Presença Lda., 1984
e o sol ao fim da trajectória em lua se resolve
assim emerge o homem dessa mesma terra mãe
que o há-de receber com mãos de quem o absolve
Assim de dia em dia assim de longe em longe vem,
como mar que onda a onda se dissolve
na praia do início, a dúvida que alguém
sobre si mesmo tem e todo se revolve
Assim a noite, assim o mar também
e se alguém nasce doutrem e se um filho
começa pela mãe, assim do filho a mãe
renasce, assim redondo sai o trilho
E por maior cadáver que na carne leve
a ave retransmite à ave tudo quanto vive
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 107 | Editorial Presença Lda., 1984
1 954
Ruy Belo
Miséria e grandeza
Nem uma só pegada nos deixaste
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos
Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos
Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
880
Ruy Belo
As duas mortes
A noite desce ainda somos jovens
Morrer é deixar isto a este lado
De nada serve já
o diálogo com vozes silêncios
na praia a nosso lado
Amanhã molharemos
o corpo noutro dia e beberemos
na bica costumada
onde poderá subitamente correr
uma canção conhecida
Cada dia mais morte que morte
haverá para nós no fim dos dias?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 46 | Editorial Presença Lda., 1984
Morrer é deixar isto a este lado
De nada serve já
o diálogo com vozes silêncios
na praia a nosso lado
Amanhã molharemos
o corpo noutro dia e beberemos
na bica costumada
onde poderá subitamente correr
uma canção conhecida
Cada dia mais morte que morte
haverá para nós no fim dos dias?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 46 | Editorial Presença Lda., 1984
1 232
Ruy Belo
A pressão dos mortos
Fechas a mala do carro cheia de bagagem. E de súbito apercebes-te de que não é novo o gesto. Muitas vezes o viste já repetir. A muitas horas do dia, mas nunca como num fim de tarde. Qualquer que fosse a paisagem, a mesma paisagem: a terra calcinada, o canto das cigarras, o ar espesso do vapor a provocar a rarefacção das coisas vistas e a dar-lhes um ar de miragem. Fecha-se o tampo do caixão sobre a cara conhecida para todo o sempre. Nem se levanta o problema da eternidade. Esta terra é que tu amaste com todas a contrariedades e os problemas quotidianos. Amaste homens que por vezes talvez te tenham dado na cara e eram deliciosamente imperfeitos como tu. E tiveste de te despedir deles. Já não eram daqui. Já tinham problemas de mortos. Já se falava deles no imperfeito e não no presente. Mudou um simples tempo de verbo e tudo mudou. Um último olhar a essa caixa de mau gosto. Gostarias de atirar um torrão, como em criança, para esconjurar os maus sonhos. Mas falta-te a inocência. Decisivamente, tens de fechar com força a mala do carro. E pedes que te ponham os pneus à pressão 22. A pressão dos mortos.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 182 e 183 | Editorial Presença Lda., 1984
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 182 e 183 | Editorial Presença Lda., 1984
895
Ruy Belo
Para dizer devagar
Pelo menos que ao fim teus sacramentos cubram de coragem
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 149
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
869
Ruy Belo
Maran Atha
Eu sou senhor aquele que sente
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte
Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 32 | Editorial Presença Lda., 1984
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte
Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 32 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo
Humphrey Bogart
Era a cara que tinha e foi-se embora
Mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
Devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
Não é verdade meu irmão humphrey bogart?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
Mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
Devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
Não é verdade meu irmão humphrey bogart?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 375
Ruy Belo
Efeitos secundários
É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
o outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes
Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?
Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 106 e 107 | Editorial Presença Lda., 1984
o outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes
Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?
Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 106 e 107 | Editorial Presença Lda., 1984
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