Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Paulo Teixeira
Paisagem de inverno com igreja
«Nem braçada de lenha ou polvorinho de chifre
assinalam à maneira de cascos o caminho.
Nem berro de animal ou som de corneta acústica
se ouvem no deserto que vai de mim ao vulto
das montanhas como velas enfunadas na bruma.
A terra mudamente foi lavada pela neve
que a noite ilumina com a luz de branca cambraia
ou linho. Descarnadas foram as peles
e passada a carne pelo fumeiro.
Todos beberam esse licor de pétalas maceradas
sentados na távola redonda do entardecer.
Mas nem a luz das candeias nas janelas
ou o vapor doce da comida me dizem,
enquanto um rosário fremente passa
nas mãos frias, “Vem”, “É aqui a tua casa”.»
assinalam à maneira de cascos o caminho.
Nem berro de animal ou som de corneta acústica
se ouvem no deserto que vai de mim ao vulto
das montanhas como velas enfunadas na bruma.
A terra mudamente foi lavada pela neve
que a noite ilumina com a luz de branca cambraia
ou linho. Descarnadas foram as peles
e passada a carne pelo fumeiro.
Todos beberam esse licor de pétalas maceradas
sentados na távola redonda do entardecer.
Mas nem a luz das candeias nas janelas
ou o vapor doce da comida me dizem,
enquanto um rosário fremente passa
nas mãos frias, “Vem”, “É aqui a tua casa”.»
536
António Carlos Cortez
Resposta a Drummond
É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
1 091
António Carlos Cortez
Este é o canto mais perfeito da noite
este é o canto mais perfeito da noite.
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
706
Golgona Anghel
Não gosto de contar os desastres em detalhe
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
920
Golgona Anghel
Abro a porta
Abro a porta.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.
Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.
Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
684
Golgona Anghel
Na sala de leitura da insónia
Na sala de leitura da insónia,
Quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.
No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.
Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida
– olhai –
Sou o novo modelo para o fracasso
Quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.
No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.
Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida
– olhai –
Sou o novo modelo para o fracasso
1 026
Golgona Anghel
Floribunda, minha querida
Floribunda, minha querida, vim desligar-te das máquinas.
Tens aqui duas bolachas e um sumo para o caminho.
Não havia de pêra como tu querias,
se bem que lá em cima (ou em baixo, conforme)
pouco importa.
Ouvi dizer que sobre a alma tens um calhau e
sobre o calhau um balde de tinta
que te pinta de pobre e te julga inútil.
Sempre foste um mau negócio.
Permaneces igual.
Estragaste o autoclismo cá do sítio
como estragavas os meus dias de folga.
Mas nada te toca.
Moldas em vão estas cruzes de espera.
Na apatia dos crepúsculos,
o Inverno inventa a tua última palavra.
Escuta.
É por ti que os grilos cantam
e a noite se prepara para regressar
no interior das gavetas.
Tens aqui duas bolachas e um sumo para o caminho.
Não havia de pêra como tu querias,
se bem que lá em cima (ou em baixo, conforme)
pouco importa.
Ouvi dizer que sobre a alma tens um calhau e
sobre o calhau um balde de tinta
que te pinta de pobre e te julga inútil.
Sempre foste um mau negócio.
Permaneces igual.
Estragaste o autoclismo cá do sítio
como estragavas os meus dias de folga.
Mas nada te toca.
Moldas em vão estas cruzes de espera.
Na apatia dos crepúsculos,
o Inverno inventa a tua última palavra.
Escuta.
É por ti que os grilos cantam
e a noite se prepara para regressar
no interior das gavetas.
977
Golgona Anghel
Devia escrever coisas mais divertidas
Devia escrever coisas mais divertidas,
entreter as massas.
Evitar, ao menos, cenas tristes,
mudar de roupa uma vez por mês.
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo,
dos seus humores.
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre.
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além.
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões.
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
Fazer o truque.
Mas se o meu psiquiatra ler este livro,
vai achar que o tratamento
já não funciona.
entreter as massas.
Evitar, ao menos, cenas tristes,
mudar de roupa uma vez por mês.
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo,
dos seus humores.
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre.
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além.
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões.
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
Fazer o truque.
Mas se o meu psiquiatra ler este livro,
vai achar que o tratamento
já não funciona.
1 089
Golgona Anghel
Porque falta meia hora
Porque falta meia hora antes de
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.
Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.
O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.
Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.
Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!
O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.
Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.
O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.
Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.
Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!
O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.
1 008
Hélia Correia
23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
1 212
José Bento
Das Quatro Estações - O Outono
Novembro apagou nas buganvílias
seus nomes brancos, roxos, escarlates.
É mais difícil regressar a casa:
o caminho disfarçou, emudeceu
seu rosto nos muros e nas grades.
— Por onde seguiremos
sem que o outono espesso nos trespasse?
seus nomes brancos, roxos, escarlates.
É mais difícil regressar a casa:
o caminho disfarçou, emudeceu
seu rosto nos muros e nas grades.
— Por onde seguiremos
sem que o outono espesso nos trespasse?
632
Nelly Sachs
EU O VI SAIR DE CASA
Eu o vi sair de casa
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
911
Nelly Sachs
CORO DAS SOMBRAS
Nós, sombras, oh, nós, sombras!
Sombras de carrascos
Presas ao pó de vossos crimes –
Sombras de vítimas
Desenhando o drama do vosso sangue numa parede.
Oh, nós, desamparadas borboletas do luto
Aprisionadas numa estrela, que segue queimando em paz,
Enquanto temos de dançar em infernos.
Nossos titereiros sabem tão somente a morte.
Tu, ama dourada que nos alimenta
Para tamanho desespero,
Ó Sol, afasta a tua face
Para que também mergulhemos –
Ou deixa-nos espelhar um júbilo infantil
Dedos erguidos
E a leve alegria de uma libélula
Sobre a borda do poço.
Sombras de carrascos
Presas ao pó de vossos crimes –
Sombras de vítimas
Desenhando o drama do vosso sangue numa parede.
Oh, nós, desamparadas borboletas do luto
Aprisionadas numa estrela, que segue queimando em paz,
Enquanto temos de dançar em infernos.
Nossos titereiros sabem tão somente a morte.
Tu, ama dourada que nos alimenta
Para tamanho desespero,
Ó Sol, afasta a tua face
Para que também mergulhemos –
Ou deixa-nos espelhar um júbilo infantil
Dedos erguidos
E a leve alegria de uma libélula
Sobre a borda do poço.
497
Nelly Sachs
CORO DOS ÓRFÃOS
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Deceparam nosso ramo
E lançaram-no ao fogo –
Transformaram em lenha quem nos protegia –
Nós, órfãos, jazemos nos campos da solidão.
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Na noite nossos pais brincam conosco de esconde-esconde –
Por detrás das negras dobras da noite
Fitam-nos seus rostos,
Falam suas bocas:
Fomos lenha seca na mão de um lenhador –
Mas nossos olhos tornaram-se olhos de anjos
E olham para vós,
Por entre as negras dobras da noite
Eles olham –
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Pedras tornaram-se nosso brinquedo,
Pedras têm rostos, rostos de pai e mãe,
Não murcham como flores, não mordem como bichos –
E não ardem como lenha seca quando lançadas no forno –
Nós, órfãos, queixamo-nos do mundo:
Mundo por que nos tiraste as ternas mães
E os pais que dizem: Tu te pareces comigo!
Nós, órfãos, não nos parecemos com ninguém mais no mundo!
Ó Mundo,
Nós te acusamos!
Queixamo-nos do mundo:
Deceparam nosso ramo
E lançaram-no ao fogo –
Transformaram em lenha quem nos protegia –
Nós, órfãos, jazemos nos campos da solidão.
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Na noite nossos pais brincam conosco de esconde-esconde –
Por detrás das negras dobras da noite
Fitam-nos seus rostos,
Falam suas bocas:
Fomos lenha seca na mão de um lenhador –
Mas nossos olhos tornaram-se olhos de anjos
E olham para vós,
Por entre as negras dobras da noite
Eles olham –
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Pedras tornaram-se nosso brinquedo,
Pedras têm rostos, rostos de pai e mãe,
Não murcham como flores, não mordem como bichos –
E não ardem como lenha seca quando lançadas no forno –
Nós, órfãos, queixamo-nos do mundo:
Mundo por que nos tiraste as ternas mães
E os pais que dizem: Tu te pareces comigo!
Nós, órfãos, não nos parecemos com ninguém mais no mundo!
Ó Mundo,
Nós te acusamos!
726
Giorgos Seferis
X
Nossa terra é cerrada, só montanhas
quem tem o céu baixo como teto dia e noite.
Não temos rios não temos poços não temos fontes,
apenas poucas cisternas, também vazias, que ecoam e que
adoramos.
Som estagnado oco, idêntico a nossa solidão
idêntico ao nosso amor, idêntico aos nossos corpos.
Parece-nos estranho que outrora pudéssemos construir
nossas casas, cabanas e currais.
E nossas bodas, as frescas grinaldas e os anéis
tornam-se enigmas inexplicáveis para nossa alma.
Como nasceram, como criaram-se nossos filhos?
Nossa terra é cerrada, Encerram-na
as duas Simplégades negras. Nos portos
quando descemos para respirar ao Domingo
vemos iluminarem-se no pôr-do-sol
madeiras quebradas de viagens que não terminaram
corpos que não sabem mais como amar.
quem tem o céu baixo como teto dia e noite.
Não temos rios não temos poços não temos fontes,
apenas poucas cisternas, também vazias, que ecoam e que
adoramos.
Som estagnado oco, idêntico a nossa solidão
idêntico ao nosso amor, idêntico aos nossos corpos.
Parece-nos estranho que outrora pudéssemos construir
nossas casas, cabanas e currais.
E nossas bodas, as frescas grinaldas e os anéis
tornam-se enigmas inexplicáveis para nossa alma.
Como nasceram, como criaram-se nossos filhos?
Nossa terra é cerrada, Encerram-na
as duas Simplégades negras. Nos portos
quando descemos para respirar ao Domingo
vemos iluminarem-se no pôr-do-sol
madeiras quebradas de viagens que não terminaram
corpos que não sabem mais como amar.
659
Tomas Tranströmer
CARA A CARA
Em Fevereiro a vida parou.
Os pássaros não gostavam de voar e a alma
esfregava-se na paisagem como um barco
que se esfrega ao passadiço, onde está amarrado.
As árvores estavam de costas viradas para aqui.
Talos mortos mediam a profundidade da neve.
Pegadas envelheciam na neve áspera.
Sob um toldo a linguagem definhava.
Um dia apareceu uma coisa à janela.
O trabalho parou e eu ergui os olhos.
As cores ardiam. Tudo se transformara.
O solo e eu demos um salto em direcção um ao outro.
Os pássaros não gostavam de voar e a alma
esfregava-se na paisagem como um barco
que se esfrega ao passadiço, onde está amarrado.
As árvores estavam de costas viradas para aqui.
Talos mortos mediam a profundidade da neve.
Pegadas envelheciam na neve áspera.
Sob um toldo a linguagem definhava.
Um dia apareceu uma coisa à janela.
O trabalho parou e eu ergui os olhos.
As cores ardiam. Tudo se transformara.
O solo e eu demos um salto em direcção um ao outro.
830
Mauro Mota
Grito de angústia
Minh’alma! Árvore! Vem de tua fronde
a encarnação da dor num grande grito!
abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!
Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!
E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.
Tua verdura simboliza o luto!
— Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir, somente, e não dar fruto!
a encarnação da dor num grande grito!
abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!
Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!
E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.
Tua verdura simboliza o luto!
— Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir, somente, e não dar fruto!
736
Harry Martinson
Ajuste de contas
A folhagem vespertina do final do verão se
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
728
Tomas Tranströmer
Schubertiana
1
Longe de Nova York, um lugar alto donde se avistam
as casas em que oito milhões de seres vivos habitam.
A cidade gigante para aqueles lados é uma longa deriva cintilante, uma galáxia
em espiral vista de lado.
Dentro da galáxia, chávenas de café são arrastadas pela secretária,
janelas de armazém suplicam, um turbilhão de sapatos que não deixam
nenhum rasto.
O fogo escapa-se ao alto, portas de elevador fecham-se silenciosamente
por detrás de portas fechadas a sete chaves, um volume cheio de vozes.
Corpos tombados dormitam em carros subterrâneos, catacumbas em
movimento.
Sei também – estatísticas à parte – que neste momento
nalguma sala mais abaixo toca-se Schubert, e que
para essa pessoa as notas são mais reais que tudo o resto.
2
As imensas planícies sem árvores do cérebro humano acabaram
por se dobrar e redobrar até ficarem do tamanho de um punho.
Em Abril a andorinha regressa ao ninho do ano anterior sob o
beiral precisamente no mesmo celeiro precisamente no mesmo
distrito.
Voa do Transval, passa o equador, voa durante seis
semanas por cima de dois continentes, navega com precisão para
este ponto extenuado na massa da terra.
E o homem que reúne os sinais de uma vida inteira
nalguns acordes vulgares para cinco músicos de cordas
aquele que tem um rio para atravessar pelo buraco duma agulha
é um jovem roliço de Viena, os amigos chamam-no
“O Cogumelo”, que dormia de óculos postos
e se punha pelas manhãs pontualmente à escrivaninha.
Quando o fazia centopeias magníficas desatavam a mover-se
sobre a página.
3
Tocam os cinco instrumentos. Volto para casa pelo calor dos bosques
onde a terra se distende sob os meus pés,
enrolo-me como alguém ainda por nascer, adormeço, vagueio imponderável
para o futuro, sinto de súbito que as plantas estão
a pensar.
4
Quanto nos leva cada minuto a acreditar que vivemos
para não nos esvairmos pela terra adentro!
A acreditar em massas de neve agarrando-se à superfície das rochas sobre
a cidade.
A acreditar nas promessas não faladas e no sorriso da
concórdia, a acreditar que o telegrama não é connosco, e
que o súbito golpe do machado não vem por dentro.
A acreditar nos eixos que nos levam pela estrada fora entre abelhas
de aço trezentas vezes ampliadas.
Mas nada disso merece de facto a nossa crença.
Os cinco instrumentos de cordas dizem que podemos ser levados
a acreditar noutra coisa qualquer, e por instantes acompanham-nos na estrada.
Tal qual a lâmpada que se apaga nas escadas, e a mão
seguindo – acreditando – no corrimão cego que faz o seu
caminho pela escuridão adentro.
5
Juntamo-nos ao banco do piano e tocamos a quatro mãos em Fá
menor, dois condutores para o mesmo carro, parece um pouco
ridículo.
As mãos parecem movimentar pesos feitos de sons
para diante e para trás, parecem movimentar pesos pesados
numa tentativa de mudar a grande escala do temível equilíbrio:
felicidade e sofrimento pesam exactamente o mesmo.
Annie disse, “Esta música é tão heróica”, e tem razão.
Mas aqueles que lançam um olhar invejoso ao homem de acção, aqueles que
por dentro se desprezam por não serem assassinos,
não se descobrem nesta música.
E as pessoas que compram e vendem outras pessoas, que acreditam
que não há ninguém que não possa ser comprado, não se descobrem aqui.
Não é a sua música. A longa linha melódica que permanece igual
entre todas as suas variações, por vezes brilhante e delicada,
por vezes áspera e poderosa, rastro de caracol e arame
de aço.
O obstinado sussurro deste instante que está connosco
para cima para
o fundo.
Longe de Nova York, um lugar alto donde se avistam
as casas em que oito milhões de seres vivos habitam.
A cidade gigante para aqueles lados é uma longa deriva cintilante, uma galáxia
em espiral vista de lado.
Dentro da galáxia, chávenas de café são arrastadas pela secretária,
janelas de armazém suplicam, um turbilhão de sapatos que não deixam
nenhum rasto.
O fogo escapa-se ao alto, portas de elevador fecham-se silenciosamente
por detrás de portas fechadas a sete chaves, um volume cheio de vozes.
Corpos tombados dormitam em carros subterrâneos, catacumbas em
movimento.
Sei também – estatísticas à parte – que neste momento
nalguma sala mais abaixo toca-se Schubert, e que
para essa pessoa as notas são mais reais que tudo o resto.
2
As imensas planícies sem árvores do cérebro humano acabaram
por se dobrar e redobrar até ficarem do tamanho de um punho.
Em Abril a andorinha regressa ao ninho do ano anterior sob o
beiral precisamente no mesmo celeiro precisamente no mesmo
distrito.
Voa do Transval, passa o equador, voa durante seis
semanas por cima de dois continentes, navega com precisão para
este ponto extenuado na massa da terra.
E o homem que reúne os sinais de uma vida inteira
nalguns acordes vulgares para cinco músicos de cordas
aquele que tem um rio para atravessar pelo buraco duma agulha
é um jovem roliço de Viena, os amigos chamam-no
“O Cogumelo”, que dormia de óculos postos
e se punha pelas manhãs pontualmente à escrivaninha.
Quando o fazia centopeias magníficas desatavam a mover-se
sobre a página.
3
Tocam os cinco instrumentos. Volto para casa pelo calor dos bosques
onde a terra se distende sob os meus pés,
enrolo-me como alguém ainda por nascer, adormeço, vagueio imponderável
para o futuro, sinto de súbito que as plantas estão
a pensar.
4
Quanto nos leva cada minuto a acreditar que vivemos
para não nos esvairmos pela terra adentro!
A acreditar em massas de neve agarrando-se à superfície das rochas sobre
a cidade.
A acreditar nas promessas não faladas e no sorriso da
concórdia, a acreditar que o telegrama não é connosco, e
que o súbito golpe do machado não vem por dentro.
A acreditar nos eixos que nos levam pela estrada fora entre abelhas
de aço trezentas vezes ampliadas.
Mas nada disso merece de facto a nossa crença.
Os cinco instrumentos de cordas dizem que podemos ser levados
a acreditar noutra coisa qualquer, e por instantes acompanham-nos na estrada.
Tal qual a lâmpada que se apaga nas escadas, e a mão
seguindo – acreditando – no corrimão cego que faz o seu
caminho pela escuridão adentro.
5
Juntamo-nos ao banco do piano e tocamos a quatro mãos em Fá
menor, dois condutores para o mesmo carro, parece um pouco
ridículo.
As mãos parecem movimentar pesos feitos de sons
para diante e para trás, parecem movimentar pesos pesados
numa tentativa de mudar a grande escala do temível equilíbrio:
felicidade e sofrimento pesam exactamente o mesmo.
Annie disse, “Esta música é tão heróica”, e tem razão.
Mas aqueles que lançam um olhar invejoso ao homem de acção, aqueles que
por dentro se desprezam por não serem assassinos,
não se descobrem nesta música.
E as pessoas que compram e vendem outras pessoas, que acreditam
que não há ninguém que não possa ser comprado, não se descobrem aqui.
Não é a sua música. A longa linha melódica que permanece igual
entre todas as suas variações, por vezes brilhante e delicada,
por vezes áspera e poderosa, rastro de caracol e arame
de aço.
O obstinado sussurro deste instante que está connosco
para cima para
o fundo.
458
Mauro Mota
SÓROR FELICIDADE
Sob o outono sem luz, nesta tarde amarela,
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…
Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.
Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!
Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…
Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.
Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!
Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
714
Mauro Mota
Se ela viesse
Se ela viesse aqui, como eu desejo,
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
742
Tomas Tranströmer
Pós-convalescença
O miúdo doente.
Fechado em si numa visão
com a língua dura como um chifre.
Senta-se de costas voltado para uma seara num quadro.
A ligadura à volta do queixo parece ser a de uma múmia.
Os óculos são grossos, de mergulhador. Não há resposta e nada
é repentino como um telefone que toca a meio da noite.
Mas ali o quadro. Uma paisagem que nos faz sentir
em paz mesmo se o trigo é uma tempestade de ouro.
Azul, terrível azul e nuvens em andamento. Debaixo nas ondas
amarelas
camisas brancas velejando: malhadores – não projectam sombras.
Na extremidade do campo um homem parece olhar nesta direcção.
Um chapéu largo esconde o seu rosto na sombra.
Parece olhar para a figura negra aqui na sala, como
se quisesse ajudar.
A pouco e pouco o quadro alarga-se, começa a abrir por detrás
do miúdo que está doente
e mergulhado em si. Lança faúlhas e faz ruído. Cada
espiga de trigo irradia luz para o despertar!
O outro homem – no trigo – faz um sinal.
Aproxima-se.
Ninguém se apercebe.
Fechado em si numa visão
com a língua dura como um chifre.
Senta-se de costas voltado para uma seara num quadro.
A ligadura à volta do queixo parece ser a de uma múmia.
Os óculos são grossos, de mergulhador. Não há resposta e nada
é repentino como um telefone que toca a meio da noite.
Mas ali o quadro. Uma paisagem que nos faz sentir
em paz mesmo se o trigo é uma tempestade de ouro.
Azul, terrível azul e nuvens em andamento. Debaixo nas ondas
amarelas
camisas brancas velejando: malhadores – não projectam sombras.
Na extremidade do campo um homem parece olhar nesta direcção.
Um chapéu largo esconde o seu rosto na sombra.
Parece olhar para a figura negra aqui na sala, como
se quisesse ajudar.
A pouco e pouco o quadro alarga-se, começa a abrir por detrás
do miúdo que está doente
e mergulhado em si. Lança faúlhas e faz ruído. Cada
espiga de trigo irradia luz para o despertar!
O outro homem – no trigo – faz um sinal.
Aproxima-se.
Ninguém se apercebe.
610
Tomas Tranströmer
Ir na corrente
Falar e falar com amigos que vi ouvi por detrás dos seus rostos
a corrente
arrastando os que querem ir e os que não querem.
E vi uma criatura de olhos colados um ao outro
a querer saltar mesmo para o meio da corrente
a atirar-se para fora de si sem um tremor
numa sede voraz por uma resposta simples.
Rápido e mais rápido a água arrasta
como se fosse um rio que estreita adiante e dispara
em rápidos – parei para descansar num sítio como aquele
depois de um passeio pelos bosques secos
numa tarde de Junho: o transístor trouxe-me as últimas
sobre a Sessão Extraordinária: Kosygin, Eban.
Um ou dois pensamentos fizeram o seu caminho em desespero.
Um ou dois homens afogaram-se na aldeia.
E enormes massas de água avançam sob a ponte
suspensa. Aí vem a madeira! Alguns troncos
disparam para diante como torpedos. Outros atravessam-se
de lado, indolentes, e rodopiam desamparados,
e outros de frente virada para as margens do rio
seguem entre pedras e lixo, ficam presos,
e amontoados voltam-se para o céu como mãos entrelaçadas,
orações submersas num rugido ….
Vi ouvi isso de uma ponte suspensa
entre uma nuvem de mosquitos
na companhia de uns quantos miúdos. As suas bicicletas
enterradas em arbustos – só os chifres
de fora.
a corrente
arrastando os que querem ir e os que não querem.
E vi uma criatura de olhos colados um ao outro
a querer saltar mesmo para o meio da corrente
a atirar-se para fora de si sem um tremor
numa sede voraz por uma resposta simples.
Rápido e mais rápido a água arrasta
como se fosse um rio que estreita adiante e dispara
em rápidos – parei para descansar num sítio como aquele
depois de um passeio pelos bosques secos
numa tarde de Junho: o transístor trouxe-me as últimas
sobre a Sessão Extraordinária: Kosygin, Eban.
Um ou dois pensamentos fizeram o seu caminho em desespero.
Um ou dois homens afogaram-se na aldeia.
E enormes massas de água avançam sob a ponte
suspensa. Aí vem a madeira! Alguns troncos
disparam para diante como torpedos. Outros atravessam-se
de lado, indolentes, e rodopiam desamparados,
e outros de frente virada para as margens do rio
seguem entre pedras e lixo, ficam presos,
e amontoados voltam-se para o céu como mãos entrelaçadas,
orações submersas num rugido ….
Vi ouvi isso de uma ponte suspensa
entre uma nuvem de mosquitos
na companhia de uns quantos miúdos. As suas bicicletas
enterradas em arbustos – só os chifres
de fora.
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