Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Renato Rezende
Cego, Surdo E Mudo
Ver outra vez com os mesmos olhos
o mil vezes visto e revisto?
Por que
caminhar sem fim na planície,
ouvir com os antigos ouvidos
os mesmos ruídos e vozes
sem respostas, as velhas melodias tristes,
falar com novas palavras e versos
o mil vezes dito
e sempre mal compreendido; enfim
por que buscar o corpo do outro
para um amor sem muito sentido
ou um gozo breve e tosco?
Não quero nada disso; quero o vazio
que traga o novo.
o mil vezes visto e revisto?
Por que
caminhar sem fim na planície,
ouvir com os antigos ouvidos
os mesmos ruídos e vozes
sem respostas, as velhas melodias tristes,
falar com novas palavras e versos
o mil vezes dito
e sempre mal compreendido; enfim
por que buscar o corpo do outro
para um amor sem muito sentido
ou um gozo breve e tosco?
Não quero nada disso; quero o vazio
que traga o novo.
712
Renato Rezende
N.S. de Guadalupe
Algo me entristece no México.
A grande cidade é um deserto.
Na Basílica, no alto do monte
onde a Diego apareceu a Virgem
eu ainda mais me entristeço.
(O sol se põe, distante e amarelo
como em Roma ou na velha Pérsia).
Há de ser a imagem singela
da Virgem entre pálidas rosas
estampada na tarde sem glória.
Cidade do México, novembro 1996
A grande cidade é um deserto.
Na Basílica, no alto do monte
onde a Diego apareceu a Virgem
eu ainda mais me entristeço.
(O sol se põe, distante e amarelo
como em Roma ou na velha Pérsia).
Há de ser a imagem singela
da Virgem entre pálidas rosas
estampada na tarde sem glória.
Cidade do México, novembro 1996
1 066
Renato Rezende
A Ilha
Levanto as mãos para o céu,
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.
Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.
Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
756
Renato Rezende
Ensaio
Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
991
Renato Rezende
Trapo
O dia deu em nada?
A fome, o fogo, a sede
que pulsaram fortes
nas manhãs de outrora,
nas noites cheias de estrelas
extinguem-se hoje
sem muitas palavras, sem alarde
nesta praia, no final da tarde.
Sou agora mínimos desejos.
Nas veias corre água do mar.
O coração esfarela-se em areia.
O vulcão dentro do peito
que me deu o mundo inteiro
e me levou aos sete mares, aos mil abraços
aos reinos do sol, das sombras, do medo
dissipa-se em água, em anônimo cansaço
que se esvai como a maré entre os dedos.
Não parece sobrar nada
do que antes foi ardor e sonho.
No meio da vida,
sou fim ou sou começo?
Me desfaço no teu solo
ó Rio de Janeiro,
sou solta branca rosa que bóia
no mar de suas auroras
na boca de suas noites.
Sou finalmente neutro,
sem primavera, côr ou aroma.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
A fome, o fogo, a sede
que pulsaram fortes
nas manhãs de outrora,
nas noites cheias de estrelas
extinguem-se hoje
sem muitas palavras, sem alarde
nesta praia, no final da tarde.
Sou agora mínimos desejos.
Nas veias corre água do mar.
O coração esfarela-se em areia.
O vulcão dentro do peito
que me deu o mundo inteiro
e me levou aos sete mares, aos mil abraços
aos reinos do sol, das sombras, do medo
dissipa-se em água, em anônimo cansaço
que se esvai como a maré entre os dedos.
Não parece sobrar nada
do que antes foi ardor e sonho.
No meio da vida,
sou fim ou sou começo?
Me desfaço no teu solo
ó Rio de Janeiro,
sou solta branca rosa que bóia
no mar de suas auroras
na boca de suas noites.
Sou finalmente neutro,
sem primavera, côr ou aroma.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
818
Luci Collin
TENTAME
e entre nós e as palavras, o nosso querer falar
M. Cesariny
não havia palavra que coubesse
na carícia que os dedos fazem nas cordas
palavra que frutificasse ao falar
do deserto
um instrumento desafinado
que arranha a plenitude do lago
que quase inexiste
traz uma dor desconcebível e úmida
de dia frio de voz rachada
de sobreavisos
não havia palavra que se aproximasse
da carícia feita nas cordas deste instrumento inabitado
e a voz desconjuntada se esforçava para trazer
a manhã de volta
eu permeável pudesse nesta giga saber
que uma aridez ternária jamais não dói
não esboça certeza nem parelha
é arrítmica esta inquietação de perfumes abandonados
voz subsistida no som das carícias
nas horas eriçadas na suspensão
e eu aqui querendo que a palavra que fala
não seja só
o próprio deserto
M. Cesariny
não havia palavra que coubesse
na carícia que os dedos fazem nas cordas
palavra que frutificasse ao falar
do deserto
um instrumento desafinado
que arranha a plenitude do lago
que quase inexiste
traz uma dor desconcebível e úmida
de dia frio de voz rachada
de sobreavisos
não havia palavra que se aproximasse
da carícia feita nas cordas deste instrumento inabitado
e a voz desconjuntada se esforçava para trazer
a manhã de volta
eu permeável pudesse nesta giga saber
que uma aridez ternária jamais não dói
não esboça certeza nem parelha
é arrítmica esta inquietação de perfumes abandonados
voz subsistida no som das carícias
nas horas eriçadas na suspensão
e eu aqui querendo que a palavra que fala
não seja só
o próprio deserto
684
Renato Rezende
Nas Cidades
Chove friamente
na cidade.
O anjo com as asas encharcadas
caminha a esmo,
deprimido.
Falta-lhe algo!
O anjo se masturba
depois escuta Mozart,
esquecido.
Nova York, setembro 1996
na cidade.
O anjo com as asas encharcadas
caminha a esmo,
deprimido.
Falta-lhe algo!
O anjo se masturba
depois escuta Mozart,
esquecido.
Nova York, setembro 1996
1 202
Luci Collin
aos pés da letra
não sei você
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
747
Luci Collin
Uma tarde que cai
Quando o vemos está sentado no banco da praça
Ela está em casa presa à trama silenciosa
Na praça pássaros e flores são sinceros
Na janela pássaros são fantasmagóricos
Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa
Ela enxuga os olhos com a manga
Ele rosna mas só por dentro
Ela supura mas nunca aos domingos
Ele lastima porque o pão é azul
Ela suspira e a tarde muda se avelhanta
Ele pergunta se as janelas são sinceras
Ela pensa em se atirar nalguma água
São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos
A gangrena e a borra são absolutos
Quando o vemos está em frente à TV imaterial
Ela está de costas de bruços de borco
Ele está palitando os dentes à espera
Ela vazia
Ele está entardecente e flama
Ela boia sobre a água azulíssima
Ele tosse cospe resmunga lanceia vage
Ela fez as unhas e o bolo simples
A previsão do tempo anuncia chuva
Ela toca a pedra friíssima
Ele se ofende
Ela se ofélia
Ela está em casa presa à trama silenciosa
Na praça pássaros e flores são sinceros
Na janela pássaros são fantasmagóricos
Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa
Ela enxuga os olhos com a manga
Ele rosna mas só por dentro
Ela supura mas nunca aos domingos
Ele lastima porque o pão é azul
Ela suspira e a tarde muda se avelhanta
Ele pergunta se as janelas são sinceras
Ela pensa em se atirar nalguma água
São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos
A gangrena e a borra são absolutos
Quando o vemos está em frente à TV imaterial
Ela está de costas de bruços de borco
Ele está palitando os dentes à espera
Ela vazia
Ele está entardecente e flama
Ela boia sobre a água azulíssima
Ele tosse cospe resmunga lanceia vage
Ela fez as unhas e o bolo simples
A previsão do tempo anuncia chuva
Ela toca a pedra friíssima
Ele se ofende
Ela se ofélia
695
Marília Garcia
plano b
hola, spleen, disse. nos cruzamos em
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
628
Luci Collin
declaração
que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
693
Marília Garcia
em loop, a fala do soldado
vivo numa caixa preta
de 20 centímetros.
vejo o mundo por um visor,
no meio uma cruz
para mirar as coisas
prédios estradas objetos cachorros.
tudo que passa pelo quadro
vira alvo, então penso em algo
linear: você já reparou que algumas imagens
se repetem? de repente,
um cisco no olho.
“eu vivo numa caixa preta”,
disse. estamos sentados
lado a lado no trem
— em silêncio — os dois de calça verde
e camisa branca.
sei que não está tudo bem,
levanto o olhar tentando alcançar
o dele e ouço apenas a voz
de frente para o alvo.
vivo numa caixa preta, diz,
e eu não sei como parar
a repetição.
de 20 centímetros.
vejo o mundo por um visor,
no meio uma cruz
para mirar as coisas
prédios estradas objetos cachorros.
tudo que passa pelo quadro
vira alvo, então penso em algo
linear: você já reparou que algumas imagens
se repetem? de repente,
um cisco no olho.
“eu vivo numa caixa preta”,
disse. estamos sentados
lado a lado no trem
— em silêncio — os dois de calça verde
e camisa branca.
sei que não está tudo bem,
levanto o olhar tentando alcançar
o dele e ouço apenas a voz
de frente para o alvo.
vivo numa caixa preta, diz,
e eu não sei como parar
a repetição.
721
Reynaldo Jardim
Receituário
De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
723
Ricardo Aleixo
Misturam-se ao rumor do mar
Misturam-se ao rumor do mar,
mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa
em línguas estranhas entre elas,
dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.
Como ouvi-las sem tentar inter-
pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,
suas inflexões, o granulado dos
seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais
água e um nunca se acabar de água?
mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa
em línguas estranhas entre elas,
dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.
Como ouvi-las sem tentar inter-
pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,
suas inflexões, o granulado dos
seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais
água e um nunca se acabar de água?
706
Cida Pedrosa
DIFERENÇA
meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.
eu gosto de tango.
minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
não rodopia
apenas baila e espreita.
eu gosto de tango.
minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
764
Cida Pedrosa
diáspora
abro os olhos
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
845
Paulo Henriques Britto
V
Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
713
Simone Brantes
Queen Primer
Você me dava aulas de inglês na biblioteca da Maison
as aulas de inglês tinham passado a ser
a única chance de ver você
foi você mesma que decidiu e se propôs a ser
a minha professora de inglês
eu fazia todas as lições
eu era muito dedicada
à língua inglesa
vocabulário entonação sintaxe
eu fazia de tudo para que em algum lugar
a perfeição de alguma prática revogasse
a imperfeição do amor
que tinha acabado
e doía pra valer
eu buscava ali alguma santidade
alguma paixão de mártir
e então do nada
você me escreveu uma carta
na qual cancelava todas as aulas
entre nós você disse
não pode haver nada nem amor
nem aulas de inglês
§
É hora de dormir
a testa pesa os olhos
ardem
O dia foi movimento
entre bairros
no seu carro
que se deteriorou tanto
desde
a última vez
que andei nele
como o seu coração
desde a última vez
Acho que em ambos
as peças estão bambas
E me inquieto
alguma vai
se soltar
e cair
irrecuperável
entre os galhos que depois da
ventania
vamos vendo tombados
pela estrada
as aulas de inglês tinham passado a ser
a única chance de ver você
foi você mesma que decidiu e se propôs a ser
a minha professora de inglês
eu fazia todas as lições
eu era muito dedicada
à língua inglesa
vocabulário entonação sintaxe
eu fazia de tudo para que em algum lugar
a perfeição de alguma prática revogasse
a imperfeição do amor
que tinha acabado
e doía pra valer
eu buscava ali alguma santidade
alguma paixão de mártir
e então do nada
você me escreveu uma carta
na qual cancelava todas as aulas
entre nós você disse
não pode haver nada nem amor
nem aulas de inglês
§
É hora de dormir
a testa pesa os olhos
ardem
O dia foi movimento
entre bairros
no seu carro
que se deteriorou tanto
desde
a última vez
que andei nele
como o seu coração
desde a última vez
Acho que em ambos
as peças estão bambas
E me inquieto
alguma vai
se soltar
e cair
irrecuperável
entre os galhos que depois da
ventania
vamos vendo tombados
pela estrada
932
Simone Brantes
Pastilhas brancas
Dormi calma por duas pastilhas brancas embalada,
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.
767
Alexandre Guarnieri
Tirem leite de pedra
Tirem leite de pedra,
extraiam ouro da merda,
nenhuma esquerda ecoa
nada providencia a sombra boa
neste calor da porra, do primeiro
pau-brasil não sobrou sequer o talo
o cepo seco, nenhuma urina insípida
ativa a latrina neste país de pus
e súlfur, aqui é o cu do judas
é onde o vento faz a curva
onde não há cura pro mal, só
carnaval, há curra pra cultura
o show da vida, a mídia burra
a língua culta contra a fala chula
é pau na bunda da turba, é pica
sifilítica pro boquete dos
banguelas “the horror – a merda
– the horror – a merda”
domingos no parque com pique-
niques de alpiste – “é triste” –
farinha e água e mais nada
aqui é o parque da gentalha
ávida por favores e dádivas
terra brasilis sob o piche
nem ave-maria ou reza pra virgem
salvam este projeto inexequível
democracia de cu é rola, no
planalto a apoteose da sandice
onde tudo que existe é alpiste
farinha e água e mais nada
alguma boa intenção resiste?
é, amigos, é triste
extraiam ouro da merda,
nenhuma esquerda ecoa
nada providencia a sombra boa
neste calor da porra, do primeiro
pau-brasil não sobrou sequer o talo
o cepo seco, nenhuma urina insípida
ativa a latrina neste país de pus
e súlfur, aqui é o cu do judas
é onde o vento faz a curva
onde não há cura pro mal, só
carnaval, há curra pra cultura
o show da vida, a mídia burra
a língua culta contra a fala chula
é pau na bunda da turba, é pica
sifilítica pro boquete dos
banguelas “the horror – a merda
– the horror – a merda”
domingos no parque com pique-
niques de alpiste – “é triste” –
farinha e água e mais nada
aqui é o parque da gentalha
ávida por favores e dádivas
terra brasilis sob o piche
nem ave-maria ou reza pra virgem
salvam este projeto inexequível
democracia de cu é rola, no
planalto a apoteose da sandice
onde tudo que existe é alpiste
farinha e água e mais nada
alguma boa intenção resiste?
é, amigos, é triste
705
Maria Lúcia Dal Farra
Soneto enclausurado
Se deu-me Amor a dor e tal sufoco,
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.
Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.
O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,
fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.
Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.
O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,
fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.
632
Alexandre Guarnieri
A lágrima
a glândula a carrega cega
(como na ostra a pérola)
(como no arco a seta)
o sal na medida certa
(no escuro algo coagula)
pedra
até que a concha da pálpebra
abra
é quando a gota vem à tona)
(fria e quente
(simultaneamente
(como na ostra a pérola)
(como no arco a seta)
o sal na medida certa
(no escuro algo coagula)
pedra
até que a concha da pálpebra
abra
é quando a gota vem à tona)
(fria e quente
(simultaneamente
680
Maria Lúcia Dal Farra
Sylvia Plath
Com o planeta da minha mente
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
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António Carlos Cortez
Ecos
Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
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