Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
William Butler Yeats
Versos escritos com desânimo
Quando foi a última vez que reparei
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
1 485
1
João José Cochofel
Paraíso Perdido
Que vens aqui fazer, espírito velho
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?
Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.
Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?
Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.
Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.
1 475
1
Alberto de Serpa
Espetáculo
Passa a tropa na rua e abrem-se as janelas de repente,
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada ...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo ...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados ...
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada ...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo ...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados ...
1 473
1
Gilson Nascimento
P a s s a r e d o
Sabiá – canto dolente
À tarde a mata varando
Na alma de muita gente
Vais a saudade acordando
Vi um galo-de-campina
Seu colorido esbanjando
E as penas, à chuva fina
Um arco-íris formando
Um beija-flor cortejando
Uma rosa – vida em cor
Ao beijá-la vai doando
Pequenas doses de amor
Tico-tico pequenino
De galho em galho saltando
Qual um menino traquino
Vives a vida brincando
Rolinha fogo-pagou
O teu canto, na verdade,
É a voz de quem amou
Curtindo a dor da saudade
À tarde a mata varando
Na alma de muita gente
Vais a saudade acordando
Vi um galo-de-campina
Seu colorido esbanjando
E as penas, à chuva fina
Um arco-íris formando
Um beija-flor cortejando
Uma rosa – vida em cor
Ao beijá-la vai doando
Pequenas doses de amor
Tico-tico pequenino
De galho em galho saltando
Qual um menino traquino
Vives a vida brincando
Rolinha fogo-pagou
O teu canto, na verdade,
É a voz de quem amou
Curtindo a dor da saudade
1 086
1
Giselda Medeiros
Tua Voz
Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
1 092
1
João José Cochofel
Breve
Breve
o tão que fote
o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.
o tão que fote
o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.
1 728
1
Gonzaga Leão
Soneto à Rosa Acontecida
Ela nasceu de abismo e foi rosa
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
1 266
1
Natércia Freire
Canção do Verdadeiro Abandono
Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.
Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.
Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.
Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.
Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.
1 465
1
Mário de Sá-Carneiro
Escavação
Numa ânsia de ter alguma cousa
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...
Mas a vitória fulva esvai-se logo
E cinzas, cinzas, só em vez de fogo...
– Onde existo que não existo em mim?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
Um cemitério falso sem ossadas –
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...
Mas a vitória fulva esvai-se logo
E cinzas, cinzas, só em vez de fogo...
– Onde existo que não existo em mim?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
Um cemitério falso sem ossadas –
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...
6 739
1
Amélia Rodrigues
A Minha Rosa
Passeando em meu jardim,
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
2 131
1
Amélia Rodrigues
Você é Isso
Um clarão que desponta
Nas trevas do coração ...
Um elo transparente
Das carícias à ilusão...
Um afeto que surge
E fortalece a união,
Sempre pronto para ser,
Poder estar, viver
Pleno de amor
E amargura no coração.
Um ser que busca
A cidade
Da alma do amigo,
Que escorrega no seu pranto
E abafa o seu grito ...
Alguém que aceita a dor
Como um lenitivo
Nas luzes enegrecidas
Pelo fumo do inimigo ...
A fuga discordante
De um momento de paz
Quando chora o amor
Que tanta falta lhe faz.
Você é isso
Que eu encaro, reparo
E aceito
Como um amigo que tenho
No peito
Junto à liberdade
De ser quem sou.
Nas trevas do coração ...
Um elo transparente
Das carícias à ilusão...
Um afeto que surge
E fortalece a união,
Sempre pronto para ser,
Poder estar, viver
Pleno de amor
E amargura no coração.
Um ser que busca
A cidade
Da alma do amigo,
Que escorrega no seu pranto
E abafa o seu grito ...
Alguém que aceita a dor
Como um lenitivo
Nas luzes enegrecidas
Pelo fumo do inimigo ...
A fuga discordante
De um momento de paz
Quando chora o amor
Que tanta falta lhe faz.
Você é isso
Que eu encaro, reparo
E aceito
Como um amigo que tenho
No peito
Junto à liberdade
De ser quem sou.
2 118
1
Fernando Pessoa
Um cansaço feliz, uma tristeza informe
Um cansaço feliz, uma tristeza informe
O meu espírito intranquilamente dorme.
Combati, fui o gládio e o braço e a intenção
E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...
Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor
Impregna de cansaço a minha própria dor...
O meu espírito intranquilamente dorme.
Combati, fui o gládio e o braço e a intenção
E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...
Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor
Impregna de cansaço a minha própria dor...
4 152
1
Fernando Pessoa
Ah, como o sono é a verdade, e a única
Ah, como o sono é a verdade, e a única
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
Sperança, és a ilusão a apodrecer.
Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.
Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sons, a janela que, entreaberta,
Só um crepúsculo do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente;
E a alma se desfaça como um peixe
Atado pelos dedos de um demente...
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
Sperança, és a ilusão a apodrecer.
Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.
Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sons, a janela que, entreaberta,
Só um crepúsculo do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente;
E a alma se desfaça como um peixe
Atado pelos dedos de um demente...
4 939
1
Fernando Pessoa
A low, sad wind fills the lone night
A low, sad wind fills the lone night
With its one solitary sound.
I have forgotten what delight
Delight has, in the vague around
All sleep is consecrated ground.
Alas for all I ever hoped!
The sheep crop what it lies beneath.
Its grave is where the mountain sloped
When mountains were, but now the heath
Is all the life above its death.
Moan, solitary wind that wakes
When the day sleeps! Moan vague and low!
That which I never was now slakes
Its thirst where reeds cluster round lakes
Of silence, or mute rivers go.
To-morrow shall be yesterday
Lest life forget what it is ever.
I shall myself cast this away
That I am now, and myself sever
From what of me weeps by this river.
This river of the haunted night
That under stars I do not see
Has neither purpose nor delight.
Moan, solitary wind, and be
This life’s unchanging, shoreless sea!
13/3/1933
now takes
Its sleep where reeds dip into lakes
With its one solitary sound.
I have forgotten what delight
Delight has, in the vague around
All sleep is consecrated ground.
Alas for all I ever hoped!
The sheep crop what it lies beneath.
Its grave is where the mountain sloped
When mountains were, but now the heath
Is all the life above its death.
Moan, solitary wind that wakes
When the day sleeps! Moan vague and low!
That which I never was now slakes
Its thirst where reeds cluster round lakes
Of silence, or mute rivers go.
To-morrow shall be yesterday
Lest life forget what it is ever.
I shall myself cast this away
That I am now, and myself sever
From what of me weeps by this river.
This river of the haunted night
That under stars I do not see
Has neither purpose nor delight.
Moan, solitary wind, and be
This life’s unchanging, shoreless sea!
13/3/1933
now takes
Its sleep where reeds dip into lakes
4 909
1
Fernando Pessoa
O Fausto Negro (Prólogo no Inferno)
ACTO V
O FAUSTO NEGRO
(Prólogo no Inferno)
Tecedeiras a tecer:
Teçamos, teçamos
O pano da vida.
Teçamos, teçamos
Com louca lida.
De negro, de negro
Com pontos dourados,
De negro, de negro
Com breves bordados.
Teçamos a rede
Da vida em tear
Que a morte tem sede
Da rede rasgar.
Teçamos, teçamos
Pra cedo acabar.
Uma voz
Eu sou o Spírito de Alegria,
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.
Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer pra não pensar, já não
Por duvidar – mas – oh, maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
O animal teme a morte porque vive,
O homem também, e porque a desconhece.
Só a mim me é dado com horror
Temê-la por lhe conhecer a inteira
Extensão e mistério, por medir
O infinito seu de escuridão.
Não que a conheça, não, nem compreenda
Mas que como ninguém meço e compreendo
Toda a extensão do seu mistério negro.
Para esta minha dor não foram feitas
Palavras que expressem e nem mesmo
Sentimento que a sinta como tal.
Dor que transcende o verbo e o sentimento
Criando um sentimento para si
Do qual o Horror é apenas a aparência
Pensável e sensível do exterior.
Indefinível sentimento fundo
Que me foge quando eu a analisá-lo
Me preparo e só deixa como um rasto
Da fantásmica luz de escuridão
À qual cerrar os olhos d'alma tenho.
O horror cabe bem n'alma, mas aqui
Não me cabe uma alma neste horror. Além
Do vulgar medo à extinção suprema
Há a épica aceitação da morte
E além d'ambas este perder d'alma
Num escurecido e lúcido terror.
Já ouço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja – que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir – ah, dormir! – num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra coisa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem dosséis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Dosséis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
Monólogo à Noite
Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido (...)
E anuladamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu pra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ser infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esp'rança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh, Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh, Fausto!
(Expira)
O FAUSTO NEGRO
(Prólogo no Inferno)
Tecedeiras a tecer:
Teçamos, teçamos
O pano da vida.
Teçamos, teçamos
Com louca lida.
De negro, de negro
Com pontos dourados,
De negro, de negro
Com breves bordados.
Teçamos a rede
Da vida em tear
Que a morte tem sede
Da rede rasgar.
Teçamos, teçamos
Pra cedo acabar.
Uma voz
Eu sou o Spírito de Alegria,
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.
Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer pra não pensar, já não
Por duvidar – mas – oh, maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
O animal teme a morte porque vive,
O homem também, e porque a desconhece.
Só a mim me é dado com horror
Temê-la por lhe conhecer a inteira
Extensão e mistério, por medir
O infinito seu de escuridão.
Não que a conheça, não, nem compreenda
Mas que como ninguém meço e compreendo
Toda a extensão do seu mistério negro.
Para esta minha dor não foram feitas
Palavras que expressem e nem mesmo
Sentimento que a sinta como tal.
Dor que transcende o verbo e o sentimento
Criando um sentimento para si
Do qual o Horror é apenas a aparência
Pensável e sensível do exterior.
Indefinível sentimento fundo
Que me foge quando eu a analisá-lo
Me preparo e só deixa como um rasto
Da fantásmica luz de escuridão
À qual cerrar os olhos d'alma tenho.
O horror cabe bem n'alma, mas aqui
Não me cabe uma alma neste horror. Além
Do vulgar medo à extinção suprema
Há a épica aceitação da morte
E além d'ambas este perder d'alma
Num escurecido e lúcido terror.
Já ouço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja – que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir – ah, dormir! – num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra coisa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem dosséis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Dosséis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
Monólogo à Noite
Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido (...)
E anuladamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu pra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ser infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esp'rança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh, Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh, Fausto!
(Expira)
5 218
1
Fernando Pessoa
REGRET
REGRET
I would that I were again a child
And a child you sweet and pure,
That we might be free and wild
In our consciousness obscure;
That we might play fantastic games
Under trees silent and shady,
That we might have fairy-book names,
I be a lord, you a lady.
And all were a strong ignorance
And a healthy want of thought,
And many a prank, many a dance
Our unresting feet had wrought;
And I would act well a clown's part
To your childish laughter winning,
And I would call you my sweetheart
And the name would have no meaning.
Or sitting close we each other would move
With tales that now gone are sad;
We would have no sex, would feel no love,
Good without fighting the bad.
And a flower would be our life's delight
And a nutshell boat our treasure:
We would lock it in a cupboard at night
As in memory a pleasure.
We would spend hours and days like a wealth
Of goodness too great to cloy,
We would deep enjoy innocence and health
Knowing not we did enjoy...
Ah, what bitterest is is that alone
Now one feeling in me I trace –
That knowledge of what from us hath gone
And of what it left in its place.
Alexander Search
May 29th. 1907
I would that I were again a child
And a child you sweet and pure,
That we might be free and wild
In our consciousness obscure;
That we might play fantastic games
Under trees silent and shady,
That we might have fairy-book names,
I be a lord, you a lady.
And all were a strong ignorance
And a healthy want of thought,
And many a prank, many a dance
Our unresting feet had wrought;
And I would act well a clown's part
To your childish laughter winning,
And I would call you my sweetheart
And the name would have no meaning.
Or sitting close we each other would move
With tales that now gone are sad;
We would have no sex, would feel no love,
Good without fighting the bad.
And a flower would be our life's delight
And a nutshell boat our treasure:
We would lock it in a cupboard at night
As in memory a pleasure.
We would spend hours and days like a wealth
Of goodness too great to cloy,
We would deep enjoy innocence and health
Knowing not we did enjoy...
Ah, what bitterest is is that alone
Now one feeling in me I trace –
That knowledge of what from us hath gone
And of what it left in its place.
Alexander Search
May 29th. 1907
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1
Fernando Pessoa
SONNET - Could I say what I think, could I express
SONNET
Could I say what I think, could I express
My every hidden and too-silent though,
And bring my feelings, in perfection wrought,
To one unforced point of living stress.
Could I breathe forth my soul, could I confess
The inmost secrets to my nature brought;
I might be great, yet none to me hath taught
A language well to figure my distress.
Yet day and night to me new whispers bring,
And night, and day from me old whispers take...
Oh for a word, one phrase in which to fling
All that I think and feel, and so to wake
The world; but I am dumb and cannot sing,
Dumb as You clouds before the thunders break.
Alexander Search, May 1904
Could I say what I think, could I express
My every hidden and too-silent though,
And bring my feelings, in perfection wrought,
To one unforced point of living stress.
Could I breathe forth my soul, could I confess
The inmost secrets to my nature brought;
I might be great, yet none to me hath taught
A language well to figure my distress.
Yet day and night to me new whispers bring,
And night, and day from me old whispers take...
Oh for a word, one phrase in which to fling
All that I think and feel, and so to wake
The world; but I am dumb and cannot sing,
Dumb as You clouds before the thunders break.
Alexander Search, May 1904
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1
Fernando Pessoa
20 - MONOTONY
MONOTONY
Each hot and shaded ember
Includes the outer wet.
Let us, my life, remember
Our thoughts info regret.
The meaning wind blows colder
Upon the wetted pane.
Our hearts, alas!, feel older
In seeking to live again.
The night hurts. Each red ember
To hotter redness fret!
Alas! When I remember
I wish I could forget.
What vague and cold gusts enter
My soul as by a door!
My soul is the living centre
Of dreams that are no more.
Startle yet more each ember!
Make the fire nearer yet!
How easy it is to remember
When memory means regret!
The wetting wind is higher
All round my senses lone.
My eyes leave not the fire,
My lips a vague name moan.
Shift uselessly each ember!
All our soul is regret.
We regret what we remember
And regret what we forget.
O colder and wilder blowing
The wind through the wet gloom!
On the grave of my past is glowing
A red rose in full bloom.
A darkness lakes each ember.
I stir them not, yet fret.
Our life is to remember
And our wish to forget.
My mystery comes to touch
My shoulder till I dread.
The red rose is dead. Such
As I was is now dead.
Could I wish to forget, pale ember,
Without pining or regret!
Or could I wish to remember
Without wishing to forget!
Each hot and shaded ember
Includes the outer wet.
Let us, my life, remember
Our thoughts info regret.
The meaning wind blows colder
Upon the wetted pane.
Our hearts, alas!, feel older
In seeking to live again.
The night hurts. Each red ember
To hotter redness fret!
Alas! When I remember
I wish I could forget.
What vague and cold gusts enter
My soul as by a door!
My soul is the living centre
Of dreams that are no more.
Startle yet more each ember!
Make the fire nearer yet!
How easy it is to remember
When memory means regret!
The wetting wind is higher
All round my senses lone.
My eyes leave not the fire,
My lips a vague name moan.
Shift uselessly each ember!
All our soul is regret.
We regret what we remember
And regret what we forget.
O colder and wilder blowing
The wind through the wet gloom!
On the grave of my past is glowing
A red rose in full bloom.
A darkness lakes each ember.
I stir them not, yet fret.
Our life is to remember
And our wish to forget.
My mystery comes to touch
My shoulder till I dread.
The red rose is dead. Such
As I was is now dead.
Could I wish to forget, pale ember,
Without pining or regret!
Or could I wish to remember
Without wishing to forget!
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1
Fernando Pessoa
18 - SUMMER MOMENTS
SUMMER MOMENTS
I
The sky is blue
The glad grass green.
My sad eyes woo
The alien scene.
O could my heart
Partake of it
And feel no smart
Feeling life flit!
I have no home,
No hours save pain.
Sweet breezes, come
Into my brain!
Great river so
Quiet and true,
Teach me to go
Through life like you!
I have no rest.
My flowers have faded.
What was that quest
My will evaded?
Even what I wish
I care not for.
My heart is rich
And my love poor.
O golden day,
Come into me
And my soul ray
With sunlit glee!
Let me be merely
A window-pane
You pass through, clearly
A warmed no-pain.
I faint and shiver
Hearing life come.
O passing river,
Where is my home?
O happy hours
That the fields wear,
Fresh summer showers!
O my despair!
O glad horizons!
O happy hills!
What pain imprisons
My struggling wills?
What is between
Myself and me?
What should have been
Lest this should be?
My life no more
Ever to be
Than a lone shore
Struck by the sea!
What fate, what power
Of dark despair
Makes each fair hour
Taste as not fair?
O for some rest!
Give me a home,
A hope, a nest
Not to stray from!
Somewhere in life
Sure there must be
Something not strife
Waiting for me.
Lead me to it,
O happy day!
Make my heart fit
Thy going away!
Wake me the hopes
At least, though false.
My spirit gropes
Round prison-walls.
Low voice of streams,
Sweet summer's wife –
Why made I dreams
My only life?
I
The sky is blue
The glad grass green.
My sad eyes woo
The alien scene.
O could my heart
Partake of it
And feel no smart
Feeling life flit!
I have no home,
No hours save pain.
Sweet breezes, come
Into my brain!
Great river so
Quiet and true,
Teach me to go
Through life like you!
I have no rest.
My flowers have faded.
What was that quest
My will evaded?
Even what I wish
I care not for.
My heart is rich
And my love poor.
O golden day,
Come into me
And my soul ray
With sunlit glee!
Let me be merely
A window-pane
You pass through, clearly
A warmed no-pain.
I faint and shiver
Hearing life come.
O passing river,
Where is my home?
O happy hours
That the fields wear,
Fresh summer showers!
O my despair!
O glad horizons!
O happy hills!
What pain imprisons
My struggling wills?
What is between
Myself and me?
What should have been
Lest this should be?
My life no more
Ever to be
Than a lone shore
Struck by the sea!
What fate, what power
Of dark despair
Makes each fair hour
Taste as not fair?
O for some rest!
Give me a home,
A hope, a nest
Not to stray from!
Somewhere in life
Sure there must be
Something not strife
Waiting for me.
Lead me to it,
O happy day!
Make my heart fit
Thy going away!
Wake me the hopes
At least, though false.
My spirit gropes
Round prison-walls.
Low voice of streams,
Sweet summer's wife –
Why made I dreams
My only life?
4 703
1
José Afonso
Que amor não me engana
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia
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1
Fernando Pessoa
16 - LULLABY
LULLABY *
My heart is full of lazy pain
And an old English lullaby
Comes out of that mist of my brain.
Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
I would give all my singing trade
To be the distant English child
For whom this happy song was made.
When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me;
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullably, mine only joy!
There must have been true happiness
Near where this song was sung to small
White hands clutching a mother's dress.
I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
O what a sorrow comes to me
Knowing the bitterness I have
While that child had this lullaby!
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine,
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
My heart aches to be able to weep.
O to think of this song being sung
And the child smiling in its sleep!
Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
I was a child too, but would now
Be the child, and no other hearing
This song low-breathed upon its brow.
When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me,
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
O that I could return to that
Happy time that was never mine
And which I live but to regret!
I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Ay, sing on in my soul, old voice,
So motherfully laying to sleep
The babe that quietly doth rejoice.
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Sing on and let my heart not weep
Because sometime a child could have
This song to lull him into sleep!
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Somehow somewhere I heard this song,
I was part of the happiness
That lived its idle lines along.
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy
Sing lullaby, mine only joy!
Ay, somehow, somewhere I was that
Child, and my heart lay happy asleep.
Now – oh my sad and unknown fate!
* The «Lullaby» quoted is the 134th. poem in Palgrave's Golden Treasury. It was taken by him from Martin Peerson's Private Music, a Song-Book of 1620. The «Lullaby» is here given twice over, and the last stanza twice again.
My heart is full of lazy pain
And an old English lullaby
Comes out of that mist of my brain.
Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
I would give all my singing trade
To be the distant English child
For whom this happy song was made.
When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me;
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullably, mine only joy!
There must have been true happiness
Near where this song was sung to small
White hands clutching a mother's dress.
I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
O what a sorrow comes to me
Knowing the bitterness I have
While that child had this lullaby!
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine,
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
My heart aches to be able to weep.
O to think of this song being sung
And the child smiling in its sleep!
Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
I was a child too, but would now
Be the child, and no other hearing
This song low-breathed upon its brow.
When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me,
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
O that I could return to that
Happy time that was never mine
And which I live but to regret!
I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Ay, sing on in my soul, old voice,
So motherfully laying to sleep
The babe that quietly doth rejoice.
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Sing on and let my heart not weep
Because sometime a child could have
This song to lull him into sleep!
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Somehow somewhere I heard this song,
I was part of the happiness
That lived its idle lines along.
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy
Sing lullaby, mine only joy!
Ay, somehow, somewhere I was that
Child, and my heart lay happy asleep.
Now – oh my sad and unknown fate!
* The «Lullaby» quoted is the 134th. poem in Palgrave's Golden Treasury. It was taken by him from Martin Peerson's Private Music, a Song-Book of 1620. The «Lullaby» is here given twice over, and the last stanza twice again.
4 859
1
Fernando Pessoa
ANTINOUS
ANTINOUS
The rain outside was cold in Hadrian's soul.
The boy lay dead
On the low couch, on whose denuded whole,
To Hadrian's eyes, whose sorrow was a dread,
The shadowy light of Death's eclipse was shed.
The boy lay dead, and the day seemed a night
Outside. The rain fell like a sick affright
Of Nature at her work in killing him.
Memory of what he was gave no delight,
Delight at what he was was dead and dim.
O hands that once had clasped Hadrian's warm hands,
Whose cold now found them cold!
O hair bound erstwhile with the Pressing bands!
O eyes half-diffidently bold!
O bare female male-body such
As a god's likeness to humanity!
O lips whose opening redness erst could touch
Lust's seats with a live art's variety!
O fingers skilled in things not to be told!
O tongue which, counter-tongued, made the blood bold!
The rain outside was cold in Hadrian's soul.
The boy lay dead
On the low couch, on whose denuded whole,
To Hadrian's eyes, whose sorrow was a dread,
The shadowy light of Death's eclipse was shed.
The boy lay dead, and the day seemed a night
Outside. The rain fell like a sick affright
Of Nature at her work in killing him.
Memory of what he was gave no delight,
Delight at what he was was dead and dim.
O hands that once had clasped Hadrian's warm hands,
Whose cold now found them cold!
O hair bound erstwhile with the Pressing bands!
O eyes half-diffidently bold!
O bare female male-body such
As a god's likeness to humanity!
O lips whose opening redness erst could touch
Lust's seats with a live art's variety!
O fingers skilled in things not to be told!
O tongue which, counter-tongued, made the blood bold!
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1
Fernando Pessoa
Dai-me rosas e lírios,
Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?
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Fernando Pessoa
Melodia triste sem pranto,
Melodia triste sem pranto,
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
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