Poemas neste tema
Nação e Patriotismo
Martha Medeiros
minh’alma portuguesa
minh’alma portuguesa
pois pois
não tem nada de Portugal
sou Inglaterra descarada
seca e civilizada
performance o dia inteiro
no peito
um coração underground
pois pois
não tem nada de Portugal
sou Inglaterra descarada
seca e civilizada
performance o dia inteiro
no peito
um coração underground
1 095
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Viagem
Dorso do mar tão quieto nesse dia.
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.
Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.
Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos duma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.
No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida relegados.
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.
Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.
Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos duma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.
No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida relegados.
2 833
Sophia de Mello Breyner Andresen
Brasil 77
«Em vosso e meu coração»
Manuel Bandeira
Brasil dos Bandeirantes
E das gentes emigradas
Em tuas terras distantes
As palavras portuguesas
Ficaram mais silabadas
Como se nelas houvesse
Desejo de ser cantadas
Brasil espaço e lonjura
Em nossa recordação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
Brasil de Manuel Bandeira
Que ao franquismo disse não
E cujo verso se inscreve
Neste poema invocado
Em vosso e meu coração
Brasil de Jorge de Lima
Bruma sonho e mutação
Brasil de Murilo Mendes
Novo mundo mas romano
E o Brasil açoriano
De Cecília a tão secreta
Atlântida encoberta
Sob o véu dos olhos verdes
Brasil de Carlos Drummond
Brasil do pernambucano
João Cabral de Melo que
Deu à fala portuguesa
Novo corte e agudeza
Brasil da arquitectura
Com nitidez de coqueiro
Gente que fez da ternura
Nova forma de cultura
País da transformação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
Brasil de D. Helder Câmara
Que nos mostra e nos ensina
A raiz de ser cristão
Brasil imensa aventura
Em nossa imaginação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
1977
Manuel Bandeira
Brasil dos Bandeirantes
E das gentes emigradas
Em tuas terras distantes
As palavras portuguesas
Ficaram mais silabadas
Como se nelas houvesse
Desejo de ser cantadas
Brasil espaço e lonjura
Em nossa recordação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
Brasil de Manuel Bandeira
Que ao franquismo disse não
E cujo verso se inscreve
Neste poema invocado
Em vosso e meu coração
Brasil de Jorge de Lima
Bruma sonho e mutação
Brasil de Murilo Mendes
Novo mundo mas romano
E o Brasil açoriano
De Cecília a tão secreta
Atlântida encoberta
Sob o véu dos olhos verdes
Brasil de Carlos Drummond
Brasil do pernambucano
João Cabral de Melo que
Deu à fala portuguesa
Novo corte e agudeza
Brasil da arquitectura
Com nitidez de coqueiro
Gente que fez da ternura
Nova forma de cultura
País da transformação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
Brasil de D. Helder Câmara
Que nos mostra e nos ensina
A raiz de ser cristão
Brasil imensa aventura
Em nossa imaginação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
1977
1 708
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Príncipe Bastardo
O príncipe bastardo António Prior do Crato
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram
Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa
Que ninguém sabe se está vivo ou morto
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram
Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa
Que ninguém sabe se está vivo ou morto
1 059
Sophia de Mello Breyner Andresen
Oriente
Este lugar amou perdidamente
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
………………………………………
Viu pérolas safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades nações viu passar gente
De leve passo e gestos musicais
Perfumes e tempero descobriu
E danças moduladas por vestidos
Sedosos flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu
………………………………………
1988
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
………………………………………
Viu pérolas safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades nações viu passar gente
De leve passo e gestos musicais
Perfumes e tempero descobriu
E danças moduladas por vestidos
Sedosos flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu
………………………………………
1988
1 346
Sophia de Mello Breyner Andresen
Notas
AS ILHAS
1. Os poemas I e III são invocações da voz de Camões.
2. O poema VII é um poema sobre Dom Sebastião.
DERIVA
3. O poema IV é uma invocação de Bartolomeu Dias, o maior de todos os navegadores.
4. O poema V é uma glosa livre da Carta de Pêro Vaz de Caminha.
5. O poema XIII é uma invocação de Pessoa, que disse pertencer ao número daqueles portugueses que depois da descoberta da Índia ficaram sem emprego.
6. O poema XIV é uma invocação de Jorge de Sena.
7. O poema XV é um poema sobre as diversas Reboleiras de Lisboa, atro-zes e sem Tejo.
1. Os poemas I e III são invocações da voz de Camões.
2. O poema VII é um poema sobre Dom Sebastião.
DERIVA
3. O poema IV é uma invocação de Bartolomeu Dias, o maior de todos os navegadores.
4. O poema V é uma glosa livre da Carta de Pêro Vaz de Caminha.
5. O poema XIII é uma invocação de Pessoa, que disse pertencer ao número daqueles portugueses que depois da descoberta da Índia ficaram sem emprego.
6. O poema XIV é uma invocação de Jorge de Sena.
7. O poema XV é um poema sobre as diversas Reboleiras de Lisboa, atro-zes e sem Tejo.
1 255
Sophia de Mello Breyner Andresen
Viagem
Naquele tempo era o Kaos
E as palavras do poema não irrompiam já como palmeiras
Por isso abandonou a cidade — o país natal
País perdendo dia a dia o seu rosto:
A pintura a cair das paredes — cães
Farejando o lixo —
Brutais os gestos — obscenas as palavras
De cada coisa a beleza destroçada
Por isso se evadiu e para Oriente
Navegou e de noite e lentamente
E um novo dia se abriu em sua frente
E era um país de tigres e palmeiras
Como em longínquo cismar adolescente
E as palavras do poema não irrompiam já como palmeiras
Por isso abandonou a cidade — o país natal
País perdendo dia a dia o seu rosto:
A pintura a cair das paredes — cães
Farejando o lixo —
Brutais os gestos — obscenas as palavras
De cada coisa a beleza destroçada
Por isso se evadiu e para Oriente
Navegou e de noite e lentamente
E um novo dia se abriu em sua frente
E era um país de tigres e palmeiras
Como em longínquo cismar adolescente
1 408
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. Aqui Viu o Surgir Em Flor Das Ilhas
«Dolce color d’oriental zaffiro»
Dante, Purgatório, Canto I, terceto 5
Aqui viu o surgir em flor das ilhas
Quem vindo pelo mar desceu ao sul
E o cabo contornou para nascente
Orientando o cortar das negras quilhas
E sob as altas nuvens brancas liras
Os olhos viram verdadeiramente
O doce azul de Oriente e de safiras
1977
Dante, Purgatório, Canto I, terceto 5
Aqui viu o surgir em flor das ilhas
Quem vindo pelo mar desceu ao sul
E o cabo contornou para nascente
Orientando o cortar das negras quilhas
E sob as altas nuvens brancas liras
Os olhos viram verdadeiramente
O doce azul de Oriente e de safiras
1977
1 149
Sophia de Mello Breyner Andresen
Açores
Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
1 350
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Memória
Por Goa sacrificado
Foi morto e foi esquecido
Malhas que o império tece
Mesmo depois de perdido
Foi morto e foi esquecido
Malhas que o império tece
Mesmo depois de perdido
1 167
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Outros Dirão Senhor As Singraduras
Outros dirão senhor as singraduras
Eu vos direi a praia onde luzia
A primitiva manhã da criação
Eu vos direi a nudez recém-criada
A esquiva doçura a leve rapidez
De homens ainda cor de barro que julgaram
Sermos seus antigos deuses tutelares
Que regressavam
1982
Eu vos direi a praia onde luzia
A primitiva manhã da criação
Eu vos direi a nudez recém-criada
A esquiva doçura a leve rapidez
De homens ainda cor de barro que julgaram
Sermos seus antigos deuses tutelares
Que regressavam
1982
1 194
Sophia de Mello Breyner Andresen
Pranto Pelo Infante D. Pedro Das Sete Partidas
(poema escrito na noite de 17-12-1961, e interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa)
Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte
Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte
822
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. a Memória Longínqua de Uma Pátria
A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
1 480
Adélia Prado
Terra de Santa Cruz
Nas minhas bodas de ouro, esganada como os netos,
vou comer os doces.
Não terei a serenidade dos retratos
de mulheres que pouco falaram ou comeram.
Porque o frade se matou
no pequeno bosque fora do seu convento.
De outras vezes já disse: não haverá consolo. E houve:
música, poema, passeatas.
O amor tem ritmos que não são de tristeza:
forma de ondas, ímpeto, água corrente.
E agora? Que digo ao homem, ao trem, ao menino que
[me espera,
à jabuticabeira em flores, temporã?
Contemplar o impossível enlouquece.
Sou uma tênia no epigastro de Deus:
E agora? E agora? E agora?
Onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro,
a fraternidade onde estava quando saíste,
ó desgraçado moço da minha pátria,
ao encontro desta árvore?
Meu inimigo sou eu. Os torturadores todos enlouquecem
[ao fim,
comem excrementos, odeiam seus próprios gestos
[obscenos,
os regimes iníquos apodrecem.
Quando andavas em círculos, a alma dividida,
o que fazia, santa e pecadora, a nossa Mãe Igreja?
Promovia tômbolas, é certo, benzia edifícios novos,
mas também te gerava, quem ousará negar, a ti
e a outros santos que deixam as bíblias marcadas:
“Na verdade carregamos em nós mesmos nossa sentença
[de morte.”
“Amai vossos inimigos.”
O que disse: “Quem crer viverá para sempre”, este também
balouçou do madeiro como fruto de escárnio.
Nada, nada que é humano é grandioso.
Me interrompe da porta a mocinha boçal. Quer mudas de
[trepadeira.
Meus cabelos levantam-se. Como um torturador eu piso
[e arranco
a muda, os olhos, as entranhas da intrusa
e não sendo melhor que Jó choro meus desatinos.
Sempre há quem pergunte a Judas qual a melhor árvore:
os loucos lúcidos, os santos loucos,
aqueles a quem mais foi dado, os quase sublimes.
Minha maior grandeza é perguntar: haverá consolo?
Num dedal cabem minha fé, minha vida e meu medo maior
[que é viajar de ônibus.
A tentação me tenta e eu fico quase alegre.
É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos,
ao nosso Deus que é uma galinha grande.
Nos põe debaixo da asa e nos esquenta.
Antes, nos deixa desvalidos na chuva,
pra que aprendamos a ter confiança n’Ele
e não em nós.
vou comer os doces.
Não terei a serenidade dos retratos
de mulheres que pouco falaram ou comeram.
Porque o frade se matou
no pequeno bosque fora do seu convento.
De outras vezes já disse: não haverá consolo. E houve:
música, poema, passeatas.
O amor tem ritmos que não são de tristeza:
forma de ondas, ímpeto, água corrente.
E agora? Que digo ao homem, ao trem, ao menino que
[me espera,
à jabuticabeira em flores, temporã?
Contemplar o impossível enlouquece.
Sou uma tênia no epigastro de Deus:
E agora? E agora? E agora?
Onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro,
a fraternidade onde estava quando saíste,
ó desgraçado moço da minha pátria,
ao encontro desta árvore?
Meu inimigo sou eu. Os torturadores todos enlouquecem
[ao fim,
comem excrementos, odeiam seus próprios gestos
[obscenos,
os regimes iníquos apodrecem.
Quando andavas em círculos, a alma dividida,
o que fazia, santa e pecadora, a nossa Mãe Igreja?
Promovia tômbolas, é certo, benzia edifícios novos,
mas também te gerava, quem ousará negar, a ti
e a outros santos que deixam as bíblias marcadas:
“Na verdade carregamos em nós mesmos nossa sentença
[de morte.”
“Amai vossos inimigos.”
O que disse: “Quem crer viverá para sempre”, este também
balouçou do madeiro como fruto de escárnio.
Nada, nada que é humano é grandioso.
Me interrompe da porta a mocinha boçal. Quer mudas de
[trepadeira.
Meus cabelos levantam-se. Como um torturador eu piso
[e arranco
a muda, os olhos, as entranhas da intrusa
e não sendo melhor que Jó choro meus desatinos.
Sempre há quem pergunte a Judas qual a melhor árvore:
os loucos lúcidos, os santos loucos,
aqueles a quem mais foi dado, os quase sublimes.
Minha maior grandeza é perguntar: haverá consolo?
Num dedal cabem minha fé, minha vida e meu medo maior
[que é viajar de ônibus.
A tentação me tenta e eu fico quase alegre.
É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos,
ao nosso Deus que é uma galinha grande.
Nos põe debaixo da asa e nos esquenta.
Antes, nos deixa desvalidos na chuva,
pra que aprendamos a ter confiança n’Ele
e não em nós.
1 524
Adélia Prado
Duas Horas da Tarde No Brasil
Tanto quanto a vida amo este calor,
esta claridade metafísica,
este pequeno milagre:
no ar tórrido os alecrins de seda não se crestam,
espalmam como os jovens hebreus cantando na fornalha.
Quem sofre é meu coração,
às duas horas da tarde quer rezar.
Quem me chama é Deus?
É Seu olho centrífugo o que me puxa?
A vida tão curta e ainda não tenho estilo,
palavras como astrolábio desviam-me de meus deveres,
a forma de um nariz por semanas ocupa-me,
seu jeito triste de fechar a boca.
A quem amo enfim?
Acaso fui seduzida pelo Filho do Homem
e confundo você, mesquinho,
e confundo você, vaidoso,
com o que me quer com ele
gemendo na sua cama de cruz?
O europeu diz-se aturdido com o desperdício do sol.
Obrigada, respondo, com vergonha de carnaval,
de batuques, de meus quadris excessivos.
Jesus é búlgaro? Afegão? Holandês da colônia?
Brasileiro não é. Estranhíssimo, sim,
com seu corpo desnudo e perfurado,
mendigando carinho, igual ao meu.
Minha pátria, como as outras, tem folclore,
cantigas cheias de melancolia.
Como posso aceitar que morreremos?
E a alma do povo, a quem aproveitaria?
Frigoríficos são horríveis
mas devo poetizá-los
para que nada escape à redenção:
Frigorífico do Jiboia
Carne fresca
Preço joia.
De novo quero rezar pra não ficar estrangeira
meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Dizei-me quem sois Vós e quem sou eu,
dizei-me quem sois Vós e quem sou eu.
esta claridade metafísica,
este pequeno milagre:
no ar tórrido os alecrins de seda não se crestam,
espalmam como os jovens hebreus cantando na fornalha.
Quem sofre é meu coração,
às duas horas da tarde quer rezar.
Quem me chama é Deus?
É Seu olho centrífugo o que me puxa?
A vida tão curta e ainda não tenho estilo,
palavras como astrolábio desviam-me de meus deveres,
a forma de um nariz por semanas ocupa-me,
seu jeito triste de fechar a boca.
A quem amo enfim?
Acaso fui seduzida pelo Filho do Homem
e confundo você, mesquinho,
e confundo você, vaidoso,
com o que me quer com ele
gemendo na sua cama de cruz?
O europeu diz-se aturdido com o desperdício do sol.
Obrigada, respondo, com vergonha de carnaval,
de batuques, de meus quadris excessivos.
Jesus é búlgaro? Afegão? Holandês da colônia?
Brasileiro não é. Estranhíssimo, sim,
com seu corpo desnudo e perfurado,
mendigando carinho, igual ao meu.
Minha pátria, como as outras, tem folclore,
cantigas cheias de melancolia.
Como posso aceitar que morreremos?
E a alma do povo, a quem aproveitaria?
Frigoríficos são horríveis
mas devo poetizá-los
para que nada escape à redenção:
Frigorífico do Jiboia
Carne fresca
Preço joia.
De novo quero rezar pra não ficar estrangeira
meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Dizei-me quem sois Vós e quem sou eu,
dizei-me quem sois Vós e quem sou eu.
1 933
Adélia Prado
Um Bom Motivo
O Presidente morre.
Choro querendo o meu choro o mais definitivo de todos
e esta mesma vaidade choro.
Poetas antes de mim choraram e melhor e mais belo
e mais profundamente, não apenas a morte do rei,
mas a minha, a tua, a própria morte deles,
a condição miserável de ser homem. No entanto,
as razões de chorar não se acabaram.
O meu poder é pouco, governo sobre algumas lembranças:
um prato, uma toalha de mesa, um domingo,
cascas de laranja fresca recendendo.
O Bem e o Mal me escapam, mesmo e porque me
[habitam.
Me escapam o dia, a hora, as horas,
escrevo o poema e iludo-me de que escapei à tristeza.
Só a tornei ritmada, talvez mais leve.
Por torná-la bela, suportável, me empenho
e por tal razão sem razão mais choro.
O Presidente morre: é tristíssimo.
‘Carneiro primaveril com favas’:
quem a esta hora se anima aos livros de culinária?
O sexo automovente pende, para baixo pesa, murchado.
Lua é planeta, violão é madeira e cordas.
Aproveito que o Presidente morre
e choro as cáries nos dentes, as pernas varicosas,
a saia feia atravessando a rua, o cotovelo humilhado,
a cabeça cheia de bobbies, coroada.
Choro porque vou me refazer e dar risadas
e perguntar incorrigivelmente pelas fases da lua
e semear flores e plantar hortaliças.
Choro porque reincido no prazer como os meninos
e isto, depois de velha, mortifica-me.
Choro por me ter humilhada em razão da alegria,
o coração orgulhoso, sem simplicidade.
O Presidente morre: é um bom motivo.
Aproveito e choro o povo brasileiro,
o Cruzeiro do Sul, que, só agora percebo,
poderia não nos pertencer.
A Terra de Vera Cruz, a Terra de Santa Cruz,
a carta de Caminha, admiravelmente precedendo-nos:
“É um país que vai pra frente, Senhor meu Rei.”
A Terra das Palmeiras a cuja sombra soluço, incongruente.
Por nascimento e gosto, por destino, agora por dura
[escolha
desejo o sabiá, o Presidente vivo, o peixe vivo,
meu pai vivo gritando viva arroucado de tão alto:
VIVA! VIVA! VIVA!
É difícil morrer com vida,
é difícil entender a vida,
não amar a vida, impossível.
Infinita vida que para continuar desaparece
e toma outra forma e rebrota,
árvore podada se abrindo,
a raiz mergulhada em Deus. Ó Deus,
o globo do meu olho dói, apertado de choro,
a minha alma está triste, desejo largar o emprego,
que os de minha casa, hoje, comam frio.
Não me banho, não me penteio, não recebo ninguém,
uma pequena vingança contra a dor de viver.
O que é entristecível continuará,
o que é risível, deleitoso, também.
Continuará a vida, repetitiva.
Novíssima continuará a vida.
Só vida. Nua. Vida.
Quem foi vivo uma vez disse a palavra Cruz,
disse a palavra Pai, inclinando a cabeça,
uma vez disse, do fundo do seu cansaço:
‘Ó meu Deus’ e desejou dar seu reino
pela simples morada da alegria.
Ó Senhor, consola-nos, tem piedade de nós.
“A vitória provém de Tua Mão,
de Teu Braço divino.”
Choro querendo o meu choro o mais definitivo de todos
e esta mesma vaidade choro.
Poetas antes de mim choraram e melhor e mais belo
e mais profundamente, não apenas a morte do rei,
mas a minha, a tua, a própria morte deles,
a condição miserável de ser homem. No entanto,
as razões de chorar não se acabaram.
O meu poder é pouco, governo sobre algumas lembranças:
um prato, uma toalha de mesa, um domingo,
cascas de laranja fresca recendendo.
O Bem e o Mal me escapam, mesmo e porque me
[habitam.
Me escapam o dia, a hora, as horas,
escrevo o poema e iludo-me de que escapei à tristeza.
Só a tornei ritmada, talvez mais leve.
Por torná-la bela, suportável, me empenho
e por tal razão sem razão mais choro.
O Presidente morre: é tristíssimo.
‘Carneiro primaveril com favas’:
quem a esta hora se anima aos livros de culinária?
O sexo automovente pende, para baixo pesa, murchado.
Lua é planeta, violão é madeira e cordas.
Aproveito que o Presidente morre
e choro as cáries nos dentes, as pernas varicosas,
a saia feia atravessando a rua, o cotovelo humilhado,
a cabeça cheia de bobbies, coroada.
Choro porque vou me refazer e dar risadas
e perguntar incorrigivelmente pelas fases da lua
e semear flores e plantar hortaliças.
Choro porque reincido no prazer como os meninos
e isto, depois de velha, mortifica-me.
Choro por me ter humilhada em razão da alegria,
o coração orgulhoso, sem simplicidade.
O Presidente morre: é um bom motivo.
Aproveito e choro o povo brasileiro,
o Cruzeiro do Sul, que, só agora percebo,
poderia não nos pertencer.
A Terra de Vera Cruz, a Terra de Santa Cruz,
a carta de Caminha, admiravelmente precedendo-nos:
“É um país que vai pra frente, Senhor meu Rei.”
A Terra das Palmeiras a cuja sombra soluço, incongruente.
Por nascimento e gosto, por destino, agora por dura
[escolha
desejo o sabiá, o Presidente vivo, o peixe vivo,
meu pai vivo gritando viva arroucado de tão alto:
VIVA! VIVA! VIVA!
É difícil morrer com vida,
é difícil entender a vida,
não amar a vida, impossível.
Infinita vida que para continuar desaparece
e toma outra forma e rebrota,
árvore podada se abrindo,
a raiz mergulhada em Deus. Ó Deus,
o globo do meu olho dói, apertado de choro,
a minha alma está triste, desejo largar o emprego,
que os de minha casa, hoje, comam frio.
Não me banho, não me penteio, não recebo ninguém,
uma pequena vingança contra a dor de viver.
O que é entristecível continuará,
o que é risível, deleitoso, também.
Continuará a vida, repetitiva.
Novíssima continuará a vida.
Só vida. Nua. Vida.
Quem foi vivo uma vez disse a palavra Cruz,
disse a palavra Pai, inclinando a cabeça,
uma vez disse, do fundo do seu cansaço:
‘Ó meu Deus’ e desejou dar seu reino
pela simples morada da alegria.
Ó Senhor, consola-nos, tem piedade de nós.
“A vitória provém de Tua Mão,
de Teu Braço divino.”
1 887
Adélia Prado
Regional
O sino da minha terra
ainda bate às primeiras sextas-feiras,
por devoção ao coração de Jesus.
Em que outro lugar do mundo isto acontece?
Em que outro brasil se escrevem cartas assim:
o santo padre Pio XII deixou pra morrer logo hoje,
último dia das apurações.
Guardamos os foguetes.
Em respeito de sua santidade não soltamos.
Nós vamos indo do mesmo jeito,
nem remamos, nem descemos da canoa.
Esta semana foi a festa de São Francisco,
fiz este canto imitado:
louvado sejas, meu Senhor,
pela flor da maria-preta,
por cujo odor e doçura
as formigas e abelhas endoidecem,
cuja forma humílima me atrai,
me instiga o pensamento
de que não preciso ser jovem nem bonita
para atrair os homens e o que neles
ferroa como nos zangões.
Meu estômago enjoa.
Há circunvoluções intestinas no país.
Queria que tudo estivesse bem.
Queria ficar noiva hoje
e ir sozinha com meu noivo
assistir a Os cangaceiros no cinema.
Queria que nossa fé fosse como está escrito:
AQUELE QUE CRÊ VIVERÁ PARA SEMPRE.
Isto é tão espantoso
que me retiro para meditar.
Espero que ao leres esta
estejas gozando saúde,
felicidade e paz junto aos teus.
ainda bate às primeiras sextas-feiras,
por devoção ao coração de Jesus.
Em que outro lugar do mundo isto acontece?
Em que outro brasil se escrevem cartas assim:
o santo padre Pio XII deixou pra morrer logo hoje,
último dia das apurações.
Guardamos os foguetes.
Em respeito de sua santidade não soltamos.
Nós vamos indo do mesmo jeito,
nem remamos, nem descemos da canoa.
Esta semana foi a festa de São Francisco,
fiz este canto imitado:
louvado sejas, meu Senhor,
pela flor da maria-preta,
por cujo odor e doçura
as formigas e abelhas endoidecem,
cuja forma humílima me atrai,
me instiga o pensamento
de que não preciso ser jovem nem bonita
para atrair os homens e o que neles
ferroa como nos zangões.
Meu estômago enjoa.
Há circunvoluções intestinas no país.
Queria que tudo estivesse bem.
Queria ficar noiva hoje
e ir sozinha com meu noivo
assistir a Os cangaceiros no cinema.
Queria que nossa fé fosse como está escrito:
AQUELE QUE CRÊ VIVERÁ PARA SEMPRE.
Isto é tão espantoso
que me retiro para meditar.
Espero que ao leres esta
estejas gozando saúde,
felicidade e paz junto aos teus.
1 098
Adélia Prado
Grafito
Era uma vez um homem sem estudo
que amava discursos.
Tinha o punho firme para murro e ferros,
mas apertava os olhos quando as belas frases,
sua boca se abria um pouco pra escutar:
“...a pátria espera de cada brasileiro
o sacrifício até de suas vidas...”
Isto desengraxava sua alma,
sua unha preta de carvão e poeira.
“...basta, Abraão, olha entre a sarça
o animal para o sacrifício,
poupa teu filho Isaac...”
Sacerdotal como era,
professoral como admirava ser,
exercia a palavra para proveito
de quantos dela vissem e ouvissem.
Com arame, cuja ponta afilou com martelo,
gravou no cimento fresco à porta da cozinha:
FOI NUMA TERÇA-FEIRA DE 24.8.54, QUE,
O SR. GETÚLIO DORNELES VARGAS
RESOLVEU DAR FIM NA SUA VIDA, PRESSISA-MENTE
AS 8 I MEIA HORAS DA MANHÃ.
DEUS CONDUZ SUA ALMA PARA O CÉU...
que amava discursos.
Tinha o punho firme para murro e ferros,
mas apertava os olhos quando as belas frases,
sua boca se abria um pouco pra escutar:
“...a pátria espera de cada brasileiro
o sacrifício até de suas vidas...”
Isto desengraxava sua alma,
sua unha preta de carvão e poeira.
“...basta, Abraão, olha entre a sarça
o animal para o sacrifício,
poupa teu filho Isaac...”
Sacerdotal como era,
professoral como admirava ser,
exercia a palavra para proveito
de quantos dela vissem e ouvissem.
Com arame, cuja ponta afilou com martelo,
gravou no cimento fresco à porta da cozinha:
FOI NUMA TERÇA-FEIRA DE 24.8.54, QUE,
O SR. GETÚLIO DORNELES VARGAS
RESOLVEU DAR FIM NA SUA VIDA, PRESSISA-MENTE
AS 8 I MEIA HORAS DA MANHÃ.
DEUS CONDUZ SUA ALMA PARA O CÉU...
999
Carlos Drummond de Andrade
União Nacional Em Três Dias
Quem falou em guerra?
Chegam todos unidos:
Unidos de São Carlos
Unidos de Vaz Lobo
Unidos de Vila Isabel
Unidos de Nilópolis
do Cunha
de Manguinhos e de Padre Miguel
de Lucas, de Jardim
da Tijuca, da Ponte
do Morro do Pinto
Unidos do Tuiuti
da Vila São Luís
da Vila Santa Teresa
Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi
Unidos (ecumenicamente) do Éden.
Restam, é certo, os Independentes do Leblon
(que antes eram Inocentes)
os de Mesquita
os Decididos de Quintino.
Uni-vos, caríssimos, e unidos todos
aos Acadêmicos do Salgueiro
do Engenho da Rainha
da Academia Brasileira de Letras
e de Santa Cruz
acolitados pelos Aprendizes da Gávea
pelos da Boca do Mato
pelos Índios do Leme,
de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias
aos Azulões da Torre
aos Caprichosos de Pilares
diremos aos irmãos do Império Serrano
do Império do Marangá
do Império de Campo Grande
aos de Lins Imperial
aos da Imperatriz Leopoldina:
Diletos,
chegou a hora da União Nacional.
Com todo o frevo, com todo o frevor
com todo o samba
que é uma tristeza aberta em alegria
à porta de Portela, à sombra de Mangueira
no pulo-bolo-pulo dos clubes
no tablado da Rua Miguel Lemos
de nosso mal viver faça-se um sonho
em Kodachrome
coruscante de strass e tão tamborinado
que na pele tensa percutida
a alma ressoa, o som é dor sem amargor.
De flor no cabelo
de flor na cara
de cara de pau
de pau de arara
de arara real
no Municipal
de umbigo de fora
de fora da terra
me dê, me dê a mão
vamos pro meio do salão
com Dona Beja feiticeira do Araxá
e o Crioulo Doido decifrando
sublimes pergaminhos, oba oba.
Fuga? Integração?
Um sair de si mesmo em travesti
um encontrar-se, um dar-se, um desventrar-se
no grande aboio das manadas rítmicas
desfilando entre turistas de aço
até raiar o dia e a fantasia
desfolhar-se?
Unidos desunidos confundidos
diluídos
possuídos
do diabo dançarol e cantarinho
endemoninhados da Pavuna
festivos de Ipanema
repetentes do Fundão
abandonados de Deodoro
mutilados de Del Castilho
corruptos da Lapa Velha
humilhados de Ricardo de Albuquerque
párias do Nordeste em fogo e chuva
afogados do Amazonas párias
de toda parte vinde
vinde todos, vinde todos, vinde todos,
aqui e agora
re-unidos
num projeto de vida à flor da vida.
25/02/1968
Chegam todos unidos:
Unidos de São Carlos
Unidos de Vaz Lobo
Unidos de Vila Isabel
Unidos de Nilópolis
do Cunha
de Manguinhos e de Padre Miguel
de Lucas, de Jardim
da Tijuca, da Ponte
do Morro do Pinto
Unidos do Tuiuti
da Vila São Luís
da Vila Santa Teresa
Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi
Unidos (ecumenicamente) do Éden.
Restam, é certo, os Independentes do Leblon
(que antes eram Inocentes)
os de Mesquita
os Decididos de Quintino.
Uni-vos, caríssimos, e unidos todos
aos Acadêmicos do Salgueiro
do Engenho da Rainha
da Academia Brasileira de Letras
e de Santa Cruz
acolitados pelos Aprendizes da Gávea
pelos da Boca do Mato
pelos Índios do Leme,
de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias
aos Azulões da Torre
aos Caprichosos de Pilares
diremos aos irmãos do Império Serrano
do Império do Marangá
do Império de Campo Grande
aos de Lins Imperial
aos da Imperatriz Leopoldina:
Diletos,
chegou a hora da União Nacional.
Com todo o frevo, com todo o frevor
com todo o samba
que é uma tristeza aberta em alegria
à porta de Portela, à sombra de Mangueira
no pulo-bolo-pulo dos clubes
no tablado da Rua Miguel Lemos
de nosso mal viver faça-se um sonho
em Kodachrome
coruscante de strass e tão tamborinado
que na pele tensa percutida
a alma ressoa, o som é dor sem amargor.
De flor no cabelo
de flor na cara
de cara de pau
de pau de arara
de arara real
no Municipal
de umbigo de fora
de fora da terra
me dê, me dê a mão
vamos pro meio do salão
com Dona Beja feiticeira do Araxá
e o Crioulo Doido decifrando
sublimes pergaminhos, oba oba.
Fuga? Integração?
Um sair de si mesmo em travesti
um encontrar-se, um dar-se, um desventrar-se
no grande aboio das manadas rítmicas
desfilando entre turistas de aço
até raiar o dia e a fantasia
desfolhar-se?
Unidos desunidos confundidos
diluídos
possuídos
do diabo dançarol e cantarinho
endemoninhados da Pavuna
festivos de Ipanema
repetentes do Fundão
abandonados de Deodoro
mutilados de Del Castilho
corruptos da Lapa Velha
humilhados de Ricardo de Albuquerque
párias do Nordeste em fogo e chuva
afogados do Amazonas párias
de toda parte vinde
vinde todos, vinde todos, vinde todos,
aqui e agora
re-unidos
num projeto de vida à flor da vida.
25/02/1968
650
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
Eis que o inverno chegou, de meias pretas
nas pernas jovens… Oi, não te derretas
demais, ante o espetáculo da moda,
que dura um mini-instante, velho, e roda
como ao vento da praia, sobre a areia,
essa acobreada folha de amendoeira.
Da minissaia posso ser devoto,
mas como aceitarei o minivoto
da eleição que se chama de indireta
— mágica de sabido ou de pateta?
Tão mais simples dizer: “Fica nomeado
Fuão de Tal capitão-mor do Estado,
porque é, entre todos, excelente,
na conspícua opinião do Presidente”.
Meu caro João Brandão, esqueça a Arena
e siga em busca de outra mais amena
diversão popular: boliche, ou
(tome cuidado) o Circo de Moscou,
que mostra luluzinho trapezista
e urso bicicletando pela pista.
Se há coisa mais barata? Este lembrete:
visitar o Palácio do Catete.
É de graça, e, na velha mansão pública,
você vê o fantasma da República
circulando entre fardas e decretos,
revoluções, proclamações, secretos
conchavos, dores, tudo mais que a História
não conta ou conta mal: a pobre glória,
o poder que era férreo e vira-lata,
teia-cinza-de-aranha, vil sucata…
A casa faz cem anos ou cem mil?
O tempo é uma ilusão no céu de anil,
que por sinal anda não mui cerúleo,
encoberto, tristinho, neste julho.
Que importa a chuva, se na tarde fria
há fila para entrar na Academia?
Eis que se assusta o grupo de aspirantes:
e se não vogam mais as normas de antes?
Se se adotar o modo severino
que hoje serve ao Brasil de figurino:
escolha, sob a vara de marmelo,
numa lista de três, pelo Castelo?
O Amigo da Onça espalha este boato,
desfeito logo após pelo Viriato,
enquanto o povo, preso ao transistor,
com angústia, impaciência, febre, amor,
nosso escrete acompanha pela Europa:
Não nos deixes, Pelé, sem esta Copa!
03/07/1966
nas pernas jovens… Oi, não te derretas
demais, ante o espetáculo da moda,
que dura um mini-instante, velho, e roda
como ao vento da praia, sobre a areia,
essa acobreada folha de amendoeira.
Da minissaia posso ser devoto,
mas como aceitarei o minivoto
da eleição que se chama de indireta
— mágica de sabido ou de pateta?
Tão mais simples dizer: “Fica nomeado
Fuão de Tal capitão-mor do Estado,
porque é, entre todos, excelente,
na conspícua opinião do Presidente”.
Meu caro João Brandão, esqueça a Arena
e siga em busca de outra mais amena
diversão popular: boliche, ou
(tome cuidado) o Circo de Moscou,
que mostra luluzinho trapezista
e urso bicicletando pela pista.
Se há coisa mais barata? Este lembrete:
visitar o Palácio do Catete.
É de graça, e, na velha mansão pública,
você vê o fantasma da República
circulando entre fardas e decretos,
revoluções, proclamações, secretos
conchavos, dores, tudo mais que a História
não conta ou conta mal: a pobre glória,
o poder que era férreo e vira-lata,
teia-cinza-de-aranha, vil sucata…
A casa faz cem anos ou cem mil?
O tempo é uma ilusão no céu de anil,
que por sinal anda não mui cerúleo,
encoberto, tristinho, neste julho.
Que importa a chuva, se na tarde fria
há fila para entrar na Academia?
Eis que se assusta o grupo de aspirantes:
e se não vogam mais as normas de antes?
Se se adotar o modo severino
que hoje serve ao Brasil de figurino:
escolha, sob a vara de marmelo,
numa lista de três, pelo Castelo?
O Amigo da Onça espalha este boato,
desfeito logo após pelo Viriato,
enquanto o povo, preso ao transistor,
com angústia, impaciência, febre, amor,
nosso escrete acompanha pela Europa:
Não nos deixes, Pelé, sem esta Copa!
03/07/1966
611
Carlos Drummond de Andrade
Canção do Fico
Minha cidade do Rio,
meu castelo de água e sol,
a dois meses de mudança
dos dirigentes de prol;
minha terra de nascença
terceira, pois foi aqui,
em êxtase, alumbramento,
que o mar e seus mundos vi;
minha fluida sesmaria
de léguas de cisma errante,
meu anel verde, meu cravo
solferino, mel do instante;
saci oculto nos morros,
mapa aberto à luz das praias,
códice de piada e gíria,
coxas libertas de saias;
favelas portinarescas
onde o samba se arredonda,
e claustro beneditino,
sal de batismo na onda;
cinemeiro Rio, atlético,
flamengo ou vasco, porosa
urna plena do noivado
de uísque com manga-rosa;
meu terreiro de São Jorge,
meu parlamento das ruas,
andaraís, méiers, gáveas,
sob a unção de oitenta luas;
Cristo em névoa corcovádica,
bondinho do Pão de Açúcar
e pescarias na barra
— louca rima — da Tíjúcar (!);
Rio de ontem: Rui Barbosa,
na Rua de São Clemente,
mantendo acesa a candeia,
ciceronianamente;
Dr. Campos Porto, no horto
botânico, em meio a palmas
imperiais, que ao crepúsculo
são aves minerais, calmas;
minha igrejinha do Outeiro,
que Rodrigo zela tanto,
e entre cujos azulejos
esvoaça o Espírito Santo;
meus livros velhos nos “sebos”,
meu chafariz do Lagarto,
e esse tostão de paisagem
da janela de meu quarto;
e a tarde, imensa, pairando:
lá longe o Dedo de Deus;
calor, e sorriso, e brisa
que alisa os cuidados meus;
cidade que tantos bens
deste a todos, e tão pouco,
em gratidão e carinho,
agora te dão em troco;
malvestida, mal comida,
descalça, “dependurada”,
e conservando no rosto,
como cristais de orvalhada,
não sei que beleza infante,
gosto de viver, e graça:
pouco importa que te levem
o que, no fundo, é fumaça.
Rio antigo, Rio eterno,
Rio-oceano, Rio amigo,
o Governo vai-se? Vá-se!
Tu ficarás, e eu contigo.
21/02/1960
meu castelo de água e sol,
a dois meses de mudança
dos dirigentes de prol;
minha terra de nascença
terceira, pois foi aqui,
em êxtase, alumbramento,
que o mar e seus mundos vi;
minha fluida sesmaria
de léguas de cisma errante,
meu anel verde, meu cravo
solferino, mel do instante;
saci oculto nos morros,
mapa aberto à luz das praias,
códice de piada e gíria,
coxas libertas de saias;
favelas portinarescas
onde o samba se arredonda,
e claustro beneditino,
sal de batismo na onda;
cinemeiro Rio, atlético,
flamengo ou vasco, porosa
urna plena do noivado
de uísque com manga-rosa;
meu terreiro de São Jorge,
meu parlamento das ruas,
andaraís, méiers, gáveas,
sob a unção de oitenta luas;
Cristo em névoa corcovádica,
bondinho do Pão de Açúcar
e pescarias na barra
— louca rima — da Tíjúcar (!);
Rio de ontem: Rui Barbosa,
na Rua de São Clemente,
mantendo acesa a candeia,
ciceronianamente;
Dr. Campos Porto, no horto
botânico, em meio a palmas
imperiais, que ao crepúsculo
são aves minerais, calmas;
minha igrejinha do Outeiro,
que Rodrigo zela tanto,
e entre cujos azulejos
esvoaça o Espírito Santo;
meus livros velhos nos “sebos”,
meu chafariz do Lagarto,
e esse tostão de paisagem
da janela de meu quarto;
e a tarde, imensa, pairando:
lá longe o Dedo de Deus;
calor, e sorriso, e brisa
que alisa os cuidados meus;
cidade que tantos bens
deste a todos, e tão pouco,
em gratidão e carinho,
agora te dão em troco;
malvestida, mal comida,
descalça, “dependurada”,
e conservando no rosto,
como cristais de orvalhada,
não sei que beleza infante,
gosto de viver, e graça:
pouco importa que te levem
o que, no fundo, é fumaça.
Rio antigo, Rio eterno,
Rio-oceano, Rio amigo,
o Governo vai-se? Vá-se!
Tu ficarás, e eu contigo.
21/02/1960
1 411
Carlos Drummond de Andrade
O Pico de Itabirito
O Pico de Itabirito
será moído e exportado,
mas ficará no infinito
seu fantasma desolado.
Com tanto minério em roda
podendo ser extraído,
a Icominas se açoda
e nem sequer presta ouvido
ao grave apelo da História
que recortou nessa imagem
um marco azul da memória
e um assombro da paisagem.
St. John del Rey Mining sai
mais Hanna mais Icominas
e sem dizer água-vai
serram os serros de Minas,
nobres cimos altaneiros
que davam, com sobriedade,
aos de casa e a forasteiros
um curso de eternidade.
A tripla, agressiva empresa
acha que tudo se exporta
e galas da natureza
são luzes de estrela morta.
Tradição? Ora, bulufas,
ruínas, frases e ossos.
Algibeira, como estufas
de ouro feito de destroços!
Mas eis que salta o Conselho
dos homens bons da DPHAN,
no caso mete o bedelho
e na brisa da manhã
acende um sol de esperança
sobre a paisagem mineira.
(Até onde a vista alcança,
era dinamite e poeira.)
— O Pico de Itabirito,
este há de ser preservado
como presença, não mito,
de um borbulhante passado.
Conselho dixit. E “tombando”
a rocha, mais rocha agora,
demonstra-nos como, quando,
com peito, uma lei vigora.
St. John, Hanna e Ico, murchos,
detêm-se para pensar.
Queimaram-se os seus cartuchos
ou resta um jeitinho no ar?
— Vamos chorar nossas mágoas
e, reforçando o lamento,
arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!
Tudo exportar bem depressa,
suando as rotas camisas.
Ficam buracos? Ora essa,
o que vale são divisas
que tapem outros “buracos”
do Tesouro Nacional,
deixando em redor os cacos
de um país colonial.
Escorre o tempo. E, à cantiga
dessa viola afinada,
já ninguém mais lembra a antiga
voz do Conselho, nem nada.
E vem de cima um despacho
autorizando: Derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
como, ao vento, uma embaúba!
E o Pico de Itabirito
será moído, exportado.
Só quedará, no infinito,
seu fantasma desolado.
16/06/1965
será moído e exportado,
mas ficará no infinito
seu fantasma desolado.
Com tanto minério em roda
podendo ser extraído,
a Icominas se açoda
e nem sequer presta ouvido
ao grave apelo da História
que recortou nessa imagem
um marco azul da memória
e um assombro da paisagem.
St. John del Rey Mining sai
mais Hanna mais Icominas
e sem dizer água-vai
serram os serros de Minas,
nobres cimos altaneiros
que davam, com sobriedade,
aos de casa e a forasteiros
um curso de eternidade.
A tripla, agressiva empresa
acha que tudo se exporta
e galas da natureza
são luzes de estrela morta.
Tradição? Ora, bulufas,
ruínas, frases e ossos.
Algibeira, como estufas
de ouro feito de destroços!
Mas eis que salta o Conselho
dos homens bons da DPHAN,
no caso mete o bedelho
e na brisa da manhã
acende um sol de esperança
sobre a paisagem mineira.
(Até onde a vista alcança,
era dinamite e poeira.)
— O Pico de Itabirito,
este há de ser preservado
como presença, não mito,
de um borbulhante passado.
Conselho dixit. E “tombando”
a rocha, mais rocha agora,
demonstra-nos como, quando,
com peito, uma lei vigora.
St. John, Hanna e Ico, murchos,
detêm-se para pensar.
Queimaram-se os seus cartuchos
ou resta um jeitinho no ar?
— Vamos chorar nossas mágoas
e, reforçando o lamento,
arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!
Tudo exportar bem depressa,
suando as rotas camisas.
Ficam buracos? Ora essa,
o que vale são divisas
que tapem outros “buracos”
do Tesouro Nacional,
deixando em redor os cacos
de um país colonial.
Escorre o tempo. E, à cantiga
dessa viola afinada,
já ninguém mais lembra a antiga
voz do Conselho, nem nada.
E vem de cima um despacho
autorizando: Derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
como, ao vento, uma embaúba!
E o Pico de Itabirito
será moído, exportado.
Só quedará, no infinito,
seu fantasma desolado.
16/06/1965
1 106
Carlos Drummond de Andrade
Jornal Em Verso
Janeiro: nasce mais uma República
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
1 071
Carlos Drummond de Andrade
Lira Pedestre
Vamos — eis um projeto de domingo —
legalizar nosso prezado bingo?
Boa ideia: cartões fiscalizados,
prendas, prêmios, carinhos e cuidados,
o azar livre de fraude — e de capricho.
(Outlaw, coitado, só jogo do bicho,
que, por ser instituto nacional,
bem merecia trânsito legal.)
A rima em al lembra outra rima em ília:
Amigos, que faremos de Brasília?
Ela é e não é: no shakespeariano
dilema, junta engano e desengano,
e tendo tão bonita arquitetura
vai ser tapera de ouro na planura?
Já de volta o Governo se pretende,
já cessa a dobradinha, já se estende
o véu de sombra sobre o róseo sonho
da terra do futuro… Os olhos ponho
em ti, Brasília, em tuas avenidas,
trevos, jardins e quadras doloridas.
Nunca te vi de perto; agora vejo
e sinto e apalpo e todo o meu desejo
é que sejas em tudo uma cidade
completa, firme, aberta à humanidade,
e tão naturalmente capital
como o Rio é uma coisa sem igual.
Cresce e viceja, pois, e ministérios
e seus papéis, tapetes e mistérios,
IAPês, siglas, telex, senadores,
ministros, embaixadas, assessores
e tudo mais que é símbolo de mando,
comando e glória, fique te adornando,
pois ao Rio nos basta a praia clara,
o gosto de viver, a joia rara
de um modo especialíssimo de ser,
de amar o amor, amar até morrer…
Eia, Brasília, luta por teu título!
E tenho despachado este capítulo.
Mas resta o subsídio do petróleo,
que, se não cortam, dizem que ele engole o
Brasil e toda a nossa economia.
E, se cortam, é fogo… Virg’Maria!
O dr. Rui de Almeida telefona
e, como se pedisse uma azeitona,
aos colegas sugere: Um trilhãozinho
ao pobre do Tesouro, coitadinho.
A turma não escuta: Alô? Alô?
Ah, que aparelho! Pronto: desligou.
10/05/1964
legalizar nosso prezado bingo?
Boa ideia: cartões fiscalizados,
prendas, prêmios, carinhos e cuidados,
o azar livre de fraude — e de capricho.
(Outlaw, coitado, só jogo do bicho,
que, por ser instituto nacional,
bem merecia trânsito legal.)
A rima em al lembra outra rima em ília:
Amigos, que faremos de Brasília?
Ela é e não é: no shakespeariano
dilema, junta engano e desengano,
e tendo tão bonita arquitetura
vai ser tapera de ouro na planura?
Já de volta o Governo se pretende,
já cessa a dobradinha, já se estende
o véu de sombra sobre o róseo sonho
da terra do futuro… Os olhos ponho
em ti, Brasília, em tuas avenidas,
trevos, jardins e quadras doloridas.
Nunca te vi de perto; agora vejo
e sinto e apalpo e todo o meu desejo
é que sejas em tudo uma cidade
completa, firme, aberta à humanidade,
e tão naturalmente capital
como o Rio é uma coisa sem igual.
Cresce e viceja, pois, e ministérios
e seus papéis, tapetes e mistérios,
IAPês, siglas, telex, senadores,
ministros, embaixadas, assessores
e tudo mais que é símbolo de mando,
comando e glória, fique te adornando,
pois ao Rio nos basta a praia clara,
o gosto de viver, a joia rara
de um modo especialíssimo de ser,
de amar o amor, amar até morrer…
Eia, Brasília, luta por teu título!
E tenho despachado este capítulo.
Mas resta o subsídio do petróleo,
que, se não cortam, dizem que ele engole o
Brasil e toda a nossa economia.
E, se cortam, é fogo… Virg’Maria!
O dr. Rui de Almeida telefona
e, como se pedisse uma azeitona,
aos colegas sugere: Um trilhãozinho
ao pobre do Tesouro, coitadinho.
A turma não escuta: Alô? Alô?
Ah, que aparelho! Pronto: desligou.
10/05/1964
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