Poemas neste tema
Sabedoria
Fernando Pessoa
TO A FRIEND WHO ASKED FOR AN EPITAPH
«He was strong and kind to all mankind,
Strong all temptations through.ª
May this epitaph be written over thee,
And, what's more, may it be true.
Strong all temptations through.ª
May this epitaph be written over thee,
And, what's more, may it be true.
1 130
Fernando Pessoa
Quer com amor, que sem amor, senesces
Quer com amor, que sem amor, senesces
Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.
Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.
880
Fernando Pessoa
Não, não vos disse... A essência inatingível
Não, não vos disse... A essência inatingível
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
904
Fernando Pessoa
Saber? Que sei eu?
Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
1 644
Fernando Pessoa
Não digas mal de ninguém,
Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
1 861
Fernando Pessoa
Um verso repete
Um verso repete
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
1 574
Fernando Pessoa
Hora a hora não dura a face antiga
Hora a hora não dura a face antiga
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
934
Fernando Pessoa
Se há uma nuvem que pass
Se há uma nuvem que passa
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.
1 404
Fernando Pessoa
Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
1 256
Fernando Pessoa
TO A MATERIALIST
Thou dost explain by Law the weaving
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
1 386
Fernando Pessoa
Concentra-te, e serás sereno e forte;
Concentra-te, e serás sereno e forte;
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
1 182
Fernando Pessoa
Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
4 750
Fernando Pessoa
Para quê complicar inutilmente,
Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
1 478
Fernando Pessoa
Dois é o prazer: gozar e o gozá-lo.
Dois é o prazer: gozar e o gozá-lo.
Ao néscio elege o parvo, o sábio ao outro.
E o igual fado é diverso.
Na taça que ergo, ondeio, e vejo, as bolhas
Incluo no que sinto, e ao beber
Mais puro está no gosto.
Ao néscio elege o parvo, o sábio ao outro.
E o igual fado é diverso.
Na taça que ergo, ondeio, e vejo, as bolhas
Incluo no que sinto, e ao beber
Mais puro está no gosto.
1 492
Fernando Pessoa
Flores amo, não busco. Se aparecem
Flores amo, não busco. Se aparecem
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
Não são nossas, mas mortas.
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
Não são nossas, mas mortas.
1 344
Fernando Pessoa
Do alto da torre da igreja
Do alto da torre da igreja
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.
2 959
Fernando Pessoa
TRIFLES
They wear no real greatness who have faith
In God: or Matter, in Life's In or Out.
Only perpetual doubt is truly great,
And the pain of perpetual doubt.
In God: or Matter, in Life's In or Out.
Only perpetual doubt is truly great,
And the pain of perpetual doubt.
1 376
Fernando Pessoa
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.
1 606
Fernando Pessoa
Não tenhas nada nas mãos [2]
Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
2 264
Fernando Pessoa
Só a inocência e a ignorância são
Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.
4 170
Fernando Pessoa
Quase anónima sorris
Quase anónima sorris
E o sol doura o teu cabelo.
Porque é que, pra ser feliz,
É preciso não sabê-lo?
E o sol doura o teu cabelo.
Porque é que, pra ser feliz,
É preciso não sabê-lo?
1 591
Fernando Pessoa
Àquele que, constante, nada espera
Àquele que, constante, nada espera
Não pode negar Jove; nem para ele
Murcham as frágeis flores
Que nunca esperou ver.
Consiste a força do ânimo em não tê-la
Para os alacres fins da fantasia,
Mas em saber conter-se
Nos limites d (...)
Não pode negar Jove; nem para ele
Murcham as frágeis flores
Que nunca esperou ver.
Consiste a força do ânimo em não tê-la
Para os alacres fins da fantasia,
Mas em saber conter-se
Nos limites d (...)
1 290
Fernando Pessoa
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
1 145