Poemas neste tema
Velhice e Envelhecimento
Luís Miguel Nava
O abismo
Com a sua pele de poço,
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
1 934
1
João José Cochofel
Paraíso Perdido
Que vens aqui fazer, espírito velho
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?
Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.
Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?
Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.
Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.
1 475
1
Judas Isgorogota
Recompensa
Certa manhã deixei a minha casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
1 744
1
William Butler Yeats
Versos escritos com desânimo
Quando foi a última vez que reparei
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
1 483
1
Judas Isgorogota
Atitudes
A poesia em mim era uma asa andeja
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
1 372
1
Gilson Nascimento
Entardecer da vida
Minha vida entardece, de repente
Sinto o peso dos anos. Na verdade
Revivo o meu passado no presente
Surpreso me pergunto: isso é da idade?
Meu íntimo responde: é, tens razão
Ao passo que se vive não se esquece
O que já foi vivido. A emoção,
O riso, o sonho, o gargalhar, a prece
Os bons e maus momentos tecem a vida
Todos eles na alma têm guarida
Onde dormitam pelo tempo afora
E de repente, então, meu caro amigo
O que no imo procurou abrigo
À saudade, desperta, como agora.
Sinto o peso dos anos. Na verdade
Revivo o meu passado no presente
Surpreso me pergunto: isso é da idade?
Meu íntimo responde: é, tens razão
Ao passo que se vive não se esquece
O que já foi vivido. A emoção,
O riso, o sonho, o gargalhar, a prece
Os bons e maus momentos tecem a vida
Todos eles na alma têm guarida
Onde dormitam pelo tempo afora
E de repente, então, meu caro amigo
O que no imo procurou abrigo
À saudade, desperta, como agora.
949
1
Fernando Pessoa
Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa –
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.
13/06/1930 (Presença, nº 31/32, Março-Junho de 1931)
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa –
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.
13/06/1930 (Presença, nº 31/32, Março-Junho de 1931)
4 745
1
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 26
Ser adulto é quase impossível no mundo
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer.
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer.
587
Amália Bautista
A foto
Tira-me uma dessas fotos que tiras,
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que posso merecer a pena.
E sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram.
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que posso merecer a pena.
E sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram.
659
Filipa Leal
Ode louca
Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.
598
Martha Medeiros
Mudança
Minha mãe recentemente se mudou do apartamento em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos de idade. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um ótimo emprego em Porto Alegre por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela caminha na beira da praia todas as manhãs. Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao nosso olhar é a vida que a gente optou por levar.
Um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelheça.
Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos de idade. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um ótimo emprego em Porto Alegre por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela caminha na beira da praia todas as manhãs. Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao nosso olhar é a vida que a gente optou por levar.
Um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelheça.
Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.
514
Herberto Helder
Teoria Sentada - Iii
A minha idade é assim —verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.
Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
comum espírito dentro.
Mergulham na sua solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
E uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.
Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.
Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.
Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
comum espírito dentro.
Mergulham na sua solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
E uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.
Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.
Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.
633
Herberto Helder
22
a burro velho dê - se -lhe uma pouca de palha velha
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente durante cinco minutos!
dê-se-lhe isso por amor do Cristo, que ele faz logo o trilho todo e
agradece muito,
Deus zela de facto pelos servidores,
e o Cristo, patrono deles, é o filho de seu pai,
tudo concorde com as genealogias celestes e suas sombras na terra,
ó pai nosso que estás nos céus, alô, daqui fala da terra ingrata,
só tu é que exerces a piedade magnânima sobre nós,
vozes de burro não chegam ao céu, dizem eles,
eles,
os mestres inflexíveis e eficazes,
Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns
escrúpulos extra-partidários,
esteve preso por incitamento à rebelião popular contra o regime,
por fomentação de grupúsculos revoltosos,
por palavras e obras fora da lei,
cometeu prodígios marginais tais como:
a) prática ilegal da medicina com alegadas curas fraudulentas:
um morto levantou-se e pôs-se a caminhar e a falar
como se estivesse comerciável
b) anunciou que o pai dele estava acima dos códigos do mundo
c) que ele próprio ia pagar com a vida por essas outras razões, mas
que logo ressuscitaria e depois é que todos veriam como
tudo ia fiar mais fino
d) e então sussurrou: um de vós me trairá, e então olharam
todos uns para os os outros a ver onde haveria algum
sinal nefando, mas nenhum deles sentiu em si mesmo
qualquer anúncio de crime e culpa,
depois foram dali dar uma volta fora de muros e, cansados
de palavras e passeios, deitaram-se debaixo de umas
oliveiras, e adormeceram, límpidos e vazios como os
desertos derredor,
e toda esta história acabou bastante mal, como aliás acabam
todas as histórias de grupo:
e um deles disse que não, não senhores, ele cá não sabia nada
dessa cabala de mestre e discípulos, nem participara em
reuniões clandestinas, nem queria derrubar o regime,
etc. e tal, o costume,
e todos os outros, de uma ou outra maneira, lhe seguiram o
exemplo,
enfim, baldaram-se como puderam,
e sinceramente pensavam: somos todos uns pobres pescadores
a vida é dura, este gajo até parece porreiro, mas também
parece um bocado fala-
-barato, e esta história de grupinhos marginais, e de
acreditar que depois o poder vai-nos cair nas mãos,
e os fracos e subjugados serão os fortes escolhidos do
futuro, essa história já a gente ouviu na União Soviética,
etc., e depois soube-se como afinal tudo aquilo era:
desaparecimentos inexplicáveis, goulagues, anos depois
alguns raros sobreviventes a escrever como acontecera, i
o que acontecera fora incrivelmente péssimo,
e depois veio o 35 de abril, cravos vermelhos, Grândola
vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então
aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, era a
eito, desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha: o meu reino é
para já;
foda-se
vou-me embora pra Pasárgada, disse então o Manuel Bandeira;
quanto a mim, não me interessa ter a filha do rei; com a minha
idade já se não arrisca nada por uma aventura sexual
minada por tantas dúvidas ideológicas
(e tantas turvas aventuras da prática poética)
e, enfim, vinha isto a propósito de um pobre burro velho que
viu, mirabilia!, de repente melhorada a ração de palha
seca e água ambígua; e
Pai, Pai, porque me abandonaste?
e já não sei em que edição vai este romance que nem tem a
apoiá-lo o prémio Nobel, coisa que principiou logo
assim: ganhou-o (1901), contra Tolstoi, umtalSully
Prudhomme,
e mais uma vez: Eli, Eli, lamna sabachthani —
ou: Vou-me embora pra Pasárgada —
e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo menos
sem grandes achaques físicos, o todo vosso burro com
palha pouca e fora de uso, quer dizer: uma reforma de
pilha-galinhas e poeticamente enterrado vivo, e sem
poder visível e sem contacto com o invisível, o burro sim
com O nome a fogo na testa: eu sou apenas deste mundo,
isto é: estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
Esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro.
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente durante cinco minutos!
dê-se-lhe isso por amor do Cristo, que ele faz logo o trilho todo e
agradece muito,
Deus zela de facto pelos servidores,
e o Cristo, patrono deles, é o filho de seu pai,
tudo concorde com as genealogias celestes e suas sombras na terra,
ó pai nosso que estás nos céus, alô, daqui fala da terra ingrata,
só tu é que exerces a piedade magnânima sobre nós,
vozes de burro não chegam ao céu, dizem eles,
eles,
os mestres inflexíveis e eficazes,
Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns
escrúpulos extra-partidários,
esteve preso por incitamento à rebelião popular contra o regime,
por fomentação de grupúsculos revoltosos,
por palavras e obras fora da lei,
cometeu prodígios marginais tais como:
a) prática ilegal da medicina com alegadas curas fraudulentas:
um morto levantou-se e pôs-se a caminhar e a falar
como se estivesse comerciável
b) anunciou que o pai dele estava acima dos códigos do mundo
c) que ele próprio ia pagar com a vida por essas outras razões, mas
que logo ressuscitaria e depois é que todos veriam como
tudo ia fiar mais fino
d) e então sussurrou: um de vós me trairá, e então olharam
todos uns para os os outros a ver onde haveria algum
sinal nefando, mas nenhum deles sentiu em si mesmo
qualquer anúncio de crime e culpa,
depois foram dali dar uma volta fora de muros e, cansados
de palavras e passeios, deitaram-se debaixo de umas
oliveiras, e adormeceram, límpidos e vazios como os
desertos derredor,
e toda esta história acabou bastante mal, como aliás acabam
todas as histórias de grupo:
e um deles disse que não, não senhores, ele cá não sabia nada
dessa cabala de mestre e discípulos, nem participara em
reuniões clandestinas, nem queria derrubar o regime,
etc. e tal, o costume,
e todos os outros, de uma ou outra maneira, lhe seguiram o
exemplo,
enfim, baldaram-se como puderam,
e sinceramente pensavam: somos todos uns pobres pescadores
a vida é dura, este gajo até parece porreiro, mas também
parece um bocado fala-
-barato, e esta história de grupinhos marginais, e de
acreditar que depois o poder vai-nos cair nas mãos,
e os fracos e subjugados serão os fortes escolhidos do
futuro, essa história já a gente ouviu na União Soviética,
etc., e depois soube-se como afinal tudo aquilo era:
desaparecimentos inexplicáveis, goulagues, anos depois
alguns raros sobreviventes a escrever como acontecera, i
o que acontecera fora incrivelmente péssimo,
e depois veio o 35 de abril, cravos vermelhos, Grândola
vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então
aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, era a
eito, desde o Cristo Cunhal até ao Jotinha: o meu reino é
para já;
foda-se
vou-me embora pra Pasárgada, disse então o Manuel Bandeira;
quanto a mim, não me interessa ter a filha do rei; com a minha
idade já se não arrisca nada por uma aventura sexual
minada por tantas dúvidas ideológicas
(e tantas turvas aventuras da prática poética)
e, enfim, vinha isto a propósito de um pobre burro velho que
viu, mirabilia!, de repente melhorada a ração de palha
seca e água ambígua; e
Pai, Pai, porque me abandonaste?
e já não sei em que edição vai este romance que nem tem a
apoiá-lo o prémio Nobel, coisa que principiou logo
assim: ganhou-o (1901), contra Tolstoi, umtalSully
Prudhomme,
e mais uma vez: Eli, Eli, lamna sabachthani —
ou: Vou-me embora pra Pasárgada —
e aqui jaz, acomodado, oitenta e três, parece que pelo menos
sem grandes achaques físicos, o todo vosso burro com
palha pouca e fora de uso, quer dizer: uma reforma de
pilha-galinhas e poeticamente enterrado vivo, e sem
poder visível e sem contacto com o invisível, o burro sim
com O nome a fogo na testa: eu sou apenas deste mundo,
isto é: estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
Esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro.
743
Herberto Helder
24
porque já me não lavo,
porque desde os oitenta só me lavava em água soberba
(água que não há)
porque mal acordo tenho muita pressa e vou correndo ver
se o sonho bate certo
(com que pode bater certo sonho tão limpo?)
porque o mundo seria turvo e eu não me curvaria nunca,
e então não me lavo,
ileso o corpo,
sôpro que me tinha no ar,
impalpável tecido de um jogo,
o sentimento de não haver nenhum tempo
senão aquele mesmo nenhum que era sempre:
à noite vinha o orvalho,
manhã muito cedo era só sossego,
depois a erva estremecia e moviam-se as colinas
para sítios que ninguém sabia,
depois a gente banhava-se que era tudo quanto se podia ver
em cima do universo:
a terra não tinha costuras,
nem secreto e aberto, nem dentro e fora, nem sujo e limpo,
nem ninguém tomava banho senão aquilo:
estou tão lavado que estremeço de tudo o igual a mim mesmo,
limpo tanto que mete medo desde o chão ao imenso arco
do abraço com aquilo sossêgo:
nome de banho senão êste:
externo extenso extremo
escrito tão magno
tamanho banho:
denominação: dominação de tudo
— nome é baptismo,
imo é o sítio
porque desde os oitenta só me lavava em água soberba
(água que não há)
porque mal acordo tenho muita pressa e vou correndo ver
se o sonho bate certo
(com que pode bater certo sonho tão limpo?)
porque o mundo seria turvo e eu não me curvaria nunca,
e então não me lavo,
ileso o corpo,
sôpro que me tinha no ar,
impalpável tecido de um jogo,
o sentimento de não haver nenhum tempo
senão aquele mesmo nenhum que era sempre:
à noite vinha o orvalho,
manhã muito cedo era só sossego,
depois a erva estremecia e moviam-se as colinas
para sítios que ninguém sabia,
depois a gente banhava-se que era tudo quanto se podia ver
em cima do universo:
a terra não tinha costuras,
nem secreto e aberto, nem dentro e fora, nem sujo e limpo,
nem ninguém tomava banho senão aquilo:
estou tão lavado que estremeço de tudo o igual a mim mesmo,
limpo tanto que mete medo desde o chão ao imenso arco
do abraço com aquilo sossêgo:
nome de banho senão êste:
externo extenso extremo
escrito tão magno
tamanho banho:
denominação: dominação de tudo
— nome é baptismo,
imo é o sítio
796
Herberto Helder
6
e só agora penso:
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
1 180
Herberto Helder
17
aos vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para
cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarr
que é por onde se faz com que a luz se fac
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto posso pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus
setenta e sete vezes êrro
de sôbre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim pedofilia, crime gravíssimo
mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defêsa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-to agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se
houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para
cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarr
que é por onde se faz com que a luz se fac
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto posso pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus
setenta e sete vezes êrro
de sôbre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim pedofilia, crime gravíssimo
mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defêsa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-to agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se
houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso
728
Herberto Helder
48
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
ar há pouco,
mas quem não queria criar uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
o tempo doendo, a mente doendo, a mão doendo,
o modo esplendor do verbo,
dentro, fundo, lento, essa língua,
errada, soprada, atenta,
mas agora já nada me embebeda,
já não sinto nos dedos a pulsação da caneta,
a idade tornou-me louco,
sou múltiplo,
os grandes lençóis de ar sacudidos pelo fogo,
noutro tempo eu cobria-me com todo o ar desdobrado,
havia tanto fogo movido pelo ar dentro,
agora não tenho nada defronte,
não sinto o ritmo,
estou separado, inexpugnável, incógnito, pouco,
ninguém me toca,
não toco
ar há pouco,
mas quem não queria criar uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
o tempo doendo, a mente doendo, a mão doendo,
o modo esplendor do verbo,
dentro, fundo, lento, essa língua,
errada, soprada, atenta,
mas agora já nada me embebeda,
já não sinto nos dedos a pulsação da caneta,
a idade tornou-me louco,
sou múltiplo,
os grandes lençóis de ar sacudidos pelo fogo,
noutro tempo eu cobria-me com todo o ar desdobrado,
havia tanto fogo movido pelo ar dentro,
agora não tenho nada defronte,
não sinto o ritmo,
estou separado, inexpugnável, incógnito, pouco,
ninguém me toca,
não toco
561
Herberto Helder
Traças Devoram As Linhas Linha a Linha Dos Livros
traças devoram as linhas linha a linha dos livros,
o medo devora os dias dia a dia das vidas,
a idade exasperada é ir investindo nela:
a morte no gerúndio
o medo devora os dias dia a dia das vidas,
a idade exasperada é ir investindo nela:
a morte no gerúndio
1 096
Herberto Helder
Narração de Um Homem Em Maio
Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
1 154
Herberto Helder
Irmãos Humanos Que Depois de Mim Vivereis
irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
932
Herberto Helder
Os Capítulos Maiores da Minha Vida
os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
1 242
Herberto Helder
Daqui a Uns Tempos Acho Que Vou Arvoar
daqui a uns tempos acho que vou arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
621
Herberto Helder
Já Me Custa No Chão do Inferno
já me custa no chão do inferno,
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
556
Herberto Helder
Já Não Tenho Tempo Para Ganhar o Amor, a Glória
já não tenho tempo para ganhar o amor, a glória ou a Abissínia,
talvez me reste um tiro na cabeça,
e é tão cinematográfico e tão sem número o número dos efeitos especiais,
mas não quero complicar coisas tão simples da terra,
bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho,
e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude,
e eu de dentro o não pudesse desfazer:
um saco sem qualquer explicação,
que ficasse para ali num sítio ele mesmo sítio bem amarrado
— não um destino à Rimbaud,
apenas longe, sem barras de ouro, sem amputação de pernas,
esquecido de mim mesmo num saco atado cegamente,
num recanto pela idade fora,
e lá dentro os dias eram à noite bem no fundo,
um saco sem qualquer salvação nos armazéns confusos
talvez me reste um tiro na cabeça,
e é tão cinematográfico e tão sem número o número dos efeitos especiais,
mas não quero complicar coisas tão simples da terra,
bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho,
e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude,
e eu de dentro o não pudesse desfazer:
um saco sem qualquer explicação,
que ficasse para ali num sítio ele mesmo sítio bem amarrado
— não um destino à Rimbaud,
apenas longe, sem barras de ouro, sem amputação de pernas,
esquecido de mim mesmo num saco atado cegamente,
num recanto pela idade fora,
e lá dentro os dias eram à noite bem no fundo,
um saco sem qualquer salvação nos armazéns confusos
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