Poemas neste tema
Música
Edmir Domingues
soneto XIV - Um mundo como o nosso
A caravana estranha, grave e estranha,
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
684
Edmir Domingues
A bailarina dos sapatinhos de Andersen
De rua ou palco em sombras surge a imagem
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
620
Edmir Domingues
soneto XVI - Cais da China
E estando nós vestidos de amarelo
veio o cais certo dia ao mar fendido,
vago e leve, de aspecto indefinido,
tão quase nós de tímido e singelo.
E ao céu de desembarque e de atropelo
em sangue e quase pássaro ferido,
uma canção havíamos pedido,
um som qualquer, de flauta ou violoncelo.
Nós gostamos de música e de dança,
vivemos de canções e de esperança
se não dormidos de ópio e de morfina.
E era de ver, os bonzos de mãos dadas
com limpa-chaminés, em mascaradas,
nos ângulos sem luz de um cais da China.
veio o cais certo dia ao mar fendido,
vago e leve, de aspecto indefinido,
tão quase nós de tímido e singelo.
E ao céu de desembarque e de atropelo
em sangue e quase pássaro ferido,
uma canção havíamos pedido,
um som qualquer, de flauta ou violoncelo.
Nós gostamos de música e de dança,
vivemos de canções e de esperança
se não dormidos de ópio e de morfina.
E era de ver, os bonzos de mãos dadas
com limpa-chaminés, em mascaradas,
nos ângulos sem luz de um cais da China.
797
Edmir Domingues
Galope sobre as águas
E fomos todos nós à beira d´água
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
546
Nuno Júdice
Ouvindo o violino
Com o pé na cadeira, prepara-se para se
vestir; e o homem do violino nem repara que
ela está em cima da mesa, onde ainda ficou
a garrafa que ele quase esvaziou, até
ela lhe pedir que tocasse, enquanto
se veste para a noite de S. João. Aí,
nas aldeias junto aos lagos, as raparigas
fogem para as florestas, à espera do escuro
que não há-de chegar; mas não é para isso
que ela se veste. A sua juventude esvazia-se,
como o vinho na garrafa; e ao olhar para
o músico, o que ela pensa é se ele não
será uma pura abstracção, inventando a melodia
que ela gostaria de ouvir. E também poderia
sair atrás dele, para o meio da floresta onde
iria acender uma fogueira, antes que as amigas
chegassem. Mas a roupa que tem não serve
para uma festa; e o cabelo curto descobre-lhe
o pescoço, que a luz envolve, embora o
homem do violino não se preocupe com
a sua presença. Assim, ela sairá de cima da
mesa, deixando-o acabar a sua peça; e
meter-se-á na cama, enterrando os olhos
na almofada para não ver o sol que ainda
entra pela janela, depois do dia acabar, e
de todas as amigas se perderem na floresta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 88 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
vestir; e o homem do violino nem repara que
ela está em cima da mesa, onde ainda ficou
a garrafa que ele quase esvaziou, até
ela lhe pedir que tocasse, enquanto
se veste para a noite de S. João. Aí,
nas aldeias junto aos lagos, as raparigas
fogem para as florestas, à espera do escuro
que não há-de chegar; mas não é para isso
que ela se veste. A sua juventude esvazia-se,
como o vinho na garrafa; e ao olhar para
o músico, o que ela pensa é se ele não
será uma pura abstracção, inventando a melodia
que ela gostaria de ouvir. E também poderia
sair atrás dele, para o meio da floresta onde
iria acender uma fogueira, antes que as amigas
chegassem. Mas a roupa que tem não serve
para uma festa; e o cabelo curto descobre-lhe
o pescoço, que a luz envolve, embora o
homem do violino não se preocupe com
a sua presença. Assim, ela sairá de cima da
mesa, deixando-o acabar a sua peça; e
meter-se-á na cama, enterrando os olhos
na almofada para não ver o sol que ainda
entra pela janela, depois do dia acabar, e
de todas as amigas se perderem na floresta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 88 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 089
Nuno Júdice
Ouvindo Schumann
Na rua, com o calor, não se pode estar; e
dentro de casa o piano martela a cabeça, trazendo
à superfície os piores sentimentos. Porém, escolho
a melancolia: e vejo a alma magoada sair
do espelho da parede e sentar-se no meio
da sala, segurando a cabeça entre as mãos
para que a falta de certezas não a destrua.
E a música insiste: uma peça romântica,
onde é visível a noção de um sentido que desenha
todo o campo abstracto do sofrimento. E ao fechar
os olhos, quem a ouve imagina o gesto preciso
de cada um dos dedos sobre as teclas,
procurando chegar ao fim, mas sabendo que
esse fim não é mais do que o princípio.
«Sim, digo-te, vem comigo até ao campo,
e escolhe a árvore sem raízes - a que nos irá
abrigar, sob o silêncio dos seus ramos.» Devagar,
deitas a melancolia para o chão, e segues-me,
confundindo o som do piano com um ritmo
de passos que, por fim, a terra engolirá.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 109 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
dentro de casa o piano martela a cabeça, trazendo
à superfície os piores sentimentos. Porém, escolho
a melancolia: e vejo a alma magoada sair
do espelho da parede e sentar-se no meio
da sala, segurando a cabeça entre as mãos
para que a falta de certezas não a destrua.
E a música insiste: uma peça romântica,
onde é visível a noção de um sentido que desenha
todo o campo abstracto do sofrimento. E ao fechar
os olhos, quem a ouve imagina o gesto preciso
de cada um dos dedos sobre as teclas,
procurando chegar ao fim, mas sabendo que
esse fim não é mais do que o princípio.
«Sim, digo-te, vem comigo até ao campo,
e escolhe a árvore sem raízes - a que nos irá
abrigar, sob o silêncio dos seus ramos.» Devagar,
deitas a melancolia para o chão, e segues-me,
confundindo o som do piano com um ritmo
de passos que, por fim, a terra engolirá.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 109 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 116
Nuno Júdice
O repouso do modelo
A tela prolonga-se para o lado em que ela olha,
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 066
Nuno Júdice
Regresso do baile
Falo de poesia pura, como se de pura
abstracção estivessem a tratar as mãos
que despem este corpo. E quando passo de um verso
a outro, sabendo que a imagem vai nascendo
deste movimento em que as palavras
dançam na página, limito-me a seguir
os dedos que abrem botão após
botão, e desfazem laço
após laço, até descobrirem o que
sabíamos que existia, sem nunca o ter visto:
o belo, na sua exacta proporção.
No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio.
Por isso, espero que o trabalho
chegue ao fim, para que a mulher se volte,
e dê à dança o argumento
da sua nudez.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 98 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
abstracção estivessem a tratar as mãos
que despem este corpo. E quando passo de um verso
a outro, sabendo que a imagem vai nascendo
deste movimento em que as palavras
dançam na página, limito-me a seguir
os dedos que abrem botão após
botão, e desfazem laço
após laço, até descobrirem o que
sabíamos que existia, sem nunca o ter visto:
o belo, na sua exacta proporção.
No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio.
Por isso, espero que o trabalho
chegue ao fim, para que a mulher se volte,
e dê à dança o argumento
da sua nudez.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 98 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
965
Nuno Júdice
O deitar de safo
Desistiu da lira. Despeja o perfume
que irá espalhar sobre o corpo,
antes se enrolar no lençol.
Pousa os pés na pele de tigre
que lhe serve de tapete; e ouve
a música de tambores subir-lhe à
à cabeça, como se a chamassem
para a caça. Mas o seu alvo
é outro: a fera que se esconde
debaixo da cama, e que a treva
irá soltar, quando a noite
se apoderar do seu espírito.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 69 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que irá espalhar sobre o corpo,
antes se enrolar no lençol.
Pousa os pés na pele de tigre
que lhe serve de tapete; e ouve
a música de tambores subir-lhe à
à cabeça, como se a chamassem
para a caça. Mas o seu alvo
é outro: a fera que se esconde
debaixo da cama, e que a treva
irá soltar, quando a noite
se apoderar do seu espírito.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 69 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 147
Ruy Belo
Nós os vencidos do catolicismo
Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos
Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana
Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
"Meu deus meu deus porque me abandonaste?"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos
Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana
Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
"Meu deus meu deus porque me abandonaste?"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 953
Sophia de Mello Breyner Andresen
Guitarra
Na voz de oiro e de sombra da guitarra
Algo de mim a si próprio renuncia
Algo de mim a si próprio renuncia
2 011
José Miguel Silva
Exame de estética
My rock & roll friend
The Go-Betweens
Eu estava na Lavandeira a espera do César
que me prometera 10 gramas para as 6,30
quando um desgraçado me trouxe a notícia
de que o Artur fora encontrado em casa
com a morte a correr-lhe nas veias.
Oh terríveis 6 horas da tarde, eu tinha
na manhã seguinte um exame de Estética
e a questão era responder para que serve
a arte, se não impede a mudança,
se não faz que estejas aqui ao pé de nós
a ouvir o último dos Go-Betweens.
Não serve para muito, serve apenas
para escudar uma sombra, para escorar
as lágrimas, para que a morte não seja
a penúltima a rir.
The Go-Betweens
Eu estava na Lavandeira a espera do César
que me prometera 10 gramas para as 6,30
quando um desgraçado me trouxe a notícia
de que o Artur fora encontrado em casa
com a morte a correr-lhe nas veias.
Oh terríveis 6 horas da tarde, eu tinha
na manhã seguinte um exame de Estética
e a questão era responder para que serve
a arte, se não impede a mudança,
se não faz que estejas aqui ao pé de nós
a ouvir o último dos Go-Betweens.
Não serve para muito, serve apenas
para escudar uma sombra, para escorar
as lágrimas, para que a morte não seja
a penúltima a rir.
1 328
José Miguel Silva
A caminho do fogão
Adoro essa paixão absurda que tens por Hitchcock,
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálogos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja
de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálogos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja
de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.
1 875
Manuel António Pina
Matéria de estrelas
Porque é tudo para sempre, mesmo a efémera morte,
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.
Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.
Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 125 | Assirio & Alvim, 2012
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.
Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.
Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 125 | Assirio & Alvim, 2012
1 482
Fernando Pessoa
VI - O ritmo antigo que há em pés descalços, [1]
O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
Quando sob o arvoredo
Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que escura a espuma deixa; vós, infantes,
Que inda não tendes cura
De ter cura, reponde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
E a perene maré
Flui, enchente ou vazante.
Esse ritmo das ninfas repetido,
Quando sob o arvoredo
Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que escura a espuma deixa; vós, infantes,
Que inda não tendes cura
De ter cura, reponde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
E a perene maré
Flui, enchente ou vazante.
1 140
Fernando Pessoa
Elfos ou gnomos tocam
Elfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais...
Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde,
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde...
Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro...
Porque choro não sei...
Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste...
Mas cessa, como uma brisa,
Esquece a forma aos seus ais,
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais...
Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde,
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde...
Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro...
Porque choro não sei...
Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste...
Mas cessa, como uma brisa,
Esquece a forma aos seus ais,
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais...
1 722
Fernando Pessoa
My soul is like a painted boat
My soul is like a painted boat
That like a sleeping swan doth float
Upon the silver waves of thy sweet
singing.
That like a sleeping swan doth float
Upon the silver waves of thy sweet
singing.
1 266
Fernando Pessoa
Bailaste de noite ao som
Bailaste de noite ao som
De uma música estragada.
Bailar assim só é bom
Quando a alegria é de nada.
De uma música estragada.
Bailar assim só é bom
Quando a alegria é de nada.
893
Fernando Pessoa
LITTLE BIRD
Poet
Little bird, sing me a sweet song deep
Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
More than far away.
Sing me a song of the things thou knew'st
And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
What is merely fair.
Bird
Young, too young hither I was brought
From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
Can I sing of these?
Poet
Sing, little bird, sing me that song -
None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
But for what was never here.
Sing me, sing me that song, little bird;
I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
Till then bliss doth sting.
Bird
To breathe that singing I have no might;
Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
That thy tears do flow.
But thou, thou sing'st in woe, in ill,
And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
Shadows vague of it.
Poet
Ay, little bird, let us sing in all weather
A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
Truly goes away.
Little bird, sing me a sweet song deep
Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
More than far away.
Sing me a song of the things thou knew'st
And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
What is merely fair.
Bird
Young, too young hither I was brought
From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
Can I sing of these?
Poet
Sing, little bird, sing me that song -
None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
But for what was never here.
Sing me, sing me that song, little bird;
I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
Till then bliss doth sting.
Bird
To breathe that singing I have no might;
Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
That thy tears do flow.
But thou, thou sing'st in woe, in ill,
And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
Shadows vague of it.
Poet
Ay, little bird, let us sing in all weather
A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
Truly goes away.
1 613
Fernando Pessoa
III - Adagas cujas jóias velhas galas...
III
Adagas cujas jóias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...
O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até jóias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas...
Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge
Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...
Adagas cujas jóias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...
O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até jóias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas...
Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge
Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...
1 069
Fernando Pessoa
No momento em que vamos pelos prados
No momento em que vamos pelos prados
E o nosso amor é um terceiro ali,
Que usurpa que saibamos
Um ao certo do outro,
Nesse momento, em que o que vemos mesmo
Sem o vermos na própria essência entra
Da nossa alma comum —
Lídia, nesse momento
De tão sentir o amor não sei dizer-to,
Antes, se falo, só dos prados falo
E põe-se música ao meu
Eros connosco invisível.
E o nosso amor é um terceiro ali,
Que usurpa que saibamos
Um ao certo do outro,
Nesse momento, em que o que vemos mesmo
Sem o vermos na própria essência entra
Da nossa alma comum —
Lídia, nesse momento
De tão sentir o amor não sei dizer-to,
Antes, se falo, só dos prados falo
E põe-se música ao meu
Eros connosco invisível.
1 303
Fernando Pessoa
Vem de lá do monte verde
Vem de lá do monte verde
A trova que não entendo.
É um som bom que se perde
Enquanto se vai vivendo.
A trova que não entendo.
É um som bom que se perde
Enquanto se vai vivendo.
1 706
Fernando Pessoa
Vem Orfeu, uma sombra
Vem Orpheu, uma sombra
Que traz nas mãos um vago filho — a lira.
Que traz nas mãos um vago filho — a lira.
1 575
Fernando Pessoa
2 - THE ISLAND
Weep, violin and viol,
Low flute and fine bassoon.
Lo, an enchanted isle
Moon‑bound beneath the moon!
My dream‑feet rustle through it
Chequered by shade and beam.
Oh, could my soul but woo it
From being but a dream!
Violin, viol and flute.
Lo, the isle hangs in air!
Through it I wander, mute
With too much loss of care.
And the air where't doth float
No air's, but light of moon.
Its paths are known to each note
Of viol and bassoon.
Yet is it real, that isle,
As our clear islands mortal?
Do flute, bassoon and viol
But ope with sound a portal,
And show, somehow, somewhere,
To what looks out from me
That pendulous island rare
In a moon‑woven sea?
Maybe 'tis truer than ours.
How true are these? But lo!
That isle that knows no hours
Nor needeth hours to know,
And that hath truth and root
Somewhere known of the moon,
Fades in the fading of flute,
Violin and bassoon.
Low flute and fine bassoon.
Lo, an enchanted isle
Moon‑bound beneath the moon!
My dream‑feet rustle through it
Chequered by shade and beam.
Oh, could my soul but woo it
From being but a dream!
Violin, viol and flute.
Lo, the isle hangs in air!
Through it I wander, mute
With too much loss of care.
And the air where't doth float
No air's, but light of moon.
Its paths are known to each note
Of viol and bassoon.
Yet is it real, that isle,
As our clear islands mortal?
Do flute, bassoon and viol
But ope with sound a portal,
And show, somehow, somewhere,
To what looks out from me
That pendulous island rare
In a moon‑woven sea?
Maybe 'tis truer than ours.
How true are these? But lo!
That isle that knows no hours
Nor needeth hours to know,
And that hath truth and root
Somewhere known of the moon,
Fades in the fading of flute,
Violin and bassoon.
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