Amor Romântico
Nuno Júdice
Pede à noite que não a deixe sozinha
durante o sonho, e não sabe que o caminho
estava indicado nos seus olhos, procura o vazio
com a mão segura entre lençol e cobertor,
como se nesse intervalo houvesse ainda
uma saída para o desejo. No sono em que
a maré da noite se desfez num impulso
de névoa, os seus lábios murmuraram
o nome que não tem corpo; e em vão
esperaram o beijo que os iria selar,
os dedos que se afundariam no oceano
dos cabelos, a respiração que
lhe daria o ritmo da manhã. Por isso,
a mulher que acorda pede à noite que não
a deixe sozinha, como se o abraço antigo
se pudesse prolongar, ou o sol
não trouxesse o dia para junto dela.
Manuel António Pina
Regresso
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Nuno Júdice
Canto de ausência
de um rumor de lençóis para se converter na esfinge
do teu corpo, quando te voltas e me entregas
a península do teu dorso.Escondes-me o horizonte
com os cabelos para que sejas tu o único
horizonte, e eu o possa tocar com as mãos, moldá-lo
à medida de uma navegação de corpos, como barcos
num sulco de lençóis. Nesta viagem, sigo a linha
curva das tuas ancas, deixando-me guiar pelos
teus olhos que abres, quando a tua boca se liberta
de uma espuma de murmúrios e colho dos teus
seios os bagos do desejo. Às vezes, é no teu rosto
que um gesto abstracto substitui o movimento
exacto de um escultor de emoções; de outras vezes
demoro-me a olhá-lo e perco-me na expectativa
de uma voz que encha de luz o coração
das sombras. Quero ver-te assim, nua neste
véu de palavras com que te envolvo, e
dar-te, à transparência de mármore da ausência,
a pulsação que me conduz a ti, como o vento
que empurra a ave, ou o silêncio que
se converte em canto.
Nuno Júdice | "A convergência dos ventos", pág. 41 | Publicações Dom Quixote, 2015
Nuno Júdice
Chegar antes de ti
Nuno Júdice
Variação celeste
de entre os teus seios juntos, e quando
estremeceste foi como se uma estrela
tivesse vacilado nos ombros
da manhã.
Pus essa flor no negro
lago dos teus olhos, e as suas
raízes estenderam-se pelo fundo
da tua memória até esse dia em que
a lava do início te inundou.
E percorri com o tempo
de uma vela de moinho o arco
das tuas sobrancelhas, procurando
na sua margem o pórtico
dos teus lábios.
Nuno Júdice | "A Convergência dos Ventos", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 2015
Nuno Júdice
Quando era o amor que definia o cânone da beleza
com o teu, a mais bela mulher do mundo, quando
era o amor que definia o cânone da beleza, e
só tu entravas nesse patamar em que a respiração
fica suspensa, os olhos não se desprendem de
outros olhos, e mesmo que tenhas partido são eles
ainda que guardo em mim, como se o olhar que nos
prendia um ao outro tivesse apagado o mundo
do meu horizonte, em que só tu cabias, mesmo que
não to tivesse dito, e só não sabia era se tu sentias
por mim o mesmo que eu sentia por ti, que de tal forma
me oprimia que nem queria saber o que tu, na verdade,
sentias, porque a verdade eram os teus olhos,
e os lábios que, ao abrirem-se, abriam o sorriso
que me abria a vida onde só tu cabias, até ao
dia em que desapareceste, para que eu não mais
te visse, até esse dia em que passaste por mim, e
só os olhos eram os mesmos, fazendo com que
anos, cidades, dias e noites, insónias e dores,
se tivessem apagado entre mim e ti, nesse breve
instante em que revi os teus olhos, e não mais te vi.
Nuno Júdice
Projecto
um poema de amor, mas que não é apenas um poema de amor. O
amor, com efeito, é algo que não cabe num poema; pelo contrário,
o poema é que pode caber no amor, sobretudo quando te abraço, e
sinto os teus cabelos na boca, agora que a tua voz me corre pelos
ouvidos como, num dia de verão, a água fresca corre pela
garganta. A isto, em retórica, chama-se uma comparação; e pergunto
o que é que o amor tem a ver com a retórica, ou por que é
que o teu corpo se teme de transformar numa metáfora - rosa,
lírio, taça, qualquer objecto que tenha, na sua essência, um
elemento que me possa levar até ele, como se fosse preciso, para te tocar,
substituir-te por uma outra imagem, ver em ti o que não és,
nem tens de ser, ou ainda transformar-te num lugar-comum, que
é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor. Assim,
este poema de amor é, mais do que um poema de amor, um
exercício para escrever um poema de amor - mas um poema de amor
a sério, sem comparações nem metáforas, só contigo, com o
teu corpo, com a tua voz, com os teus cabelos, com aquilo que é
real, e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto de
um poema de amor em que o amor, finalmente, deixa de ser
o objecto único do poema, que se preocupa acima de tudo com
a retórica, as imagens, o equilíbrio das formas. Mas, pergunto, não
é o teu corpo uma flor? Não é a tua boca uma rosa? Não são lírios os teus
seios? Tudo, então, se transforma: e o que tenho nas mãos é uma imagem,
a pura metáfora da vida, a abstracta metamorfose das emoções. O
resto, meu amor, és tu - e é por isso que o poema de amor que te
escrevo não é, finalmente, um poema de amor.
Nuno Júdice
Paciência
de cartas. Copas, paus, ouros, espadas. Um equilíbrio
difícil. Negros sobre vermelhos, damas e valetes
no meio de reis e ases. Ponho uma carta
sobre a carta que tu puseste; e tu acrescentas
a essa ainda outra. Até onde? Nesse jogo, não
convém respirar com muita força; evitemos
os gestos bruscos, os que deitam tudo abaixo,
de súbito; e espreitemos o olhar de cada um de nós,
quando nos preparamos para fazer subir o castelo.
Assim, ponho a minha emoção sobre o sentimento
que me confessas. Não precisas de mo dizer;
basta que eu saiba que os teus dedos brincam
entre corações e manilhas; que a tua voz treme
quando o edifício se parece com um labirinto;
e que ambos descobrimos uma saída, para um lado ou outro
da toalha. Na mesa, com efeito, podem já
nascer as flores, cantar as aves que brotam
de uma ilusão de primavera, ou morrerem frases
e borboletas que esvoaçam numa corrente de ar.
Por que abriste a janela? Agoira que tudo caiu,
sem que um nem o outro tivéssemos feito alguma coisa
para isso, de quem é a culpa? Então,
aproveitemos este silêncio breve, enquanto a tarde
não chega, e recomecemos o jogo.
Nuno Júdice | "A Fonte da Vida", 1997
Nuno Júdice
Romã
Nuno Júdice
Manhã
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:
assim, amor, reconheço a vida que
entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 33 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Nuno Júdice
Poema
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.
Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.
Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.
Manuel António Pina
O que me vale
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem complicações
viva aragon
morram as repartições.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - Poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Um outro poema de amor
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.
Nuno Júdice
Carta (esboço)
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
in "Poesia Reunida"
Nuno Júdice
Um poema de amor, ainda
assombra o mutismo das suas folhas. Incham com a chuva,
grávidas de uma febre cinzenta. Arranco-lhes esse fruto
com mãos de crepúsculo.
Ponho-o na mesa onde me sentei contigo. Colho
o teu olhar triste; espalho-o no prato onde a vida
arrefece. Comemos devagar cada sílaba do amor que
nenhum de nós prenuncia.
E um coral de silêncio brota dos teus
dedos, enquanto te afastas.
Nuno Júdice | "Poesia Reunida", 2001
Nuno Júdice
Retrato
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: e o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 43 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Fernando Pessoa
Teu vestido, porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.
Nuno Júdice
Poema de amor com imagens naturais
para os teus cabelos, os teus seios, a linha
exacta dos teus olhos, onde o destino se fixa
como o centro das águas que nascem em todos os pontos da terra.
De súbito, todos os rios deixaram de correr:
para os teus lábios, quando te ris, e esse riso
desce como a mais alta das cascatas para o vale
obscuro onde procuro, sem ver mais do que as sombras do céu.
De súbito, as montanhas parecem pálidas,
as árvores sem um abraço de ramagens, os
lagos sem uma profundidade de abismo, o mar
sem o brilho azul de cada dia: quando te olho,
e os teus lábios sugam toda a luz do mundo.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento", pág. 23 | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice
Poema de amor para uso tópico
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
Nuno Júdice, in "Poesia Reunida"
Bruno Kampel
SIM!
de seus passos
e as paredes suam clamores
que inundam a lembrança
do seu riso.
A janela embaça seus cristais
ao descobrir que das paredes
não penduram quadros senão penas
e que sobre os tapetes
flutua o eco insone
de seus passos de outros dias.
Nos vasos florescem
teias de aranha coalhadas
de lembranças
onde cada pétala é um beijo
e cada flor uma carícia
e cada dia um abraço
e cada sombra um espelho
e cada noite o reflexo
de sua pele sobre a minha
e cada instante uma angústia
que visita sem convite
minhas noites e meus dias.
E sentadas no jardim
as promessas quebradas
contemplam a janela
que mostra as paredes
que hospedam as dores
que declamam os queixumes
que caminham o caminho
que conduz até os tapetes
que calados sofrem
a ausência de seus passos.
E se arrastam as lembranças
nos tapetes de outros rastros
e passeia nas paredes
a fragrância de sua ausência
e desenho nas janelas
cicatrizes decoradas
com lamúrias desbotadas
com desejos exauridos
com perguntas sem resposta
e discursos sem sentido.
Sim.
Solidão.
Nem mais
nem menos.
Nuno Júdice
Vénus aérea
que nasce de um corpo sem passado,
onde a leio numa língua sem idade,
adivinhando o seu futuro neste fado.
Caem pálpebras num cair de pano,
abrem-se dedos num florir de mão,
no seu jardim a primavera não é engano,
no seu rosal o amor está em botão.
Uma boca de pérola envolve-a de segredo,
e dela tiro um brilho de estrela.
Respiro o seu perfume sem ter medo,
acendo nos seus olhos a última vela.
Levo-a como deusa ao templo do mar,
e vejo-a despir-se como se fosse flutuar.
Bruno Kampel
Poema de amor
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.
Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.
Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.
Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.
Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.
E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.
Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.
Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.
Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.
E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.
E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.
Nuno Júdice
O que temos
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar
com o azul do céu à saída,
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a supresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso,
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.
Ibn Ammar
À bem-amada
ainda que haja nisso uma tortura
e alegre vai na ânsia da procura
que estranho ser difícil nossa ligação
se os desejos d"ambos concordaram!
que quereria mais meu coração,
ao desejoso te buscar em vão,
se meus olhos te viram e amaram?
Allâh bem sabe que não há razão
de vir aqui senão para te ver.
que o vigia não nos possa achar
se o nosso reencontro acontecer
p"ra os teus lábios doces eu provar.
folgarei no jardim da tua face,
beberei desses olhos o langor,
e mesmo que um terno ramo imtasse
o teu talhe grácil, sedutor,
valerias mais que o imitador.
não te ocultes, oh jardim secreto:
quero colher meu fruto predilecto!